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NÃO É SÓ MAIS UMA HISTÓRIA DE AMOR

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Resumo

Não é só mais uma história de amor Por anos, Kassie acreditou nas palavras cruéis que ouviu na infância. Elas se enraizaram tão fundo que moldaram sua própria identidade, criando uma regra clara de sobrevivência: não deixe ninguém se aproximar. Convencida de que sua mente é um lugar perigoso e de que qualquer pessoa se afastaria se conhecesse sua verdadeira realidade, ela escolheu viver isolada atrás das lentes de sua câmera fotográfica. Afinal, observar o mundo é mais seguro do que fazer parte dele. Mas uma promessa à sua única amiga a força a sair da zona de conforto para fotografar um noivado. Ela só não esperava que o destino conspirasse contra seus planos quando seu carro quebra no meio do caminho. Na oficina mecânica onde busca socorro, Kassie colide com Derik. Grosso, irritante e com uma presença física imponente, ele é exatamente o tipo de homem que ela costuma evitar. No entanto, há algo nos olhos verdes dele que a paralisa: Derik parece ler sua alma e saber muito mais sobre os segredos dela do que ela mesma gostaria de admitir. Agora, presa a um homem que desafia suas barreiras, Kassie enfrenta o seu maior fantasma. Ela continuará afastando o mundo por medo de enlouquecer e se machucar, ou ousará confiar que alguém pode aceitá-la exatamente como é? No limite entre o medo e o desejo, ela descobrirá que algumas verdades não podem ser ocultadas para sempre. E que esta... não é só mais uma história de amor.

Status
há 8 horas
Capítulos
19
Classificação
5.0 (1 avaliação)
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

KASSIE

Antes que eu percebesse, estava na mesma floresta novamente, porque era sempre a mesma árvore que me atraía.

Alta demais, seu tronco grosso, com galhos enormes que se entrelaçavam. Meus pés descalços afundavam nas folhas secas que estavam no chão. Tudo era tão verde ao redor. O sol aquecia meu corpo, me deixando relaxada.

O cheiro do orvalho nas folhas impregnava meu nariz. Tão forte, tão familiar. O céu era de um azul claro. Tudo era claro demais. Até minha camisola era branca demais e descia ao longo das minhas pernas.

De repente, o silêncio.

As folhas se mexiam, mas não havia vento. Um calafrio percorreu meu corpo, eriçando os pelos dos meus braços, enquanto meu coração começava a bater depressa. O movimento continuava diante dos meus olhos, mas o som da floresta havia desaparecido, como se alguma coisa tivesse abafado o mundo inteiro.

Estava perto.

Mais perto dessa vez.

Então fiz o que sempre faço.

Corri.

Já podia sentir a escuridão chegando. Querendo me envolver.

Quanto mais eu corria, mais a escuridão tentava me alcançar e, onde ela tocava, consumia tudo em sombras. Atrás de mim, tudo já era escuridão. O verde já não existia mais. A árvore, antes tão imponente, agora não passava de um borrão distante em meio à escuridão.

Continuei correndo até tropeçar em um galho. Caí sobre as folhas e, dessa vez, nem tentei me levantar. A presença estava perto demais. Encolhi o corpo e cobri a cabeça com as mãos, como se aquele gesto pudesse me proteger do que estava prestes a acontecer.

Sabia que ela me alcançaria.

Abri os olhos, ofegante, com a sensação de que ainda havia umidade da floresta grudada à minha pele. Talvez fosse apenas o suor escorrendo pela nuca. Sentei na cama e levei a mão às têmporas, onde a dor de cabeça começava a se instalar, lenta e familiar, como sempre acontecia depois daquele sonho.

O celular vibrava no travesseiro. Olhei para o nome na tela e senti alguma coisa dentro de mim relaxar.

Obrigada, Savy. Na hora certa.

A escuridão nunca chegava a me alcançar de verdade. Alguma coisa sempre me acordava antes. Ainda não sabia se aquilo era misericórdia ou apenas mais uma forma de adiamento.

— Oi, Savy.

— Te acordei, garota?

Respirei fundo, tentando afastar a sensação de que ainda estava naquela floresta. Por mais recorrente que fosse o pesadelo, eu sempre acordava com o mesmo aperto no peito.

— Você me acordou na melhor hora possível, Savy. — Sorri para mim mesma, massageando a têmpora.

