PRÓLOGO
FLETCHER IGNAZ
Segurei a cabeça enquanto outra onda de dor explodia nas têmporas, o barulho aumentando dentro do meu crânio, que parecia feito de vidro — vidro frágil. Olhei para a mulher à minha frente com um novo surto de ódio; tudo era culpa dela. Minhas mãos tremiam de medo e raiva, mas dava para ver como estavam pálidas e finas. Meu corpo, que sempre fora esguio, tinha ficado ainda mais magro, e a culpa era daquela mulher deitada na cama.
O cabelo dela, agora tão escuro, antes era de um branco prateado deslumbrante, que quase me sufocou de inveja na primeira vez que o vi. Mesmo agora, espalhado nos travesseiros, contrastando com a cor original, ainda fazia meu corte curto loiro, do qual eu tanto me orgulhava e que tinha virado minha marca registrada, parecer uma porcaria. Cada parte daquela harpia maldita fazia isso comigo. Em questão de meses, aqueles olhos verdes, as maçãs do rosto perfeitas, os lábios carnudos e o corpo atlético de ampulheta, dado injustamente pelos deuses só para levar homens e mulheres à ruína, tinham me reduzido a um trapo inseguro e desajeitado.
A harpia era a causa de tudo. Minha dor de cabeça, minha agonia, meu medo e o fato de que eu tinha perdido tudo o que amava. Ela tinha tirado tudo de mim, como eu sabia que faria desde o primeiro dia em que vi aquela aberração de rosto.
Como é que todo mundo podia ser tão enganado pelas palavras doces e sorrisos falsos dela? Como podiam me deixar ser tão humilhada por essa criatura nojenta da noite? E o pior de tudo: como ele podia ter caído nela depois de tudo? Massageei a têmpora, tentando aliviar a dor de cabeça e me concentrar no que tinha que fazer. Os olhos prateados dela encontraram os meus, cheios de tristeza, arrependimento e um pedido mudo. Mas já era tarde demais. Agora eu sabia quem eu era.
Uma mulher traída. O inferno não tem fúria igual.
Achei que ele fosse mais forte, que nosso amor fosse mais forte, mas claramente tinha dado crédito demais ao homem. Ele partiu meu coração, meu espírito e meus sonhos, e por isso, os dois iam morrer. Depois disso… depois disso, eu não teria mais motivo para viver. Depois disso…
Franzi a testa quando meus pensamentos pararam de repente. Não fazia ideia de quem eu seria depois de tudo isso.
ALGUNS ANOS ANTES
Leukas tentou pela primeira vez a reação de Briggs-Rauscher aos dez anos, com os olhos brilhando e convencido de que um dia mudaria o mundo e, de alguma forma, usaria a ciência para unir seres transcendentais e mortais. A mãe dele provavelmente juraria de pés juntos que nunca seria irresponsável a ponto de deixar o filho fazer aquilo se alguém perguntasse, mas quem a conhecia de verdade sabia que nem pensar em criticá-la ou aos filhos dela — ela era um verdadeiro furacão e podia destruir qualquer um com um olhar e algumas palavras.
Aos onze anos, o experimento já tinha perdido a graça — não os planos de mudar o mundo, mas os processos químicos mais simples. Por isso, ter que repetir aqueles procedimentos medíocres na faculdade o irritava profundamente. O celular vibrando foi mais um incômodo naquele dia, ainda mais quando viu que era a "namorada", Ashley.
A ligação foi inesperada, porque ela sabia que Leukas preferia que ela avisasse antes de ligar, mesmo sendo ela. Ele não gostava de desordem na vida, mas, como ela era sua "namorada", podia abrir exceções. Era o que Aleksander sempre dizia. E ela nunca tinha dado motivo para desconfiar. Ele saiu do posto de trabalho, fez um aceno para o parceiro e foi até o banheiro pequeno, mas limpo, ao lado do laboratório, atendendo o celular que ainda tocava.
— Alô, Ashley. Você precisa de… — começou, mas se interrompeu ao ouvir um gemido de dor do outro lado.
— Leukas. Amor… Aleksander. Ela está tentando me matar. — A respiração dela era ofegante, a voz apressada, quase histérica.
— O quê? Como assim Aleksander está tentando te matar? — Leukas perguntou, a voz calma e controlada, na esperança de acalmá-la para que as palavras dela fizessem mais sentido.
— Sua vida está em perigo, Leukas. Descobri que ela trabalha para uma Agência de Assassinos Russa. Ela foi plantada para te machucar. Tem fingido ser sua amiga esse tempo todo. —
Leukas balançou a cabeça, mesmo que ninguém pudesse ver. Se fosse para escolher, acreditaria em Aleksander e não em Ashley — afinal, ela não significava nada para ele. Mas a convicção na voz dela era preocupante, e ele precisava tentar fazê-la raciocinar. Porque o que ela dizia não fazia sentido. — Não… você deve estar enganada. O Aleks nunca… —
— Deixei todas as provas na sua mesa em casa. Ela descobriu que eu sabia e está atrás de mim. Estou morrendo, amor… — a voz dela falhou no final.
Uma dor de cabeça começou a latejar na têmpora de Leukas. A ligação estava saindo do controle, e todas aquelas acusações contra Aleksander deixavam sua pele arrepiada. O ambiente parecia mais quente, o ar de repente abafado. Uma sensação incômoda de alerta percorreu seu corpo.
— Me diz onde você está. Isso tudo é um mal-entendido. Vou te buscar e te levar para… — As palavras saíram trêmulas, o mundo parecia instável, e o início de um ataque de pânico se aproximava. Ele cravou as unhas nas palmas das mãos para se firmar e afastar a crise indesejada. Não tinha um desses desde… desde fazia muito tempo, e essa parte da vida dele já tinha ficado para trás. Devia haver uma explicação razoável para o delírio de Ashley.
— É tarde demais para mim, amor. Só me importo com você. Quero que saiba quem ela é antes de morrer. Ela me esfaqueou. No peito. Nos tirou da cidade depois da biblioteca. Me obrigou a entrar no carro e me levou para uma casa abandonada. Só consegui correr para o andar de cima, mas não tenho para onde ir. Mal estou aguentando, Luk… Te amo tanto… — A voz dela foi sumindo enquanto sons de batidas vinham do outro lado. Um grito agudo cortou o telefone, e o sangue de Leukas gelou nas veias.
— Ashley? Responde! Ashley! — Leukas gritou no celular, em vão, implorando para que ela voltasse e consertasse tudo, dizendo que tinha inventado aquilo e que Aleksander, o único ponto de luz em sua vida sombria, não tinha sido uma mentira o tempo todo.
PARTE 1
FEMME FATALE