Casa de verão
Eu me lembro de Harry Waverley desde que me entendo por gente, desde antes de eu saber o que era se atrair por alguém ou o que significa a diferença entre ser amada e ser desejada. Harry sempre esteve ali.
Nas fotografias antigas da minha infância, ele aparecia, sempre foi um pouco alto demais para a idade e sempre com um copo de alguma coisa na mão e um sorriso preguiçoso que era até fofo na adolescência, mas depois virou um sorriso debochado. Às vezes, estava sentado ao lado do meu pai à mesa de jantar. Em outras, aparecia com alguma garota linda e rica apoiada em seu ombro.
Eu tinha quatro anos quando o conheci de verdade. Harry tinha dezoito, era calouro na universidade e acabara de voltar para casa depois de seu primeiro semestre longe da família. Naquela noite, nossos pais haviam organizado um jantar, como faziam pelo menos uma vez por mês. Os Waverley e os Bennett eram amigos a muito tempo. Havia fotografias dos dois casais juntos da décadas antes, fotos de viagens e muitas histórias da casa de verão dos Waverley.
Só um pouco mais velha eu percebi que eles tinham uma condição financeira muito melhor que a nossa, mas o senhor Enrick Waverley nunca ligou para isso. Ele conheceu meu pai, Daniel Hart na faculdade, onde começaram a namorar quem hoje são suas respectivas esposas, Jessica Waverley e Laura Bennet. Bennet é o sobrenome da minha mãe, que meu pai aderiu ao se casarem. Os Waverley tinham apenas uma casa enorme e sempre viveram uma vida de luxo. Harry Waverley cresceu nessa família e acho que por isso ele sempre foi tão seguro de si.
Minha família tinha uma boa condição ao ponto de morar em um bom bairro na cidade, mas era uma casa simples. Eu dependia de uma bolsa para entrar na faculdade e sempre fui uma aluna exemplar, pois queria deixar de ser um gasto para os meus pais o mais rápido possível. Meu pai sempre foi meio ausente e dizia que era por trabalhar muito, mas eu sabia que isso não era bem verdade pois minha mãe trabalhava também, e ela tentou ser o mais presente possível, mesmo que no fim, eu tivesse crescido ficando bastante tempo sozinha em casa e tendo que me virar desde cedo para resolver tudo.
Na primeira lembrança nítida que tenho de Harry, estou escondida embaixo da mesa de jantar. Estava particularmente ofendida porque ninguém parecia interessado em saber onde eu havia escondido minha boneca.
Foi Harry quem me encontrou.
— O que você está fazendo aí, menininha?
Olhei para cima e encontrei um rosto jovem, bonito e divertido, com cabelos castanhos despenteados e olhos despreocupados. Ele se abaixou e afastou a toalha da mesa para me enxergar melhor.
— Não sou menininha.
— Não? E o que você é?
— Uma princesa.
Ele levou a mão ao peito, fingindo surpresa.
— Me desculpe, alteza. Não sabia que estava na presença da realeza.
Harry estendeu os braços para mim e me tirou debaixo da mesa, colocou-me no colo e passou os quinze minutos seguintes me ajudando a procurar a boneca desaparecida. Quando finalmente a encontramos dentro de um dos vasos decorativos, ele declarou que eu era a melhor detetive que já conhecera.
Na semana seguinte, me trouxe uma boneca.
Minha mãe ficou sem jeito.
— Harry, querido, você não precisava fazer isso.
— Eu sei, tia. Mas ela me disse que a coleção dela estava incompleta.
Eu tinha mencionado isso no ocorrido anterior e é claro que como qualquer criança, eu o adorei por dar toda a atenção ao que eu falei, quando a maioria dos adultos não fazia isso.
Harry tinha muitas namoradas.
Quando eu tinha seis ou sete anos, elas eram apenas mulheres bonitas que apareciam em nossos jantares, riam das piadas dele, tocavam seu braço quando falavam e inclinavam a cabeça quando ele se aproximava para sussurrar alguma coisa. Eu me perguntava por que ele quase nunca levava a mesma garota duas vezes.
— Harry ainda está descobrindo o que quer — minha mãe respondeu certa vez, quando ela e a mãe de Harry falavam sobre as namoradas dele na universidade.