— Garota, você vai mesmo de carro? São quase dez horas de viagem! Vai ser cansativo. E a revisão? Fez revisão no carro? Não vai viajar sem revisar tudo, ouviu? Você vai ficar comigo, certo?

Obriguei-me a sair da cama e bocejei antes de responder. Savy conseguia transformar uma simples conversa em uma lista de preocupações, mas era difícil não sorrir diante de tanta insistência.

— Vou de carro, sim. Você sabe que gosto de parar para tirar fotos no caminho. Se ficar cansada, eu paro em algum lugar para descansar. E fiz a revisão há uns três meses. Ah, também aluguei um apartamento no centro por um mês.

Do outro lado da linha, ouvi o suspiro indignado que eu já conhecia tão bem.

— Você não vai ficar comigo, Kassie? Minha mãe vai ficar triste.

A voz dela ficou mais baixa, e já a imaginava fazendo beicinho do outro lado da linha, tentando me convencer a mudar de ideia como tantas outras vezes.

Eu amava Savy. Era minha melhor amiga, a única que eu tinha desde a adolescência, mas estava acostumada a me virar sozinha e a não ser um fardo para ninguém. Dividir o espaço de alguém por tantos dias ainda me parecia mais difícil do que deveria.

— Savy, eu te amo, mas preciso de um quarto para revelar minhas fotos. Foi por isso que aluguei o apartamento. Você pode dormir lá todos os dias, se quiser.

Levantei-me e fui para a cozinha, abrindo a cortina apenas o suficiente para deixar um feixe de luz atravessar a penumbra. Liguei a cafeteira e esperei enquanto o cheiro do café começava a se espalhar pelo ambiente. Eu poderia estar tendo o pior dia da minha vida, mas um café quente ainda conseguia melhorar as coisas.

Levei minha xícara enorme para a sala, afastei as almofadas do sofá com uma das mãos e me acomodei, pronta para ouvir o restante dos planos de Savy.

— Manda mensagem durante o caminho, vou ficar preocupada. Vai ser o melhor noivado de todos! Estou tão animada. E não esquece que vamos escolher seu vestido juntas, garota.

Por último, peguei a Instax, presente do meu pai. Eu a reservava para os momentos que queria guardar só para mim. Segurei-a por alguns segundos antes de guardá-la. Meu pai e Savy eram as únicas pessoas que nunca me julgaram, as únicas que pareciam me conhecer de verdade sem ter receio de mim. Com eles, eu não precisava me esconder.

— Você vai adorar!

A felicidade na voz dela era tão evidente que quase consegui esquecer a dor de cabeça, que começava a aumentar outra vez.

Fiquei olhando para a televisão desligada, tentando entender em que momento havia concordado em fotografar o noivado da irmã dela. Provavelmente durante uma das trinta ligações que Savy fazia por semana, quando eu dizia sim para alguma coisa sem prestar a devida atenção. Era a única explicação plausível.

Pouco tempo antes, eu havia feito uma exposição temática de natureza. O sucesso da mostra deveria me garantir alguns meses sem precisar aceitar trabalhos que envolvessem fotografar eventos. Minha especialidade eram as paisagens, e eu pretendia continuar assim pelo maior tempo possível.

Fotografar uma paisagem era diferente de fotografar pessoas.

As árvores não se mexiam quando eu levantava a câmera. Não perguntavam se estavam bonitas, não tentavam esconder uma cicatriz nem forçavam um sorriso que não sentiam.

Eu podia permanecer diante delas durante vários minutos sem precisar dizer uma palavra. Esperava a luz mudar, o vento atravessar as folhas e a sombra deslizar pelo tronco como se tivesse todo o tempo do mundo — e tivesse mesmo.

Com as pessoas, era diferente. Eu precisava capturar um instante antes que percebessem que estavam sendo observadas, antes que começassem a atuar para a câmera ou se lembrassem de que estavam sendo vistas e, por isso, tentassem se esconder.

Com as árvores, eu podia observar à vontade. Talvez fosse por isso que gostasse tanto delas. Nunca me olhavam de volta, e isso me acalmava. Diante delas, não precisava temer vínculos que pudessem ser quebrados, amizades que acabassem ou amores que um dia fossem embora.

