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O Que Sobrou De Mim

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Summary

Depois de perder as perna no exército, Ray acreditava que o desejo tinha ido junto. Mas ele estava errado. Ray não esperava mais nada da vida além de dias suportáveis. Mas encontros improváveis e relações sem promessas começam a devolver a ele algo que parecia perdido: leveza. Entre risadas, provocações e momentos de intimidade, Ray aprende que não precisa voltar a ser quem era para continuar sendo alguém.

Genre
Lgbtq
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
7
Rating
n/a
Age Rating
16+

Parte 1: A Guerra Não Acabou Para Ray Miller


12/01/26


A guerra é um lugar sombrio, onde a vida de cada homem não passa de uma peça descartável em um tabuleiro que só interessa a quem nunca pisou em terreno minado. Foi justamente quando meus pés tocaram aquela mina que tudo se revelou.

O instante antes da explosão se estendeu como uma eternidade após eu ouvir aquele clique seco. O som metálico, o estalo seco, e então o silêncio absoluto. Meu corpo foi lançado para longe, girando no ar como se o tempo tivesse decidido me conceder uma última dádiva: assistir ao filme da minha própria existência.

Enquanto o mundo se desfazia em poeira e fogo atrás de mim, eu vi coisas. Vi o sorriso da minha mãe na cozinha iluminada pelo sol da manhã. Vi meu pai me ensinando a andar de bicicleta, e o orgulho nos olhos dele quando finalmente consegui. Vi o primeiro beijo roubado atrás da escola, o gosto doce e nervoso da juventude. Vi amigos que já não estão mais aqui, gargalhando em noites que pareciam infinitas.

Cada lembrança surgia nítida, mais real do que a própria guerra. E naquele breve voo entre a vida e a morte, percebi que não era o fim que me definia, mas tudo aquilo que me trouxe até aqui.

E ao invés de receber o prazer da doce morte quando meu corpo tocou o chão, eu não morri. Só veio a dor, uma dor absurda, que parecia rasgar cada pedaço de mim. Não gritei, não chorei. Fiquei ali, imóvel, pensando no absurdo de ainda estar consciente, sentindo aquela dor me devorar.

Olhei para baixo e percebi: minhas pernas já não existiam mais. Só restavam pedaços informes, cotocos grotescos, restos de algo que a pouco me serviam pra caminhar. Foi nesse instante que finalmente abri a boca, e o que saiu não foi um lamento épico, nem um grito de desespero, mas apenas: — Ai, merda. Nem pra morrer eu sirvo.

Meu nome é Raymond “Ray” Miller, 33 anos, um sujeito comum, agora sem as duas pernas e que sempre viveu nessa cidade de merda chamada Mexia, no Texas. Tenho o rosto marcado pelo tempo, não por rugas de idade, mas por dias duros e noites mal dormidas. Pele clara, sempre meio pálida no inverno texano, como se o sol tivesse esquecido de mim.

Meus olhos são fundos, castanhos, daqueles que já viram mais do que deveriam. O cabelo, escuro e curto, vive escondido sob um boné surrado ou bagunçado pelo vento. A barba aparece quando eu esqueço de me importar, o que é quase sempre.

Visto o que qualquer homem daqui veste: uma jaqueta escura, camisa de botão por baixo, calça jeans — ou pelo menos vestia, antes da guerra levar metade do meu corpo. Agora é só o que resta da parte de cima.

Sou o tipo de cara que passa despercebido na rua, que ninguém nota até que esteja faltando alguma coisa. E agora, falta bastante.

Depois de um tempo, chegamos à casa, meu pai foi me buscar na rodoviária da cidade vizinha. Nossa casa é um lugar simples, num bairro simples. Aquelas ruas onde todas as casas parecem ter sido feitas com o mesmo molde: telhado baixo, pintura desbotada, uma cerca de madeira que já viu dias melhores. A nossa tem uma varanda pequena, dois degraus na entrada e um silêncio que parece morar ali desde sempre.

Meu pai luta um pouco pra entender como vai me levar de cadeira pra dentro. Fica olhando os degraus como se fossem uma equação impossível. Depois de uns dois minutos em silêncio, ele decide: me pega no colo e me coloca no sofá da sala já dentro de casa. Eu nem lembro a última vez que ele fez isso. Talvez quando eu tinha cinco anos e caí da bicicleta. Richard Miller nunca foi do tipo que abraça. Nunca foi do tipo que diz “eu te amo”. Mas eu sei que ele me ama, mas me segurou no colo naquele momento sem pensar duas vezes.

— Eu podia vir andando — brinco já no sofá, mas ele nem esboça um simples sorriso só sai pra buscar o resto das coisas.

