Soberana: Provação do Fogo

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Summary

Elara só queria sobreviver a mais uma noite sem dormir. Mas acabou sendo sequestrada… para outro mundo. Agora, ela é considerada a herdeira de um reino mágico em colapso, caçada por um rei tirano e cercada por pessoas que esperam que ela salve tudo. Detalhe: ela mal consegue controlar a própria vida — quanto mais poderes capazes de destruir tudo ao seu redor. Todos esperam que ela seja a salvação. Mas ninguém perguntou se ela está pronta para isso. Porque, neste mundo, esperança também pode ser um peso. E talvez ela não seja forte o suficiente para carregá-la. Entre fogo, segredos e um destino que ela nunca pediu, Elara terá que decidir: salvar tudo… ou se tornar o motivo de tudo desmoronar.

Status
Complete
Chapters
29
Rating
n/a
Age Rating
16+

Capítulo 1: Pesadelo ou Realidade.

Elara 

— Ai!!!

Eu falo enquanto rolo e caio do sofá. Minha cabeça bate no chão, causando uma dor intensa no local, era bem provável que surgiria um “galo” no local. Acho que caí novamente na tentação de cochilar. Essa dor na testa talvez seja útil, porque assim não vou dormir novamente. Ou seja, outra noite lutando contra o desejo de dormir. Mas não posso, não desde que começaram os sonhos. Eles são intensos e reais demais, prefiro não dormir, mesmo me sentindo exausta.

Vou até a janela, o barulho da chuva caindo lá fora é reconfortante, pois meu apartamento é silencioso como uma cripta; por isso estou sempre grata por qualquer barulho, seja os pingos da chuva, seja o gato de dona Lola, que às vezes aparece em busca de comida, esses pequenos sons me dão a sensação de que não estou completamente sozinha.

A chuva enfraqueceu, e já posso ver os primeiros sinais do amanhecer. Minha casa não tem uma grande vista, afinal, é só um pequeno apartamento nos fundos da pousada onde trabalho. E como o lá fora já está clareando, acho melhor tomar um banho e me preparar para mais um dia emocionante na minha vida.

Sempre gostei de tomar banho; sinto como se a água levasse mais do que espuma e sujeira; levasse também os pensamentos ruins.

A fumaça quente do chuveiro deixou o espelho nublado. Quando passo a mão no vidro, a imagem que vejo não é a que eu gostaria. Pareço abatida, mais velha, as olheiras estão enormes, a pele ressecada, o cabelo opaco.

Não tenho tempo para me lamentar agora. Vista uma variação da minha roupa de sempre: calça jeans, tênis, camiseta e minha jaqueta de couro preta, já bem surrada. Uma touca e a mochila completam o visual. Repasso mentalmente a lista de tarefas e saio para mais um dia na minha vidinha monótona que aprendi a amar.

Passo primeiro na Cafeteria Lua Nova; uma construção charmosa com luzes penduradas e uma fachada fofa, como as das confeitarias dos anos 50. Eu entro, e logo sinto o cheiro de torrada fresca, e alguma coisa feita com manteiga e açúcar que faz com que minha boca encha de água. Compro todos os itens para o café da manhã dos hóspedes. Em seguida, volto à pousada, pois preciso deixar tudo preparado para quando acordarem.

É baixa temporada e, por isso, hoje estamos com apenas três hóspedes: um casal de montanhistas e a senhora Nyara. Essa senhora está aqui há quase duas semanas. Sério, ela é estranha. Normalmente, quem vem para essa região vem à procura de turismo de aventuras, pois aqui não é nem um centro urbano cheio de lojas ou shoppings; aqui as atrações são naturais, e envolvem normalmente escaladas, trilhas ou outras atividades junto à natureza. Mas essa senhora não trouxe nenhum equipamento, e nem mesmo se interessou em sair para conhecer a região. Ela me deixa bastante curiosa.

Quando chego, a pousada já está acordada e parada na porta de entrada, como se me esperasse. Eu a cumprimento e, quando pergunto, ela diz que só estava observando os arredores. Como eu disse, intrigante.

