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Fora de Casa

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Resumo

Maria Luíza tinha uma vida inteira em São Paulo quando decidiu colocar o que coubesse em duas malas e passar um ano no Canadá trabalhando como au pair. Aos dezenove anos, morar do outro lado do continente parecia a oportunidade perfeita para conhecer lugares, pessoas e descobrir como seria viver sem ter por perto todo mundo que sempre fez parte dos seus dias. O plano era simples: cuidar de duas crianças, aproveitar o ano e voltar para casa com histórias suficientes para contar. Então ela conhece Liam. Ele é o filho mais velho dos seus novos chefes, tem praticamente a idade dela e, para decepção de Maria, nenhum interesse em facilitar sua chegada. Liam é fechado, irritantemente bonito e parece muito mais preocupado com a faculdade, os amigos e o basquete do que com a brasileira que acabou de se mudar para o quarto no fim do corredor. O que seria fácil ignorar, se eles não morassem na mesma casa. Conforme o Canadá deixa de parecer tão distante e aquela família começa a fazer parte da sua rotina, Maria percebe que um ano pode ser tempo suficiente para construir uma vida inteira em um lugar onde ela deveria estar apenas de passagem. E talvez voltar para casa não seja tão simples quando chegar a hora.

Status
há 11 horas
Capítulos
2
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo Um — A decisão

🇧🇷 Maria Luiza 🇧🇷

— Passageiros do voo AC247 para Toronto, favor se dirigirem ao portão 12 para embarque.

Olho para trás uma última vez.

Minha mãe tenta sorrir quando percebe que estou olhando, mas os olhos vermelhos e o rímel borrado não ajudam muito.

Meu pai levanta uma das mãos, naquele aceno discreto de quem está se esforçando para manter a compostura.

Gabriela continua de braços cruzados, com a mesma cara fechada que mantém desde que saímos de casa. Se eu perguntar o que foi, provavelmente vai dizer que não foi nada e ficar ainda mais irritada.

Felipe está um pouco atrás deles, com as mãos nos bolsos, enquanto Bruna chora sem a menor preocupação com as pessoas passando ao redor.

Meu pai passou a última meia hora dizendo que ninguém precisava fazer tanto drama, embora tenha enxugado os próprios olhos pelo menos três vezes quando achou que ninguém estava vendo.

Sorrio para eles e mando um beijo. Minha mãe leva a mão à boca, Bruna acena com os dois braços e Gabriela finalmente descruza um deles para retribuir.

Tenho vontade de voltar e abraçar todo mundo mais uma vez, principalmente Gabi, que passou a manhã inteira reclamando da minha viagem e provavelmente vai reclamar de mim assim que chegar em casa.

Mas já me despedi tantas vezes que, se voltar agora, minha mãe vai achar que pode me convencer a ficar mais cinco minutos. E eu conheço bem a minha capacidade de transformar cinco minutos em meia hora quando não quero dizer tchau.

Então ajeito a alça da mochila no ombro e sigo para o embarque.

Quando entro no avião, encontro meu lugar perto da janela, guardo a mochila e me sento, tentando não atrapalhar as pessoas que ainda procuram seus assentos.

Uma mulher está parada no corredor, convencida de que vai conseguir enfiar uma mala enorme no compartimento de bagagem se empurrar com força suficiente. O homem atrás dela acompanha a tentativa com uma paciência que parece diminuir a cada segundo.

Algumas fileiras mais atrás, uma criança pergunta pela terceira vez se o avião já vai voar, e a mãe responde que ainda falta um pouquinho.

Eu também gostaria de saber quanto tempo é esse pouquinho.

Encosto a cabeça no banco e olho pela janela. Lá fora, funcionários circulam entre os aviões, um carrinho de bagagens atravessa a pista e, por enquanto, ninguém parece ter pressa de nos tirar daqui.

Pego o celular para conferir as mensagens, mas acabo deixando a tela apagada no colo. Passei a manhã inteira fazendo alguma coisa: conferindo malas, respondendo perguntas, abraçando pessoas, procurando documentos que estavam exatamente onde eu tinha guardado. Agora que não preciso resolver absolutamente nada, começo a pensar em tudo ao mesmo tempo.

