Personalizar legibilidade
Aa

Cicatriz Do Céu

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Yousuke Amakawa aprendeu a esconder o medo atrás de um sorriso. Ryuusei Kurosawa aprendeu a não demonstrar nada. Ao iniciarem seu treinamento para dominar o Chi, os dois encontram numa amizade inesperada a liberdade de serem quem realmente são. Mas suas habilidades começam a apresentar sinais que ninguém consegue explicar. Enquanto famílias e autoridades tentam decidir seu futuro, os jovens se aproximam de uma história antiga que transformou pessoas como eles em motivos de medo. Entre batalhas, afeto e escolhas que deixam marcas, proteger um ao outro parece uma promessa simples — até que cada um começa a entender de uma forma diferente o que significa fazer o bem.

Gênero
Fantasy
Autor
Skyler
Status
há 15 horas
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Chapter 1 O Lugar ao Lado

CAPÍTULO 1 — O LUGAR AO LADO

Ryuusei conferiu o nó da faixa pela terceira vez. Estava firme desde a primeira.

À sua frente, os portões da Casa de Formação permaneciam abertos. Alunos atravessavam a entrada com bolsas novas, sandálias rangendo e adultos que insistiam em arrumar alguma coisa neles. Uma gola. Uma mecha de cabelo. A posição de uma alça.

Ele esperou junto ao muro, onde a sombra ainda alcançava seus pés.

No bolso interno do casaco, a autorização dobrada raspava contra seu peito. A assinatura de Masato atravessava quase toda a parte inferior da folha. O espaço reservado às condições de ingresso também estava preenchido.

Ryuusei não abriu o papel de novo.

— Você prometeu que ia voltar antes de escurecer!

A menina segurava a manga de um garoto loiro com as duas mãos. Os cabelos amarelos dos dois brilhavam no sol da manhã; quando ele se abaixou para responder, Ryuusei percebeu que também tinham os mesmos olhos vermelhos.

— E vou, Suzu. Mas preciso entrar primeiro.

— Você falou isso quando foi buscar farinha.

— A ponte estava fechada.

— E a farinha?

O garoto abriu a boca. Fechou.

— Hoje eu volto antes de escurecer.

Ela não pareceu convencida.

Uma mulher esperava perto de uma banca, com uma cesta no braço. A menina olhou para ela, depois soltou a manga do irmão para remexer num embrulho. Tirou um bolinho de arroz um pouco torto e o colocou na mão dele.

— Esse ficou feio. É o seu.

— O bonito você comeu?

Suzu assentiu, muito séria.

Ele guardou o bolinho com cuidado e ajeitou a fita que prendia parte do cabelo dela. A menina tentou afastar sua mão, mas ficou parada até ele terminar.

Ryuusei baixou os olhos para a própria faixa.

Naquela manhã, a empregada da casa tinha avisado que o café estava servido. Masato não saíra do escritório. Seu pai sequer perguntara a que horas começava a formação.

Ryuusei havia considerado isso uma vantagem.

Agora, enquanto a menina reclamava que o irmão apertara demais a fita, ele já não tinha tanta certeza.

O sino da entrada tocou.

Ryuusei saiu da sombra e quase esbarrou no garoto loiro.

— Você também está procurando a sala? — perguntou o outro.

— Estou procurando passagem.

O garoto olhou para o espaço que ocupava e deu um passo para o lado.

— Então já encontrou.

Ryuusei passou. O loiro veio junto.

— Você sabe onde fica?

— Não.

— Ótimo. Pelo menos estamos perdidos na direção certa.

Havia placas no corredor. Ryuusei apontou uma delas.

— Estava brincando — disse o garoto.

— Eu sei.

Pela primeira vez, o outro demorou a responder.

Na porta da sala, uma funcionária recebia as autorizações. Carimbou a folha do loiro sem erguer a cabeça.

— Amakawa, Yousuke. Treze anos. Primeira turma. Pode entrar.

Quando recebeu a de Ryuusei, endireitou as costas.

Seus olhos passaram pelo sobrenome, pela assinatura e pelas linhas menores embaixo. Ela puxou uma segunda prancheta.

— Kurosawa... Seu responsável está aqui?

— Não.

— Entendo. Espere um instante.

Lá dentro, alguém repetiu o sobrenome em voz baixa.

Ryuusei conhecia aquele instante. Primeiro, a pessoa examinava seu rosto. Depois, decidia se devia ser gentil demais ou se afastar.

A funcionária fez uma anotação e devolveu a autorização.

— Guarde isso com você.

Ele entrou na sala. Um menino retirou a bolsa do banco ao lado, viu quem se aproximava e a colocou de volta.

