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MIA HUNT
Os pássaros voam contentes no céu azul de Duluth. Hoje faz calor, um calor de verdade, e por aqui, isso é quase um milagre. Duluth é uma cidadezinha charmosa no interior de Minnesota, a cerca de 24 milhas de Atlanta. Nossa fama local? Somos a sede do Atlanta Gladiators, time de hóquei da liga menor. Por conta disso, a cidade vive infestada de brutamontes com dentes faltando e fãs barulhentos do esporte, acompanhados de suas respectivas namoradas loiras, sempre com menos de 1,60 m e botas que custam o dobro do aluguel de um estúdio no centro.
É dia de jogo contra os Florida Everblades. A cidade está em alvoroço. Placas penduradas nos postes, lojas oferecendo desconto para quem vier com a camisa do time e buzinas aleatórias ecoando como se estivéssemos em clima de carnaval.
Na lanchonete onde trabalho, oMaple & Steam, o movimento começou cedo. Vários clientes usando camisetas dos Gladiators vieram se entupir de waffles e bacon, como se precisassem de combustível suficiente para sobreviver a três períodos gritando nas arquibancadas.
— Mia, mesa quatro está esperando o pedido. — Mak, meu chefe, avisa com a voz arrastada, limpando o balcão pela centésima vez.
Deslizo com agilidade sobre os patins e deposito na mesa um café com creme de avelã e uma rosquinha coberta de açúcar e canela. A senhora me lança um sorriso gentil, e eu retribuo com o que talvez seja o gesto mais sincero do meu dia até agora.
Quando volto para a área de preparo, já estou coberta de gotículas de suor e com metade da paciência que tinha no começo do turno. Meu corpo dói. Cada músculo lateja como se eu tivesse participado de uma briga da qual não me lembro de entrar, mas é apenas o resultado de ter passado a noite anterior treinando na piscina do ginásio.
Faltam quatro dias para a seletiva estadual da equipe de natação. E eu quero aquela vaga. Mais do que quero manter meu emprego. Mais do que quero me formar na faculdade de Letras.
Então a porta da lanchonete se abre com um leve rangido, e o nosso astro do hóquei entra. O homem mais cobiçado de toda Duluth. O aluno preferido de metade dos professores da faculdade de medicina.
River Villeneuve, atacante do Atlanta Gladiators.
O rosto dele está estampado em outdoors, postagens de fãs e capas de revistas esportivas. River é o tipo de cara que parece ter saído de um ensaio fotográfico mesmo cinco minutos depois de acordar.
Ele usa uma jaqueta preta de couro desgastado, casual demais para o calor do dia. O cabelo preto bagunçado. A camiseta cinza colada no peito denuncia o corpo de atleta: ombros largos, peitoral marcado e braços torneados, resultado de anos de treinos, pancadas e talvez uma genética generosa demais. O jeans escuro, e as botas de couro completam o visual de bad boy.
O rosto dele parece esculpido à mão: mandíbula firme, nariz reto, um vinco discreto no queixo. Mas são os olhos que realmente param o tempo. Azul-gelo. Cortantes. Irônicos.
E sim, ele tem uma tatuagem.Claro que tem. Um desenho preto que escapa da gola da camiseta, desenhando parte do pescoço até a clavícula. Algo com linhas afiadas, como uma onda, ou uma fera, não dá pra saber. É o tipo de tatuagem que você tenta não olhar duas vezes. E falha.
Ele entra, se senta na mesa e apoia os cotovelos no tampo de madeira. Poucos segundos depois, Maverick Gray se junta a ele. Maverick é o melhor amigo de River, Bumper do Gladiators e dono dos lábios que eu tive o prazer, em uma casualidade completamente irresponsável, de beijar numa festa há alguns meses.
Desde então, nos tornamos colegas ocasionais. Maverick cursa Direito e, vez ou outra, aparece desesperado pedindo ajuda com literatura clássica antes das provas.
Maverick é um dos garotos sensação do campus. Cabelos loiros perfeitamente bagunçados, olhos cor de mel, sorriso de propaganda de creme dental e um charme irritantemente natural. Ele rouba suspiros por onde passa.
O loiro me observa por alguns segundos antes de erguer a mão em um convite silencioso.
— Do que precisam para arrasar no jogo de hoje? — pergunto, simpática, alternando o olhar entre os dois.
Maverick sorri imediatamente. River, no entanto, nem se dá ao trabalho de tirar os olhos da tela do celular.Ah... a arrogância confortável de quem sabe que é o melhor.
— Um expresso extra forte e aquela rosquinha de morango que vocês fazem. — Maverick apoia os braços na mesa. — E pro meu amigo mal-humorado, só um expresso.
— Certo. Trago em cinco minutos. — devolvo o sorriso.
— Muito obrigado, Mia.
O jeito como ele diz meu nome deveria soar inocente. Educado. Mas Maverick Gray transforma qualquer frase simples em flerte sem esforço nenhum.
Dou meia-volta em direção à área de preparo, tentando ignorar a sensação irritante de estar sendo desprezada. Odeio gente grossa e antipática. Talvez porque exista em mim um caso quase incurável de people pleaser, aquela necessidade ridícula de fazer todo mundo gostar de mim, ou pelo menos não me olhar como se eu fosse um inconveniente no caminho. ”Muito obrigada pai, pelo trauma”. Penso.
