Capítulo 1: Muffins na Porta
O que tem de especial em mim é que não é que eu seja antissocial, só não curto gente. Odeio sair em público, odeio ficar perto de pessoas e ter que fingir emoções, interesse e essas coisas. Sou introvertido.
Passo meus dias no meu apartamento. Trabalho como editor de fotos freelancer, então faço tudo de casa. Todas as minhas comunicações são online — ou por telefone, que eu detesto, então é quase sempre online. Às vezes visito um amigo ou parente. Não deixo ninguém entrar na minha bolha.
Peço compras online, raramente peço delivery, tenho equipamento de academia num quarto, meu apartamento tem máquina de lavar e secadora, como todos os outros aqui. Não é um prédio de luxo, para ricos, mas também não é barato, e o dono cuida bem de todos os imóveis. Então é o melhor que dá, porque esse lugar até parece chique, mesmo sendo simples.
Se preciso de ar fresco, espero até a madrugada, quando todo mundo está dormindo e sei que as ruas vão estar vazias, sem ninguém para interagir, e aí saio para caminhar.
Estou bem sozinho, melhor do que antes.
Estou solteiro há mais de um ano. Não é que não sinta falta de intimidade, mas tenho medo dela. Obrigado, ex, por isso.
Ele era um homem dominador, envolvido com BDSM, só que com um detalhe que eu não percebi até ser tarde demais. Era um narcisista abusivo, que jogava todas as manipulações emocionais e maus-tratos em cima da dinâmica Dom-Sub. No começo, foi tão charmoso que não enxerguei nada, até me destruir por completo.
Eu, um homem gay e másculo, reduzido a um submisso choramingas em questão de meses — e quando digo choramingas, é de medo, com lágrimas, de joelhos, implorando para não ser punido ou abandonado, pedindo perdão por ter tido a audácia de pedir um pouco de carinho. E eu estava tão lavado que acreditava merecer aquilo e achava que ia morrer se ele me deixasse.
Já vi outros Doms com seus Subs. A dinâmica deles não era nada do que eu conhecia. Era baseada em respeito mútuo. Meu ex até me castigou por perguntar a outro casal gay Dom-Sub como eles faziam as coisas. Agora sei que era porque ele não queria que eu descobrisse a verdade: ele quebrava todas as regras só para me controlar.
Nunca mais volto para esse tipo de vida, era pesado demais socialmente. Mas odeio que ele tenha criado esse estigma em mim, porque agora vejo todos os Doms como abusadores cruéis. Mesmo sabendo que não são.
Graças a ele, virei um ermitão ainda maior. Porque, mesmo depois de mais de um ano, ainda tenho medo de esbarrar com ele por aí. Então aqui estou, um gay de 33 anos, vivendo como um recluso.
Tanto faz.
Uma batida animada na porta interrompeu minha concentração no trabalho, bem na hora em que eu estava tentando acertar a cor secundária do vetor para o cliente.
Soltei um suspiro fundo. Odeio quando me tiram do foco assim.
— O que foi? — rosnei para a porta fechada.
Meu escritório improvisado ficava na sala, porque o quarto extra era minha academia. Tinha o laptop em uma mesa ao lado do sofá e uma mesa de centro comprida em frente à janela, de costas para ela, assim não via o movimento lá embaixo do terceiro andar.
— Oi, sou o Axel, seu vizinho do apartamento em frente — anunciou a voz alegre do outro lado da porta.
— Oi? — respondi, sem entender.
— Alguns de nós estão organizando uma venda de bolos com moradores do quarteirão para um evento LGBTQ — continuou Axel.
— Que bom pra vocês — falei, revirando os olhos.
O que assar bolos tinha a ver comigo? Ninguém nesse prédio falava comigo porque eu nunca mostrava a cara. Só alguns me viram quando levei o lixo ou a reciclagem à noite. A maioria me deixava em paz, provavelmente porque eu vivia com cara de poucos amigos. Outros só sorriam de leve ou diziam um "oi" rápido. Nunca respondia nem retribuía o sorriso. Quanto mais achassem que eu era inacessível, melhor.
— Eu sou o líder da equipe dos gays do nosso quarteirão nesse evento. A Libby é a líder das lésbicas. O Charles e a Vicky, um casal, são os bis…
Axel continuou listando mais nomes.
— Cada equipe vai ter gente da mesma letra assando junto, e todo o dinheiro vai para uma instituição de apoio a jovens LGBTQ.
— De novo, que bom pra vocês — resmunguei.
— Aliados também podem participar — os líderes da equipe dos aliados são o Cole e a Delilah —, por isso estamos perguntando a todo mundo do quarteirão se querem participar, seja representando sua "facção queer" ou como aliado.
— Facção queer? — murmurei para mim mesmo. Em voz alta, perguntei: — Isso é uma competição?
— Mais ou menos. A equipe que arrecadar mais vai poder organizar outro evento no futuro.
— Bom, desculpa, mas não conto comigo.
— Então você não quer assar nada com a gente? — Axel perguntou, hesitante.
— Não! — rosnei. — Não sei assar. Agora vai embora. Me deixa em paz. — Bufei.
— Tá bom, nossa, só estava tentando ser simpático.
Ouvi ele se afastando.