Vou morar no Canadá.

Sozinha, por um ano inteiro.

Meu Deus.

Olho para a mochila aos meus pés, como se fosse encontrar ali alguma prova de que estou preparada para isso. Tenho meu passaporte, meus documentos, dinheiro, o endereço da família e uma quantidade de roupas que quase provocou uma discussão no balcão de despacho. Também tenho um inglês que considero muito bom quando estou em São Paulo, embora ainda precise descobrir o que acontece com ele quando ninguém se preocupa em falar devagar para mim.

Ajeito o cinto, que já estava perfeitamente ajustado, e tento me acomodar melhor.

Por mais que a despedida tenha sido horrível e eu já esteja com saudade de casa, estou animada. Passei a manhã inteira tentando disfarçar um pouco, porque não parecia muito legal ficar sorrindo enquanto minha mãe chorava, Bruna chorava, Gabriela fingia que não ia chorar e meu pai perguntava pela décima vez onde estava meu passaporte. Como se eu pudesse ter perdido o documento nos três minutos desde a última conferência.

Mas estou feliz. Muito.

Quero conhecer a casa, conversar com as crianças, descobrir como vai ser acordar num lugar onde ninguém me conhece desde pequena. Quero entrar num supermercado e não reconhecer metade das marcas, aprender a andar pela cidade sem depender do GPS e ter histórias novas para contar à Bruna, de preferência histórias que não envolvam me perder ou passar vergonha tentando falar inglês. Embora, conhecendo a minha sorte, ela provavelmente vá gostar mais dessas.

O curioso é pensar que passei meses planejando uma viagem que, até pouco tempo atrás, nem fazia parte dos meus planos. Se alguém tivesse me perguntado no começo do ano onde eu estaria agora, provavelmente teria respondido que estaria começando uma faculdade, como quase todos os meus amigos.

Com certeza não teria dito que estaria sentada num avião para Toronto, tentando descobrir se trouxe roupas suficientes para um inverno canadense e torcendo para que a mulher no corredor finalmente consiga guardar aquela mala.

Desde criança, perguntam o que a gente quer ser quando crescer. No começo, é uma pergunta fácil. Você tem seis anos, gosta de cachorro e responde que quer ser veterinária. Ninguém pergunta se você já pesquisou a faculdade ou se sabe quanto ganha um veterinário.

Os adultos acham fofo, comentam que você vai cuidar de muitos bichinhos e seguem com a vida. Depois, em algum momento que ninguém se dá ao trabalho de avisar, a mesma pergunta começa a exigir uma resposta séria, de preferência acompanhada do nome de uma universidade.

No terceiro ano do ensino médio, parecia que todo adulto que cruzava meu caminho tinha algum interesse pessoal em descobrir qual faculdade eu faria. Professores, parentes, amigos dos meus pais, gente que eu mal conhecia. Bastava alguém descobrir que eu estava terminando a escola para começar o interrogatório. E, quando eu dizia que ainda não tinha decidido, vinha aquele olhar preocupado, seguido de sugestões de cursos que a pessoa achava que combinavam comigo.

Uma tia chegou a sugerir Direito porque, segundo ela, eu sempre tinha sido boa de conversa. Se esse fosse o único requisito, Bruna já poderia estar defendendo alguém no tribunal.

Eu odiava aquelas conversas. Não adiantava dizer que ainda estava pensando, porque sempre aparecia alguém com uma sugestão, geralmente baseada em alguma coisa que eu tinha feito quando era criança.

E eu gostava de estudar. Sempre tirei notas boas, participei de olimpíadas escolares e conseguia passar uma tarde inteira pesquisando alguma coisa que me interessasse. Só não sabia qual daqueles assuntos escolher para estudar durante quatro ou cinco anos e, depois, teoricamente, trabalhar com ele pelo resto da vida.

Aos dezoito anos.

