A menina que ninguém acreditava
A menina que ninguém acreditava
Helen Montenegro tinha oito anos quando descobriu que algumas pessoas podiam desaparecer mesmo estando vivas.
Naquela noite, ela estava sentada no chão do corredor, abraçada aos próprios joelhos, enquanto observava o quarto da mãe ser esvaziado.
Não havia médicos.
Não havia enfermeiros.
Não havia flores.
Apenas empregados entrando e saindo em silêncio, carregando caixas.
As roupas da mãe desapareceram primeiro.
Depois os livros.
Depois os perfumes.
Por último, o pequeno porta-retratos que ficava sobre a cômoda.
Helen se levantou.
— Por que estão levando as coisas dela?
Ninguém respondeu.
Ela caminhou até o pai.
Romeu Montenegro estava parado diante da janela, olhando para o jardim.
Parecia muito mais velho naquela noite.
— Papai...
Ele fechou os olhos por alguns segundos antes de se virar.
— Volte para o seu quarto, Helen.
— Mas estão levando as coisas da mamãe.
— Eu sei.
— Para onde?
Romeu não respondeu.
Helen olhou para o rosto dele.
— Ela vai voltar?
O silêncio foi suficiente.
A menina entendeu.
Sua mãe não voltaria.
Três meses depois, Eleonora entrou naquela casa.
Ela não chegou como uma intrusa.
Chegou como alguém que já pertencia ao lugar.
Vestido claro.
Cabelos perfeitamente arrumados.
Um sorriso delicado.
E uma mão apoiada no braço de Romeu.
— Helen — disse o pai —, quero que conheça Eleonora.
A menina olhou para a mulher.
Depois para o pai.
— Ela vai morar aqui?
Eleonora sorriu.
— Se você permitir.
Helen não respondeu.
Naquela noite, ela ouviu o pai dizer que Eleonora seria boa para ela.
Que ela precisava de uma mulher em casa.
Que precisava aprender a superar a morte da mãe.
Helen não concordava.
Mas tinha apenas oito anos.
E crianças aprendem cedo que algumas opiniões não importam.
No começo, Eleonora foi gentil.
Foi isso que tornou tudo pior.
Ela penteava os cabelos de Helen.
Escolhia suas roupas.
Acompanhava seus estudos.
Preparava o café da manhã.
Na frente de Romeu, nunca levantava a voz.
Nunca.
Mas quando ficavam sozinhas...
A voz mudava.
— Você precisa aprender a se comportar.
Helen abaixava os olhos.
— Eu não fiz nada.
— Eu sei.
Eleonora sorria.
— Esse é exatamente o problema.
Com o passar dos anos, pequenas coisas começaram a desaparecer.
Primeiro, os empregados deixaram de obedecer imediatamente aos pedidos de Helen.
Depois, ela foi proibida de entrar em determinados cômodos.
As fotografias da mãe desapareceram das áreas comuns.
Até que um dia Helen entrou na sala e viu um retrato enorme de Eleonora pendurado exatamente onde antes ficava o retrato de sua mãe.
Ela ficou olhando durante vários segundos.
— Quem colocou isso aqui?
Eleonora estava sentada no sofá.
— Eu.
— Tire.
Eleonora levantou os olhos.
— Como disse?
Helen apontou para o quadro.
— Esse lugar era da minha mãe.
Eleonora levantou-se lentamente.
Aproximou-se dela.
E se abaixou até ficar na altura dos seus olhos.
— Sua mãe morreu, Helen.
A menina ficou imóvel.
— E você precisa entender uma coisa.
Eleonora tocou delicadamente seu rosto.
— Mortos não voltam para reivindicar o que deixaram para trás.
Helen afastou a mão dela.
Eleonora sorriu.
E naquele instante, pela primeira vez, Helen percebeu que aquela mulher não queria ser sua mãe.
Ela queria apagar a mulher que tinha sido.






