Chapter 1
A carruagem de Helena Avelar atravessou os portões da capital pouco antes do anoitecer, quando o céu adquiria a cor de uma ferida antiga.Ela não via Valedouro havia quatro anos. Ainda assim, reconheceu as torres de pedra, as bandeiras negras da Coroa e o perfil severo do palácio erguido sobre a colina. Tudo parecia menor do que em suas lembranças, exceto a sensação de que a cidade inteira a observava.Helena afastou a cortina da janela. Homens armados ladeavam a estrada. Entre eles, um cavaleiro vestido de negro permanecia imóvel sobre um cavalo cinzento. Não precisava ver o rosto para saber quem era.Cassian Valemont.O príncipe-general não deveria estar ali. Não para recebê-la. Não depois de tantos anos de silêncio.Mas ele ergueu os olhos no exato instante em que a carruagem passou, como se tivesse sentido a presença dela antes mesmo de vê-la. A distância não impediu Helena de perceber a intensidade daquele olhar. Cassian não a cumprimentou. Não sorriu. Apenas acompanhou sua passagem com a expressão de um homem que acabara de recuperar algo que julgava perdido.
Ela soltou a cortina.— Não faça essa cara — disse Rafael, sentado à sua frente. — Cassian está encarregado da segurança da capital. Isso é tudo.— Ele sempre olha para as pessoas como se estivesse avaliando onde enterrá-las?— Apenas para os inimigos.— Então devo me sentir lisonjeada?Rafael suspirou, mas não respondeu. O irmão conhecia Helena bem demais para tentar convencê-la de que o general era indiferente. E Cassian conhecia Helena bem demais para fingir que aquele encontro fora casual.Quando a carruagem parou diante da residência Avelar, um criado abriu a porta. Helena desceu sem aceitar a mão oferecida. O ar da noite trazia cheiro de chuva, ferro e fumaça. Antes que pudesse subir os degraus, ouviu cascos atrás de si.Cassian desmontou.
A presença dele alterou o espaço. Alto, impecavelmente vestido com o uniforme de general, trazia no peito as medalhas das guerras do norte. O rosto era mais duro do que ela lembrava, marcado por uma cicatriz fina junto à sobrancelha. Apenas os olhos permaneciam iguais: escuros, atentos e perigosamente fixos nela.— Lady Helena — disse ele.A voz grave percorreu sua pele como uma ameaça sussurrada.— Alteza.— Não me chame assim.— Como prefere que eu o chame?Cassian parou a poucos passos. Rafael se moveu discretamente entre os dois, mas o general sequer olhou para ele.— Pelo nome que você usava antes de partir.Helena inclinou a cabeça.— Eu era uma menina naquela época.— Não — respondeu Cassian, baixo. — Você era a única coisa nesta corte que eu não podia desejar.O silêncio caiu sobre os degraus.Rafael empalideceu.Helena sentiu o coração bater uma vez, forte demais. Cassian pareceu perceber. Pela primeira vez, algo semelhante a satisfação atravessou seu rosto.Ela subiu um degrau, aproximando-se o suficiente para que apenas ele ouvisse sua resposta.
— E agora?O olhar dele desceu até a boca dela antes de retornar aos seus olhos.— Agora você voltou para o meu alcance.Helena sustentou a expressão, embora cada palavra tivesse encontrado um lugar dentro dela que não deveria existir.— Engana-se, general. Eu não pertenço ao alcance de homem algum.Cassian aproximou-se apenas o bastante para que o calor de seu corpo vencesse o ar frio da noite.— Ainda não, Helena.Então ele se afastou, deixando-a com a certeza terrível de que seu retorno à capital não era uma volta para casa.Era o início de uma guerra.



