Chapter 1 Onde o Mato Dá Coelhos
O parque exalava a vida típica de uma tarde ensolarada de sábado. O som das folhas movidas pela brisa misturava-se ao burburinho distante das famílias e ao canto dos pássaros. Sentada em um banco de madeira sob a copa frondosa de uma grande árvore, Beatriz olhava o movimento, ajeitando o casaco casual. Ela sorriu ao avistar a silhueta de Gabriel se aproximando. Ergueu a mão, acenando.
— Oi! Que bom que você conseguiu vir — disse ela, quando ele encurtou a distância. — O dia está lindo hoje, né? Tudo bem com você?
Gabriel retribuiu o aceno, sustentando um sorriso caloroso e tranquilo que desarmou qualquer tensão inicial.
— Olá! O dia está maravilhoso sim — respondeu ele, acomodando-se ao lado dela no banco. — Na verdade, meu dia já vinha sendo ótimo, e acho que não existe nada melhor do que terminá-lo assim, vindo a um lugar como este para relaxar em boa companhia. É um prazer enorme te conhecer! Meu nome é Gabriel.
Beatriz inclinou o corpo levemente, cedendo espaço no banco e deixando transparecer o entusiasmo nos olhos.
— O prazer é todo meu, Gabriel! Muito bonito o seu nome. Que ótimo saber que o seu dia já foi maravilhoso... Agora a minha responsabilidade de manter o nível aumentou! — Ela soltou uma risada descontraída. — Eu também adoro a energia desse parque. Ajuda muito a desligar da correria da semana. Você costuma vir sempre por aqui ou foi uma exceção para o nosso encontro?
Gabriel olhou ao redor, mapeando as árvores e o caminho de pedras, achando graça da pergunta.
— Na verdade, eu gosto muito de parques, mas este aqui eu particularmente não conhecia. É a minha primeira vez por aqui. Mas me diz uma coisa: além de buscar o verde da natureza, o que você costuma fazer no seu tempo livre para relaxar?
Beatriz apoiou o braço no encosto do banco, virando-se inteiramente para ele, capturada pelo rumo da conversa.
— Bom, além de buscar um ar puro assim para respirar, eu sou muito fã de música. No meu tempo livre, adoro colocar os fones de ouvido e caminhar por aí, ou caçar playlists novas. Também sou do time que ama cozinhar ouvindo uma boa melodia e tomando um vinho para relaxar. E, claro, se o cansaço bater pesado, uma boa série no sofá resolve tudo. — Ela o encarou com curiosidade. — Mas e você? Já que este parque é novo para você, quais são os seus refúgios ou hobbies favoritos quando quer sumir do mapa e recarregar as energias?
Gabriel fixou o olhar no dela. Havia um brilho divertido em suas pupilas quando respondeu.
— Meus hobbies? Tenho muitos. Assim como você, sou fã de música; estou sempre ouvindo algo quando estou em casa descansando. Também gosto de filmes de vários gêneros, desde comédia, ação e animação até dramas bíblicos. No lado mais conceitual, adoro estudar a alma humana e a sexualidade. E, para descontrair, amo lanchonetes, cachoeiras e observatórios.
Ele soltou uma risada espontânea ao lembrar do comentário dela sobre o fogão.
— E que bom que encontrei alguém que gosta de culinária, porque, vou te confessar, a cozinha definitivamente não é o meu forte!
Beatriz arregalou os olhos de leve, genuinamente surpresa com a honestidade e a mistura peculiar de interesses.
— Olha só, temos muita coisa em comum, mas já vi que a cozinha vai ficar por minha conta! Não se preocupa, desde que você ajude a lavar a louça ou pelo menos acerte na escolha do vinho, a gente faz um bom trato. — Ela sorriu, achando graça. — Mas preciso confessar que achei a sua lista de interesses fascinante. É uma combinação bem única! Fiquei muito curiosa com a parte de estudar a alma humana... Você lê sobre psicologia, filosofia ou algo do tipo? E a ideia de ir a um observatório parece incrível. Você já visitou algum muito marcante ou é mais um plano que quer realizar logo?
Gabriel olhou para o céu por um instante, pensativo, antes de voltar a focar o rosto de Beatriz com um sorriso sereno.
