Cinco Luas

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Summary

Cinco luas marcaram o céu no dia do nascimento de Elara, e com elas veio a profecia: a Menina da Lua estaria predestinada a unir cinco linhagens, selar um pacto ancestral e despertar a verdadeira essência do lobo. Cada irmão Alfa carrega um fragmento de seu destino — e um segredo que poderá salvá-la... ou destruí-la.

Genre
Romance
Author
nrosa
Status
Ongoing
Chapters
9
Rating
5.0 1 review
Age Rating
13+

O Gelo Sob a Pele

Skardur: terra onde os lobos sussurram o nome da lua.

A chuva caía como se limpasse o mundo, lavando os últimos traços da cidade que Elara deixava para trás. Suas mãos seguravam a alça da mochila com força, enquanto os pneus do jipe antigo enfrentavam a trilha lamacenta das Montanhas de Skardur. O vento batia forte contra os vidros, mas não abafava os sons estranhos que ecoavam lá fora — uivos longos, como cânticos distantes, ritmados, quase... cerimoniais.

Sentada ao lado do motorista taciturno que pouco falava, Elara observava a névoa espessa engolir as árvores. A marca no seu pulso esquerdo — uma meia-lua de linhas finas, escuras e levemente em relevo — começava a arder, como acontecia desde que completara dezessete anos. Mas agora, ali, no meio daquele vazio gelado e ancestral, a dor era mais intensa. Mais viva.

“Estamos quase chegando ao Clã da Névoa”, disse o motorista, quebrando o silêncio pela primeira vez. “Eles... já sabem que você está vindo.”

Ela virou o rosto devagar.

— Quem são eles?

Ele hesitou.

— Os cinco. Os irmãos. Os Alfas.

Elara franziu a testa, sem entender.

Mas algo em seu estômago afundou, como se uma memória esquecida — ou um medo antigo — se erguesse para respirar.

O Portão dos Cinco

Ao chegarem ao topo da colina, a visão a deixou sem ar: cinco torres de pedra guardavam o grande portão talhado com símbolos antigos — luas, lobos, espirais.

Quando o carro parou, a neblina se abriu, e ali estavam eles.

Cinco figuras. Cinco presenças. Cinco destinos.

Todos trajavam roupas escuras, rústicas, como guerreiros modernos saídos de uma lenda esquecida. Mas não eram os corpos imponentes que a impressionaram — era o olhar de cada um.

Kael, de braços cruzados, a observava com os olhos sombrios de quem já sabia demais.

Thorne, encostado na muralha, tinha um sorriso torto e irônico, mas os punhos cerrados traíam a tensão.

Riven, com cicatriz no rosto e olhos cor de aço, parecia farejá-la, como se reconhecesse algo nela.

Eren, o único que esboçou um gesto acolhedor, inclinando ligeiramente a cabeça.

E Darek, o último a aparecer, emergiu da neblina como um espectro — os olhos escuros e selvagens, como se o lobo nele estivesse sempre à flor da pele.

E foi então que a marca no pulso de Elara brilhou.

Um feixe de luz pálida, prateado, subiu como um fio até seu cotovelo. A dor veio logo depois, latejante, visceral.

Os irmãos se entreolharam.

Kael deu um passo à frente.

— Então é verdade... — murmurou ele. — A Herdeira da Lua está entre nós.

A Lua Crescente e o Grito do Sangue

Elara recuou, instintivamente.

— Herdeira do quê? Do que estão falando?

Darek rosnou baixo. Literalmente.

Riven se adiantou, parando ao lado de Kael.

— Você não deveria estar aqui ainda — disse ele, a voz grave, carregada de algo... profético. — Mas agora que veio, nada será como antes.

Eren foi o único a se aproximar com doçura.

— Você sonha com lobos, não sonha? — perguntou ele.

Ela congelou.

Como ele sabia?

Os pesadelos, os olhos amarelos no escuro, a floresta em chamas… tudo isso a atormentava há anos.

