Sete e Quarenta e Três
Aurora PoV
Existe uma diferença considerável entre acordar atrasada e acordar sabendo que você está atrasada, mas continuar deitada por mais cinco minutos porque seu cérebro decidiu que as consequências são um problema para a Aurora do futuro.
Naquela segunda-feira, eu era a Aurora do futuro.
E estava ferrada.
- AURORA!
A voz da minha mãe atravessou a porta do quarto com a delicadeza de uma britadeira.
Abri um olho.
O despertador marcava 7h12.
Fiquei olhando para os números por três segundos, tentando entender por que eles pareciam tão ofensivos.
Então me sentei de uma vez.
- MERDA!
- Eu ouvi!
- DESCULPA!
Joguei o cobertor para o lado, tropecei no carregador do celular e quase derrubei a luminária enquanto procurava meus chinelos.
Meu primeiro dia do último ano.
O último primeiro dia de aula da minha vida escolar.
E eu tinha exatamente dezoito minutos para fazer o que normalmente levava quarenta.
Excelente começo.
Corri para o banheiro, escovei os dentes enquanto tentava prender o cabelo e descobri, com uma indignação que provavelmente deveria reservar para problemas maiores, que meu rosto havia decidido produzir uma espinha bem no meio do queixo.
Uma espinha.
No primeiro dia.
- Obrigada, universo - murmurei para o espelho. - Muito gentil da sua parte.
O universo não respondeu.
Provavelmente estava ocupado planejando o restante da minha humilhação.
Dez minutos depois, eu estava diante do guarda-roupa, segurando duas saias praticamente idênticas.
O uniforme do Saint Aurora Academy consistia em camisa branca, saia xadrez azul-marinho, blazer com o brasão da escola e sapatos pretos.
Em teoria, simples.
Na prática, encontrar uma saia que não subisse quando eu sentava era uma experiência semelhante à busca pelo Santo Graal.
Experimentei a primeira.
Apertei o botão.
Respirei.
O botão pareceu considerar seriamente pedir demissão.
- Nem pensar.
Peguei a segunda, que tinha comprado nas férias depois de passar quase quarenta minutos no provador de uma loja.
Ela serviu.
Mais ou menos.
Pelo menos eu conseguia respirar sem colocar a integridade física de ninguém em risco.
Soltei meus cabelos castanhos, que caíram em ondas desorganizadas até o meio das costas, passei um pouco de corretivo na espinha e decidi que o restante do meu rosto teria de sobreviver sem assistência profissional.
Quando desci as escadas, minha mãe estava na cozinha, colocando torradas em um prato.
- Bom dia, Bela Adormecida.
- Não começa.
- Eu te chamei três vezes.
- Eu sei.
- Seu despertador tocou?
- Tocou.
- E você desligou?
Peguei uma torrada.
- Tecnicamente, apertei a opção de adiar.
- Quatro vezes?
Parei de mastigar.
- Como você sabe?
- Porque sou sua mãe.
Essa era uma resposta que ela utilizava com frequência irritante.
Minha mãe, Helena Martins, tinha quarenta e dois anos, trabalhava como enfermeira no hospital municipal e possuía duas habilidades extraordinárias: descobrir quando eu estava mentindo e encontrar objetos que eu havia procurado por horas.
Naquela manhã, usava um coque desfeito e ainda estava com o uniforme do plantão noturno.
Havia olheiras sob seus olhos, mas ela sorria.
- Você está bonita.
Olhei para minha saia.
- Estou parecendo uma embalagem de presente apertada demais.
- Aurora.
- O quê?
- Você está bonita.
Minha mãe tinha um jeito muito particular de repetir determinadas frases. Como se a segunda vez encerrasse qualquer possibilidade de discussão.
Suspirei.
- Obrigada.
Ela se aproximou e ajeitou a gola da minha camisa.
- Nervosa?
- Não.
Minha mãe ergueu uma sobrancelha.
- Um pouco - admiti.
- É só mais um ano.
- É o último ano.
- Exatamente.
- O ano em que preciso manter minhas notas, conseguir uma boa recomendação, terminar meu projeto de literatura, escolher uma universidade e decidir o que vou fazer pelo resto da minha existência.
Ela piscou.
- Então, só mais um ano.
Revirei os olhos.
Minha mãe riu.
Eu queria ter herdado aquela capacidade de encarar o caos com bom humor.
Em vez disso, herdei seus quadris largos e sua tendência a imaginar quinze desastres diferentes antes do café da manhã.
- Tem dinheiro para o almoço? - perguntou.
- Tenho.
- O cartão do transporte?
- Também.
- O celular?
Levantei o aparelho.
- Mãe, eu tenho dezessete anos.
- E ontem você deixou o celular dentro da geladeira.
- Eu estava distraída.
- Você estava procurando o celular enquanto segurava um pote de iogurte.
- Podemos não falar sobre isso?
Ela beijou minha testa.
- Tenha um bom dia, meu amor.
Abracei-a rapidamente.
- Dorme um pouco, tá?
- Vou dormir.
- De verdade.
- Aurora.
