E se o Sol desaparecesse?
E se o Sol, misteriosamente, desaparecesse? Já pensaste nessa possibilidade? O que farias tu se, de repente, apagassem a luz do planeta Terra? Provavelmente, terias de acionar o teu lado mais aventureiro e partir, com os teus amigos, à descoberta de soluções, claro! Foi o que aconteceu, num tempo distante, na Vogalândia - um planeta tão pequenino, mas tão pequenino mesmo que contava apenas com cinco fantásticos habitantes: o A, o E, o I, o O e o U.
Nas galáxias vizinhas, estes cinco habitantes eram conhecidos por Vogais. Estas cinco letras ganharam fama de aventureiros destemidos no dia em que tiveram de ajustar contas com o grande exército das Consoantes, composto por todas as outras letras que, apesar de terem tentado, não conseguiram ocupar lugar na pequenina Vogalândia.
Num terrível dia, o Sol deste minúsculo planeta eclipsou-se, simplesmente apagou-se! E os seus cinco habitantes tiveram de partir - com medo e com coragem, porque é assim que partimos para as grandes aventuras da vida - numa espinhosa missão: descobrir a fábrica de sóis e de lá trazer novamente a luz à Vogalândia.
Um planeta às escuras
A tarde estava, aparentemente, tranquila na Vogalândia. Os seus cinco habitantes, A, E, I, O e U descansavam, depois de horas a fio a arrancar ervas daninhas e a regar as primeiras flores trazidas pela Primavera. Os malmequeres brancos eram, sem dúvida, os favoritos destes pequenos seres.
Subitamente, entre os ramos da árvore que lhes emprestava, gentilmente, a sua sombra o céu começa a pintar-se de tons escuros. A luz da enorme estrela chamada Sol enfraquece aos poucos até que desaparece por completo. É noite. Antes do tempo de ser noite.
Aflitos e muito assustados, A, E, I, O e U juntam-se num círculo protetor, na urgência que o fenómeno exigia. Nessa posição, eles podiam vigiar as costas uns dos outros e mostrarem a sua valente união. Mas o que estava, afinal, a passar-se? Quem engoliria o Sol, assim sem mais nem menos?
Vogalândia era, agora, um micro pontinho negro, na imensidão do negro da galáxia. Vulnerável a exércitos de Consoantes e, quem sabe, até a Abecedários indecifráveis.
Perguntem à Lua
Expostos à escuridão imensa que se abateu sobre a Vogalândia, os cinco habitantes começaram a reagir - isto é o que acontece quando fitamos o medo. Ninguém quer ficar muito tempo na escuridão, verdade? Apesar de não terem tempo para contar, porque o Sol já havia desaparecido com os seus ponteiros, A, E, I, O e U sabiam que não havia tempo a perder.
É imperativo solucionar este tremendo problema que se abateu sobre o nosso planeta! Pensaram eles em sintonia.
Até que A, o mais questionador dos cinco, ou não fosse ele o primeiro entre as Vogais, interroga os companheiros:
- Como se faz um Sol? E todas a outras estrelas? Precisamos urgentemente de descobrir isso, caso contrário arriscamo-nos a viver, para sempre, no sempre deste escuro horrendo.
Ainda amedrontados - porque é assim que ficamos quando desconhecemos o que vem a seguir ou quando nos apagam a luz - os restantes habitantes da Vogalândia reúnem-se como instrumentos desvairados à procura do maestro capaz de harmonizar a orquestra.
Cada um dava o seu palpite, não se entendiam. Aliás, a discórdia instalou-se naquela noite, que talvez até já fosse dia, mas sem luz que pudesse fazer sombra à sombra.
- Perguntem à Lua. Ela é a única capaz de saber tudo! - Exclamou E, em tom muito alto. Ele é o mais prático entre todas as Vogais, talvez por ter vindo em segundo lugar, logo atrás do atrevido A. O E é aquele que esclarece quase tudo. É o que, entre o grupo, tem sempre pronta resposta pronta, como «É assim» ou «É assado»!
Fez-se um silêncio entre os habitantes, uma pausa como aquelas pausas que escutamos quando, de repente, alguém corta o volume da televisão e todos se calam a meio de uma conversa. Esta pausa, mais demorada do que a vírgula, foi interrompida pela I, o mais criativo entre as Vogais.
O I, que morava na terceira casa a contar a partir do A, é mais conhecido entre os vizinhos por «Idealista», pois tem sempre uma ideia a passar-lhe pela cabeça. E mesmo quando não tem uma ideia , tem a ideia de não ter qualquer ideia! I, na verdade, é um colecionador de ideias, a sua caderneta chama-se Imaginário. I interrompe o intervalo de silêncio e surpreende o grupo:
- A Lua, por vezes, desaparece do céu. Sabemos que é nessa fase de ausência que ela se confina no seu refúgio a estudar, para depois surgir, passo a passo, grandiosa e cheia de sabedoria. Por isso, ela é tao brilhante. Sem dúvida que temos de a questionar. Só que a grande pergunta não é saber quem nos roubou o Sol. A grande pergunta é onde ele ele se fabrica, somente desta forma evitamos cair noutro buraco negro como este.
- Oh! Óbvio, meu caro I! - confirmou o Sr. O, o habitante da Vogalândia que poucos levam a sério, apenas por ter fraca memória, viver sempre despreocupado e atarantado. Era frequente andar à procura dos óculos quando os tinha no alto da cabeça a servirem-lhe de chapéu!
Tão óbvio o óbvio Sr. O que nada acrescentou. Aparentemente, apesar de se mostrar um forte aliado às ideias dos restantes habitantes - sim, porque O raramente oferecia as suas próprias opiniões, gostava mais de as omitir, optava sempre por ostentar a opinião do grupo. Era assim o O, onda que vai na onda.
U estava calado a escutar os palpites dos vizinhos, sem saber se arriscaria ou não falar. Afinal, o U, o último entre as Vogais, era sempre olhado de esguelha pelos seus vizinhos. Não por ter sido o último a chegar à Vogalândia , mas por ter um cadastro de espião! Sim, o grupo pouco confiava no U. Olhavam para ele como o professor olha para nós durante um teste - meio de lado para ver se estamos a ler a resposta do colega do lado.
A desconfiança sobre o U vinha desde o tempo das origens de todas as letras, ele pertencera ao exército das Consoantes. Porém, passou-se para o outo lado, o lado das Vogais. Uns acreditavam que ele era uma espécie de espião , outros acusavam-no de desertor e de traidor, mas a verdade é que todos os acolheram como habitante da Vogalândia e já haviam esquecido os maiores incidentes do passado, como aquele em que U só queria amizade com o «q», esse «q» de quá-quá, ou «q» de nove como era conhecido lá para os lados da galáxia das Consoantes.
- Ui, ui! Estou já a sentir urticária nos músculos, pronto para sair por aí à procura dessa tal fábrica de sóis. Um ou uns quantos sóis haveremos de conquistar para que nunca mais nos falte o brilhar! - Arriscou em dizer U, mostrando-se unido aos restantes e pronto para tudo.
Parecia, pois, estarem todos de acordo em procurar a Lua para perguntar-lhe se saberia ela algo mais sobre o terrível e misterioso desaparecimento do Sol. Ou, quem sabe, se ela poderia saber onde ficava a tão desejada fábrica de sóis...