Já eu, naquela época, queria um pônei, uma casa na árvore e permissão para comer sorvete antes do jantar. Não imaginava que, um dia, desejaria uma coisa tão ridícula quanto ser a garota sentada ao lado de Harry Waverley.
Todos os verões, nossas famílias passavam algumas semanas na propriedade dos Waverley à beira do lago. A casa ficava a algumas horas da cidade, cercada por pinheiros e por um gramado que descia suavemente até a água. Havia um píer de madeira, um barco que Harry aprendera a pilotar ainda adolescente e uma varanda comprida onde os adultos passavam as noites bebendo vinho enquanto nós, os mais jovens, aproveitávamos a propriedade.
Harry costumava passar os verões na companhia de Adam, seu melhor amigo, e Patrícia, sua irmã mais nova. Adam tinha dois anos a menos que Harry e era tão rico quanto inconveniente, enquanto Patrícia, quatro anos mais velha que eu, alternava entre me tratar como uma irmãzinha adorável e fingir que eu era um incômodo, o que eu achava muito injusto, pois sempre fui uma criança bem quieta, retraída e me considerava bem obediente, talvez por ter crescido tendo pouco contato com crianças da minha idade. A medida que fui ficando adolescente, Patrícia e eu nos aproximamos mais.
Harry, por outro lado, nunca me tratava como um incômodo, mesmo ele sendo um adolescente e eu uma criança. Ele me carregava quando eu dormia no carro, comprava os doces que eu gostava e me deixava sentar na frente do barco quando os outros achavam que eu era pequena demais. Quando eu me machucava e minha mãe não estava por perto, era para ele que eu pedia ajuda.
Haviam dias de chuva onde a luz caía e eu me recusava a dormir sozinha no quarto, então Harry passava a noite comigo no sofá e assistíamos TV até dormirmos largados ali.
Na manhã seguinte, fazia panquecas para mim.
Na minha cabeça, aquilo significava que eu era especial. E eu era, de certa forma. Só não da maneira que passei a desejar quando cresci. Aos oito anos, eu o achava o homem mais bonito do mundo, com sua altura de 1,87m, cabelos castanhos e olhos azul acinzentados. Aos dez, comecei a entender por que as garotas ficavam estranhas quando ele entrava em um ambiente, ou por que arranjavam desculpas para tocar seus braços cada vez maiores. Aos doze, descobri que era possível sentir ciúme de uma pessoa sem ter qualquer direito sobre ela. Aos treze, comecei a odiar os verões em que tinha que ficar perto dele.
Eu gostava da casa, do lago e dos passeios de barco, mas eu odiava o momento em que Harry aparecia no topo da escada com uma garota diferente, anunciando que ela passaria o fim de semana conosco. Odiava quando ele me apresentava com a mesma naturalidade de sempre.
— Essa é a Ame. Minha pequena melhor amiga.
Aos treze anos, eu já não queria ser pequena. E definitivamente não queria ser apenas amiga. Eu era bem alta para a minha idade e já tinha busto, mas sabia que ainda tinha um rosto jovial que não se comparava às belas meninas ricas que ele levava para o seu quarto.
Queria que notasse quando eu deixava o cabelo solto ou quando usava um vestido mais decotado, e assim ele esquecesse que me conhecia desde os quatro anos. Mas Harry nunca esquecia. Ele me chamava de menininha, de princesa, de pestinha. Perguntava sobre minhas provas e me mandava presentes caros no aniversário.
Quando fiz quinze anos, Harry me deu uma gargantilha de ouro e eu fiquei muito feliz pois era o primeiro presente de adulto que eu recebia dele.
— Dourado combina com a sua pele — Harry explicou, fechando o fecho atrás do meu pescoço. Eu já tinha ouvido isso, pois minha pele era acobreada e meus cabelos cacheados e volumosos, uma combinação que, de acordo com a minha mãe, era perfeita com ouro e cores quentes.
Passei o resto daquela noite tocando o pingente por baixo do vestido. Mais tarde, ouvi-o rindo na varanda com uma garota de cabelos loiros que havia conhecido naquela mesma semana. O colar ficou guardado na gaveta por meses.
