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Piada Interna

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Resumo

Marcello garcia é um comediante latino de Nova York que sempre se achou o cara mais hétero do mundo — até conhecer Scarlett, uma mulher trans que vira sua vida, sua cabeça e sua sexualidade de ponta-cabeça em meio a confusões, fama e muita vergonha ao vivo.

Gênero
Lgbtq
Autor
LexSilvas
Status
Completo
Capítulos
8
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Cena 1: O Cara Mais Hétero Daqui

Piada Interna

Lex Silvas

29/07/26


Querido Deus, sou eu, Marcello Garcia — o Celinho, lembra? Aquele que deveria aparecer mais na igreja, mas que só aparece quando a barra pesa. Pois é. Minha vó, que é mais santa que todos os santos juntos, sempre fala bem de mim pra você que eu sei. Espero que o Senhor acredite nela, porque se depender só de mim, a ficha não é tão limpa assim.

Pra refrescar sua memória: eu sou esse cabrón ajoelhado entre os bancos, rezando com a fé que ainda me resta, pedindo que o Senhor me livre desse feitiço. Sim, feitiço. Porque só pode ser coisa do demônio essa moça… ou rapaz… ou moça que também é rapaz. O Senhor sabe de quem eu estou falando. Dizem que ela tem o poder de fazer homens héteros, fortes e convictos como eu, começarem a pensar besteira.

E eu, que nunca nem cogitei fazer nada com uma mulher que não tivesse o buraco no lugar esperado — acho que deu pra entender — agora me pego imaginando carícias íntimas com aquele ser de batom e voz suave, que insiste em ser mais mulher do que qualquer mulher que eu já conheci. Eu não sei nem como isso pode ser possível. O jeito dela, a risada… O Senhor já ouviu ela rir? Que merda é aquilo? Parece música de anjo misturada com piada de cabaré.

Por isso, meu Deus, eu peço encarecidamente: mantenha o seu filho hétero, firme e forte até que essa semana acabe e essa moça vá embora pra bem longe. Porque se não, Senhor, eu não sei se vou sair desse ensaio santo ou pecador.

E eu quero manter tudo como está, sem precisar envolver uma reunião com a minha mamá pra explicar que agora o filho querido dela anda gostando de homem com pelos demais, a ponto de nem saber se debaixo daquilo existe um corpo de verdade ou uma ilusão. Por isso, Senhor, mantenha minha dignidade intacta. É só o que eu peço.

Amém.

Faço o sinal da cruz e me levanto, acreditando que estou fortalecido pra enfrentar o meu maior inimigo até hoje: algo que ameaça minha sexualidade e que vai perder, porque aqui tem macho de verdade. Ou eu não me chamo Marcello Henrique Garcia, filho de pais imigrantes, comediante de stand-up e membro fixo do elenco de Midnight Comedy Tonight. Eu amo meu emprego e não estou afim de voltar a fazer show em bar decadente por uns trocados.

Não vou perder essa oportunidade por causa de um desejo bobo que uma boa transa deveria resolver, mas que, por algum motivo, não tem surtido o efeito desejado. Uma pergunta idiota que me surgiu agora: se eu não subir com um cara, quer dizer que eu sou hétero mesmo? Ou um homem de verdade não nega fogo nem num momento como esse? Uma dúvida razoável que eu nem teria coragem de perguntar pro Google — vai que alguém hackeia minha conta e expõe isso. Melhor continuar com a pornografia hétero e os vídeos de gatinhos. Ninguém questiona vídeos de gatinhos no computador de um homem, já que “pussy” também é o equivalente em inglês às partes femininas íntimas.

Bom, é melhor eu parar de pensar em sexo porque estou em público, caminhando pelas ruas de Nova York, e não quero ter que lidar com uma ereção antes de chegar no prédio em que eu trabalho. Além do mais, ereções devem atrair mulheres trans, então vamos pensar em algo diferente. Estou em crise por uma imaginação — e se surgirem mais ao meu redor?