Eu mal sabia o que faria no sábado. Inclusive, costumava mudar de ideia sobre o sábado depois de já ter combinado alguma coisa, o que deixava Bruna particularmente irritada quando envolvia comprar ingresso antecipado.

Uma vez, numa aula de biologia, a professora comentou que o cérebro humano continuava amadurecendo até depois dos vinte anos. Não lembro o contexto, nem o que caiu na prova, e existe uma chance considerável de eu ter prestado atenção apenas na parte que me interessava. Mas achei aquela informação maravilhosa. Se meu próprio cérebro ainda estava em construção, parecia meio abusado exigirem dele um planejamento para os próximos quarenta anos.

Cometi o erro de apresentar esse argumento durante o jantar.

Minha mãe ouviu toda a minha explicação antes de comentar que era impressionante como eu conseguia lembrar de uma aula de biologia quando o assunto era faculdade, mas esquecia que tinha deixado um copo na sala cinco minutos antes. Meu pai achou graça, Gabriela concordou com entusiasmo e a discussão terminou com os três me lembrando de outras coisas que eu tinha esquecido pela casa.

Não voltei a usar o argumento na frente deles, mas continuei achando que fazia sentido.

Também não é que eu fosse uma pessoa sem planos. Muito pelo contrário. Nunca tive espírito de quem acorda numa terça-feira, larga tudo e decide vender pulseira na praia.

Eu pesquisava antes de tomar decisões, gostava de saber onde estava me metendo e tinha verdadeiro pavor de depender dos outros para resolver meus problemas. Quando saía com minhas amigas, normalmente era eu quem conferia os horários, via como a gente ia voltar e lembrava alguém de levar documento. Bruna dizia que eu tinha alma de mãe de excursão.

O que me incomodava era a impressão de que existia uma sequência certa para as coisas e todo mundo tinha recebido uma cópia menos eu.

Terminar a escola, entrar na faculdade, arrumar um estágio, conseguir um emprego, ganhar dinheiro suficiente para sair da casa dos pais. Depois vinham casamento, filhos, mais trabalho e, com sorte, férias em algum lugar onde ninguém precisasse responder e-mails.

Não tinha nada contra essa vida. Meus pais eram felizes, pelo menos na maior parte do tempo, e eu gostava muito da família que tínhamos. Minha mãe sempre esteve presente em tudo, desde as apresentações da escola até os dias em que eu chegava em casa com vontade de chorar por algum motivo que, duas semanas depois, nem parecia tão importante. Meu pai trabalhava pra caramba e sentia um orgulho enorme do que tinha conquistado.

Gostava da nossa casa, das nossas manias e até das discussões que se repetiam tanto que eu e Gabi já sabíamos quem ia dizer o quê. Só achava difícil imaginar meus pais aos dezenove anos sabendo exatamente onde estariam hoje. Será que minha mãe já imaginava que teria duas filhas? Será que meu pai sabia com o que queria trabalhar ou foi descobrindo as coisas enquanto aconteciam?

Meu pai talvez tivesse uma planilha. Na verdade, conhecendo Carlos, é bem possível que tivesse. Mas duvido que existisse uma célula escrita casar com Marina, ter duas filhas e discutir com a mais velha porque ela quer morar no Canadá.

A ideia de ir embora começou numa tarde absolutamente comum. Eu estava deitada na cama, com o ventilador ligado e o celular na mão, acompanhando uma conversa no grupo da escola que já tinha começado antes do almoço. Uma amiga tinha sido chamada numa faculdade, outra estava considerando trocar de curso antes mesmo de começar e alguém mandou um áudio de quase quatro minutos reclamando que a mãe queria se meter na escolha da universidade.

Eu gostava dos meus amigos e estava feliz por quem tinha conseguido entrar onde queria. De verdade. Só que, depois de meses ouvindo sobre notas de corte, listas de espera e matrículas, já não aguentava mais falar de faculdade.

Até quando alguém tentava mudar de assunto, bastava mencionar uma festa para outra pessoa perguntar se seria antes ou depois do começo das aulas.

Saí do WhatsApp e abri o Instagram, o que não foi uma decisão particularmente inteligente.