Talvez fosse justamente o contrário. Talvez elas me olhassem de um jeito que eu não precisasse decifrar, sem esperar uma resposta ou exigir que eu fosse alguma coisa além do que era. Ficar diante de uma árvore era a única forma de companhia que eu conhecia que não me pedia nada em troca.

— Vamos, Kassie. Coragem. Você só precisa fotografar um noivado — falei para mim mesma, levantando-me para buscar mais café.

Meus equipamentos estavam espalhados pela mesa, e me arrependi de não ter feito uma lista antes de começar a arrumar tudo.

A Canon foi a primeira a entrar na mochila acolchoada. Era a câmera que usaria no noivado.

Com a Fuji, tive outro cuidado. Peguei-a quase com reverência e separei os rolos de filme preto e branco que levaria, acomodando-os no compartimento interno, protegidos da luz. Nunca pareciam suficientes, mas sempre acabava levando mais do que planejava. Gostava daquele filme para fotografar árvores: a luz atravessando as folhas, os troncos cobertos de musgo, a neblina presa entre os galhos. Sem o verde, tudo ganhava outra profundidade, reduzido à luz, à sombra e à textura.

O kit de revelação coube nas duas caixas organizadoras. Valia a pena levá-lo, já que a floresta de Hendersonville ficava a uns vinte ou trinta minutos do centro. Talvez encontrasse material suficiente para uma nova exposição.

Conferi o equipamento antes de fechar a mochila e acomodei o kit de revelação em duas caixas organizadoras. Valia a pena levá-lo. A floresta de Hendersonville ficava a vinte ou trinta minutos de carro do centro, e eu poderia aproveitar a viagem para conseguir material suficiente para uma nova exposição.

Por último, peguei a Instax, presente do meu pai. Eu a reservava para os momentos que queria guardar só para mim. Segurei-a por alguns segundos antes de guardá-la. Meu pai e Savy eram as únicas pessoas que nunca me julgaram, as únicas que pareciam me conhecer de verdade sem ter medo de mim. Com eles, eu não precisava me esconder.

A lembrança me apertou o peito. Peguei o celular e mandei uma mensagem para ele.

KASSIE

Estou indo para a casa da Savy hoje. Saudades.

Deixei o aparelho sobre a mesa e voltei a organizar minhas coisas. Não demorou nem dois minutos para que a tela acendesse com a resposta.

PAPAI

Manda um abraço para a Savy. Aproveita e vem para casa. Estamos com saudades.

KASSIE

Se der tempo, eu vou.

Mas eu sabia que não iria. Ainda não. Não queria vê-la, embora nem eu mesma conseguisse explicar exatamente o motivo. Talvez ainda não a tivesse perdoado. Ou talvez já tivesse perdoado, mas não conseguisse suportar a maneira como continuava me olhando, como se ainda houvesse alguma coisa errada comigo.

Fui até a cômoda e peguei minhas pulseiras de couro, escolhendo algumas entre as diferentes cores que costumava usar. Coloquei-as nos pulsos, cobrindo a pele que me fazia lembrar de tudo o que eu preferia esquecer.

Ela havia me dito, olhando nos meus olhos, que sentia vergonha de mim, que eu não era normal, enquanto eu me recuperava no hospital.

A palavras se enraizaram tão fundo que, com o tempo, deixaram de ser apenas uma crueldade dita por alguém e passaram a fazer parte da maneira como eu me enxergava. Por mais que tentasse ignorá-las, havia dias em que bastava olhar para os próprios pulsos para ouvi-las outra vez.

Arrumei a mala com vestidos básicos, jeans, camisetas e shorts. O biquíni também precisava entrar. Conhecendo Savy, se eu esquecesse o meu, ela me obrigaria a comprar um daqueles minúsculos que adorava escolher para mim.

Queria chegar perto da cachoeira e fotografar de lá. Já conseguia imaginar o enquadramento.

Depois, levei tudo para o meu companheiro de aventuras: o Subaru Impreza. Não era novo, mas eu adorava sua cor cinza-escura, que disfarçava a sujeira das estradas de terra por onde gostava de me aventurar. Até então, ele nunca tinha me decepcionado.

Antes de sair, mandei mais uma mensagem para Savy.

KASSIE

Estou saindo agora. Por volta das 16h estarei chegando. Eu te ligo.

SAVY

Kassie, é muito tempo de estrada. Toma cuidado. Te amo, garota.