- Tá bom, tá bom.
Peguei minha mochila, enfiei a segunda torrada na boca e saí de casa.
O ar da manhã estava fresco, e o céu de Bellmont apresentava aquele azul claro que fazia a cidade parecer mais bonita do que realmente era.
Bellmont era uma cidade relativamente pequena, embora seus moradores ricos insistissem em tratá-la como uma metrópole sofisticada.
Havia cafés caros, ruas arborizadas, bairros com casas enormes e uma praça central onde adolescentes se reuniam aos fins de semana para fingir que não estavam interessados uns nos outros.
E havia o Saint Aurora Academy.
O colégio mais prestigiado da região.
Também conhecido como o lugar onde uma bolsa de estudos podia transformar sua vida acadêmica e destruir completamente sua autoestima, dependendo do dia.
Eu estudava lá desde os quinze anos.
Tinha conquistado uma bolsa integral depois de um processo seletivo que envolveu provas, entrevistas e uma quantidade absurda de documentos.
Minha mãe chorou quando recebemos o resultado.
Eu também.
Depois chorei novamente quando descobri quanto custava o uniforme.
Mas, apesar das diferenças entre mim e boa parte dos alunos, eu gostava do Saint Aurora.
Gostava da biblioteca, dos professores de literatura e do jardim que ficava atrás do prédio principal.
Gostava especialmente de Isabela Monteiro, minha melhor amiga e a única pessoa que conhecia capaz de transformar uma ida à papelaria em um acontecimento social.
Falando nela...
Meu celular vibrou.
ISA 💗 - 07:28
Onde você está?
Respondi enquanto caminhava.
Eu: Indo.
ISA 💗: Indo de onde?
Eu: De casa.
Os três pontinhos apareceram imediatamente.
ISA 💗: AURORA.
Eu: Não grita comigo por mensagem.
ISA 💗: A aula começa em doze minutos.
Eu: Obrigada, relógio humano.
ISA 💗: Você perdeu o ônibus?
Olhei para a rua.
O ônibus que normalmente me levava até a escola havia passado fazia aproximadamente quinze minutos.
Eu: Talvez.
ISA 💗: Como assim TALVEZ?
Eu: Depende do seu conceito de perder.
ISA 💗: PEGA UM CARRO POR APLICATIVO.
Parei na calçada.
Consultei o aplicativo.
O valor da corrida fez meu coração sofrer uma pequena parada cardíaca.
Eu: Você tem noção de quanto custa?
ISA 💗: Eu pago metade.
Eu: Não precisa.
ISA 💗: Aurora, pelo amor de Deus, aceita ajuda uma vez na vida.
Suspirei.
Ela tinha razão.
O que era particularmente irritante.
Solicitei a corrida.
O motorista chegaria em quatro minutos.
Eu: Tá. Pedi.
ISA 💗: Milagre.
Eu: Você me ama.
ISA 💗: Infelizmente.
Sorri para a tela.
Talvez o dia não estivesse completamente perdido.
---
Às 7h39, o carro parou diante dos portões do Saint Aurora Academy.
O prédio principal era uma construção imponente de tijolos claros, com janelas altas, colunas de pedra e um relógio enorme sobre a entrada.
A arquitetura parecia ter sido projetada por alguém que desejava misturar uma universidade inglesa, uma escola americana e um castelo discretamente arrogante.
O resultado era bonito.
Ridiculamente bonito.
Também era impossível olhar para aquele prédio sem se lembrar de que a mensalidade custava mais do que minha mãe ganhava em algumas semanas de trabalho.
Agradeci ao motorista, saí do carro e quase fui atropelada por uma bicicleta.
- Desculpa! - gritou o garoto, sem diminuir a velocidade.
- Desculpe! - respondi automaticamente.
Então franzi a testa.
Por que eu estava pedindo desculpas?
Ele quase tinha me transformado em decoração de calçada.
Atravessei os portões e comecei a andar depressa.
O pátio estava cheio.
Alunos se abraçavam depois das férias, exibiam cortes de cabelo novos, comparavam horários e falavam sobre viagens para lugares que eu só conhecia pelas fotografias da internet.
Um grupo de garotas passou por mim comentando sobre uma festa que aconteceria na sexta-feira.
- Dizem que vai ser na casa do Theo.
- Sério?
- A piscina dele é enorme.
- Será que o Dante vai?
- Óbvio que vai.
Não precisei ouvir mais para saber de quem estavam falando.
Dante Valença.
Alguns nomes eram repetidos tantas vezes no Saint Aurora que pareciam fazer parte do patrimônio histórico da instituição.
Dante era um deles.
Eu sabia quem ele era, naturalmente.
Seria difícil não saber.
Ele jogava basquete, aparecia em praticamente todas as fotografias das festas e possuía uma capacidade impressionante de transformar pequenas infrações escolares em histórias engraçadas.
No ano anterior, havia estacionado o carro na vaga do diretor.
Na semana seguinte, alguém colocou uma placa com seu nome sobre a vaga.
Dizem que foi ele.
Dizem também que o diretor riu.
Eu tinha minhas dúvidas sobre a segunda parte.