Encontrei fotos de aprovações, vídeos sobre a vida universitária e uma publicação de uma menina da minha escola mostrando o material que tinha comprado para o primeiro semestre. Fiquei alguns segundos olhando para uma coleção de marca-textos organizados por cor e pensando que eu também gostava de comprar material novo, embora quase nunca usasse tudo. Tinha um caderno lindo guardado na gaveta desde o ano anterior porque sempre aparecia alguma ocasião em que eu achava que seria um desperdício estreá-lo.

Joguei o celular ao lado e fiquei olhando para o teto.

Não estava infeliz em São Paulo. Gostava da minha casa, dos meus amigos, das festas, de sair para comer com Bruna sem planejar nada e voltar quatro horas depois porque tínhamos encontrado alguém no caminho. Gostava de saber quais lugares ficavam abertos até tarde, de passar na padaria perto de casa e encontrar alguém conhecido, de reclamar do trânsito com meu pai mesmo quando ele estava claramente mais irritado do que eu.

Tinha uma vida boa ali. Não estava procurando uma maneira de fugir dela.

Mas comecei a pensar em como seria passar algum tempo num lugar completamente diferente, onde eu precisasse aprender coisas que em São Paulo já fazia sem pensar. Descobrir como pegar um ônibus, fazer compras num mercado desconhecido, conhecer gente que não tivesse estudado comigo nem conhecesse alguém que estudou.

Talvez até sentir falta de coisas que nunca tinha considerado importantes, como o pão da padaria ou ouvir Gabriela cantando alto no banho enquanto eu tentava dormir.

Peguei o celular de novo e pesquisei intercâmbio.

Comecei olhando cursos de inglês, depois programas de trabalho no exterior. Abri páginas sobre o Canadá, a Inglaterra, a Irlanda e os Estados Unidos, sem ter a menor ideia de qual opção fazia mais sentido.

Algumas pareciam incríveis até eu encontrar os preços. Outras tinham tantas exigências que precisei pesquisar o significado de metade delas. Entrei em blogs, li relatos de brasileiros que moravam fora e assisti a vídeos de pessoas mostrando seus quartos, seus empregos e as compras que conseguiam fazer no supermercado.

Quando percebi, tinha umas vinte abas abertas, uma lista de países no bloco de notas e mais dúvidas do que quando comecei.

Minha mãe me chamou para jantar e eu respondi que já estava indo, embora ainda tenha ficado uns dez minutos tentando entender a diferença entre dois tipos de programa que, pelas descrições, pareciam exatamente a mesma coisa.

Na mesa, Gabriela estava reclamando de uma professora, meu pai perguntava se alguém tinha visto o carregador dele e minha mãe queria saber por que eu estava tão quieta.

— Tô pesquisando umas coisas — respondi, pegando o arroz.

Ela perguntou que coisas, mas Gabi começou a contar o que tinha acontecido na escola e o assunto mudou antes que eu precisasse explicar.

Foi melhor assim. Eu ainda não saberia explicar direito.

Só sabia que, depois do jantar, voltei para o quarto e abri todas aquelas abas outra vez.

Nos dias seguintes, continuei pesquisando. Algumas opções desapareceram assim que vi os preços; outras pareciam possíveis até eu encontrar alguma exigência que não cumpria. Comecei a fazer anotações para não precisar procurar tudo de novo e assisti a tantos vídeos de brasileiros morando fora que o YouTube passou a me recomendar até uma menina reclamando do preço do tomate no Canadá. Assisti aos dez minutos inteiros, embora nem soubesse quanto custava um tomate no Brasil.

Eu já estava lembrando de dúvidas no banho e pegando o celular antes de dormir para conferir alguma coisa que acabava me levando a outras cinco. Ainda não tinha um plano que pudesse apresentar aos meus pais, mas queria contar a alguém.

A primeira pessoa para quem contei foi Felipe.

Na época, ele ainda era meu namorado.