River finalmente ergue os olhos do celular. Percebo isso enquanto o café escorre lentamente para dentro da xícara.
Ele me encara por cima da borda da mesa enquanto Maverick continua dizendo alguma coisa ao lado dele. O azul congelante dos olhos de River me atravessa sem cerimônia. Não há sorriso, simpatia ou qualquer tentativa de parecer agradável. Apenas aquela expressão calma demais, indiferente, como se estivesse analisando algo que ainda não decidiu se merece sua atenção.
Sustento o olhar por dois segundos. Talvez três. Tempo suficiente para meu estômago dar uma cambalhota patética e, ainda assim, eu me recusar a desviar os olhos primeiro. Porque não vou dar esse gostinho a ele. Então River inclina a cabeça de leve, observando meus patins, o uniforme da lanchonete e depois meu rosto outra vez antes de desviar o olhar.
Coloco os dois expressos sobre uma bandeja junto da rosquinha de morango e deslizo outra vez até a mesa deles.
— Expresso extra forte, rosquinha de morango e o café do senhor simpatia. — deposito as xícaras na frente dos dois.
Maverick ri imediatamente.
— Viu? Eu disse que você parecia irritado hoje.
River ignora o comentário do amigo. Os olhos dele permanecem em mim enquanto segura a xícara de café entre os dedos.
— Você sempre olha pros clientes como se estivesse prestes a começar uma briga? — pergunta, finalmente.
A voz é baixa, rouca e carregada de um sarcasmo preguiçoso. Solto uma risada curta pelo nariz.
— Só os clientes desagradáveis e pouco simpáticos.
Por um segundo, Maverick engasga com o próprio café, claramente se divertindo com a situação.
Já River... River sorri. Um sorriso quase invisível. Apenas um movimento torto no canto da boca.
— Você acabou de salvar minha vida. — Maverick lambe os lábios ao morder a rosquinha.
— Dramático.
— Atletas de alto rendimento precisam de açúcar.
— Vocês precisam é de terapia.
Maverick concorda com a cabeça.
— Diz a atleta de alto rendimento da natação.
— É exatamente por isso que eu conheço a importância da terapia, MaveBoy.— rebato, usando o apelido que os fãs inventaram para ele.
Maverick leva a mão ao peito, fingindo sentir o impacto.
— Verdade, mas eu prefiro pensar que sou emocionalmente complexo demais para terapia.
— Você chorou vendo Toy Story 3. — River comenta.
— Aquilo ali foi um ataque psicológico singular, em minha defesa.
Solto uma risada baixa antes mesmo de conseguir evitar. Maverick abre um sorriso satisfeito, claramente orgulhoso de si mesmo por arrancar qualquer reação de alguém.
River continua em silêncio, mas ainda está me olhando. Não de um jeito óbvio. Não como Maverick, que flerta até respirando. O olhar de River é mais contido e atento. Como se ele estivesse tentando entender alguma coisa em mim.
Desvio os olhos primeiro dessa vez, porque, sinceramente, já estou começando a me sentir idiota.
— Então... — Maverick gira a xícara entre os dedos. — Vai na festa depois do jogo?
Ah, Claro. Sempre existe uma festa depois dos jogos. Música alta, álcool barato, jogadores do time agindo como celebridades locais e metade do campus se espremendo em alguma fraternidade.
— Tenho treino amanhã às seis da manhã. — respondo.
— Isso não é um não.
— É quase um processo judicial contra a ideia.
Maverick ri outra vez.
— Aparece por uma hora.
— Uma hora em festa de jogador de hóquei equivale a três decisões ruins e uma possível intoxicação alcoólica.
— Você fala como se já tivesse experiência.
Ergo uma sobrancelha.
— Eu beijei você num banheiro, enquanto alguém vomitava ao nosso lado. Acho que experiência não falta.
Maverick solta uma gargalhada alta o suficiente para chamar atenção de duas mesas ao lado. Até River abaixa os olhos por um segundo, balançando a cabeça devagar, como se estivesse tentando esconder um sorriso.
— O treino é pra seletiva estadual, não é? — River pergunta de repente. A mudança de assunto me pega desprevenida. Pisco duas vezes.
— É.
Ele toma um gole lento do café antes de continuar:
— Maverick comentou que você nada bem.
— Eu disse que você parece capaz de afogar alguém se estiver de mau humor. — Maverick corrige.
— Fofo.
Os olhos azulgelo de River voltam para mim por cima da borda da xícara.
— Boa sorte.
Ele diz de forma simples, quase casual.
Antes que eu consiga pensar em alguma resposta, a voz de Mak ecoa atrás do balcão:
— Mia! Mesa sete!
Desvio os olhos de River imediatamente, como alguém sendo pega fazendo algo constrangedor.
— Já estou indo! — respondo, apoiando a bandeja contra o quadril.
Maverick sorri para mim outra vez.
— Vejo você na festa depois do jogo.
— Continuem sonhando. — rebato, antes de me afastar.
Deslizo entre as mesas da lanchonete tentando ignorar a sensação queimando na boca do estômago, mas, mesmo ocupada anotando pedidos e equilibrando pratos nos braços, percebo uma coisa irritante:
Toda vez que levanto os olhos na direção da mesa perto da janela, River Villeneuve ainda está olhando para mim.