Nunca havia conversado com Dante.
Na verdade, não me lembrava de ter ficado a menos de três metros dele.
Nossos círculos sociais simplesmente não se cruzavam.
Ele vivia cercado de pessoas.
Eu vivia tentando encontrar uma mesa vazia na biblioteca.
Ele era o tipo de garoto que recebia convites para festas.
Eu era o tipo de garota que perguntava se podia levar um livro.
Não havia nada de particularmente trágico nisso.
Éramos apenas diferentes.
E eu estava perfeitamente satisfeita com a distância entre nossos universos.
Ou pelo menos estaria, se o universo não tivesse decidido interferir naquela manhã.
Meu celular vibrou novamente.
ISA 💗 - 07:41
Sala 304. Terceiro andar. CORRE.
Olhei para o relógio acima da entrada.
7h41.
Dois minutos.
Dois minutos para atravessar o prédio principal, subir três andares e chegar à sala antes que a professora Albuquerque fechasse a porta.
A professora Albuquerque tinha muitas qualidades.
Pontualidade era uma delas.
Tolerância com atrasos, definitivamente, não.
Apertei os livros contra o peito e comecei a correr.
Passei pela recepção.
Desviei de dois alunos.
Subi a primeira escada.
Quase escorreguei no segundo lance.
Quando alcancei o corredor do terceiro andar, estava ofegante e começando a reconsiderar todas as escolhas que me haviam levado até aquele momento.
Olhei para o celular.
7h43.
Droga.
Acelerei.
E foi assim que aconteceu.
Não houve música romântica.
Não houve uma brisa misteriosa movimentando meus cabelos.
Nenhum raio de sol atravessou uma janela no momento exato.
Houve apenas uma curva.
Um garoto.
E aproximadamente quatro quilos de material escolar voando pelo corredor.
Bati contra alguma coisa sólida.
Muito sólida.
- Caralho!
O impacto me fez perder o equilíbrio.
Meu ombro atingiu um peito masculino, meus livros escaparam dos braços e um deles caiu diretamente sobre o pé do desconhecido.
Por algum milagre, não fui parar no chão.
Uma mão segurou meu braço por um instante, impedindo minha queda.
- Você tá bem?
A voz era masculina, grave e levemente rouca.
Também parecia divertida.
O que, considerando a situação, me pareceu ofensivo.
- Eu... desculpa!
Abaixei-me imediatamente para recolher os livros.
Meu rosto estava queimando.
Maravilhoso.
Simplesmente maravilhoso.
Primeiro dia de aula e eu já estava agredindo pessoas com literatura.
- Você costuma atacar desconhecidos ou hoje é uma ocasião especial?
Parei com a mão sobre um caderno.
Ergui os olhos.
E descobri que o universo possuía um senso de humor particularmente cruel.
Dante Valença estava parado diante de mim.
Dante.
Valença.
O próprio.
De perto, ele era ainda mais bonito do que nas fotografias.
O que achei profundamente inconveniente.
Tinha cabelos escuros e bagunçados de um jeito que provavelmente exigia mais esforço do que ele admitiria, sobrancelhas marcadas e olhos castanhos que pareciam quase dourados sob a luz das janelas.
Era alto.
Muito alto.
Usava a camisa branca do uniforme com os dois primeiros botões abertos, uma jaqueta preta do time por cima e uma mochila pendurada em apenas um ombro.
Seu rosto tinha aquela beleza irritante de quem nunca precisou aprender a tirar uma boa fotografia.
E ele estava olhando diretamente para mim.
Esperando uma resposta.
Ótimo.
Eu podia morrer ali mesmo.
- Só os que ficam parados no meio do caminho - respondi.
As palavras saíram antes que meu cérebro tivesse a oportunidade de avaliá-las.
Dante ergueu uma sobrancelha.
Atrás dele, alguém soltou uma risada.
Foi então que percebi que ele não estava sozinho.
Dois garotos o acompanhavam.
Um era loiro, alto e tinha olhos verdes. O outro possuía cabelos castanhos curtos e uma expressão de quem estava prestes a fazer algum comentário desagradável.
Reconheci os dois.
Theo Albuquerque e Gabriel Vasconcelos.
Naturalmente.
Porque passar vergonha diante de um único garoto popular seria uma experiência insuficientemente traumática.
- Ela tem razão, cara - disse Theo, sorrindo. - Você ocupa espaço pra caramba.
Dante ignorou o comentário.
Abaixou-se e pegou um dos meus livros.
Meu estômago afundou.
Não.
Não aquele.
Qualquer um, menos aquele.
Ele virou o exemplar para observar a capa.
O Duque e a Bibliotecária.
Um romance histórico com um homem sem camisa na ilustração.
Um homem que, por algum motivo, parecia incapaz de encontrar roupas adequadas na Inglaterra do século XIX.
Dante olhou para a capa.
Depois para mim.
Depois novamente para a capa.
Seu sorriso aumentou.
- Interessante.
Estendi a mão.
- Pode devolver?
Ele virou o livro.
- O Duque e a Bibliotecária?