Felipe e eu estávamos juntos desde o ensino médio. Ele tinha olhos verdes, cabelo preto quase sempre bagunçado e uma capacidade irritante de ficar bronzeado só por existir ao ar livre. Era bonito e sabia disso, embora raramente fizesse alguma coisa com a informação. Também era calmo, muito mais do que eu. Se alguma coisa me irritava, eu queria conversar na hora e, dependendo da situação, ainda ligava para Bruna depois para reclamar mais um pouco.

Felipe preferia pensar antes de falar. No começo do namoro, isso me irritava bastante, principalmente quando eu estava no meio de uma discussão e ele dizia que precisava de um tempo para pensar. Com o passar dos anos, aprendi que insistir só fazia a conversa demorar mais.

Cheguei à casa dele com várias informações pela metade e uma empolgação que provavelmente fazia tudo parecer mais simples do que realmente era.

A mãe dele estava na cozinha quando entrei, perguntou se eu queria comer alguma coisa e avisou que tinha comprado o refrigerante de que eu gostava. Peguei uma lata na geladeira, agradeci e subi para o quarto, onde Felipe estava terminando alguma coisa no computador.

Ele mal teve tempo de perguntar como tinha sido meu dia.

— Tá, eu preciso te contar uma coisa. Eu comecei a pesquisar uns programas para morar fora e descobri que talvez dê para trabalhar enquanto faço isso. Não é exatamente um intercâmbio daqueles de estudar inglês, sabe? Tem algumas opções diferentes, mas eu gostei bastante das que encontrei no Canadá. Ainda preciso entender como funciona a documentação e tudo mais, só que parece muito mais possível do que eu imaginava.

Sentei na cama e abri o celular para mostrar um dos sites.

Felipe girou a cadeira na minha direção.

— Pera, você tá falando de fazer intercâmbio nas férias ou de passar um tempo morando lá?

— Morar mesmo. Eu ainda não sei por quanto tempo, depende do programa e de quanto dinheiro eu precisaria juntar. Mas tem gente que fica seis meses, um ano... Eu vi umas meninas contando como foi a experiência delas, e uma conseguiu trabalhar cuidando de crianças. Achei interessante porque eu gosto de criança e poderia ganhar alguma coisa enquanto estivesse lá.

Ele ouviu, olhando de vez em quando para as informações que eu mostrava na tela.

— Você começou a ver isso quando?

— Essa semana. Quer dizer, a ideia veio antes, mas comecei a pesquisar de verdade agora. Eu sei que ainda tá tudo meio bagunçado, só que quanto mais eu leio, mais vontade tenho de ir.

— Eu percebi — ele disse, com um sorriso pequeno. — Você não parou de falar desde que chegou.

Ri e coloquei a lata de refrigerante na mesinha.

— Desculpa. É que eu passei os últimos dias lendo tanta coisa que precisava contar pra alguém. Minha mãe ainda nem sabe, e eu não quero chegar falando de morar em outro país sem conseguir responder nenhuma pergunta. Você conhece meu pai.

Felipe riu também, mas não voltou a olhar para o celular.

— Eu entendo você querer viajar, Maria. A gente já conversou sobre isso outras vezes. Só não tinha entendido que você tava pensando em passar tanto tempo fora. Um ano é bastante coisa, principalmente agora que a gente acabou de sair da escola e tá todo mundo começando a organizar a vida.

— Eu sei. Mas é justamente por isso que acho que seria uma boa hora. Ainda não comecei faculdade, não tenho um emprego do qual precisaria sair e, se eu deixar pra depois, provavelmente vai ficar mais complicado. Imagina tentar fazer isso no meio de um curso, com estágio e um monte de coisa acontecendo?

— Tá, faz sentido. Mas você tá falando como se já tivesse decidido ir.

Pensei por um instante.

— Acho que decidi que quero tentar. Ainda não sei se vou conseguir.

Felipe ficou quieto por alguns segundos. Depois se levantou da cadeira e sentou ao meu lado na cama.

— E você pensou no que a gente faria se desse certo? Eu não tô dizendo que você não deveria ir, nem quero ser o cara que estraga uma coisa que você tá claramente animada pra fazer. Só que você chegou aqui falando de seis meses, talvez um ano, e eu tô tentando entender onde eu entro nisso.

