Capítulo 1
Capítulo 1: A Dívida Sombria
O cheiro de mofo e desespero não era novidade para Maya. Ele impregnava as paredes descascadas do pequeno apartamento na Zona Sul, um lembrete constante da vida que seu pai, Roberto, havia construído para eles. Uma vida de promessas vazias e dívidas crescentes. Maya, aos vinte e um anos, deveria estar focada em seu último ano de Arquitetura, nos croquis de edifícios modernos e sustentáveis que sonhava erguer. Em vez disso, seus dias eram uma dança exaustiva entre as aulas, o estágio e a tentativa fútil de manter a casa em ordem e o pai longe do vício que o consumia.
Naquela noite, porém, o desespero tinha um novo tom, mais agudo, mais letal. Roberto tremia na poltrona puída, os olhos arregalados e fixos na porta de madeira frágil. As mãos suadas esfregavam o rosto envelhecido precocemente, não apenas pelo tempo, mas pela culpa e pelo medo.
— Eles estão vindo, Maya. Eles estão vindo — murmurou ele, a voz rouca, quase inaudível. O pavor em seus olhos era um espelho do que Maya sentia no próprio peito.
Maya engoliu em seco, o coração batendo um ritmo descompassado contra as costelas. Ela sabia quem eram “eles”. O Morro do Trovão não era apenas uma comunidade na paisagem carioca; era um império sombrio, governado com mãos de ferro e banhado em sangue. E no topo desse império, como um deus cruel, estava Grego. Um nome sussurrado com pavor nas ruas do asfalto e com uma reverência quase religiosa nas vielas da favela. Um nome que significava poder, violência e, para muitos, a única lei.
— Pai, quanto você deve desta vez? — a voz de Maya saiu como um fio, quebrando o silêncio tenso que pairava sobre eles. A pergunta era um eco de tantas outras vezes, mas a resposta, ela sabia, seria diferente.
Roberto não respondeu. Seus olhos, antes fixos na porta, agora se desviaram para o chão, como se as rachaduras no piso pudessem absorver sua vergonha. O som de pneus cantando no asfalto molhado do lado de fora fez o coração de Maya errar uma batida. Portas de carros bateram com força, e passos pesados e cadenciados ecoaram no corredor do prédio decadente, subindo as escadas, cada degrau um martelo batendo na porta de sua esperança.
A porta não foi aberta; foi arrombada com um estrondo que fez a estrutura do apartamento tremer. A madeira cedeu com um gemido de protesto, e três homens armados com fuzis invadiram o pequeno espaço. O ar pareceu sumir dos pulmões de Maya, substituído por um frio cortante que não vinha da noite, mas do terror que a envolvia. No meio deles, uma figura imponente preencheu o batente, bloqueando a pouca luz que vinha do corredor.
Grego.
Ele era exatamente como as lendas urbanas descreviam, talvez ainda mais letal em carne e osso. Alto, com os músculos tensos sob uma camisa preta colada ao corpo, exibindo uma tela de tatuagens intrincadas que subiam pelo pescoço, desaparecendo sob a linha da mandíbula forte. Seus olhos escuros, como abismos sem fundo, varreram o ambiente com um tédio calculista, uma indiferença que era mais assustadora do que qualquer ameaça explícita. Então, seus olhos pousaram em Roberto, que agora estava de joelhos, as mãos erguidas em um gesto inútil de súplica.
— Roberto — a voz de Grego era grave, um trovão contido que prometia tempestade. — O prazo acabou.
— Grego, por favor! Eu só preciso de mais uma semana! O dinheiro vai entrar, eu juro! — o homem implorava, as lágrimas misturando-se ao suor, a dignidade esmagada sob o peso do medo.
Grego deu um passo à frente. O ambiente pareceu encolher, o ar rarefeito. Ele não sacou uma arma, não precisava. Sua presença era a própria ameaça, um aviso silencioso de que a violência estava sempre à espreita. Ele inclinou a cabeça, e foi então que seu olhar encontrou Maya. Ela estava encolhida no canto, os cabelos loiros caindo sobre os ombros tensos, os olhos claros arregalados em puro pânico, mas com uma faísca de desafio que ele notou. Grego parou. O tempo pareceu congelar. Ele a analisou dos pés à cabeça, como um predador avaliando uma presa rara, um objeto de interesse inesperado.
— Quem é a garota? — perguntou ele, sem desviar os olhos de Maya, a voz um sussurro que, paradoxalmente, parecia preencher todo o espaço.
— Minha filha. Maya. Por favor, Grego, não a envolva nisso. Ela não tem nada a ver com as minhas merdas! — Roberto implorou, a voz embargada, um último lampejo de paternidade em meio à sua ruína.
Um sorriso lento e cruel curvou os lábios de Grego. Ele caminhou até Maya, ignorando os protestos desesperados do pai. Parou a centímetros dela. O cheiro de pólvora, tabaco e um perfume amadeirado invadiu as narinas da garota, uma mistura inebriante e perigosa. Ele levantou a mão e tocou o rosto de Maya com as costas dos dedos ásperos. Ela estremeceu, mas não recuou, mantendo o olhar fixo no dele, uma batalha silenciosa de vontades.
— Meio milhão é muito dinheiro, Roberto — disse Grego, os olhos ainda presos nos de Maya. — Mas acho que encontramos uma forma de pagamento.