- É o que está escrito.
- Você lê essas coisas?
Pisquei.
- Não. Eu carrego livros aleatórios para impressionar desconhecidos.
Theo começou a rir.
Uma risada alta, espontânea.
Dante, por outro lado, ficou me olhando por um instante.
Então sorriu de um jeito diferente.
Como se eu tivesse acabado de lhe oferecer alguma coisa inesperadamente divertida.
- Engraçadinha.
- Atrasada, na verdade. Meu livro?
Ele me entregou o exemplar.
Peguei-o rapidamente e o coloquei sobre os outros.
Levantei-me.
Dante fez o mesmo.
De pé, a diferença de altura ficou ainda mais evidente.
Eu tinha um metro e sessenta e quatro.
Ele devia ter pelo menos um metro e oitenta e cinco.
Talvez mais.
Era ridículo.
Pessoas daquele tamanho deveriam ser obrigadas a utilizar algum tipo de sinalização em corredores escolares.
- Qual é o seu nome? - perguntou.
Apertei os livros contra o peito.
- Por quê?
Ele inclinou ligeiramente a cabeça.
- Porque eu perguntei.
- E eu não sou obrigada a responder.
O sorriso dele aumentou.
Gabriel soltou um assobio baixo.
- Nossa.
Theo parecia estar se divertindo imensamente.
Eu, por outro lado, estava começando a perceber que talvez fosse melhor aprender a ficar calada.
Dante cruzou os braços.
- Você sabe quem eu sou, não sabe?
Ah.
Claro.
Lá estava.
A pergunta que provavelmente acompanhava sua existência desde que aprendera a falar.
Olhei para ele.
Depois para o relógio no fim do corredor.
7h44.
Eu já estava oficialmente atrasada.
Minha vida acadêmica estava sendo destruída enquanto um garoto bonito esperava que eu reconhecesse sua importância social.
- Infelizmente, agora sei.
Theo soltou uma gargalhada tão alta que duas garotas viraram a cabeça.
Dante abriu a boca.
Fechou.
Pela primeira vez desde que eu o conhecera - o que, tecnicamente, havia acontecido aproximadamente quarenta segundos antes -, pareceu não saber o que dizer.
Aproveitei.
- Com licença.
Passei por ele.
Ou tentei.
Porque, naquele exato momento, a alça da minha mochila decidiu se prender no zíper da jaqueta dele.
Parei abruptamente.
Dante olhou para baixo.
Eu olhei para baixo.
Silêncio.
Um silêncio horrível.
- Você só pode estar brincando - murmurei.
Theo já estava praticamente dobrado de tanto rir.
- Cara, acho que ela gostou de você.
- Theo - Dante advertiu, mas havia riso em sua voz.
Tentei soltar a alça.
Não consegui.
Tentei novamente.
O zíper pareceu desenvolver uma ligação emocional profunda com minha mochila.
- Espera - disse Dante.
- Eu consigo.
- Não parece.
- Obrigada pela confiança.
Ele segurou a alça.
Seus dedos tocaram os meus por um instante.
Foi um contato breve.
Absolutamente insignificante.
Meu cérebro, entretanto, considerou necessário registrar o acontecimento com a importância de um evento histórico.
Dante soltou o tecido com facilidade.
- Pronto.
Dei um passo para trás.
- Obrigada.
- De nada, garota misteriosa.
Revirei os olhos.
- Tchau, garoto convencido.
E saí andando.
Dessa vez sem correr.
Porque ainda possuía uma quantidade mínima de dignidade e pretendia preservá-la até alcançar a sala.
Ouvi Theo rir novamente.
Depois uma voz masculina.
A de Dante.
- Qual é o problema dela?
Não ouvi a resposta.
E não fiquei para descobrir.
---
A professora Albuquerque estava escrevendo no quadro quando entrei na sala.
Vinte e oito rostos se viraram na minha direção.
Vinte e oito.
Contei mentalmente.
Não porque tivesse alguma razão para fazer isso, mas porque meu cérebro aparentemente considerava importante documentar a extensão da humilhação.
- Senhorita Martins.
Fechei os olhos por uma fração de segundo.
- Bom dia, professora.
Ela olhou para o relógio.
- São sete e quarenta e seis.
- Sim.
- A aula começou às sete e quarenta.
- Eu sei.
- Alguma justificativa?
Pensei nas possibilidades.
Poderia dizer que o transporte atrasou.
Que houve um acidente.
Que minha mãe passou mal.
Que fui sequestrada por extraterrestres.
Mas, infelizmente, minha consciência tinha o péssimo hábito de aparecer justamente quando uma mentira poderia facilitar minha vida.
- Perdi o ônibus - respondi.
A professora me observou.
- Sente-se. E procure sair de casa mais cedo amanhã.
- Sim, professora.
Atravessei a sala sob os olhares dos colegas.
Isabela estava sentada na penúltima fileira, perto da janela.
Tinha os cabelos pretos perfeitamente arrumados, maquiagem discreta e uma expressão de quem acabara de receber uma notícia maravilhosa.
Sentei ao lado dela.
