Enquanto Ainda Existe Tempo

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Summary

A história acompanha um pequeno grupo de sobreviventes tentando continuar vivos em uma realidade onde as cidades colapsaram, a comunicação desapareceu e a própria ideia de normalidade virou uma lembrança distante. Em meio a ruas vazias, estruturas abandonadas e rumores sobre pessoas que perderam completamente a humanidade, os personagens são obrigados a lidar não apenas com os perigos do novo mundo, mas principalmente com os conflitos entre si. O foco da narrativa está nas relações humanas: medo, culpa, dependência emocional, violência, apego, paranoia e a lenta transformação psicológica causada pela sobrevivência constante. Cada personagem reage de maneira diferente ao colapso da sociedade, criando tensões internas tão perigosas quanto qualquer ameaça externa.

Genre
Horror
Author
ShinN
Status
Ongoing
Chapters
5
Rating
n/a
Age Rating
18+

Prologo

MARCO — A SEMANA ANTES

Segunda-feira 04:00

Marco não tinha pressa naquela semana.

Acordava cedo por hábito. O apartamento onde morava parecia um lugar de passagem — paredes limpas demais, poucos quadros, quase nenhum objeto pessoal além do necessário. Um sofá ainda protegido por plástico. Uma estante baixa com livros técnicos: manuais de montagem, guias de engenharia, livros sobre motores, aeronaves, estruturas metálicas. Pouca ficção. Quando havia, eram histórias de invasões, colapsos, civilizações que caíam rápido demais.

Ele gostava de coisas que funcionavam.

Máquinas. Sistemas. Estruturas que, se montadas corretamente, obedeciam à lógica.

Na terça-feira, passou a manhã inteira assistindo vídeos sobre acidentes aéreos, desmontando mentalmente cada erro humano envolvido. Pausava, voltava, anotava mentalmente falhas que poderiam ter sido evitadas. Porque entender o erro sempre lhe pareceu uma forma de manter o controle.

Marco decidiu ir ao mercado no fim da tarde sem precisar de nada.

Pegou uma cerveja qualquer, um pacote de amendoim, coisas que não justificavam a ida. Caminhou pelos corredores com calma excessiva, como quem adia um destino pequeno demais para causar ansiedade. Quando passou pelo caixa, reconheceu o cabelo preso de qualquer jeito, a expressão cansada, o mesmo olhar atento de quem observa mais do que demonstra.

— Achei que você tivesse desistido do chocolate — ela comentou, sem erguer totalmente os olhos.

— Hoje eu lembrei de comprar — respondeu. — Ontem foi desculpa.

Ela sorriu de canto.

— Progresso.

O nome no crachá agora era legível: Ana.

— Marco — disse ele, apontando para si, antes que o silêncio virasse constrangimento.

— Eu sei — respondeu ela, surpreendendo-o. — Você tem cara de Marco.

— Isso é bom ou ruim?

Ela passou o código da cerveja, pensou por um segundo.

— Ainda não decidi.

O mercado estava quase vazio. O bip do caixa ecoava mais alto do que deveria. Ana suspirou, apoiando os braços no balcão.

— Fim de expediente hoje — comentou. — Mais quinze minutos.

Marco hesitou. Olhou o relógio. Depois, olhou para ela.

— Posso esperar.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Aqui?

— Ou ali fora. Não sou exigente.

Ana desligou o caixa alguns minutos depois. Pegou a bolsa, soltou o cabelo, massageou o pescoço com um cansaço honesto.

— Tem um barzinho ali na esquina — disse, como quem não planejou nada, mas já tinha pensado nisso. — Nada demais. Cerveja barata, comida honesta.

— Perfeito — Marco respondeu. — Odeio lugares que tentam ser mais do que são.

O bar era pequeno. Mesas de plástico, uma TV velha passando algum jogo irrelevante. Sentaram-se perto da calçada, onde o vento ajudava a dissipar o cheiro de fritura.

— Então — Ana começou, depois do primeiro gole —, você trabalha com o quê?

Marco demorou a responder.

— Estruturas. Projetos. Coisas que precisam ficar em pé.