Que tal falarmos sobre eu, Marcello, criado na América pelos meus pais pra me tornar o homem que hoje eu sou? Não um questionador da minha própria sexualidade, mas sim um homem que ama mulher de todas as formas — não, eu quis dizer de só uma forma — temente a Deus e que sabe que o diabo está sempre à espreita. Por isso estou sempre alerta. Minha heterossexualidade agradece.

Eu sou latino de verdade, não o tipo decorativo que só aparece no cardápio do Chipotle. Cabelo escuro e crespo que nunca decidiu ter uma forma fixa, rosto redondo e expressivo que minha mãe chama de “carinha de anjo” e que eu uso estrategicamente. Olhos escuros, sorriso que aparece fácil demais e que meu empresário diz ser o motivo pelo qual as pessoas riem antes mesmo de eu abrir a boca. Vinte e oito anos, porte médio, barriga que não é barriga — é personalidade acumulada. O tipo de homem que todo mundo reconhece no bar antes mesmo de subir no palco.

Chego no prédio depois de uma caminhada de uns quinze minutos. Na porta já tem alguns fãs, e eu dou atenção: autógrafos, fotos, sabe, o básico de ser uma celebridade. Depois disso passo pela segurança e pego o elevador até o andar do estúdio da NVA — National Variety America, a emissora em que eu trabalho.

Entro no escritório, cumprimento todo mundo e vou direto pra sala do roteirista principal. Dou duas batidinhas na porta e já emendo entrando:

— Fala, bobão, eu cheguei — digo, entrando na sala do Bill.

O Bill é um sujeito grandão, meio desajeitado, cabelo escuro, olhos azuis, e do tipo que adora se gabar de ter comprado alguma novidade idiota do mercado de tecnologia. Eu adoro ele. Meu único amigo ali, de certa forma. Ele jamais me colocaria numa situação constrangedora.

Me sento na cadeira à frente dele, me jogando de qualquer jeito.

— Ei, Cello, que bom que você chegou — diz ele. — Temos que fazer teste de figurino hoje pro programa de domingo.

— Que tipo de roupas? — pergunto. — Vai fazer aquele esquete do sapo que eu falei? Isso é “grogrogrotesco”.

Ele não ri, só mexe no computador, escrevendo algo que deve ter a ver com o programa.

— A esquete do sapo foi cortada porque o tempo ia exceder em onze minutos com ela — diz ele sem desviar o olhar da tela.

— Que pena.

— É um novo quadro que queremos introduzir — continua ele. — Sabe o que dizem da Scarlett King?

— Que ela tem um pinto? É, eu ouvi falar.

— Que ela seduz homens héteros e faz com que eles acabem virando gays também — diz ele. — A Kylie Kenner falou disso por horas no programa dela.

— Nunca ouvi falar disso — minto.

— Enfim, escrevi um quadro ontem em que podemos brincar com isso.

— Bom, tenho certeza de que ela deve ser mesmo encantadora, mas um cara hétero jamais se atrairia por ela — digo, rindo sem humor. — Isso seria loucura, né?!

— Bom, você sabe que eu sou casado e até eu a achei atraente — diz ele, tão sério quanto alguém que assumisse isso deveria estar. — Tem que admitir que ela parece uma mulher de verdade com aqueles lábios grossos.

— Não seja tolo — digo. — Ela não passa tão bem assim por mulher. Uma mulher é uma mulher e não a Scarlett King — dou um riso nervoso que eu dou pra me convencer disso.

— Ela namorou com Conrad Blake, aquele astro famoso por só pegar as mais gostosas de Hollywood.

— Eu posso ter lido algo sobre isso no TMZ — digo. — Mas o Conrad jamais confirmou.

— O quadro vai consistir em você como um príncipe encantado, querendo subir nas tranças da Rapunzel pra beijar ela sob o luar e quebrar o feitiço que faz com que homens héteros queiram ficar com ela.

Eu rio alto, um tanto receoso.

— Não está falando sério? — pergunto, engolindo o riso ao perceber que ele realmente estava falando sério.

— Está tudo bem, vai ser só um selinho ao vivo. Vai ser hilário. Você faz aquele bico de quem não quer fazer isso, sabe, igual no quadro do bebê, e as pessoas vão morrer de rir.