- Nem uma palavra - sussurrei.
Ela se inclinou imediatamente.
- O que aconteceu?
- Nada.
- Aurora.
- Perdi o ônibus.
- Isso eu sei.
Abri meu caderno.
Isabela continuou me encarando.
- Por que você está vermelha?
- Calor.
- Está fazendo dezessete graus.
- Meu organismo é complexo.
Ela estreitou os olhos.
- Você está escondendo alguma coisa.
A professora pigarreou.
- Senhorita Monteiro, gostaria de compartilhar algo com a turma?
Isabela endireitou a postura.
- Não, professora.
- Ótimo.
Esperamos aproximadamente trinta segundos.
Então minha melhor amiga arrancou um pedacinho de papel do caderno e escreveu alguma coisa.
Empurrou o bilhete para mim.
CONTA.
Olhei para ela.
Isabela sorriu.
Peguei a caneta.
Depois.
Ela leu.
Fez uma expressão indignada.
Escreveu novamente.
Você sabe que eu odeio suspense.
Respondi:
E eu odeio você.
Ela desenhou um coração.
Sorri.
Talvez ainda fosse possível salvar aquela segunda-feira.
---
O intervalo chegou duas aulas depois.
E, com ele, minha condenação.
- Você esbarrou em QUEM?
Isabela estava parada no meio do corredor, segurando meu braço.
- Fala mais alto - murmurei. - Acho que não ouviram na cantina.
Ela abriu a boca.
Fechou.
Abriu novamente.
- Dante Valença?
- Não, Dante Alighieri. O poeta italiano.
- Aurora!
- Sim, Isabela. Dante Valença.
Ela me encarou como se eu tivesse anunciado que passaria as férias na Lua.
- E você chamou ele de convencido?
- Tecnicamente, ele perguntou se eu sabia quem ele era.
- Meu Deus.
- Eu estava atrasada!
- E ele?
- Ele o quê?
- O que ele fez?
Dei de ombros.
- Nada.
- Nada?
- Sorriu.
Isabela ficou imóvel.
Então abriu um sorriso lento.
Um sorriso que eu conhecia muito bem.
Um sorriso perigoso.
- Ah.
- Não.
- Eu nem falei nada.
- Mas pensou.
- Eu penso muitas coisas.
- Pensa menos.
Ela começou a rir.
Caminhamos até a cantina.
O ambiente estava lotado.
Alunos ocupavam as mesas, conversavam perto das máquinas de bebidas e se aglomeravam diante do balcão.
O cheiro de pão quente e café misturava-se ao perfume excessivamente caro de alguns estudantes.
Compramos dois salgados e uma garrafa de suco.
Isabela começou a contar sobre as férias.
Falou de uma viagem à praia, de uma discussão com a prima e de um garoto chamado Henrique que havia curtido três fotografias antigas dela às duas da manhã.
- Três, Aurora. Três fotografias.
- Talvez ele goste de fotografia.
Ela me lançou um olhar mortal.
- Você é impossível.
- Estou apenas considerando as possibilidades.
- Ele está interessado.
- Então por que não manda uma mensagem?
Isabela suspirou.
- Porque homens são criaturas emocionalmente limitadas.
- Você está apaixonada por um cara que curtiu três fotos suas.
- Exatamente. É uma tragédia.
Ri.
Estávamos procurando uma mesa quando ouvi uma gargalhada masculina perto das janelas.
Não precisei olhar.
Reconheci a voz de Theo.
E, por alguma razão inexplicável, meus olhos se moveram naquela direção.
Havia um grupo de alunos reunido ao redor de duas mesas.
Garotos do time de basquete.
Algumas garotas populares.
Theo estava contando alguma história, gesticulando exageradamente.
Gabriel mexia no celular.
E Dante Valença estava sentado sobre a borda de uma das mesas.
Uma garota loira, de cabelos perfeitamente escovados, encontrava-se diante dele.
Valentina Moretti.
Eu a conhecia de vista.
Todo mundo conhecia.
Valentina era o tipo de garota que parecia ter sido criada especificamente para fotografias de campanhas de moda.
Alta, magra, elegante.
Até o uniforme ficava diferente nela.
Ela tocou o braço de Dante enquanto dizia alguma coisa.
Ele sorriu.
Aquele sorriso torto.
O mesmo que havia me dirigido no corredor.
Senti uma pontada de irritação.
Não por ciúmes.
Evidentemente.
Eu não conhecia aquele garoto.
A irritação vinha do fato de que algumas pessoas simplesmente atravessavam a vida distribuindo sorrisos como se fossem brindes promocionais.
- Aurora?
Pisquei.
Isabela estava me observando.
- Oi?
Ela acompanhou a direção do meu olhar.
Depois sorriu.
- Ah.
- Não começa.
- Eu não disse nada.
- Você fez aquele barulho.
- Que barulho?
- Esse "ah".
- Existe algum problema com a letra A?
- Isabela.
Ela riu.
- Relaxa. Dante é bonito, não é crime olhar.
- Eu não estava olhando.
- Claro.
- Estava procurando uma mesa.