— Isso explica o jeito que você olha pras coisas — ela disse. — Como se estivesse medindo.

— É um defeito.

— Não parece.

Ela contou que trabalhava ali há quase dois anos. Que odiava o horário. Que gostava de observar pessoas, inventar histórias sobre elas enquanto passavam as compras na esteira.

— Você — ela disse — parece alguém que não inventa muita coisa sobre si mesmo.

— Eu prefiro o que funciona.

— E funciona?

Marco girou o copo lentamente.

— Funciona o suficiente.

O silêncio entre eles não era desconfortável. Era um caso curioso. Ana brincava com o porta-guardanapos, Marco observava a rua.

— Você tem alguém? — ela perguntou, direta demais.

— Não.

— Quer alguém?

Ele pensou por mais tempo do que deveria.

— Não sei.

Ana assentiu, como se aquela fosse uma resposta válida.

— Eu gosto disso — disse. — Gente que não mente só pra parecer interessante.

— E você?

— Eu tenho dois gatos, uma cafeteira quebrada e um aluguel atrasado. Se isso conta como companhia.

Marco riu baixo. Não gargalhou. Apenas deixou escapar algo que não fazia havia um tempo.

— Conta — respondeu. — Mais do que muita gente.

Eles falaram de coisas pequenas. Filmes ruins que viram até o fim. Lugares que nunca visitaram. Cansaram-se juntos, sem pressa de ir embora.

Quando se despediram, Ana anotou o número dela no mesmo papel amassado de antes.

— Se quiser repetir — disse. — Sem desculpa de chocolate dessa vez.

Marco guardou o papel na carteira, no mesmo compartimento de sempre.

— Eu volto — respondeu.

Ela sorriu.

E, pela primeira vez em muito tempo, Marco voltou para casa sem a sensação de que tudo era apenas passagem.


ELAINE — A SEMANA ANTES

Segunda Feira: 07:00

Elaine acordava sempre alguns minutos antes do despertador tocar.

Um costume criado depois de anos vivendo sozinha, onde ninguém mais ditava o ritmo do dia. O celular vibrava na mesa de cabeceira, mas quando a tela acendia ela já estava sentada na cama, passando a mão no rosto, respirando fundo como quem se organiza por dentro antes de existir para o mundo.

O quarto era pequeno. Não apertado — funcional. Uma cama de solteiro bem arrumada, um criado-mudo com livros empilhados de forma torta, uma luminária amarela que ela insistia em manter mesmo com a lâmpada já fraca. As paredes tinham poucos quadros, mas todos diziam algo: uma ilustração antiga de anatomia, uma foto borrada de um pôr do sol na praia, um papel colado com fita escrito à mão:

“Respira. Depois decide.”

Ela se levantava, calçava as pantufas da Minnie — um presente antigo, quase infantil, que ela nunca se deu ao trabalho de jogar fora — e ia até a cozinha. O apartamento tinha cheiro de café velho misturado com sabonete neutro. Ela gostava disso. Cheiros constantes davam a sensação de que nada tinha saído do lugar durante a noite.

Enquanto a cafeteira chiava, Elaine abria o Spotify e deixava uma playlist tocar no volume baixo. Nada muito animado. Nada muito triste. Músicas que preenchiam o espaço sem pedir atenção demais.

Ela dobrava a própria cama todos os dias, como se fosse uma tarefa importante para começar o dia bem.

No espelho do banheiro, prendia o cabelo num coque frouxo, observando o próprio reflexo com um olhar atento, quase clínico. Não se julgava. Apenas se avaliava. Como alguém que está sempre pronta para conversar — mas também pronta para ir embora.

Elaine trabalhava com pessoas. E isso aparecia em tudo.

No trajeto até o trabalho, ela conversava com desconhecidos como se fossem conhecidos antigos. Não de forma invasiva — era um talento raro: ela sabia quando falar e como ouvir.

— Esse ônibus hoje tá um inferno, né? — comentou com uma senhora sentada ao lado, segurando firme a bolsa.

— Minha filha, isso aqui é sempre um inferno — respondeu a mulher, rindo.

— Pelo menos hoje não tá chovendo.

