PRIMEIRO ATO
A sala de espera era silenciosa, exceto pelo leve ruído distante de vozes e passos abafados. As paredes tinham um tom claro e frio, e algumas cadeiras vazias se alinhavam contra elas. Havia um homem e um menino sentados lado a lado, em silêncio, como se aguardassem por algo. O ar estava carregado de uma expectativa silenciosa. A “Meu filho...“, disse o homem, quebrando o silêncio com uma voz tranquila. “Oi”, respondeu o menino, olhando para ele com curiosidade. “Enquanto esperamos... você gostaria de ouvir uma história?” O homem perguntou, com um leve sorriso se formando em seus lábios, como se soubesse que o garoto diria sim. “Sim”, disse o menino, endireitando-se na cadeira, com seus olhos brilhando de curiosidade. “Era uma vez...” começou o homem, olhando para o chão por um instante antes de continuar. “Um garoto de 14 anos que se mudou para uma nova cidade com seus pais. Ele era um aluno excelente e tinha conseguido uma bolsa de estudos para uma escola muito prestigiada. Mas, como você pode imaginar, ele era muito tímido e vinha de uma família sem muitas posses, o que tornava tudo mais difícil para ele se enturmar.” O menino franziu as sobrancelhas, claramente interessado. “Essa escola oferecia algo que ele sempre sonhou: um projeto musical. Um programa onde ele poderia cantar, dançar, e talvez, quem sabe, se tornar famoso. O nome do projeto era BRAT, o mesmo nome da empresa que o organizava. O dono era um homem chamado Christian Brat, e o garoto sonhava em fazer parte disso.” “Então, no segundo dia de aula, cheio de esperança, ele decidiu ir até o prédio da BRAT para se inscrever no projeto. O prédio não era muito longe da escola, mas a maioria dos outros participantes chegava de carro, vindos de famílias ricas. O garoto, porém, foi a pé, sem o apoio dos pais. Eles nunca aceitariam seu sonho de ser artista, e nem sonhavam que ele era diferente, que ele era gay.” O menino ouviu atentamente, com seus olhos fixos no homem que estava do seu lado. “Quando o garoto chegou à BRAT, encontrou um grupo de quatro pessoas que mudariam sua vida para sempre: Vicente, Roger, Doroteia e Lúcios. Vicente era o líder do grupo, e ele se achava todo poderoso. O garoto, nervoso, aproximou-se e perguntou se poderia se inscrever no projeto. Mas Vicente não foi gentil. Ele olhou para o garoto com desdém e disse que nunca aceitariam alguém como ele, um garoto ‘feio’ e ‘sem graça’. Vicente ainda acrescentou que, por ser gay, o garoto não tinha chance alguma ali já que o gay ali era ele, Roger seu namorado e Lúcios, não havendo mais espaço para mais gays. Naquele instante, o garoto sentiu sua esperança se despedaçar. Vicente e os amigos riram dele, prometendo que fariam da sua vida um inferno tanto na escola quanto fora dela.” O menino parecia estar segurando a respiração, atento a cada palavra do homem. “Desolado, o garoto saiu da BRAT. Quando chegou em casa, esperava encontrar conforto, mas a realidade era bem diferente. Seu pai o xingou, dizendo que homem não chora, que ele era uma ‘bixinha’ e que seu erro era o ter levado para aquela cidade. A mãe dele, que sempre apoiava o marido, apenas olhou para o filho com desaprovação. O garoto se sentiu mais sozinho do que nunca.” O homem observou o menino ao seu lado, que parecia cada vez mais envolvido na história. “Mas naquela noite, algo mudou dentro dele. Enquanto a casa dormia, o garoto decidiu que não aguentaria mais. Ele foi até a cozinha a meia noite, ligou o gás do fogão e saiu, esperando. Quando sua mãe sentiu o cheiro e correu até lá, seu pai olhou pela janela e o viu parado lá fora, com um sorriso maquiavélico no rosto.” O menino prendeu a respiração, sentindo a tensão no ar. “O garoto atirou um isqueiro na porta aberta da casa. Enquanto o fogo começava a se espalhar, seu pai correu até sua mãe, a abraçando e dizendo que a amava, e que tudo o que fizeram não adiantou em nada. E então, a casa explodiu, levando tudo junto com ela.” A sala de espera ficou em silêncio absoluto. O menino olhou para o homem com seus olhos arregalados e cheios de emoção.“Essa é a história de como a vida de um garoto mudou para sempre”, finalizou o homem com a voz baixa, enquanto a expectativa da sala os envolvia, esperando o que aconteceria a seguir.