- E encontrou um metro e oitenta e tantos de problema.
Abri a boca para responder.
Mas, naquele instante, Dante levantou os olhos.
E me viu.
Foi rápido.
Um segundo, talvez dois.
Seu olhar passou pelo meu rosto, reconhecendo-me.
Então ele sorriu.
Não um sorriso enorme.
Apenas um movimento discreto no canto da boca.
Como se estivesse se lembrando de alguma coisa engraçada.
Meu estômago fez um movimento completamente desnecessário.
Desviei os olhos imediatamente.
- Vamos sentar - murmurei.
Isabela olhou para mim.
Depois para Dante.
Depois novamente para mim.
- Aurora...
- Não.
- Ele está olhando.
- Problema dele.
- Ele está sorrindo.
- Talvez tenha gases.
Isabela explodiu em uma gargalhada.
Puxei-a pelo braço.
Encontramos uma mesa no canto da cantina, longe das janelas.
Longe do grupo popular.
Longe de Dante Valença.
Exatamente onde eu queria estar.
Às duas e quinze da tarde, quando finalmente saí do Saint Aurora, estava exausta.
O primeiro dia havia sido uma sucessão de apresentações, orientações sobre exames finais e professores explicando como aquele seria o ano mais importante de nossas vidas.
O que achei desnecessariamente ameaçador.
Minha mochila parecia pesar o dobro.
Meus pés doíam.
E eu tinha uma lista de materiais que provavelmente custaria o equivalente a um rim saudável.
Isabela se despediu perto do estacionamento.
- Minha mãe chegou.
- Tá. Até amanhã.
Ela me abraçou.
- E tenta não atropelar nenhum garoto bonito no caminho.
- Vai embora.
- Te amo!
- Infelizmente, também te amo.
Ela saiu rindo.
Caminhei até o ponto de ônibus.
O sol da tarde iluminava as árvores da avenida, e uma brisa agradável movimentava as folhas.
Peguei o celular.
Minha mãe havia mandado uma mensagem.
MÃE ❤️ - 13:58
Como foi o primeiro dia?
Pensei por alguns segundos.
Eu: Sobrevivi.
A resposta chegou quase imediatamente.
MÃE ❤️: Isso é bom?
Sorri.
Eu: Considerando as circunstâncias, excelente.
Guardei o celular.
Foi quando ouvi o som de um motor se aproximando.
Um carro preto diminuiu a velocidade perto do meio-fio.
Era bonito.
Daqueles carros que eu não sabia identificar, mas tinha certeza de que custavam mais do que nossa casa.
O vidro do motorista desceu.
E, naturalmente, Dante Valença apareceu.
Porque aparentemente meu dia ainda não havia terminado de me testar.
Ele estava usando óculos escuros.
Óculos escuros.
Como se já não fosse convencido o suficiente sem acessórios.
- Ei, garota misteriosa.
Olhei ao redor.
Havia outras pessoas no ponto.
Talvez ele estivesse falando com alguma delas.
Infelizmente, não.
- Você está falando comigo?
Dante apoiou um braço na janela.
- Conhece outra garota que tentou me assassinar com um livro hoje?
Suspirei.
- Foi um acidente.
- É o que todos os criminosos dizem.
- Você sobreviveu.
- Por pouco.
Revirei os olhos.
Ele sorriu.
- Vai para casa?
Olhei para o ponto de ônibus.
Depois para ele.
- Não. Estou esperando um foguete.
Dante soltou uma risada.
Uma risada de verdade.
Curta, mas genuína.
- Você sempre responde assim?
- Só quando fazem perguntas bobas.
Ele tirou os óculos.
Seus olhos encontraram os meus.
Por um instante, fiquei estranhamente consciente do fato de que estávamos conversando sem a presença de seus amigos.
Sem Theo rindo.
Sem Gabriel observando.
Sem Valentina tocando seu braço.
Apenas nós dois.
E isso tornou a situação inexplicavelmente mais constrangedora.
- Quer uma carona? - perguntou.
Pisquei.
- O quê?
- Uma carona. Sabe? Você entra no carro, eu dirijo, a gente chega em algum lugar.
- Eu sei o que é uma carona.
- Ótimo. Já temos uma base de comunicação.
Olhei para o carro.
Depois para ele.
Uma parte muito pequena e extremamente idiota do meu cérebro considerou a possibilidade.
A outra parte, felizmente maior, lembrou que eu não conhecia aquele garoto.
- Não, obrigada.
Dante inclinou a cabeça.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Não mordo.
- Parabéns.
Ele riu novamente.
- Você é sempre tão simpática?
- Só depois de conhecer alguém por mais de cinco minutos.
- Então estamos quase lá.
Tentei não sorrir.
Falhei um pouco.
Dante percebeu.
Claro que percebeu.
Seu sorriso aumentou.
- Ah, então você sabe sorrir.
- Ocasionalmente.
- Estava começando a achar que tinha alguma coisa contra mim.
- Eu tenho.
Ele levou a mão ao peito.
- Nossa. Direto assim?
- Você faz muitas perguntas.
- E você foge de todas.