— Não fala isso alto, menina, senão São Pedro escuta.

Elas riram juntas. Pequenos vínculos. Elaine colecionava esses momentos sem perceber.

No trabalho, era conhecida como “a que resolve”. A pessoa que intermediava conflitos, que explicava duas vezes sem perder a paciência, que percebia quando alguém estava estranho antes mesmo da pessoa perceber.

Numa terça-feira, algo quebrou essa rotina.

Ela estava saindo para o almoço quando ouviu um barulho seco, seguido de gritos. Um homem tinha escorregado na escada do prédio vizinho e caído de mau jeito. As pessoas se aglomeraram, confusas. Uns filmavam. Outros gritavam ordens inúteis.

Elaine não pensou. Apenas foi.

— Senhor, olha pra mim. Consegue mexer a mão?

— Acho que… acho que sim — respondeu ele, com a voz trêmula.

— Ótimo. Não tenta levantar. Respira comigo.

Ela se ajoelhou no chão, segurou a mão dele, falou com firmeza e calma. Pediu alguém para chamar ajuda. Mandou outra pessoa afastar a multidão. Em poucos minutos, o caos tinha virado silêncio atento.

Quando o resgate chegou, um rapaz que observava tudo comentou:

— Você é médica?

Elaine sorriu, negando com a cabeça.

— Não. Só uma cidadã de Deus.

Essa frase ficou ecoando nela o resto do dia.

Conversas que ficam

Naquela mesma semana, uma colega nova puxou assunto no intervalo.

— Você sempre foi assim… tranquila?

Elaine pensou antes de responder.

— Não. Eu aprendi.

— Com o quê?

— Com gente errada. E com gente certa.

A colega riu, mas ficou pensativa. Elaine percebeu. Sempre percebia. Por um momento ela pensou consigo mesmo, o do porquê disse aquilo.

Ela tinha amigos espalhados, histórias cruzadas, laços que não eram profundos demais, mas eram verdadeiros. Ela acreditava que a vida não precisava ser intensa o tempo todo para ser significativa.

Mas algo nela estava inquieto.

Numa noite, já em casa, Elaine sentou no sofá com o celular na mão. Abriu uma conversa antiga. Nomes que não via juntos há tempo. Marco. Oscar. Helena. Theo. Rogério. Beatriz.

Ela digitou. Apagou. Digitou de novo.

“Oi!!, Vocês ainda existem?”.

Três pontinhos surgiram quase imediatamente.

Ela sorriu.

Oscar:

"Depende, você vai me fazer uma transferência bancária gorda?".

Helena:

"É Elaine, irá fazer uma transferência prá nós? 🫠".

Theo:

"Acabei de ler que a Elaine irá fazer umas transferências?!".

Elaine:

"HA HA HA HA HA, nem ferrando".

Oscar:

"Então.... qual a boa? pq a mensagem hoje?".

Elaine:

"Tá sensível hoje, o que houve? o gato arrastou você?".

Oscar:

"Vlw, sempre fui sensível, gosto de ajudar as pessoas independente da etnia, e um gato não tem força para arrastar um humano, melhore".

Elaine:

"É uma metáfora criatura...".

A conversa foi fluindo, cheia de piadas antigas, referências que só eles entendiam, pequenas farpas carinhosas. Em algum momento, Elaine parou de rir sozinha e ficou séria, encarando a tela.

Ela sabia por que estava fazendo aquilo.

Não era saudade apenas. Era pressentimento. Um sentimento agudo e sensível.

— A gente devia se ver — ela escreveu. — Uma última reunião de velhos tempos né, acho uma boa.

— Dramática — respondeu Oscar.

— Realista meu bem.— corrigiu Elaine.

Helena comentou que tinha conseguido um emprego novo. Theo mandou um áudio reclamando da vida. Marco ficou mais quieto, mas respondeu que estava de férias.

Elaine respirou fundo e foi direta:

— Semana que vem, na Sexta. Restaurante. Sem desculpa. Eu organizo o local apenas.

— Você vai mandar na gente de novo? — provocou Helena.

— Sempre mandei — Elaine respondeu. — E vocês agradecem depois.