— Bem, a respeito dos meus estudos sobre a alma humana, posso dizer que gosto de analisar as coisas através do ponto de vista de textos sagrados, como a Cabala na perspectiva messiânica, a Bíblia, aliando isso à ciência e à filosofia. E quanto a um observatório? Faz muito tempo que não vou a um, mas da última vez eu amei. Sou fascinado em contemplar o céu estrelado como uma obra de Deus e observar as constelações. Certamente, em breve, devo visitar um local assim novamente. Você já foi a um lugar assim ou tem curiosidade de ir algum dia?
Beatriz o escutou em silêncio absoluto, absorvendo a profundidade das palavras.
— Uau, Gabriel. Eu confesso que esperava uma resposta comum sobre psicologia, mas Cabala messiânica, textos sagrados e ciência? Isso é realmente profundo. Dá para ver que você é um homem que busca enxergar o mundo além da superfície. Acho isso muito bonito e raro hoje em dia. E sobre o observatório, eu nunca fui a um! Mas você falando dessa forma, sobre contemplar as constelações e a obra do Criador, me deu muita vontade de conhecer. Deve ser uma sensação de paz indescritível ver a imensidão do céu de forma tão nítida. Acho que já temos o roteiro perfeito se um dia tivermos um segundo encontro: eu cozinho e você me leva para ver as estrelas e me explica um pouco mais sobre esses seus estudos. O que acha?
Gabriel levantou-se do banco devagar, esticando os braços com um sorriso brincalhão nos lábios.
— Que tal a gente caminhar um pouco agora para esticar as pernas? Topa? No caminho, eu te falo mais sobre esses estudos, já que isso te interessou.
— Com certeza, eu super topo! Uma caminhada vai ser ótima — disse Beatriz, levantando-se e ajeitando a roupa.
Eles começaram a andar lado a lado pelo caminho de pedras, mantendo um ritmo relaxado. Gabriel apontou para a copa das árvores ao redor.
— Veja só como elas são belas. Acho que todos nós somos um pouco como as árvores; precisamos de respeito ao nosso próprio tempo e de cuidados para crescer e frutificar no momento certo. Tudo o que existe depende de ciclos e de uma manutenção estabelecidos pelo próprio Criador para continuar existindo e evoluindo. Sabe, eu não sou nenhum guru da espiritualidade, longe disso. Mas tenho minhas crenças porque busco uma explicação menos racional para a origem de tudo, um propósito existencial. Mas e você? Qual é a sua visão de mundo?
Beatriz parou por um segundo, contemplando a árvore que ele havia indicado, tocada pela metáfora.
— Que imagem linda, Gabriel. E você tem toda razão, a gente vive correndo e esquece que também precisa de tempo para florescer. Respondendo à sua pergunta... Eu acredito muito em energia e no retorno das nossas ações. Minha visão de mundo é que estamos todos conectados de alguma forma. Acredito em Deus, mas sinto a presença Dele de um jeito mais simples, sabe? Na bondade das pessoas, na natureza, na paz que sinto em momentos assim. Para mim, o sentido da vida é aprender a ser alguém melhor e deixar algo bom por onde passamos.
Ela olhou para a frente e avistou um pequeno ponto colorido na trilha.
— Olha só, um carrinho de picolé ali na frente! O que você acha de fazermos uma pausa para um doce, ou prefere continuar andando mais um pouco?
Gabriel bateu palminhas de forma animada, fazendo Beatriz rir da sua espontaneidade.
— Sabe, eu sou do tipo que não recusa uma boca livre, amo sorvete! Vamos lá. Eu vou querer um de morango. E você, o que prefere? Pode deixar que o picolé é por minha conta.
— Ah, não dá para recusar uma oferta dessas com tanta animação! Combinado então, você escolhe o sorvete e eu fico te devendo a próxima rodada de alguma coisa — brincou ela.
Após pegarem os picolés — morango para ele, frutas vermelhas para ela —, caminharam até uma clareira onde o gramado se estendia sob a luz dourada do fim da tarde. Um grupo de jovens tocava violão de forma acústica e suave a poucos metros dali. Eles se sentaram na grama, apreciando o sabor do doce e a melodia ambiente.
— Sabe? — começou Gabriel, quebrando o silêncio com um tom travesso. — Para um primeiro encontro, a vibe aqui está bem melhor que o esperado. Mas por curiosidade: qual foi a primeira impressão que você teve ao me ver? Você achava que desse mato iria sair coelho?
Beatriz soltou uma gargalhada limpa, quase deixando o picolé cair. Ela o olhou de cima a baixo, os olhos brilhando com o desafio da pergunta.
— Bom... — ela começou, fazendo um suspense provocativo antes de responder.