Eren sorriu com tristeza.

— Está começando. A marca despertou. Isso é só o início.

A profecia esquecida

Kael levou a mão ao colar que usava — uma pedra branca envolta em prata.

— Ela não está pronta. Mas os sinais são claros. A cada geração, uma Menina da Lua é escolhida. E com ela vêm a união, a guerra... e a decisão.

Elara não conseguia respirar direito.

A névoa ao redor girava devagar, como se o próprio tempo estivesse curvando-se à revelação.

— Que decisão? — sussurrou ela.

— Escolher — respondeu Thorne, seco. — Entre nós… ou contra nós.

A lua surgiu entre as nuvens. E então, no céu, por apenas um segundo, cinco luas brilharam sobre suas cabeças.

Elara desmaiou.

***************************

“Ela acorda entre sombras e segredos.”

O primeiro som que Elara ouviu foi o estalar da lenha queimando. Depois, o cheiro: madeira antiga, ervas secas, e algo mais... algo que lembrava terra molhada e sangue. Quando abriu os olhos, o teto alto de pedra escura parecia se mover como se respirasse junto com ela.

Estava deitada em uma cama grande demais, coberta por peles. A luz da lareira dançava nas paredes, revelando símbolos entalhados

— luas, lobos, espirais repetidas como se formassem uma linguagem esquecida.

Tentou se sentar, mas um calor latejante percorreu o braço esquerdo. A marca.

A marca estava diferente.

Brilhava em tom prateado, como se pulsasse com vida própria.

— Calma — disse uma voz suave.

Era Eren. Sentado em uma poltrona próxima, com um livro nas mãos, ele parecia um fragmento de sol perdido entre as pedras.

Havia uma tranquilidade perigosa nele, como se nada o abalasse — ou como se tudo o abalasse por dentro, mas ele escondesse bem.

— Onde estou? — perguntou Elara, a voz mais fraca do que gostaria.

— No coração do território dos Alfas. Bem-vinda à Casa da Névoa, Elara.

Ela o encarou.

— Você sabe meu nome.

— Todos nós sabemos. Há muito tempo. Fomos criados com sua lenda.

O Círculo dos Irmãos

Mais tarde, depois de aceitar uma infusão quente que acalmava o corpo, Elara foi levada a uma sala redonda de pedra, onde os cinco irmãos a esperavam.

Cada um ocupava uma posição diferente, como vértices de um círculo sagrado. Uma tapeçaria ancestral cobria a parede central — nela, uma mulher envolta por cinco lobos. A profecia viva.

Kael foi o primeiro a falar.

— Esta casa existe há séculos. Foi construída sobre a Pedra dos Pactos, onde os primeiros Alfas selaram o acordo com a Deusa da Lua. Ela nos deu força. Mas também nos amaldiçoou.

Elara sentia que algo a puxava para o centro daquele salão, como se a própria pedra a chamasse.

Darek a observava de canto, os olhos escuros intensos, como brasas sob cinzas.

— O que vocês querem de mim? — ela perguntou, com a voz firme.

Thorne sorriu com desdém.

— Isso não é sobre o que nós queremos. É sobre o que você é. E o que despertará quando a marca estiver completa.

Riven se aproximou.

— O vínculo entre nós já existe. Está adormecido. Mas será ativado... em breve. A cada noite de lua, você sentirá um de nós. E a escolha será inevitável.

Elara recuou.

— Que vínculo? Que escolha?

Kael respondeu com pesar.

— Você está predestinada a cinco Alfas. Mas só pode unir-se, verdadeiramente, a um deles. O escolhido herdará o Dom do Lobo Primal. Os outros... — ele parou, como se a dor o impedisse de continuar — ...carregarão a ruptura.

O Sopro do Lobo

Naquela noite, em seu quarto, Elara sonhou com florestas e olhos dourados. Caminhava entre árvores antigas, e uma voz murmurava seu nome em todas as direções. No centro de uma clareira, cinco lobos aguardavam.