— Você vai pagar a minha conta? — Oscar Disse continuando.

— Oscar, eu paguei a ultima e inclusive, você está me devendo um lanche, logo, você tem que pagar a minha conta!. — Disse Elaine com um sorriso no rosto maléfico

Ela fechou o celular e ficou olhando o teto por alguns segundos.

Não sabia explicar, mas sentia que aquele encontro precisava acontecer agora. Não depois. Não quando desse. Agora.

Ela levantou, foi até a janela e observou a cidade lá embaixo. Pessoas andando, carros passando, luzes acendendo e apagando. Tudo parecia normal demais.

Ela não sabia que aquela seria a última semana em que o mundo funcionaria daquele jeito.

Mas, se soubesse, ainda assim teria chamado todos.

Porque Elaine sempre acreditou que as pessoas precisavam estar juntas antes de tudo ruir.

OSCAR — A SEMANA ANTES

segunda-feira — 06:42

Oscar acordou antes do despertador tocar, mas ficou deitado mesmo assim.

O quarto ainda estava escuro. A cortina mal fechada deixava entrar uma faixa torta de luz da rua, recortando a parede com um tom alaranjado fraco. Ele virou o rosto para o outro lado, enterrou a cabeça no travesseiro e respirou fundo, como se tentasse convencer o corpo de que ainda dava pra dormir mais um pouco.

Não dava.

A casa estava silenciosa demais. Nenhuma TV ligada. Nenhum rádio velho tocando notícia ruim. Nenhum barulho de panela.

Ele se levantou devagar, sentindo o chão frio sob os pés descalços. A porta do quarto rangeu baixo quando ele abriu — um som conhecido, quase confortável. Caminhou pelo corredor estreito até a cozinha, passando pela sala simples: sofá gasto, ventilador encostado num canto, uma estante improvisada com livros antigos da escola e revistas velhas.

Na geladeira, um ímã colorido segurava um bilhete dobrado.

“Saí cedo.

Tem pão e leite.

Volto mais tarde.”

Letra da mãe. Direta. Sem floreio.

Oscar abriu o armário, pegou o pão de forma, colocou duas fatias no prato. Abriu a geladeira, tirou o leite, cheirou antes de usar — hábito antigo — e colocou na caneca grande, azul, lascada na borda.

Sentou-se à mesa com o celular ao lado, mas não mexeu nele de imediato. Ficou observando o vapor subir do leite quente, como se aquilo exigisse atenção total.

Ele não estava atrasado para nada. Não precisava sair. Não tinha compromisso.

Mesmo assim, sentia aquela inquietação leve, quase invisível. Um desconforto sem nome.

Depois do café, lavou a louça sem pressa. Olhou pela janela da cozinha. O céu estava limpo. Azul demais para uma segunda-feira.

— Dia bonito pra não fazer porra nenhuma — murmurou.

segunda-feira — 10:30

Oscar passou a manhã inteira dentro de casa.

Alternou entre vídeos de teoria de super-heróis, trailers de filmes que ainda não tinham data, fóruns cheios de gente discutindo detalhes irrelevantes como se fossem questões de vida ou morte.

Riu sozinho em alguns momentos. Em outros, apenas rolou a tela sem prestar atenção.

O tempo passava estranho. Nem rápido, nem lento. Apenas passava.

Por volta das dez e meia, resolveu sair. Vestiu uma camiseta velha, calçou o tênis já meio gasto e trancou a porta com cuidado, testando duas vezes antes de ir.

terça-feira — 09:18

Na terça, Oscar acordou mais disposto.

Não por um motivo claro. Apenas acordou.

Tomou banho, ficou alguns segundos a mais debaixo da água quente, sentindo o vapor embaçar o espelho. Passou a toalha no rosto com força, como se quisesse apagar qualquer resquício de sono.

Na cozinha, comeu rápido. Pegou o celular. Abriu mensagens antigas. Conversas paradas no tempo.

Um nome chamou atenção.

Marco.

Rolou para cima. Mensagens antigas. Piadas internas. Áudios longos reclamando da vida. Silêncios prolongados depois.

Oscar digitou.

Apagou.