Ele entra de volta na casa trazendo as malas e a cadeira. Passa por mim e só me dá um sorriso de canto, tímido, quase um reflexo muscular. Depois, como quem se lembra de algo importante, diz: — Arrumei um quarto pra você nos fundos. Lá não tem escadas. Seu antigo quarto está fora de cogitação.

Me leva até o meu novo quarto. É simples, paredes nuas, uma cama de solteiro encostada no canto e uma janela pequena que dá para o quintal. O colchão é firme, limpo, e há um cobertor dobrado em cima, como se estivesse esperando por mim. Não é bonito, mas é prático, ali era um lugar que eu lembro que era só pra guardar tranqueiras e agora eu sou a tranqueira. Pro meu alívio já que eu achei mesmo que eu ia precisar dormir na sala como um móvel esquecido.

Ele ajeita a cadeira perto da cama, coloca minhas malas no chão e, sem olhar muito nos meus olhos, diz apenas: — Aqui vai ser mais fácil pra você.

Depois volta para a cozinha.

— Eu fiz o jantar — anuncia ele, sem dar detalhes.

Por “fiz”, eu sei que ele quer dizer que descongelou alguma coisa no micro-ondas ou abriu uma lata de chili barato. Embora o cheiro pareça ótimo. Ele deve ter comprado de uma marca diferente.

Esse é meu pai, senhoras e senhores. O homem que o Texas teme. O ex-fazendeiro que vendeu tudo por amor e foi morar num bairro mais tranquilo pela minha mãe. Ela morreu há uns quinze anos desde então ele deve estar se escondendo do luto e de todo o resto.

Richard Miller um homem de setenta e poucos anos, alto mas já curvado pelo peso da idade e da vida. O rosto é marcado por linhas profundas, não de sorrisos, mas de sol texano e preocupações. O cabelo, outrora escuro, agora é grisalho e ralo, sempre penteado de qualquer jeito. Os olhos, azuis desbotados, carregam uma frieza que não é ausência de amor, mas o jeito dele de sobreviver ao luto. Veste roupas simples: camisa de flanela gasta, calça jeans velha e botas que parecem ter caminhado mais quilômetros do que ele gostaria de lembrar.

Estamos falando de Richard Miller. O homem cujos sonhos nunca se realizaram. Agora ele vive da aposentadoria e cuida do filho que ele jurava que nunca ia ser nada.

Ele se enganou. Eu, pelo menos, agora sirvo como peso de papel.

Depois de me ajeitar eu vou até a cozinha onde eu, ao olhar me surpreendo, a mesa está posta e arrumada. Não é nada sofisticado, mas há pratos, talheres alinhados e até um pano de mesa meio gasto que eu nem lembrava que existia. Por um instante, parece que alguém se preocupou em transformar a rotina em ritual.

E mais surpreendente ainda: há comida de verdade. Não é só uma lata aberta ou algo descongelado às pressas, mas um jantar de verdade. Há purê de batatas bem servido, milho cozido com manteiga, pedaços de frango assado dourado e pão de forma tostado, colocado numa cestinha improvisada. Ao lado, uma jarra de chá gelado, como todo texano parece ter em casa.

Era simples, mas era comida feita com intenção. O tipo de refeição que não precisa de palavras, porque já diz tudo só por estar ali. O cheiro quente invade a sala e por um segundo eu quase esqueço que estou sentado numa cadeira de rodas, que minhas pernas ficaram em algum campo distante.

Meu pai se acomoda em frente a mim, postura rígida, mãos grandes segurando o garfo como se fosse uma ferramenta de trabalho. Ele não diz nada, apenas começa a comer devagar, como se o silêncio fosse parte do prato. Eu observo, mastigo, e sinto que aquele jantar é a forma dele de falar sem palavras.

Na mesa ajeitada, no esforço de cozinhar algo simples, está escondido tudo o que ele nunca soube dizer.

— Isso é bem surpreendente — digo, encarando a mesa arrumada diante de mim. — Desde quando você cozinha?

— Isso foi só umas coisinhas simples — responde meu pai, servindo o chá gelado com aquele jeito contido de sempre.

— Pai, eu não estou te reconhecendo — digo, ajeitando-me na cadeira para começar a comer. — Se eu não te conhecesse, diria que tem mulher envolvida nisso.

De repente, ouço a porta da entrada se abrir. O som metálico da maçaneta ecoa pela casa silenciosa, seguido de uma voz chamando pelo meu pai. Ele me lança um olhar sério, daqueles que dispensam palavras, como se dissesse: se comporta.

— Quem mais você convidou pra jantar? — pergunto, desconfiado.