KASSIE

Não se preocupe, mamãe. Qualquer coisa, te ligo.

— Vou mandar mensagem. E desde quando virei sua boneca, Savannah? — perguntei, já imaginando as longas horas nas lojas, experimentando vestidos, uma das coisas que eu mais odiava.têmporas, onde a dor de cabeça começava a se instalar, lenta e familiar, como sempre acontecia depois daquele sonho.

A resposta me fez sorrir. Savy podia ser exagerada, mas havia algo reconfortante em saber que alguém se preocupava tanto comigo.

E, quando se entra em um carro para uma viagem de quase dez horas, existe uma coisa tão importante quanto abastecer o tanque: a playlist.

Liguei Lonely Day, e aumentei o volume. A música preencheu o interior do Subaru enquanto eu deixava a cidade para trás, acompanhando a estrada com os dedos batendo discretamente no volante.

As primeiras quatro horas passaram entre trechos de rodovia, placas que anunciavam cidades desconhecidas e paradas para esticar as pernas. Quando o desconforto começou a incomodar minhas costas, encostei em um posto de gasolina para abastecer e tomar um café.

— Moço, pode completar o tanque para mim? E tem um café bom aqui?

O frentista me respondeu com um sorriso largo e uma piscadela, garantindo que o café era ótimo. Agradeci com um sorriso educado e entrei na conveniência, onde comprei um copo grande de café para viagem e um salgado.

Quando voltei para o carro, Diary of Jane, tocava na playlist. Eu não me considerava emo, mas talvez carregasse por dentro uma escuridão que não sabia explicar. Não era exatamente tristeza. Se tivesse que transformar aquela sensação em uma paisagem, imaginaria uma praia no inverno, sob um céu carregado, com a névoa avançando sobre a areia e apagando aos poucos a linha do horizonte.

Às vezes, achava que meu coração era assim: um lugar onde até a beleza parecia distante, como se eu precisasse olhar com atenção para encontrá-la.

As horas seguintes passaram devagar. Casas, carros e placas deslizavam pela janela, mas nada me fazia querer parar. Eu não fotografava qualquer paisagem só porque estava diante dela; precisava encontrar alguma coisa que justificasse o clique, um detalhe que talvez passasse despercebido para outra pessoa.

Às vezes, me perguntava se enxergava o mundo do mesmo jeito que os outros. Onde alguém via apenas uma estrada, eu procurava enquadramentos; onde olhavam para o céu, eu reparava na luz e nas sombras que se formavam por alguns segundos e nunca mais voltariam a ser iguais.

Parei em outro posto para usar o banheiro e reabastecer o café. Enquanto esperava, conferi o celular e encontrei uma mensagem de Savy.

SAVY

Garota, onde você está?

KASSIE

Mais duas horas de viagem e eu chego. Está tudo bem, não se preocupe.

Guardei o aparelho e retomei o caminho. Cerca de uma hora depois, comecei a perceber a mudança na paisagem, e o canto da minha boca se ergueu antes mesmo que eu me desse conta.

Verde. Como eu amava aquele verde.

A vegetação começou a se adensar ao longo da estrada, e senti a tensão da viagem ceder aos poucos. O ar parecia mudar de textura, ficando mais úmido, mais denso, mais vivo. Sabia que logo encontraria alguma coisa interessante para fotografar. A floresta sempre oferecia alguma coisa a quem estivesse disposta a olhar.

Vinte minutos depois, avistei uma árvore solitária em um pequeno bosque. Seus galhos secos se contorciam em uma dança particular, como se obedecessem a uma música que só ela pudesse ouvir.

Parei no acostamento sem pensar duas vezes. Peguei a Fuji e ajustei o enquadramento até a árvore preencher o visor. O mundo lá fora se reduziu à luz, à sombra e à textura. Por alguns segundos, a estrada, o cansaço, a viagem e o noivado deixaram de existir.

Então, o obturador disparou.

Não sabia como aquelas paisagens conseguiam fazer meu dia valer a pena. Talvez porque não precisassem de nada de mim. Talvez porque, diante delas, eu não precisasse ser nada além de alguém que olha.

Guardei a câmera e voltei para o Subaru ainda sorrindo. A fotografia já estava na minha cabeça, e eu mal podia esperar para revelar o filme e descobrir se havia conseguido capturar aquilo que vira pelo visor.