Todos diferentes.

Todos dela.

Ao acordar, suando, com o coração disparado, viu o reflexo da marca no espelho: agora havia duas luas entrelaçadas.

O despertar começara.

“Há tempestades que não nascem no céu, mas no sangue.”

A chuva começou com um sussurro, como se alguém chorasse sobre o telhado. Depois, os trovões vieram — graves, longos, vibrando nas paredes da fortaleza como tambores chamando algo ancestral. Elara, sozinha em seu quarto, sentia a eletricidade no ar como um toque sobre a pele.

A marca em seu pulso estava ardendo. Mas dessa vez, havia algo mais.

Não era dor.

Era chamado.

Ela levantou devagar. Não sabia para onde iria, apenas sabia que precisava ir.

Calçou as botas sem pensar, pegou o manto e saiu pelos corredores escurecidos. A Casa dos Alfas dormia em silêncio, mas o mundo lá fora rugia.

A Floresta da Tempestade

A névoa era espessa, como se as árvores respirassem. As folhas dançavam em redemoinhos, empurradas por um vento que sussurrava seu nome: “Elara…”

O uivo de um lobo cortou o ar. Um só. Longo. Profundo.

Ela atravessou a fronteira do bosque como se já conhecesse o caminho. Seus pés afundavam na lama, os cabelos colavam-se ao rosto, e mesmo assim ela continuava, puxada por algo que não podia ver — mas sentia.

Quando chegou à clareira, o tempo parou.

Ali, no centro, de joelhos sobre a terra molhada, estava Riven.

O Alfa da Tempestade.

O raio iluminou seu rosto por um segundo. Os olhos dele estavam prateados, brilhando de forma antinatural. Ele respirava com dificuldade, como se lutasse contra algo que queria escapar de dentro de si.

Ela deu um passo. A marca queimou.

Outro passo. O chão tremeu.

— Eu te senti — disse ele, com a voz rouca, quebrada. — Desde a primeira vez que você sonhou com a floresta. Eu... estava lá.

Elara engoliu em seco.

— O que está acontecendo com a gente?

Ele se levantou com dificuldade. Estava molhado, enlameado, mas havia uma força bruta em seu corpo. Uma beleza primitiva e feroz.

— A primeira lua te escolheu — disse ele. — E com ela... vem o primeiro elo.

O Elo do Trovão

Riven se aproximou, mas parou a poucos passos. Seu corpo tremia, como se contivesse algo à beira da explosão.

— Eu não posso tocá-la ainda. Mas você pode me aceitar.

Elara sentiu o peito apertado.

— Aceitar o quê?

Ele fechou os olhos.

— O Lobo. O que está dentro de mim. E o que está... dentro de você.

A marca em seu pulso brilhou, desta vez com intensidade. Ela ergueu o braço, instintivamente. E foi quando a dor veio — forte, rasgando, como se a pele fosse lava viva.

Caiu de joelhos. Riven correu até ela, mas não a tocou. Apenas ficou diante dela, com as mãos abertas e os olhos arregalados.

— Olhe para mim, Elara — pediu ele, a voz urgente. — Me deixe entrar. Pelo sangue. Pelo sopro. Pela lua.

Ela ergueu o rosto, com os olhos marejados.

E disse:

— Eu não sei o que está acontecendo. Mas sim. Eu deixo.

No instante em que falou, a tempestade silenciou.

Um clarão explodiu no céu.

E um lobo enorme — prateado e envolto em relâmpagos — surgiu atrás de Riven, como uma sombra projetada de sua alma.

Elara viu-se refletida nos olhos da criatura. E então… sentiu.

Sentiu o peso do vínculo. A força dele. A dor dele.

Viu suas lembranças, suas perdas.

A neve sobre um corpo caído.

Um grito sufocado no meio da guerra.

A solidão de liderar um exército que não escolheu.

Riven caiu de joelhos também.

Eles ofegavam em uníssono.