— Cara, eu acabei de chegar no prédio, nem tomei um café decente ainda pra me despertar direito, e você já está me dizendo pra beijar um homem biológico na frente de milhões de pessoas.

— Vai ser hilário.

— Minha mãe vai ver isso — digo. — Meus manos do México e as garotas que eu quero pegar algum dia também.

— A comunidade LGBT vai pirar e talvez você até ganhe um Emmy por isso — diz ele, animado. — Sabe como essas premiações adoram dar prêmio pra atores héteros que se arriscam em papéis LGBT e depois são chamados de corajosos por conta disso, enquanto gays de verdade morrem nas ruas todos os dias.

— Bem específico isso — digo. — Você está bem?

— Precisamos de um prêmio por atuação, já não levamos um há uns 8 anos.

— Um Emmy não vale a fúria da minha mãe — digo.

— Sabe como é, a emissora está nos pressionando pra aumentarmos a audiência.

— Um beijo gay não vai aumentar a audiência — digo, rindo. — E a nossa audiência mais antiga, aqueles conservadores que protestaram porque vocês colocaram um latino no programa ao lado de um cara negro?

— Eles agora fazem campanha contra a Rebecca Kardall ter ficado grávida durante o programa da tarde dela ao vivo — diz ele. — Sabe como esses conservadores se cansam rápido das coisas.

— Eu gravei esse programa — digo. — Um pornô bem meia-boca, eu diria.

— Eu sei, os cavalos foram um pouco demais — diz ele.

— Olha, eu… eu não tenho o que é preciso pra me tornar um ícone LGBT — digo. — Eu não saberia como lidar com shows da Lady Gaga no meio da noite em Nova York. E também tem a parte de gostar de homens.

— Está se negando a fazer isso. Por quê? — pergunta ele, parando de escrever no computador e se virando pra mim. — A Scarlett pareceu animada com o quadro e topou fazer assim como a emissora.

— Falou com ela primeiro?

— Ela me ligou pouco antes de você chegar — explica ele. — Não tem motivos pra você não fazer essa esquete.

— Não é isso — digo. — Eu… eu… eu só estou pensando em tudo. Sabe como eu sou prático. Não quero ter que lidar com grupos religiosos incendiando minha casa em nome do Deus deles. Meus gatos moram lá.

— Você não tem gato.

— Eu estava pensando em adotar um — digo.

— Compreendo a sua preocupação — diz ele. — Mas hoje em dia ninguém mais liga pra isso. E a audiência vai pro espaço se fizermos direito — ele suspira. — E você sabe que eu te escalei pra esse quadro porque todo mundo sabe que você é o mais engraçado aqui. E quem melhor do que o cara mais hétero que eu conheço pra fazer isso?

— Tem razão — digo, sorrindo. — Eu sou o cara mais hétero que existe aqui. Eu pego mulher quase todo domingo depois do programa. Todo mundo sabe disso.

— É assim que se fala — diz ele. — A Scarlett vai vir aqui amanhã pra gente acertar os detalhes. Hoje eu vou refinar algumas piadas e mais tarde te passo o texto.

Eu me levanto da cadeira e pego na mão do Bill.

— Bom, eu vou te deixar trabalhar — digo. — Espero o texto mais tarde pra começar a ler. Estou tão… empolgado.

Saio da sala do Bill depois de me despedir dele e vou direto pro banheiro. Assim que entro, verifico se não tem mais ninguém lá antes de me colocar diante do espelho e fechar os olhos em total desespero.

— Deus, meu querido Deus. Você está aí? — murmuro. — Você pode pelo menos pegar os seus recados ou contratar uma secretária melhor? Eu… eu vou ter que beijar ela agora? Isso é sério?

E agora ferrou. Como eu vou manter minha heterossexualidade intacta desse jeito? Eu preciso pensar em algo pra sair dessa.

Olho pra janela do banheiro e imagino pulando dali, mas como ela é pequena, o máximo que eu faria seria ficar preso nela — o que eu também imagino, e a cena é tão ridícula que quase me dá vontade de rir.

— Eu estou ferrado.

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