Suspirei. Por que ele tinha que soar tão decepcionado?
Depois de sentir um peso na consciência, levantei da cadeira e fui até a porta num movimento rápido. Mas ele já tinha ido embora, provavelmente de volta para o apartamento. Soltei outro suspiro fundo.
Mesmo contra meu bom senso, atravessei o corredor comprido até a porta dele. O apartamento em frente, como ele tinha dito. Bati, esperei um pouco. Nada.
— Ei, Axel, olha… Eu tava trabalhando e você me tirou do foco. Fico muito mal-humorado quando perco a concentração. Então… desculpa? — Não, não era isso. — Desculpa, essa desculpa soou forçada. Olha, eu não curto eventos sociais, tá? Odeio interação humana. Só… se precisar de grana para os ingredientes, posso contribuir, mas me deixa fora de qualquer coisa de assar ou mostrar a cara em qualquer lugar.
Encostei na porta enquanto falava. Se Axel estava ouvindo ou só escolhendo não responder, tanto fazia. Quanto menos ele quisesse falar comigo, melhor.
— De novo, desculpa por ter gritado com você. Você não merecia.
O lado submisso em mim estava aparecendo. Não é que eu quisesse ser dominante, só não queria que as pessoas passassem por cima de mim, e a melhor forma de evitar isso era evitando as pessoas.
— Espero que a nossa equipe ganhe — falei, por fim, para encerrar. Depois voltei pelo corredor comprido até minha porta e a fechei.
Encostei nela, soltando o ar. Acabei de confirmar que também sou gay. Puta que pariu, eu não queria ser incomodado! Por que não deixei ele pensar que eu era preconceituoso ou algo assim? Assim com certeza me deixariam em paz.
— Ele tem uma voz bonita — murmurei para mim mesmo.
Não. Foco.
Voltei para a mesa e para o vetor. Pinceladas, códigos de cor — minha mente voltou ao ritmo.
Não tive mais notícias do Axel nos dias seguintes. Provavelmente era o melhor. Os dois estávamos melhor sem nos envolvermos, voltando ao que era há um ano, desde que me mudei: eu, recluso, e ninguém querendo nada comigo porque eu não queria nada com ninguém.
O fim de semana passou, e me peguei pensando se a venda de bolos estava indo bem.
— Que porra é essa? Por que diabos eu tô pensando nisso? Não, quem se importa! Tenho trabalho pra fazer.
No domingo de manhã, ouvi barulho na porta. Ignorei, e logo tudo ficou quieto de novo no corredor.
A curiosidade falou mais alto.
Abri a porta e encontrei um pote plástico com tampa no chão. Peguei. Dentro, três muffins. E um bilhete.
Meu coração deu uma cambalhota quando vi o bilhete.
Letra bonita, pensei.
Que merda. Não.
Afastei a leve agitação que senti no peito ao ver aquilo.
A nossa equipe ganhou! Achei que você fosse gostar de uns muffins. Fui eu que fiz. Rum e passas. Bom apetite! Assinado: Axel.
Franzi a testa. Ele tinha sido muito atencioso. Mas eu não tinha feito nada para ajudar. Me senti meio culpado.
Chutei a porta para fechá-la, abri o pote e cheirei os muffins. Nossa, que delícia, já estava salivando. Dei uma mordida em um e soltei um suspiro de prazer, fechando os olhos. Parecia que estava mordendo o céu. E me perguntei: se os muffins do Axel são tão bons, como será ele?
Que porra é essa, Dante? Para com isso. Você é um recluso. Um ermitão. Se comporta.
Devorei os muffins, pegando até as migalhas que caíam no pote, que segurei embaixo do queixo enquanto comia.
Não lembrava da última vez que alguém cozinhou ou assou algo para mim, tirando minha mãe. O Jasper nunca cozinhava para mim, sempre pedia delivery ou me levava a restaurantes chiques para mostrar seu controle sobre o Sub.
Sempre olhava para os outros casais no restaurante, alguns pareciam tão felizes. Os Subs falavam de um jeito específico às vezes, mas os Doms sempre garantiam que estavam bem cuidados, falavam de recompensas, de promessas, tranquilizavam. Um deles, até ouvi, lembrou a nova Sub dele da palavra de segurança secreta. Tive que perguntar o que era uma palavra de segurança — eu não tinha uma. Dá para acreditar? Porque meu relacionamento não era seguro, não era uma dinâmica Dom-Sub de verdade, mas uma farsa para esconder os desejos doentios de um sádico.
Balancei a cabeça. Não queria pensar naquilo — nem nele. Queria pensar no Axel e nos muffins, que já tinham acabado, mas de alguma forma me trouxeram tanta alegria.
Peguei um post-it e rabisquei nele.
Não sei o que fiz para merecer esses muffins deliciosos. Como posso te agradecer direito?
Colei o bilhete na parte de dentro da tampa do pote e atravessei o corredor, que de repente pareceu ainda mais longo, só porque eu estava ansioso para chegar à porta do outro lado. Bati e esperei. Como nada aconteceu, deixei o pote no chão, como ele tinha feito, e voltei para o meu apartamento.
Fechei a porta e encostei as costas nela, inclinando a cabeça para trás. O que estava acontecendo?