E quando a luz da marca cessou, uma terceira lua estava gravada em sua pele.

O vínculo estava feito.

O Retorno

Eles caminharam de volta em silêncio. Nenhum dos dois sabia o que dizer. Mas algo os ligava agora. Invisível. Profundo. Vivo.

Ao chegar ao portão da Casa, Kael já os aguardava, de braços cruzados.

Thorne estava ali também, com expressão dura.

— Era inevitável — disse Kael, observando o pulso de Elara.

Eren apareceu no alto da escadaria, preocupado.

— Está doendo?

Elara negou com a cabeça.

— Não mais.

Thorne desceu dois degraus, aproximando-se.

— Então você o escolheu? — perguntou, com veneno na voz. — Riven, o emotivo?

Ela o encarou.

— Eu não escolhi. Foi a lua.

— Que seja. — Ele virou-se. — A próxima não será tão… gentil.

Kael suspirou.

— Uma lua já está selada. Mas o caminho está longe de terminar.

Darek, calado, surgia como uma sombra ao fundo. Seus olhos estavam presos nela.

Elara sentia: cada irmão era um espelho diferente do seu destino.

E a próxima lua... estava se aproximando.

“Nem toda dor que congela é ausência. Às vezes, é proteção.”

Na noite seguinte, a lua se ergueu em tom azul-acinzentado, refletindo-se sobre as paredes da fortaleza como uma lâmina sobre pedra. Elara sentia um frio estranho, não no corpo, mas por dentro — como se algo nela estivesse se retraindo, se preparando para romper.

O vínculo com Riven ainda ecoava em sua pele, mas era diferente agora. Silenciado. Respeitoso. Como uma memória viva.

Mas o que se aproximava não era ternura.

Era desafio.

E ela sentiu antes de ver.

O frio.

Não o frio do vento ou da noite…

Era o frio do olhar de Thorne.

A Sala das Espadas

Kael a chamara para a ala norte da casa — uma sala de treino esquecida, onde as paredes guardavam espadas antigas e brasões das linhagens passadas. O cheiro era de ferro, suor e história.

Thorne estava no centro, sozinho, sem camisa, empunhando uma lâmina de treino. Cada golpe que desferia contra o poste de madeira revelava não apenas força… mas raiva. Uma raiva calculada.

Quando a viu, girou a espada com perfeição e a cravou no chão. Os olhos — um azul cristalino gélido — a fitaram com desdém.

— Veio buscar o próximo laço? — disse ele, a voz impregnada de sarcasmo. — Está colecionando irmãos, é isso?

Elara manteve-se firme.

— Não escolhi estar ligada a nenhum de vocês. Mas a marca está reagindo. E a próxima é sua.

— Ou você está reagindo a ela — retrucou ele, caminhando em sua direção. — Talvez deseje o lobo… e não saiba.

Ela sentiu o ar gelar à medida que ele se aproximava. O chão parecia mais duro. O teto, mais baixo. O tempo, mais tenso.

— O que há em você, Thorne? — perguntou, sem conseguir conter.

Ele parou a poucos centímetros.

— Dor — respondeu. — E o que há em você, Elara?

Ela sustentou o olhar.

— Coragem.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Isso será posto à prova.

O Despertar do Gelo

Thorne ergueu a mão, lentamente, como se ela fosse feita de vidro. Não a tocou, mas o calor em torno da marca esvaiu-se como névoa ao vento.

Elara arfou.

Era como ter o sangue sugado pela pele.

A terceira lua começou a brilhar.

Mas era diferente da de Riven.

Dessa vez, não havia calor. Não havia acolhimento.

Havia quebra.

Ela viu flashes — memórias dele.

Uma mulher de cabelos escuros, caída ao chão.

Um juramento quebrado.

Neve manchada de sangue.

Olhos acusadores.

Exílio.

Thorne rangeu os dentes.

— Está vendo demais — rosnou ele.

— Está me mostrando demais — respondeu ela, a respiração falha.