Só às 11:47 criou coragem.

Oscar:

“Cara… faz tempo, né?”

Deixou o celular sobre a mesa e foi para a sala, como se fingir desinteresse pudesse acelerar a resposta.

terça-feira — 12:36

O celular vibrou.

Marco:

“Porra. Do nada assim? trabalha não hobbit?.”

Oscar riu baixo.

Oscar:

“Ué, não pode mais puxar assunto?”

Demorou um pouco.

Marco:

“Pode. Só estranhei.”

Oscar: Faz sentido, afinal faz anos que não nos falamos."

Marco:

"Justo, e ai, como anda as coisas?. Já arrumou uma "muie?".

Oscar:

Phourra nenhuma, mas to de vista em uma..".

Oscar ficou olhando a tela. Pensou em responder algo mais profundo. Não respondeu.

Guardou o celular no bolso e saiu de casa, decidindo ir ao shopping.

terça-feira — 14:10

O shopping estava cheio demais para uma terça-feira.

Gente andando apressada, adolescentes rindo alto, crianças chorando por motivos que não importavam. Oscar comprou um ingresso quase sem pensar.

SUPER-TÓXICO.

Sentou-se no cinema com um balde médio de pipoca. O filme começou alto, explosivo, exagerado como todo filme de herói precisava ser.

Mas havia algo diferente.

O protagonista tinha sido escravizado por décadas. Quando finalmente voltava ao mundo, nada fazia sentido. O país era outro. As pessoas eram outras. Ninguém lembrava dele.

Em uma cena específica, o herói ficava parado diante da cidade à noite, observando prédios iluminados, carros passando, pessoas vivendo.

Oscar sentiu um aperto estranho no peito.

Como se aquela sensação fosse familiar demais.

Quando o filme acabou, ele ficou sentado enquanto os créditos subiam. Só levantou quando um funcionário limpava a fileira.

terça-feira — 21:22

As mensagens continuam

No caminho de volta, o celular vibrou.

Elaine:

“Oi!!, Vocês ainda existem?”

Oscar sorriu.

Oscar:

“Depende, você vai me fazer uma transferência bancária gorda?.”

Eles conversaram bastante, todos eles depois de anos. Eles decidiram marcar um reecontro para relembrar velhos tempos e jogar conversa fora.

Guardou o celular. Não respondeu mais.

quinta-feira — 22:40

Na quinta à noite, Oscar estava deitado, celular apoiado no peito, encarando o teto.

A casa dormia. A rua estava quieta. O ventilador fazia um barulho irregular, como se estivesse cansado.

Ele pensou nos nomes que tinham voltado a aparecer na tela. Pensou em como certas pessoas nunca desaparecem de verdade. Só ficam quietas, esperando.

Não sabia ainda.

Mas sentia que algo estava se organizando.

E, pela primeira vez em muito tempo, não mudou de assunto para fugir disso.

THEO & HELENA — A SEMANA ANTES

segunda-feira — 05:58

Theo acordou antes do despertador.

Não abriu os olhos de imediato. Ficou imóvel, respirando baixo, escutando os sons da casa como se estivesse fazendo uma contagem silenciosa do que ainda existia ali: o zumbido distante dos carros na avenida, o estalo leve da madeira do guarda-roupa, a respiração de Helena ao lado.

Ela dormia de lado, encolhida, o rosto parcialmente escondido no travesseiro. O cabelo espalhado denunciava uma noite mal dormida, apesar do silêncio. Theo estendeu a mão e afastou uma mecha do rosto dela, com cuidado excessivo, como se qualquer movimento errado pudesse quebrar algo.

Levantou-se devagar.

Na cozinha, colocou água para ferver, abriu o armário, procurou o café. A casa era grande demais para os dois — sempre tinha sido. Uma tentativa antiga de provar que estavam “dando certo”. Àquela hora da manhã, o espaço parecia ainda maior.

Helena apareceu minutos depois, vestindo uma camiseta larga dele.

— Que horas são? — perguntou, com a voz rouca.

— Quase seis.

— Odeio segundas-feiras.

— Todo mundo odeia.