Vou arrumar a mesa no refeitório e, claro, ela me acompanha e ajuda. Ela sempre quer conversar, saber sobre mim. Eu não gosto disso, não gosto de falar de mim, mas ela parece não perceber meu desconforto, ou só não se importa. Insiste para que eu tome café com ela, o que me deixa desconcertada, mas sou salva pelo casal de hóspedes, que aparece a tempo. Aproveito a deixa para me esgueirar e ir arrumar os quartos.

Quando volto para a recepção, vejo uma cena que me faz ferver por dentro: a senhora Nyara está com o meu caderno de desenhos nas mãos. Meu sangue ferve.

— Solta isso! — gritei.

Ela soltou imediatamente, e até tentou falar algo, mas eu estava furiosa. Não admito esse tipo de invasão de privacidade. Meus desenhos refletem o que está na minha cabeça, e não quero ninguém olhando o que está lá dentro. Acho que ela percebeu, que seria melhor não conversar agora, porque se afastou e saiu. Não a vi mais pelo resto do dia.

A tarde chegou calma, sem chuva, sem hóspedes novos, sem novidades. Monterrio é sempre assim, nada nunca acontece. Por isso as pessoas daqui se interessam tanto pela vida alheia. Os únicos “eventos” são os poucos turistas que passam por aqui, geralmente querendo explorar a montanha.

Eu estava na recepção, desenhando e tentando não dormir, quando Berry chegou. Ele é um dos policiais da cidade, o mais jovem deles, de Estatura média, magro, loiro, olhos claros, o típico bom moço. Não me surpreenderia se se tornasse o novo xerife em breve. Eu já sabia o motivo da visita ou pelo menos suspeitava. Desde criança, Berry gosta de mim, Ele não consegue disfarçar, o que sempre achei fofo, mas sempre vi ele como um amiguinho e nada mais. Ele sempre passava pela pousada com as mais variadas desculpas para me ver.

Hoje a desculpa era que ele estava de ronda e veio me avisar que viram dois homens e uma mulher estranhos rondando a pousada na noite anterior, alguém denunciou e ele não podia deixar de me avisar. Me esforcei para ser educada, Ele não tinha culpa do meu humor. Conversamos por alguns minutos, até que consegui convencê-lo de que estava tudo bem com minha segurança. E ele se foi parecendo não estar convencido das minhas palavras.

Minha segurança não estava em risco com certeza, mas eu não estava bem por dentro. Talvez fosse a falta de sono, ou os malditos pesadelos. Talvez a invasão de privacidade, pois pior que os pesadelos era alguém os ver expressos nos desenhos. Havia algo errado em mim nesses últimos dias.

Fui até a cozinha. Fiz um chá de camomila. Detesto chá. Principalmente de camomila. No orfanato, nosso café da manhã era isso: chá com biscoitos velhos de água e sal. Aquele chá me lembrava do quanto eu odiava aquele lugar. Era bonito por fora, mas frio e cruel por dentro. Eu havia tentado esquecer o máximo possível daquele lugar horrível, mas ele sempre brotava em meus pesadelos atualmente.

A senhora Holt, nossa tutora, sempre dizia:

— Uma garota sem pais, que não sabe nem a arte de tomar chá... Oh, céus! Que deselegante!

Tudo em mim era “deselegante” para ela. E os colegas não ajudavam. Viviam me chamando de “menina do fogo” ou “amaldiçoada”.

O pior foi no Halloween, quando uma das garotas vestiu uma roupa minha dizendo estar fantasiada de monstro. Eu sou claro bati nela, com toda minha força infantil. Mas não sai impune, levei uma surra de cabo de vassoura. Fiquei muito chateada pois ninguém me defendeu, afinal todos acharam que a menina estava sendo engraçada.

Uma grande coincidência foi que nessa mesma noite, o quarto da senhora Holt pegou fogo. Nunca souberam como começou, e embora ela tenha sido resgatada, ficou sem grande parte dos cabelos e sobrancelhas. Sorri ao lembrar disso, talvez eu seja má por achar isso engraçado, mas não ligo , essa era a imagem que eu evocava na mente sempre que queria sorrir.

Terminei de tomar a tortura em forma de chá; detestei cada gole. Mas achei que poderia ajudar com a inquietação que sinto, mas foi um sacrifício inútil, ainda me sinto péssima. O que está acontecendo comigo? Será que estou finalmente enlouquecendo?

