Clitoris
C A P Í T U L O U M
“Clitóris.”
Repeti a palavra várias vezes, olhando para mim mesma no espelho enquanto a frustração palpitava. Meus lábios bronzeados se moldavam a cada sílaba. O clitóris; um aparente unicórnio para o sexo masculino, ou seja, uma raridade.
“Já vou sair, Willa.” Jacob, um dos homens de nível mais baixo do meu pai, gritou através da porta do banheiro. Revirei os olhos até o fundo da cabeça. Ele não tinha acabado de fazer isso?
Os azulejos do banheiro deixavam meus pés arrepiados de frio e eu estava ali, sem calcinha, sentindo uma dor incômoda e pesada no baixo ventre. Jacob deixou a área entre as minhas pernas úmida. Ele me excitou, me deixou quente, prometeu que me arrebentaria até o esquecimento, mas tudo que recebi foi uma brisa leve.
Foda-se ele e seu pau de dez centímetros.
Abri rapidamente uma das gavetas sob a pia e puxei meu fiel vibrador, pronta para terminar o serviço sozinha, como sempre.
Talvez o problema fosse eu.
Não me surpreenderia se fosse eu.
Eu também sou uma raridade, ou melhor, uma raridade impossível. Existem sete bilhões de pessoas caminhando nesta Terra e eu não sou uma delas.
Pelo menos não legalmente. Não mais.
Meu pai cuidou disso há muito tempo, quando eu morri. Na época, não questionei a bizarrice da situação ou como aquele corpo protético era exatamente igual ao meu. Aceitei o fato de que pessoas que eu nem conhecia se aproximavam do meu caixão e choravam sobre o corpo de silicone lá dentro. Mesmo aos cinco anos, eu sabia que aquele era o meu normal; afinal, a máfia fazia de tudo para sobreviver.
Daquele momento em diante, meu pai dedicou sua vida a me manter escondida e, claro, a me treinar. As únicas pessoas que sabiam do meu segredo eram meus cinco irmãos mais velhos, meu pai e eu.
Nós somos a família Valentino e com esse nome vinha poder, riquezas e um monte de inimigos. Meu pai, Alessio Valentino, é o chefe da máfia italiana Scillies, mas, há muitas luas, ele se apaixonou por uma mulher americana, uma civil para ser exata: minha mãe.
Ele mudou a família para Nova York, continuando a governar uma vida de crime, mas, ao fazer isso, ele mexeu com algumas pessoas. Particularmente com a família Blackburn, uma organização criminosa notória — ou, essencialmente, a versão americana de uma família da máfia. Meu pai e o líder deles vivem batendo de frente, lutando para ver quem manda mais desde então.
Veja bem, dezesseis anos atrás, eu não fui a única que morreu; minha mãe também, só que a morte dela foi totalmente real e pelas mãos de Titus Blackburn. Meu pai busca vingança há anos, marcando a família Blackburn como nosso inimigo número um.
Após um final climático no banheiro, encostei meu ouvido na porta da sala de jantar e ouvi atentamente a reunião de negócios do meu pai.
“O que você está fazendo, Willa?” Meu coração saltou do peito, jogando minha alma metros para o alto.
“Idiota!” respondi agressivamente ao meu irmão brincalhão, Carlo; ele riu baixo.
Carlo não levava nada a sério. Ele era o tipo de homem que agia antes de pensar. Ele entrava em um bar, começava um tiroteio e saía sem um arranhão enquanto o bar ainda queimava atrás dele. Houve muitas vezes em que Carlo colocou a si mesmo e a nós em uma situação complicada por causa de sua falta de reflexão.
“Te desafio a entrar lá.” Ele sussurrou, jogando uma ameixa para o alto e pegando-a casualmente. Ele me deu aquele sorriso desafiador que irmãos mais velhos fazem sempre que subestimam sua coragem, ou, neste caso, minha estupidez.
“Tudo bem.” murmurei, agindo feito tola.
Sete pares dos olhos mais letais me seguiram enquanto eu mantinha a cabeça erguida e atravessava o comprimento da sala.
Eu conhecia aqueles homens: altamente treinados, sempre de guarda, protetores, assassinos, seis dos melhores e mais frios homens da máfia do meu pai.
“Calma, rapazes, só vim buscar um lanche.” provoquei, encarando Mario, um sujeito fortão vestido com um terno escuro e elegante, que imediatamente apontou sua arma para mim com a trava de segurança desativada.
“Abaixe sua arma.” meu pai ordenou com sua voz sedenta de poder habitual. Continuei andando, abrindo o freezer e fingindo procurar algo lá dentro. “Willa, estamos em uma reunião.” ele me informou severamente.
“Continuem.” sugeri, acenando com a mão para os amiguinhos de negócios do meu pai. O olhar dele se fixou em mim por alguns segundos; era um aviso silencioso de que ele acertaria as contas comigo mais tarde, mas então ele voltou sua atenção para a máfia.
“Continuando de onde parei, precisamos de alguém que ele não esteja esperando. Um informante, alguém que descubra tudo sobre ele. Suas fraquezas, seus pontos fortes, a maneira como ele luta, em que horários do dia é provável que ele esteja desarmado. Nada pode ficar de fora.”
Peguei o sorvete de chocolate duplo e abri a tampa. Todos os olhos se voltaram para mim mais uma vez, parecendo extremamente irritados. Dei de ombros, pedindo desculpas por fazer muito barulho.