Ryuusei continuou andando antes que precisassem inventar uma desculpa.

— Aqui.

Amakawa tinha arrastado suas coisas para debaixo da mesa. O banco junto à janela estava livre.

— Eu prefiro a ponta — acrescentou, como se precisasse justificar.

Ryuusei sentou.

— Você fala com todo mundo?

— Só com quem responde.

— Péssimo critério.

— Estou percebendo.

Uma mulher entrou carregando uma caixa de madeira. Vestia um casaco azul-escuro sem ornamentos, com as mangas presas nos antebraços. Uma cicatriz antiga atravessava dois dedos de sua mão esquerda.

Ela colocou a caixa na mesa. Não bateu na madeira nem pediu silêncio. Apenas esperou.

As conversas terminaram aos poucos.

— Sou a instrutora Sena. Hoje ninguém vai lançar fogo, abrir crateras ou impressionar o colega da frente.

Yousuke, que já estava inclinado para olhar dentro da caixa, voltou ao lugar.

— Hoje vocês vão aprender a parar.

Sena distribuiu pequenas peças de cerâmica. Cada uma tinha um círculo pintado no centro.

— Encostem o polegar no círculo. Conduzam uma quantidade pequena de Chi até ele. Se a peça aquecer, basta. Não precisa continuar.

Um aluno ergueu a mão.

— E se eu já conseguir quebrar?

— Vai ter que aprender a não quebrar.

Alguns riram. Sena abriu um caderno.

Ryuusei pousou a cerâmica sobre a mesa. Conhecia exercícios mais difíceis. Em casa, porém, acertar nunca encerrava nada. Sempre havia uma distância maior, outra repetição, mais tempo.

Ele encostou o polegar. O calor apareceu depressa.

Tirou a mão.

Ao lado, Amakawa observava sua própria peça com atenção exagerada. O círculo continuava frio.

— É para aquecer — cochichou ele — ou para a gente acreditar bastante?

Ryuusei percebeu o joelho do garoto tremendo debaixo da mesa.

— Solta os ombros.

— Estão soltos.

Ryuusei olhou para eles.

Yousuke os baixou.

O círculo ficou morno. Seu rosto se iluminou.

— Foi.

Então a cerâmica estalou.

Uma trinca abriu caminho até a borda. Yousuke retirou a mão e soltou uma risada rápida, antes que alguém comentasse.

— Acho que aqueci demais.

Sena parou diante da mesa.

— Você percebeu quando foi suficiente?

Ele assentiu.

— Por que continuou?

Yousuke olhou de relance para os outros alunos.

— Achei que dava para fazer melhor.

Sena recolheu a peça quebrada e lhe entregou outra.

— Faça menor.

Na segunda tentativa, ele escondeu o tremor da mão segurando o pulso com a outra.

Ryuusei fingiu não perceber.

Mais tarde, levaram as peças para o pátio. Sena reuniu os alunos diante de um percurso de tábuas suspensas pouco acima de uma camada de areia. Cabos presos a uma armação limitavam o movimento das pranchas. Ao lado, um auxiliar verificava as travas.

Sobre um suporte havia pequenas bandejas com uma tigela de água em cada uma.

— Em duplas. Cada pessoa segura uma ponta da bandeja. Atravessem até o outro lado. O Chi serve para estabilizar o corpo, não para prender a madeira nem endurecer os braços.

Ela tocou a borda de uma tigela.

— Derramar não elimina ninguém. Esconder que está perdendo o controle põe o colega em risco. Se acontecer, avisem.

As duplas se formaram depressa.

Yousuke pegou uma bandeja e se virou para Ryuusei.

— Você vai continuar me seguindo?

— Você pegou a minha bolsa por engano.

Yousuke olhou para o objeto pendurado no ombro. Era preto, tinha fechos diferentes e não se parecia em nada com o seu.

— Estava testando sua atenção.

Ryuusei tomou a bolsa de volta.

— Reprovado.

Yousuke riu. Dessa vez, a risada demorou mais.

No primeiro trecho, Ryuusei ia à frente, de costas. Encontrava o apoio com os pés antes de transferir o peso. Yousuke o acompanhava segurando a outra ponta da bandeja.

— Você já treinou assim? — perguntou.

— Parecido.

— Quantas vezes?

— Não contei.

O movimento da prancha seguinte exigia que os dois pisassem quase ao mesmo tempo. Ryuusei esperou. Yousuke avançou cedo demais. A água bateu numa borda da tigela.

— Devagar — disse Ryuusei.

— Eu sei.