Ela se sentou à mesa, apoiou o rosto na mão. Ficaram em silêncio enquanto o café passava. Não era um silêncio confortável. Mas também não era novo.

segunda-feira — 07:12

Theo saiu primeiro. Pegou o ônibus ainda meio vazio, sentou perto da janela, colocou os fones sem música. Observava a cidade acordando como quem assiste a algo repetido demais para surpreender.

Trabalhava numa escola no Jardim Paulista. Crianças pequenas, perguntas demais, atenção constante. Ele gostava do que fazia — gostava do esforço que exigia, gostava da sensação de ser útil — mas ultimamente aquilo vinha acompanhado de um cansaço que não passava nem depois de dormir.

Às 12:04, na sala dos professores, alguém ligou a TV.

— Só um pouco de notícia — disse uma professora.

Um jornalista negro apareceu na tela, falando de forma rápida, protocolar.

“Autoridades acompanham um surto de gripe atípica em algumas regiões do país. Segundo especialistas, não há motivo para alarde…”

Theo nem levantou o olhar.

Ignorou. Comeu. Conversou sobre provas, alunos difíceis, salários atrasados. Vida comum demais para permitir preocupações extras.

Helena, do outro lado da cidade, estava em uma sala branca demais para ser acolhedora.

segunda-feira — 09:40

Helena ajeitou a postura na cadeira, cruzou as mãos sobre a bolsa no colo. A entrevistadora falava com um sorriso profissional, repetindo perguntas já conhecidas.

— Você saiu do último emprego por quê?

Helena respondeu com firmeza ensaiada. Não falou da demissão como fracasso. Falou como transição. Como quem ainda acredita.

Quando saiu, o sol estava forte. Ela parou na calçada por alguns segundos antes de seguir caminho. Respirou fundo. Não chorou. Não sorriu.

Seguiu.

terça-feira — 18:47

Os dias seguintes passaram como blocos iguais.

Trabalho. Trânsito. Casa.

Theo chegava cansado, Helena chegava tensa. Conversavam sobre coisas pequenas: o jantar, o vizinho barulhento, a série que estavam vendo. À noite, às vezes se tocavam como se precisassem provar algo. Outras vezes apenas dormiam virados para lados opostos.

Eles tinham decidido se casar.

Isso era verdade.

Mas também era verdade que a decisão vinha carregada de dúvidas que nenhum dos dois sabia nomear.

As mensagens começaram a aparecer nessa noite.

Não uma. Várias.

Longas. Antigas referências. Convites indiretos.

Helena leu tudo sentada no sofá, com o celular na mão. Theo observava da cozinha.

— Quem é? — perguntou.

Ela suspirou antes de responder.

— Elaine.

Theo assentiu, mas o corpo inteiro tensionou.

Eles trocaram poucas palavras sobre isso. Mais silêncio do que frases.

As mensagens continuaram nos dias seguintes. Conversas longas. Propostas que vinham disfarçadas de brincadeira, mas carregavam peso demais para serem ignoradas.

Eles resistiram.

Não porque não quisessem ver os outros. Mas porque sabiam

Reabrir coisas.

Sentados na cama, luz apagada, apenas o brilho do celular iluminando o quarto.

— Você quer ir? — perguntou Theo.

Helena demorou a responder.

— Eu não sei se quero… mas acho que preciso.

Ele passou a mão no rosto.

— Eu não quero voltar a ser quem eu era naquela época.

— Eu também não.

Silêncio.

— Mas fingir que nada existiu não resolveu nada pra gente — ela completou.

Theo respirou fundo.

— Então a gente vai. Mas vai do nosso jeito.

Ela assentiu.

Não estavam empolgados. Não estavam felizes.

Mas estavam juntos.

E, naquele momento, isso parecia suficiente.

quarta-feira — 06:10

Helena acordou antes do despertador.

Olhou para Theo dormindo ao lado, o rosto cansado, mas tranquilo. Pensou no novo emprego. Pensou no encontro. Pensou em como a vida parecia sempre estar à beira de alguma coisa — sem nunca avisar exatamente o quê.

Levantou-se em silêncio.

A semana ainda não tinha terminado.

Mas algo já tinha começado.