- Talvez sejam ruins.
Dante ficou me olhando por um momento.
Depois assentiu lentamente, como se estivesse considerando aquela possibilidade com extrema seriedade.
- Justo.
Um carro buzinou atrás dele.
Dante olhou pelo retrovisor.
- Bom, garota misteriosa, foi um prazer quase ser assassinado por você.
- Igualmente.
- A gente se vê.
- É um colégio. As chances são grandes.
Ele sorriu mais uma vez.
Então colocou os óculos e arrancou.
Fiquei observando o carro desaparecer pela avenida.
Não porque estivesse interessada.
Apenas porque ele havia saído na direção do meu ônibus.
Era uma observação logística.
Completamente normal.
Meu celular vibrou.
ISA 💗 - 14:19
Você chegou em casa?
Eu: Ainda não.
ISA 💗: Tudo bem?
Olhei para a rua.
Pensei no corredor.
No livro.
Na mochila presa à jaqueta.
Na cantina.
No carro preto.
E no sorriso irritantemente bonito de Dante Valença.
Eu: Acho que sim.
Isabela respondeu:
ISA 💗: ACHA?
Suspirei.
Eu: Hoje foi um dia estranho.
ISA 💗: Estranho como?
Comecei a digitar.
Apaguei.
Digitei novamente.
Eu: Depois te conto.
Guardei o celular antes que ela pudesse responder.
O ônibus apareceu alguns minutos depois.
Entrei, encontrei um lugar perto da janela e coloquei os fones de ouvido.
Enquanto o veículo atravessava as ruas de Bellmont, encostei a cabeça no vidro.
Pensei nas provas.
Na universidade.
No projeto de literatura.
Na lista de materiais.
Em todas as coisas que realmente importavam.
E, ainda assim, em algum momento entre uma música e outra, me peguei lembrando de uma voz masculina dizendo:
Ah, então você sabe sorrir.
Fechei os olhos.
Não.
Definitivamente, não.
Dante Valença era bonito.
Muito bonito.
Mas garotos como ele pertenciam a histórias que terminavam com garotas chorando no banheiro de festas.
E eu tinha lido romances suficientes para reconhecer um desastre anunciado.
Não pretendia me tornar personagem de um.
Principalmente porque, ao contrário das protagonistas dos meus livros, eu não tinha um autor garantindo meu final feliz.
Naquela noite, depois de jantar com minha mãe e organizar os materiais do dia seguinte, sentei à escrivaninha.
Meu quarto era pequeno, mas confortável.
Havia livros empilhados sobre a cômoda, fotografias presas à parede e uma luminária amarela que deixava tudo com aparência de cenário de filme antigo.
Abri meu caderno de histórias.
Aquele que ninguém tinha permissão para ler.
Na primeira página, escrevi a data.
Depois fiquei olhando para o papel.
Eu estava tentando escrever um romance havia quase seis meses.
Tinha uma protagonista interessante.
Um cenário razoável.
Um conflito promissor.
O problema era o protagonista masculino.
Ele era perfeito demais.
Gentil demais.
Compreensivo demais.
Parecia um homem criado em laboratório por uma equipe de mulheres decepcionadas.
Suspirei.
Peguei a caneta.
Risquei uma frase.
Escrevi outra.
Então, sem pensar muito, acrescentei:
"Ele tinha o sorriso de quem nunca havia ouvido a palavra não."
Parei.
Olhei para a frase.
Meu cérebro fez uma associação absolutamente indesejada.
Cabelos escuros.
Olhos castanhos.
Jaqueta preta.
Sorriso torto.
- Ah, pelo amor de Deus.
Arranquei a folha.
Amassei.
Joguei na lixeira.
Errei.
A bolinha de papel caiu ao lado da cama.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos.
Depois comecei a rir sozinha.
Porque havia algo profundamente ridículo em tentar expulsar um garoto da minha cabeça quando ele provavelmente nem sequer se lembrava do meu nome.
Aliás...
Ele não sabia meu nome.
Essa constatação me trouxe um alívio inexplicável.
Para Dante Valença, eu era apenas a garota que havia derrubado livros no corredor.
Uma desconhecida.
Uma história engraçada para contar aos amigos.
E estava tudo bem.
Era exatamente assim que deveria continuar.
Fechei o caderno.
Apaguei a luminária.
Deitei.
Amanhã seria um dia normal.
Eu chegaria no horário.
Assistiria às aulas.
Conversaria com Isabela.
Passaria pela biblioteca.
E provavelmente não encontraria Dante Valença.
Afinal, o Saint Aurora tinha centenas de alunos.
Seria muita coincidência esbarrar novamente no mesmo garoto.
Sorri, satisfeita com meu raciocínio.
Então virei para o lado e fechei os olhos.
Meu celular vibrou.
Ignorei.
Vibrou novamente.
Suspirei.
— Isabela, eu juro que se for mais um vídeo daquele gato...
Estiquei o braço até o criado-mudo e peguei o aparelho.
A tela iluminou meu rosto.
23h46.
Havia uma notificação da rede social.
Dante Valença solicitou seguir você.