Yousuke tentou firmar o corpo. O Chi concentrou-se nos braços, deixando os dedos rígidos ao redor da madeira. Quanto mais segurava, menos conseguia acompanhar o balanço.

Ryuusei reconheceu a respiração curta antes de olhar para seu rosto.

— Você está prendendo de novo.

— Estou bem.

Atrás deles, alguém pediu para a fila andar.

Yousuke virou a cabeça por um instante. O pé encontrou apenas a borda da tábua.

Ele tentou corrigir a posição com uma descarga de Chi.

A prancha saltou até o limite dos cabos. A bandeja bateu no peito de Ryuusei, a tigela tombou e Yousuke caiu de lado, com um braço preso entre a madeira que girava e seu próprio corpo.

Ryuusei soltou tudo.

Segurou o antebraço do garoto e lançou o peso para trás. O pé escorregou na água. Por um segundo, não havia chão onde ele esperava encontrá-lo.

Uma mão fechou-se na parte de trás de seu casaco.

Sena o sustentou enquanto o auxiliar travava a prancha. A tigela atingiu a areia com um som pequeno demais para o susto que os dois tinham levado.

Yousuke ficou sentado, olhando para o pulso.

Ainda conseguia mexer os dedos. Fez isso várias vezes.

— Amakawa. Olhe para mim.

Sena se agachou ao lado dele.

— Onde dói?

— Não foi nada.

— Eu perguntei onde dói.

Ele indicou o pulso.

O auxiliar o acompanhou até a enfermaria. Na passagem, Yousuke tentou sorrir para os colegas.

Ryuusei ficou no pátio com a manga molhada e uma ardência na palma da mão. Sena percebeu a pele raspada e lhe entregou um pano limpo.

— Você também vai ser examinado.

— Consigo continuar.

Ela o observou por um instante.

— Eu acredito. Agora vá.

Ele esperava uma repreensão pelo tempo perdido, pela tigela ou pela água na roupa. Não soube o que fazer com aquela resposta. Apertou o pano contra a mão e seguiu pelo corredor.

Na enfermaria, Yousuke estava sentado numa maca. Uma mulher terminava de enfaixar seu pulso.

— Sem apoiar peso até eu reavaliar amanhã — disse ela. — Se inchar ou a dor aumentar, você volta antes. Entendeu?

Ele assentiu.

Quando ela saiu para buscar o registro de Ryuusei, o quarto ficou silencioso.

— Você podia ter soltado — disse Yousuke.

Ryuusei mostrou a mão enfaixada pela metade.

— Soltei a bandeja.

— Eu estava falando de mim.

Ryuusei olhou para a tigela de instrumentos na mesa ao lado. Não tinha uma resposta pronta. Aconteceu rápido; só pensara nela depois.

— Seu braço ia ficar preso.

Yousuke acompanhou seu olhar.

— Desculpa.

— Você já falou isso para três pessoas.

— Ainda faltava você.

Lá fora, a turma recomeçara o exercício. Eles ouviam passos, o movimento dos cabos e alguém contando em voz alta para o parceiro.

Yousuke apoiou a mão boa sobre o joelho.

— Todo mundo estava olhando.

Ryuusei esperou.

— Eu achei que, se passasse rápido... — Ele esfregou o tecido da calça com o polegar. — Não queria ser o primeiro a pedir para parar.

Ryuusei entendia isso melhor do que gostaria.

— Da próxima vez, avisa antes de cair.

Yousuke ergueu os olhos.

— Da próxima vez?

— Ainda não terminamos o exercício.

O sorriso voltou devagar, sem a pressa de antes.

No intervalo, sentaram nos degraus da varanda. Yousuke abriu o embrulho amassado e encontrou o bolinho que a irmã lhe dera. Um dos lados tinha achatado durante a queda.

Ele o examinou como se estivesse avaliando um equipamento danificado.

— Sobreviveu melhor do que eu.

Partiu-o ao meio e estendeu uma parte a Ryuusei.

— Sua irmã fez para você.

— Ela vai perguntar se estava bom. Preciso de testemunha.

Ryuusei aceitou.

Tinha sal demais. Mastigou sem comentar.

— Está salgado — disse Yousuke.

— Está.

Os dois continuaram comendo.

Ao final da tarde, Sena devolveu os registros. Yousuke recebeu uma anotação para a enfermaria e a obrigação de repetir o percurso depois da liberação. Ryuusei recebeu a mesma tarefa. O auxiliar verificaria novamente o equipamento antes da próxima turma.

Ninguém os expulsou. Ninguém disse que não serviam.

Mesmo assim, Yousuke demorou a guardar sua folha.

Na saída, Suzu correu dois passos na direção do irmão e parou quando viu a faixa no pulso.