“Senhor, poderíamos colocar outra pessoa infiltrada. Deixá-los se aproximar de Ace Blackburn; Toni já é um agente duplo, ele pode colocá-los lá dentro sem levantar suspeitas.” Antonio, meu irmão mais velho puxa-saco, apontou da cadeira central da nossa mesa de jantar.
“Antonio, quem quer que enviemos como infiltrado deve ser treinado o suficiente para lutar, alguém que não tenha medo de disparar uma arma se necessário e alguém disposto a morrer pela família. Eles devem ser inteligentes, fortes e corajosos, mas sem demonstrar isso por fora. Quero que Ace Blackburn nos subestime e nunca veja isso chegando. Não acho que nenhum dos nossos homens se encaixaria nesse papel e não temos tempo para treinar alguns dos novos recrutas.”
“Mas, senhor, acho que temos a pessoa certa para o trabalho.” Antonio fixou seus olhos cor de avelã nos meus e um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios. Não demorou muito para que todas as cabeças ao redor da mesa seguissem seu olhar, inclusive a do meu pai.
“Por que vocês estão todos olhando para mim?” perguntei entre colheradas de sorvete.
“Ela é pequena, feminina e jovem. Ela treinou a vida inteira, provavelmente luta melhor do que a maioria desses caras. Ela manuseou armas e até já atirou antes. Ela nasceu literalmente nisso.” Os olhos do meu pai examinavam minha pessoa com orgulho; eu podia ver o brilho da empolgação da mesma forma que um diamante captura a luz.
“Willa.” Ele pronunciou meu nome com tanto respeito e expectativa. Como se eu fosse a resposta para suas orações e, naquele segundo, eu soube que não havia discussão possível. Meu pai tinha decidido meu destino, gostasse eu ou não. Ele juntou as mãos apenas uma vez, preenchendo a sala com um único som de palmas, e se levantou. “Está decidido.” ele confirmou, exatamente como previ.
Meu pai sacou sua arma, apontou para Mario e puxou o gatilho, colocando um buraco de bala bem limpo entre seus olhos. O silêncio nos envolveu, exceto pelo som do movimento do meu pai ao guardar a arma no cinto.
“Isso foi por apontar uma arma para minha pupila.” ele informou aos rostos pálidos e assustados ao redor da sala. “Saiam agora.” Ele acenou com a mão e, sem um segundo de hesitação, os homens se retiraram de perto da mesa. Meu pai fixou seus olhos miúdos em mim, oferecendo um olhar sólido enquanto avaliava suas chances. “Venha se juntar a mim.” Ele deu um tapinha na mesa de vidro preto e, lentamente, caminhei até lá, levando meu sorvete comigo.
“Você conhece o nome Blackburn, sim?” Seus olhos escuros penetraram minha alma em uma tentativa de me deixar impotente, mas ambos sabíamos que eu nunca desmoronaria sob a intimidação do meu pai.
“Com certeza.” Afastei-me do cara que estava sangrando porque não queria que ele estragasse minha cashmere nova.
“Gabriella!” meu pai repreendeu. “Você precisa ouvir o que vou lhe dizer.” Ele deu um olhar de desaprovação ao meu sorvete de chocolate, mas logo fixou seu olhar cor de ônix no meu e se inclinou para mais perto.
Meu pai era um homem bruto, de constituição robusta e olhar estoico que intimidava até as pessoas mais fortes. Ele se importava com os ‘negócios da família’ e com a vingança pela morte da minha mãe mais do que com sua própria família de sangue, mas isso não significava que ele não nos amasse. Ele nunca disse isso, nem uma vez, mas sentíamos isso através de sua proteção.
“Titus Blackburn morreu recentemente e de forma inesperada; seu filho, Ace, herdou a máfia da família. Você sabe o que isso significa para nós? A família agora está em seu ponto mais fraco, sob um novo governo, de luto, e seu novo líder é jovem e inexperiente. Agora é a hora de atacar. Ace é o último membro da família Blackburn e, quando ele morrer, a máfia deles também acabará. Vamos derrubar Ace e recrutar seus membros para os nossos, dobrando nossa família em tamanho e poder.”
“Não vejo o que isso tem a ver comigo.” O corpo sem vida tombou e atingiu o chão com um baque surdo.
Meu pai estreitou os olhos para mim e os vincos nos cantos de seu rosto mostraram sua idade. “Você não quer vingar a morte de sua mãe?”
“Ace não matou a mamãe, Titus matou.” respondi friamente.
“Você sabe como essas coisas funcionam, amore mio.” Meu pai manteve a expressão firme, mas falou mais suavemente. “Você quer um fechamento, não quer?” Ele juntou os dedos e o polegar e franziu os lábios.
(Meu amor)
Ele estava falando comigo de um ponto de vista de negócios, não da perspectiva de um pai carinhoso. Essa é a coisa sobre a máfia: eles desprezam o amor. Nunca fui consolada em meus momentos difíceis; fui ensinada a superá-los sozinha. As emoções te tornam fraca. O amor te torna fraca. Nasci e fui criada para ser uma lutadora; isso é tudo que sou, tudo que conheço.
“Acho que sim.” murmurei para a colher coberta de chocolate. Mas, na maior parte, eu só queria esquecer.
“Então está decidido. Vou fazer com que Toni te coloque lá dentro.”
“Okay.” murmurei sem entusiasmo.
“Você vai me dar orgulho; você é Gabriella Sofia Alessia Valentino.”
Dei a ele um meio sorriso.
“Ah, e figlia?” Levantei o olhar do Ben and Jerry’s. “Não preciso te lembrar de não dormir com o inimigo, preciso?”
(Filha)
Balancei a cabeça silenciosamente. “Acho que não.”