Fiquei imóvel.
Li novamente.
Depois uma terceira vez.
Aproximei o celular do rosto, como se isso pudesse revelar alguma informação escondida.
Dante Valença.
O mesmo Dante Valença que eu havia atingido com um livro naquela manhã.
O mesmo que tinha me chamado de garota misteriosa.
O mesmo que dirigia um carro que provavelmente custava mais do que todos os móveis da minha casa.
Estava solicitando seguir meu perfil.
— O quê?
Sentei na cama.
Abri a notificação.
Era realmente ele.
A fotografia mostrava Dante em uma quadra de basquete, sorrindo para alguém fora do enquadramento. Seu perfil tinha milhares de seguidores, algumas fotografias de viagens, outras com os amigos e uma quantidade desnecessária de comentários com corações.
Olhei para a solicitação.
Por que ele queria me seguir?
Talvez estivesse curioso.
Talvez Theo tivesse encontrado meu perfil.
Talvez os dois estivessem rindo da garota que quase assassinou o capitão do time com um romance histórico.
Essa última possibilidade pareceu bastante razoável.
Abri a conversa com Isabela.
Digitei:
Você não vai acreditar no que aconteceu.
Parei.
Olhei para o horário.
Minha melhor amiga provavelmente estava dormindo.
Ou tentando dormir.
E, sinceramente, eu não tinha energia para enfrentar cinquenta mensagens em letras maiúsculas.
Apaguei o texto.
Voltei ao perfil de Dante.
Fiquei olhando para o botão de aceitar.
Não havia motivo para transformar aquilo em um acontecimento.
Era apenas uma solicitação.
Pessoas seguiam outras pessoas o tempo inteiro.
Apertei Aceitar.
Depois, por educação — ou por uma curiosidade que eu não pretendia investigar —, toquei em Seguir de volta.
Pronto.
Assunto encerrado.
Deixei o celular sobre o travesseiro e me acomodei novamente.
Dois minutos depois, a tela acendeu.
Uma mensagem.
Dele.
DANTE — 23:49
Ainda está planejando meu assassinato ou posso dormir tranquilo?
Soltei uma risada pelo nariz.
Era sério?
Aquele garoto não tinha mais nada para fazer?
Pensei em ignorar.
Era o mais sensato.
Mas havia algo particularmente irritante em deixar Dante Valença acreditar que tinha conseguido a última palavra.
Eu — 23:50
Depende. Você pretende continuar fazendo perguntas idiotas amanhã?
A resposta veio quase imediatamente.
DANTE: Provavelmente.
Eu: Então não prometo nada.
DANTE: Você é sempre tão ameaçadora?
Eu: Só com pessoas que roubam meus livros.
DANTE: Eu devolvi.
Eu: Depois de julgar minhas escolhas literárias.
DANTE: Ainda estou tentando entender aquele duque sem camisa.
Abri a boca, indignada.
Ele ainda estava falando do livro?
Eu: Ele tem uma personalidade maravilhosa.
DANTE: Aposto que sim.
Olhei para a tela.
E sorri.
Um sorriso pequeno.
Involuntário.
O tipo de sorriso que aparece antes que você tenha tempo de decidir se deveria estar sorrindo.
Aquilo era absurdo.
Eu estava deitada na minha cama, quase à meia-noite, discutindo a personalidade de um duque fictício com Dante Valença.
Se alguém tivesse me contado isso naquela manhã, eu teria recomendado uma avaliação médica.
Olhei para o relógio.
Precisava dormir.
E, principalmente, precisava encerrar aquela conversa antes que meu cérebro começasse a atribuir significados a coisas que provavelmente não significavam nada.
Eu: Boa noite, Dante.
A resposta apareceu alguns segundos depois.
DANTE: Boa noite, Aurora.
Parei.
Ele sabia meu nome.
É claro que sabia.
Tinha encontrado meu perfil.
Meu nome estava literalmente escrito nele.
Não havia absolutamente nada de especial naquilo.
Mesmo assim, fiquei olhando para a mensagem por tempo demais.
Depois bloqueei a tela e coloquei o celular sobre o criado-mudo.
Virei para o lado.
Fechei os olhos.
Abri novamente.
— Ridículo — murmurei.
Não sabia se estava falando dele ou de mim.
Provavelmente dos dois.
Ajeitei o travesseiro e puxei o cobertor até os ombros.
Dante Valença era apenas um garoto do meu colégio.
Um garoto bonito, convencido e aparentemente incapaz de deixar uma discussão morrer.
E aquela conversa não significava nada.
Absolutamente nada.
Era exatamente assim que eu pretendia continuar enxergando as coisas.
Afinal, o último ano já seria complicado o suficiente sem que eu começasse a inventar histórias românticas envolvendo o garoto mais popular do Saint Aurora.
Fechei os olhos mais uma vez.
Dessa vez, consegui dormir.
Sem imaginar que, naquela mesma noite, a professora de literatura estava terminando de organizar uma lista de duplas para o projeto mais importante do semestre.
E que, ao lado do meu nome, havia outro.