Girei a chave na ignição, mas o motor respondeu com um ruído estranho, uma tentativa curta e falha de voltar à vida.

Tentei novamente. Engatei a primeira marcha e pisei no acelerador, mas o carro não respondeu.

Na terceira tentativa, nem mesmo o ruído veio. O silêncio do motor pareceu ainda mais estranho depois de tantas horas ouvindo música e o som constante da estrada.

Fiquei com as mãos na chave por alguns segundos, esperando alguma reação.

Nada.

Não podia ser a bateria. Eu a tinha trocado havia cinco meses.

Soltei o ar devagar, tentando controlar a irritação. Não ligaria para Savy, porque ela entraria em pânico antes mesmo de saber o que havia acontecido. O melhor seria encontrar um guincho e resolver o problema antes de avisá-la.

Peguei o celular e procurei um contato.

— Boa tarde! Jonathan falando.

— Boa tarde, Jonathan. Meu carro quebrou. Você está ocupado? Preciso levá-lo até uma oficina na cidade. Estou a uns quarenta minutos de Hendersonville.

— Manda a localização. Já vou te buscar. Conheço uma oficina muito boa e deixo você lá.

— Obrigada! Vou esperar aqui.

Guardei o celular e me acomodei no banco, olhando para a estrada enquanto aguardava. Uma hora e meia depois, o guincho finalmente chegou à oficina. Jonathan estacionou diante da entrada e conversou com um rapaz que saiu para recebê-lo antes de voltar ao caminhão.

Agradeci pela ajuda, embora ele tivesse tentado puxar conversa comigo durante quase todo o trajeto. No final, acabou desistindo.

Todos desistem.

O pensamento surgiu sem que eu o convidasse. Eu estava cansada demais para me importar com o que aquela frase dizia sobre mim.

Um rapaz sorridente vestindo um macacão azul marinho, veio em minha direção, enxugando as mãos em um pano. Tentei retribuir o sorriso, mas o cansaço tornou o gesto difícil. Só então percebi que apertava o pingente com tanta força que meus dedos estavam quase sem cor.

— Boa tarde. Então, o que temos aqui? — perguntou ele, com um tom descontraído.

— Boa tarde. Sou Kassie. — Estendi a mão, obrigando meus dedos a soltarem o colar. Ele pareceu notar o gesto, mas não comentou. — Fiz uma viagem de dez horas e meu carro simplesmente parou de funcionar a quarenta minutos daqui.

— Você pode abrir o capô para mim? — pediu gentilmente.

Entrei no Subaru e procurei a alavanca. Antes que conseguisse puxá-la, ouvi o rapaz chamar alguém em voz alta:

— Derik! Vem dar uma olhada neste carro!

Saí do veículo, olhando de um lado para o outro. Se ele precisava chamar outra pessoa, o problema devia ser sério. Meu estômago se apertou diante da possibilidade de ficar sem carro por vários dias. Eu dependia dele para tudo, principalmente para chegar aos lugares que queria fotografar.

Então, uma voz masculina respondeu do outro lado da oficina, carregada de irritação:

— Adam, não pegue mais carros. Nós vamos viajar.

Meu rosto esquentou.

Olhei para Adam, sem saber muito bem o que dizer. Eu não fazia ideia de que ele estava prestes a viajar ou de que meu carro poderia atrapalhar os planos de alguém.

— Desculpe, eu… eu não sabia. Vou chamar o guincho para tirar o carro daqui.

As palavras saíram depressa, e senti o calor que subia pelo pescoço até as bochechas.

Adam se aproximou com aquele sorriso enorme, como se nada daquilo fosse motivo para preocupação.

— Onde está a chave?

Apontei para o carro. Ele pegou a chave e respondeu, como se a decisão já estivesse tomada:

— O carro fica.

Pisquei, sem entender.

— Mas…

— Derik, você vai querer ver esse carro! — Adam gritou novamente, inclinando-se para observar o motor.

Soltei o ar devagar, tentando controlar o calor no rosto. Não queria causar problemas nem atrapalhar os planos de ninguém. A irritação daquele homem deixara isso bastante claro, mesmo sem que ele precisasse falar comigo diretamente.

Um estrondo veio da oficina quando o capô de outro carro se fechou. Meu coração acelerou, e ergui os olhos na direção do barulho.

E esse tal de Derik parecia estar vindo em nossa direção.



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