Minha animação diminuiu um pouco.

Eu tinha pensado nele, claro. Seria impossível passar tantos dias pesquisando uma mudança dessas sem lembrar que tinha um namorado. Só que pensar em Felipe enquanto eu estava sozinha no quarto era bem mais fácil do que conversar sobre o assunto com ele sentado ao meu lado.

— Pensei, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Eu nem sei ainda se seria seis meses ou um ano. Queria conversar com você antes de começar a tomar qualquer decisão.

— Eu sei, e fico feliz que tenha contado. Só queria entender se você tá imaginando que a gente continuaria namorando enquanto você estivesse lá

Fiquei olhando para ele.

Era uma resposta tão típica de Felipe que quase me fez sorrir. Eu tinha chegado com uma ideia que mal conseguia explicar e ele já estava considerando como poderíamos organizá-la. Se eu dissesse que queria passar seis meses morando num barco, provavelmente perguntaria se havia internet suficiente para fazermos chamadas de vídeo.”

— Não sei se conseguiria namorar à distância — admiti. — Nunca pensei muito nisso. Quer dizer, já pensei quando alguém comentava sobre casais que moram longe, mas é diferente quando a possibilidade é nossa.

— Claro que é. Só que a gente não precisa resolver tudo hoje. Eu só não quero que você passe meses fazendo planos e depois descubra que imaginou uma coisa completamente diferente da que eu imaginei.

Ele tinha razão.

O que era bastante inconveniente.

— Eu não quero fazer isso com você — falei. — Sério. Só que também não quero desistir de pesquisar porque ainda não sei como seria com a gente. Eu gosto muito de você, Felipe. Você sabe disso.

— Eu sei. E eu também gosto de você. É justamente por isso que tô perguntando.

Ficamos um tempo conversando sobre possibilidades. Ele quis saber se eu poderia voltar durante o ano, se teria férias, se o trabalho ocuparia meus fins de semana. Respondi o que sabia e admiti quando não tinha a menor ideia. Em algum momento, Felipe comentou que um amigo do irmão dele tinha passado um semestre fora e continuado namorando, embora os dois tivessem brigado bastante por causa dos horários.

Acabamos discutindo se seria pior sentir saudade de alguém ou ter que combinar um horário para conversar todos os dias, como se a pessoa fosse uma reunião.

Consegui rir de algumas coisas, mas a conversa já não parecia tão simples quanto quando entrei no quarto.

Mais tarde, enquanto eu guardava o celular na bolsa para ir embora, Felipe voltou ao assunto.

— Posso te perguntar uma coisa? E não precisa responder agora se não souber.

— Pode.

— Você tem certeza de que quer ir? Só quero saber o quanto isso já tá decidido pra você.

Olhei para ele.

Até aquele momento, tinha passado boa parte da tarde explicando por que o Canadá parecia uma boa opção, quanto custariam algumas coisas e quais programas eu poderia tentar. Tinha respostas para várias perguntas, mesmo que incompletas. Mas aquela era diferente.

— Tenho vontade de ir — respondi. — Muita. Ainda preciso descobrir se consigo, mas não acho que seja só uma ideia que vou esquecer semana que vem.

Felipe assentiu devagar.

— Tá. Então continua pesquisando. Quando você souber melhor como funciona, a gente conversa de novo.

Concordei.

Na volta para casa, fiquei pensando na conversa. Felipe tinha razão em perguntar sobre nós dois. Se fosse o contrário, eu provavelmente teria feito muito mais perguntas e talvez nem tivesse esperado ele terminar de explicar antes de começar.

Só que, mesmo depois daquela conversa, continuei pensando na viagem.

Cheguei em casa, deixei a bolsa no quarto e fui procurar uma informação sobre os programas de trabalho que tinha esquecido de perguntar a Felipe.

Quando olhei a hora, já estava pesquisando fazia quase uma hora e ainda nem tinha tirado o tênis.

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