— É só uma amiga — responde ele, já se levantando e indo até a sala.

— Desde quando você tem amigas, pai? — retruco, meio irônico.

Ele desaparece por alguns segundos e retorna acompanhado de Carol Lynn, minha vizinha chata que sempre me atormentou por causa do filho dela, com quem eu tinha uma amizade antiga.

Carol Lynn entra na cozinha com aquele ar de quem sempre sabe mais do que deveria e um sorriso marcado no rosto. É uma mulher de meia-idade, elegante sem esforço, com o cabelo loiro claro volumoso, cortado em ondas que parecem ter parado no tempo. O rosto traz marcas sutis da idade, mas nada que apague a energia que ela carrega. Os olhos, castanhos escuros e atentos, são o detalhe que mais chama atenção: profundos, quase inquisidores, como se estivessem sempre julgando ou avaliando quem está à frente.

Ela veste roupas simples, mas bem escolhidas — uma blusa clara, calça jeans e um casaco leve, o tipo de combinação que mostra cuidado sem parecer vaidade. O sorriso dela é rápido, quase automático, mas não chega a ser caloroso. É o sorriso de vizinha que aparece mais por hábito do que por afeto.

Carol Lynn sempre foi assim: presença constante, às vezes incômoda, sempre com uma opinião pronta. E agora, ali na sala da minha casa, ao lado do meu pai, ela parece encaixar-se como se já fizesse parte da rotina dele.

E agora ela estava ali, diante de mim, ao lado do meu pai. Não precisou nem de dois minutos para eu entender do que se tratava. O homem que eu nunca tinha visto sequer lançar um olhar para qualquer mulher na rua, nem mesmo depois que minha mãe morreu, estava namorando a vizinha chata.

Sensacional.

De repente, o silêncio pesado da casa ganhou uma nova camada: o meu inferno agora tinha janela para a vida sexual do meu pai. Só de pensar nisso, uma náusea subiu pelo estômago, como se cada detalhe dessa revelação fosse uma afronta. Vontade de vomitar.

Carol Lynn se senta à mesa conosco, não sem antes me abraçar e sussurrar no meu ouvido aquelas frases prontas: que eu fui corajoso, que voltar pra casa é uma vitória, que agora ela vai ajudar meu pai a cuidar de mim. Sério? A mãe do meu amigo Jimmy Junior vai cuidar de mim? Isso só pode ser piada.

Ela ajeita a cadeira, coloca o guardanapo no colo e começa a falar trivialidades com meu pai, que parece mesmo feliz com ela ali. Eu só observo em silêncio, mastigando devagar, esperando o momento certo de soltar alguma provocação.

— Então, meu querido, quer mais purê? — pergunta ela, inclinando-se para pegar a travessa e já erguendo a colher como se fosse dona da casa.

Eu balanço a cabeça, negando, enquanto corto um pedaço de frango assado e o levo à boca.

— Deve estar tão cansado da viagem — continua ela, servindo mais purê no prato do meu pai. — O seu pai arrumou o quarto dos fundos, e eu ajudei a escolher os lençóis.

Ela passa a mão no braço dele, e eu vejo aquilo enquanto bebo um gole de chá gelado. O ciúme me atravessa como uma fisgada estranha.

— E como está o Jimmy? — pergunto de repente, largando o garfo no prato e quebrando o clima. — Não vejo ele há um bom tempo.

Carol Lynn sorri, mexe a salada no prato e responde: — Ele se casou. Foi uma cerimônia linda no outono.

— Casou? — repito, quase rindo, enquanto mastigo mais um pedaço de carne. — Que bom pra ele. E pensar que a gente falava como você ia surtar se soubesse sobre ele. Mas pelo visto você aceitou muito bem o seu filho.

Ela ergue o queixo, limpa a boca com o guardanapo e rebate: — Eu aceitei? Eu sempre amei o Jimmy Junior. E a Amanda é uma ótima esposa.

— Amanda? — pergunto, mexendo distraidamente no milho com o garfo.

— Uma moça adorável — diz ela, orgulhosa. — Eles moram na cidade ao lado. Qualquer dia te levo lá pra conhecê-la.

Dou uma risada curta, empurrando o prato para frente. O Jimmy brincando de hétero. Isso é incrível.

— O Jimmy Junior, um homem casado — digo incredúlo. — E vai me dizer agora que ele tem filhos também?

Carol Lynn suspira, toma um gole de chá e responde: — Ainda não. Ele nem gosta quando eu toco nesse assunto, mas eu sei que a Amanda quer muito ter um filho.

Eu rio de canto, mastigo devagar e penso: o jantar está servido, mas o verdadeiro prato aqui é a ironia.

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Strong Dialog

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