Prólogo
Prólogo
1993, Internato Saint Vermont
Enquanto os dois estavam lá dentro conspirando contra mim, tranquei a porta com a chave mestra e derramei a gasolina lentamente, observando o rastro que deixava no piso de madeira enquanto escorria para dentro do quarto.
Confesso que teria sido muito mais fácil se ela tivesse cedido ao meu charme, assim como as outras antes dela cederam. Mas ela inventou de dar uma de detetive e mexer nas minhas coisas.
Riscar o fósforo, foi a parte mais fácil do plano que havia pensado exclusivamente para Perla. Difícil mesmo foi segui-la sem ser percebido, enquanto ela se deslocava pelos corredores até o quarto dele.
Enquanto as chamas começavam a lamber as paredes do quarto, o som abafado de seus gritos e os punhos desesperados socando a porta trancada funcionavam como música clássica para os meus ouvidos.
De todas as mortes que havia provocado com minhas próprias mãos, essa tinha um sabor diferente. Permaneci ali por um tempo, apreciando a fumaça começar a vazar timidamente pelas frestas da porta e a preencher o corredor.
Sorri, ao perceber que o calor que ela havia me negado em vida agora ardia, de forma literal, por todo o seu corpo.
Perla achou que podia me descartar. Achou que brincar de detetive com o “padrezinho” recém-saído do seminário seria o suficiente para encurralar alguém como eu.
Pobre, doce e arrogante Perla. O romantismo que ela e Tiziano protagonizavam pelos cantos escuros deste internato pedia um final à altura. Uma verdadeira tragédia italiana.
Ainda precisava ajustar o enredo que seria noticiado.
Ajeitei o colarinho da minha camisa social, sentindo o tecido grudar na nuca. Não era suor de medo. Nunca foi. Era a adrenalina pura e tóxica fazendo meu sangue ferver com muito mais intensidade do que o fogo que se alastrava a poucos metros.
Recuei pelas sombras, sentindo o calor começar a roubar o oxigênio dos meus pulmões. Fui rápido. Caminhei a passos firmes até o quarto vazio de Tiziano — o homem santo que trocara os votos celestiais pelos lençóis de uma aluna intrometida.
Tirei do bolso do terno a cereja do meu bolo.
A caixa de veludo escuro pesava em minhas mãos, cheia com as joias das garotas que eu já havia eliminado. Afundei-a no fundo do armário do padre, escondendo o tesouro sujo sob as batinas pretas e imaculadas. O cenário estava pronto. A polícia encontraria as jóias das herdeiras assassinadas e a história se escreveria sozinha: o clérigo desonrado, consumido por uma loucura passional, assassina a aluna e perece nas chamas do próprio pecado.
Saint Vermont continuaria intocada e, em Milão, meu pai finalmente entenderia que eu estava pronto para assumir o poder da nossa linhagem. Quem quer que ousasse cruzar o meu caminho acabaria exatamente assim. Em pó.
O problema é que o passado tem uma mania irritante de não saber ficar morto.
Quando aquele diário maldito, escondido nas entranhas da biblioteca de Saint Vermont, finalmente visse a luz do dia décadas mais tarde, os herdeiros daquela farsa descobririam a verdade da pior maneira possível.
Descobririam que o fogo que eu acendi naquela noite nunca chegou a se apagar de verdade.
Ele apenas esperou o oxigênio certo para voltar a queimar.







