Prologo
A noite no norte gélido dos vampiros era um manto de veludo negro pontilhado por estrelas frias, mas dentro do suntuoso castelo do jovem duque Lucian, o salão de baile transbordava calor, música e luz dourada.
Aos dezoito anos recém-completados, Lucian ostentava a imponência natural de sua estirpe: a pele pálida como alabastro contrastava com os olhos profundos e magnéticos, e a postura ereta carregava o peso de uma nobreza milenar.
Para os vampiros, a eternidade era um fardo silencioso. Suas vidas não se extinguiam pelo tempo, e a raridade de um nascimento — que levava décadas ou séculos para acontecer — tornava cada criança o tesouro mais precioso daquela sociedade.
Mas para Lucian, a raridade do mundo perdeu o sentido diante de uma única loba: Cloe.
Aos doze anos, Cloe era a caçula da realeza dos lobos das terras quentes do sul. Doce, frágil para os padrões de sua raça feroz, mas dona de um sorriso que desarmava qualquer criatura, ela havia sido acolhida por Lucian e pela brilhante bruxa Cally quando formaram um trio inseparável na adolescência.
Anos de cartas infinitas, bailes e confidências haviam tecido uma redoma de proteção e carinho ao redor da jovem loba.
Ninguém, contudo, prestou atenção nos olhos de Cally.
Aos quinze anos, a jovem bruxa nutria por Lucian um amor que crescera em silêncio, alimentado pela convicção de que ele seria seu par no baile de maior idade. Na véspera da grande celebração, porém, as paredes do castelo traíram o segredo.
Escondida nas sombras da escadaria de pedra, Cally ouviu cada palavra do coração de Lucian confessada aos pais: ele pediria a mão de Cloe. Ele sentia que a loba era sua verdadeira alma gêmea.
O mundo de Cally ruiu.
Desde os primeiros passos na magia, os anciãos do norte e os próprios pais haviam repetido a regra mais sagrada de sua estirpe, gravada a ferro e fogo na alma de todo bruxo:
"Nunca fale nada no calor da emoção e nem de brincadeira. O caminho do silêncio é o único que devem traçar; com a idade, vocês descobrirão o momento certo de falar e quais palavras podem usar."
A dor, o ciúme e a traição rasgaram o véu daquela sabedoria milenar. As emoções de Cally transbordaram, quebrando o pacto do silêncio com um grito que rasgou a noite. Com os olhos cheios de lágrimas e o peito tomado por um ódio ancestral, ela proferiu a sentença enquanto suas vestes começavam a se desintegrar no vento:
— Lucian e Cloe, vocês não vão ficar juntos! Eu não vou permitir! No dia de hoje, eu coloco fim à minha vida, e o amor de vocês não se concretizará, nem que vivam centenas de vidas. Vocês vão se cruzar, mas nunca se amar eternamente! Lucian, você brincou com meu coração... Eu te condeno ao sono eterno: assim que seus lábios derem o primeiro beijo de amor, você dormirá e só acordará quando a alma de Cloe renascer.
—E você, Cloe... morrerá assim que o primeiro beijo de amor for dado, presa em uma reencarnação sem fim.
Antes que qualquer feitiço pudesse ser interceptado, o corpo da jovem bruxa desfez-se em poeira prateada, levada pelo vento gélido para nunca mais retornar.
Dentro do salão, alheios à tragédia que acabara de ser tecida nas sombras, os festejos continuavam. Diante de toda a corte, com o coração acelerado e as bochechas coradas, Cloe aceitou a declaração de amor de Julian. O salão explodiu em aplausos.
As faces se aproximaram. Os lábios se tocaram no primeiro beijo de amor verdadeiro.
No segundo seguinte, o som seco de dois corpos colidindo contra o piso de mármore congelou o ar. Lucian despencou em um sono profundo e gélido, imóvel como uma estátua. Ao lado dele, Cloe jazia completamente sem batimentos, a vida esvaindo-se de seu peito em um piscar de olhos.
O pânico tomou conta do castelo. Fadas curandeiras foram chamadas às pressas, mas suas magias naturais ricocheteavam na aura sombria que envolvia o casal. Os pais de Cloe chegaram correndo, desesperados, enquanto os pais de Cally, devastados pela ausência e pelos sussurros sobre o destino da filha, retornaram às pressas para o norte sem respostas.
O trio que antes representava a união perfeita agora dividia-se em um morto, um desacordado e uma desaparecida. Um quarto de monitoramento estéril foi erguido no castelo, onde curandeiros vigiavam día e noite a respiração imperceptível do jovem duque, enquanto um funeral digno da realeza dos lobos era realizado para Cloe no sul.
Os anos viraram séculos. O ciclo da maldição provou ser impiedoso.
A cada cem anos exatos, o feitiço rompia o lacre do tempo e Lucian despertava. O despertar nunca trazia paz; trazia a agonia de sentir no próprio peito o exato momento em que a alma de Cloe renascia em uma nova família, em um corpo diferente, com uma vida totalmente alheia à anterior.
O vampiro imortal, protegido contra a estaca de carvalho de prata mas vulnerável à dor da saudade, tornava-se um caçador de sombras.
Em algumas vidas, ele a encontrava cedo demais, conseguindo vigiá-la de longe até o momento certo de se aproximar, mas um vislumbre ou um toque descuidado despertava as memórias de Cloe cedo demais — e, pela lei da maldição, a lembrança do passado trazia a morte imediata da loba, fazendo-o despencar de volta ao sono profundo.
Em outras vidas, ele a encontrava tarde demais, quando ela já estava idosa, cercada por netos ou presa a outra realidade.
Houve vidas em que a encontrou ainda bebê, apenas para vê-la murchar nos braços assim que o eco de quem ela fora sussurrava em sua mente.
Cada ciclo terminava do mesmo jeito: Cloe morria nos braços dele, e Lucian retornava ao seu esquife de gelo e silêncio, contando os dias para mais cem anos de escuridão.
O ar frio do quarto de monitoramento cintilou com uma poeira prateada invisível aos olhos comuns.
No relógio biológico milenar dos vampiros, o centésimo ano havia se completado.
Sobre a mesa de pedra polida, os monitores mágicos oscilaram.
Os olhos de Lucian — fechados por um século inteiro — abriram-se lentamente. Neles não havia o torpor do sono, mas o brilho afiado de quem já perdeu tudo e ganhou a única coisa que importa: a certeza.
Ele sentiu o laço vibrar no fundo da alma. Em algum lugar deste vasto mundo dividido entre facções, Cloe havia nascido de novo.
Lucian levantou-se da cama onde repousara por eras. Desta vez, o peso de milênios de erros, de tentativas frustradas e de corações partidos não pesava como fraqueza; transformou-se em pura determinação.
Ele não repetiria os erros do passado. Ele descobrirá a origem daquela maldição, quebrará as amarras do destino e, pela primeira vez em eras incontáveis, segurará sua amada nos braços para sempre.