As horas se arrastavam, eu só queria ir para casa, mas parecia que quanto mais queria mais o sol teimava em não sumir. Finalmente a noite caiu, e pude encerrar meu turno na recepção da pousada. E o melhor: Eu estava de folga, seria uma noite de filmes e series de heróis na televisão. Eu adorava esse gênero de cinema, principalmente os X-mens e a turma toda da Marvel.

Passei no restaurante da cidade para pegar o jantar, nada de cozinhar no dia de folga. Estava frio e com muita neblina, as luzes pareciam não conseguir iluminar através dela. O típico cenário de filme de terror. Eu teria ficado com medo, mas em Monterrio isso não faria sentido. Mas enquanto voltava para casa, senti algo estranho, o homem aranha diria que era eu sentido aranha apitando; comecei a andar mais rápido, e embora não visse ninguém podia ouvir passos pesados atras de mim, e uma sensação como que estava sendo observada.

Lembrei das palavras de Berry, hoje mais cedo; talvez ele estivesse certo, talvez alguém estivesse mesmo rondando aquela região. Acelerei o passo, mas olhando para trás e nos arredores não via ninguém. Passei correndo pelo pequeno portão lateral da pousada, que leva ao meu apartamento nos fundos. Entrei e Tranquei a porta. Agora estava tudo bem certo? Mas por que não me sentia segura?

Um barulho me fez pular. Meus braços tremeram, as pernas fraquejaram, e por um segundo achei que seria totalmente possível alguém morrer de medo. Mas então notei que era só Lock, o gato da vizinha. Ele sempre dá um jeito de entrar, provavelmente pela janelinha do banheiro. Normalmente gosto da presença dele, mas não hoje. Ainda tremendo, o peguei no colo. O calor do corpo dele, e o som que ela emitia como um ronronado baixo, me acalmou um pouco. Olhei pela janela de vidro, meio escondida trás da cortina. não havia ninguém ali, o que significava que deveria ser coisas da minha cabeça, e não havia ninguém atras de mim. Levei Lock até a cerca dos fundos para que pudesse voltar para sua casa. Foi quando ouvi vozes.

Haviam um homem e uma mulher se aproximando da minha casa. Me escondi atrás dos entulhos da última reforma da pousada, várias taboas de madeira e alguns tijolos, vigas de ferro e outras coisas. Fiquei atenta na conversa sem ousar me mexer. A mulher disse:

— Preciso de mais tempo. Ela não está pronta. Nem pude conversar com ela ainda.

Aquela voz... era da senhora Nyara. Falar com quem? comigo? so poderia ser já que ela estava indo em direção a minha casa. Então Ela estava aqui por minha causa?

O homem respondeu:

— Não temos mais tempo. Faltam pouco tempo para tudo se tornar irreversível, já perdemos tempo demais. Ela é a chave. Vamos levá-la, por bem ou por mal.

Ouvir aquelas palavras, me deixaram em pânico e completamente confusa, com certeza estavam procurando outra pessoa e acharam a pessoa errada. Eu não tinha nada que sequestradores pudessem querer. Quanto mais eu ouvia os passos deles pelo pequeno quintal em direção a casa, mas eu ficava em pânico; nunca estive ou se quer imaginei uma situação parecida. Senti uma dor de cabeça crescendo rapidamente, minha visão estava turva, e uma vertigem enorme me abateu. Sem que eu pudesse conter algo em mim explodiu.

Literalmente explodiu. Senti como se um vendaval partisse de dentro de mim, uma espécie de vento forte lançou tudo para longe, os dois, os entulhos e pedaços de madeira, todos voaram junto. Sem tempo para entender o que acontecia, corri para casa, desesperada, precisava ligar para Berry, ele viria correndo.

Assim que entrei dentro de casa, fechei a porta com força e me lancei até o telefone. Minhas mãos tremiam, o medo era latente, sentia o coração pulsando forte em mim como um tambor de guerra. Meus dedos hesitaram por um instante, depois digitei os números de Berry. Quando ouvi a voz do outro lado da linha, um fiapo de alívio brotou em mim, mas não durou, não pude nem dizer uma palavra se quer; senti um pano pressionado contra minha boca e nariz. Não consegui gritar, um cheiro doce e enjoativo me invadiu. Tentei lutar, mas meus membros ficaram pesados, como se fossem feitos de chumbo; tudo ficou escuro, e eu apaguei.