— Você caiu?

Ele abriu um sorriso por hábito.

A menina não sorriu de volta.

— Caí — respondeu.

— Doeu?

— Um pouco.

Ela se aproximou com cuidado, como se a faixa pudesse quebrar. Yousuke usou a mão boa para acertar a fita de seu cabelo, que já havia escorregado.

— Amanhã vão olhar de novo. Hoje eu só não posso carregar a cesta.

— Você nunca quer carregar a cesta.

— Hoje tenho autorização.

Suzu olhou para Ryuusei.

— Você também caiu?

Ele ergueu a mão com o pequeno curativo.

— Quase.

— Ele me segurou — disse Yousuke.

A menina pensou nisso, então fez uma reverência curta demais, atrapalhada pela cesta que a mulher acabara de lhe entregar.

— Obrigada por segurar ele.

Ryuusei inclinou a cabeça. As palavras que tinha aprendido para responder a adultos não pareciam servir ali.

Yousuke tomou a cesta com a mão boa antes que ela escorregasse dos braços da irmã.

— Você vem por onde, Kurosawa?

Ryuusei apontou a rua que descia para a ponte leste.

— A gente vai pelo mercado. Amanhã posso guardar seu lugar?

O portão estava cheio de alunos. Ryuusei poderia ter fingido que não ouvira.

— Eu posso chegar primeiro.

— Então guarda o meu.

Yousuke se afastou com Suzu, que continuava falando sobre o pulso, o exercício e o que deveriam contar em casa. O garoto ouviu até o fim antes de responder.

Ryuusei acompanhou os dois com os olhos.

— Fez amizade depressa.

Masato estava encostado no muro do outro lado da rua.

Usava o casaco escuro da família. Não levantou a voz nem fez sinal para que o irmão se aproximasse. Ryuusei atravessou mesmo assim.

O olhar de Masato desceu até o curativo.

— Primeiro dia.

— Foi no exercício.

— Eu recebi o relatório.

Ryuusei olhou para a janela da secretaria. Uma funcionária fechou a cortina contra a luz do fim da tarde.

Masato estendeu a mão.

— A autorização.

Ryuusei retirou o papel do casaco. Seu irmão desdobrou a folha e passou o polegar sobre a própria assinatura.

— Você deixou a tarefa para socorrer um Amakawa.

— Ele ia se machucar.

— E você se machucou no lugar.

Ryuusei manteve a mão ferida junto ao corpo.

— Era um exercício em dupla.

Masato ergueu os olhos. A conversa ao redor pareceu distante. Ryuusei sentiu o próprio Chi perder o ritmo por um instante e precisou controlar a vontade de recuar.

Então a pressão cessou. Uma família passava perto deles; Masato a cumprimentou com um movimento de cabeça.

Dobrou a autorização e a guardou no próprio bolso.

— Amanhã você entra comigo.

Ryuusei olhou para o mercado. Já não conseguia distinguir o cabelo amarelo no meio das pessoas.

— Eu sei o caminho.

Masato se aproximou o suficiente para que ninguém mais ouvisse.

— Eu sei que sabe.

Começou a andar. Ryuusei ficou parado até o irmão olhar para trás.

Depois o acompanhou, com o nó da faixa apertado contra o estômago e a promessa de um lugar junto à janela que, naquela manhã, não existia.

Deixe Skyler saber o que você pensou sobre este capítulo!
Amo isso

0

Amo isso

Engraçado

0

Engraçado

Picante

0

Picante

De Suspense

0

De Suspense

Emocional

0

Emocional

Profundo

0

Profundo

Tocante

0

Tocante

Chocante

0

Chocante

Boa Escrita

0

Boa Escrita

Enredo Envolvente

0

Enredo Envolvente

Personagem Ótimo

0

Personagem Ótimo

Diálogo Forte

0

Diálogo Forte

Outras Recomendações

OBSESSIVO - Parte 1

Sidcleia: Gostei muito, só não gostei do pai competindo com o filho. Mas pode acontecer eu não sei. Ta legal

Leia Agora
O Teorema Hayes

Mariana Kaled: Eu amei tudinho! Gostei do enredo, dos personagens , do amor fluindo... muito bom! Leve e acolhedor!

Leia Agora
O Don:A aliança

Tilia jose: Gostei de tudo, do diálogo e da narrativa no geral. Uma história muito boa e merece o reconhecimento do público, o autor foi muito inteligente porque a história é viciante e não é apelativa

Leia Agora
O Despertar de Athena.

Recicle e: Amei a forma com o auto nós faz envolver na trama e querer mais.Estou amando.

Leia Agora