Era absurdo, eu sabia. Harry claramente me via como uma criança da família. Nunca existiria algo além do carinho que sempre demonstrara e tudo isso era uma garota crescendo e ficando confusa ao ver seus desejos se despertarem. Ele não estava fazendo nada de errado ao viver sua vida.
Eu sabia de tudo isso. Ainda assim, comecei a ressentir-me dele. Passei a responder com impaciência quando ele perguntava como eu estava, recusar os presentes dele e revirar os olhos quando ele me chamava de princesa.
— O que aconteceu com você, Ame? — perguntou certa vez, quando me encontrou sozinha na cozinha da casa do lago.
Eu estava com quinze anos, sentada sobre a bancada, comendo morangos diretamente da embalagem.
— Nada.
— Você anda brava comigo.
— Talvez você seja irritante.
Ele riu. Como se eu tivesse acabado de dizer alguma gracinha, como se a minha irritação fosse apenas mais uma das pequenas peculiaridades que ele aprendera a tolerar em mim.
— Tudo bem, menininha.
Ele roubou um morango da embalagem, bagunçou meu cabelo e saiu da cozinha. Eu odiei muito aquilo.
No verão em que completei dezessete anos, fiz uma promessa a mim mesma: Eu não seria mais a Ame de sempre. Não correria para abraçar Harry nem esperaria pela atenção dele. Eu seria educada, distante e perfeitamente indiferente. Eu estava cansada de ser a menina mais nova. Aquele verão seria diferente.
Chegamos à casa de verão dos Waverley numa sexta-feira, pouco depois do meio-dia. Minha mãe dirigiu o carro enquanto meu pai falava ao telefone, e eu passei a viagem inteira olhando pela janela, planejando minha atitude nos próximos dias.
A casa surgiu entre as árvores exatamente como eu me lembrava: paredes claras, telhado escuro, janelas enormes refletindo o céu e o lago cintilando ao fundo. Fiquei feliz que pelo menos eu havia mudado. Tinha cortado um pouco o cabelo, aprendido a me maquiar de forma natural e já não comprava mais roupas tão estampadas. Não era uma transformação extraordinária. Eu já havia saído com alguns garotos nos últimos meses, mas continuava tendo 1.67 e tendo o mesmo rosto.
— Ame!
A voz de Harry veio da varanda.
Levantei os olhos.
Ele estava encostado na coluna de madeira, vestindo uma camiseta branca e bermudas escuras. O cabelo castanho caía desordenado sobre a testa, e os óculos de sol estavam presos à gola da camiseta.
Meu coração acelerou. Era humilhante.
Harry desceu os degraus e veio em minha direção, envolvendo-me com os braços e erguendo-me ligeiramente do chão, como fazia desde que eu era pequena.
— Olhe só para você! — exclamou. — Está toda bronzeada. Sentiu minha falta?
Sorri sarcasticamente de maneira tão controlada que quase me senti orgulhosa.
— Nem um pouco.
Harry levou a mão ao peito.
— Cruel. Depois de tudo o que fiz por você.
— Você sobrevive.
— Espero que sim. Seria uma tragédia morrer de saudade.
Ele cumprimentou meus pais, pegou minha mala antes que eu pudesse protestar e subiu as escadas para a casa.
Adam estava esparramado no sofá, com os pés sobre a mesa de centro, enquanto Patrícia organizava algumas revistas em uma pilha ao lado da janela. Os dois vieram cumprimentar meus pais e me cumprimentaram com o entusiasmo habitual, e Patrícia veio me abraçar.
— Meu Deus, Ame! Você está linda!
— Obrigada.
— Está namorando?
Quase engasguei com o ar.
— Patricia!
Ela riu, satisfeita com a própria pergunta.
— O quê? Você já tem dezessete anos. É uma pergunta perfeitamente normal.
— Ela acabou de chegar — Harry interveio, deixando minha mala perto da escada. — Dê cinco minutos antes de começar o interrogatório.
— Você sempre a protege — Patricia reclamou.
— Alguém precisa, você fica mais chata a cada verão. Não é, Ame?
Olhei para ele. Era exatamente esse o problema. Eu queria dizer a ele que não precisava mais ser protegida. Em vez disso, peguei minha mala de volta, revirei os olhos e subi as escadas até o quarto.






