A escolha da serpente

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Summary

Melianne WinterWolf ostentava a coroa de imperatriz, mas nunca passara de uma marionete nas mãos de nobres corruptos. Com a queda do império, sua execução pública era o espetáculo esperado para aplacar a fúria das massas. No entanto, o verdadeiro horror começa quando ela é reivindicada por uma criatura serpentina do Sul amaldiçoado. Rebaixada ao status de animal ela é trancafiada com o monstro. As atualizações serão mais ou menos de 15 em 15 dias.(19/05/26) (Alterações feitas para a melhor leitura no celular)

Status
Ongoing
Chapters
2
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1:A queda da imperatriz


O Salão do Grande Tribunal é sala subterrânea de pedra fria e fúria ainda mais gélida. Tochas tremulam em suportes de ferro em forma de anjos chorando; as bandeiras de uma dúzia de nações libertadas pendem em farrapos, ao lado de manchas de sangue fresco que jamais serão completamente removidas.

A Aliança era composta por cinco raças, mas, antes do império, os humanos se dividiam em vários reinos menores diferentemente dos orcs, que em sua maioria eram nômades; dos halflings, que tinham seus campos; dos elfos, com sua cidade de pedra polida; e dos anões, nas montanhas e minas.

No centro, no antigo Pódio do Acusado feito da mais polida obsidiana e envolto por andares de arquibancadas, ergue-se o que restou da casa de WintherWolf. Os observadores eram representantes de todas as raças que compunham a aliança rebelde, todos prestando atenção, exceto os orcs, que pareciam entediados.

Outrora o símbolo da propaganda do Império, a imperatriz, com sua pele como porcelana, de cabelos prateados, cujo sorriso cunhado nas cada vez menores moedas de ouro, prometia glória enquanto os verdadeiros monstros governavam por trás do trono, ela agora não passava de uma figura trêmula. Seus curtos cabelos branco-prateados estavam opacos e emaranhados, pendendo imundos sobre um rosto que se esquecera de como ser qualquer coisa além de temeroso. Os olhos dourados, emoldurados por um rosto era jovem e delicado, antes luminosos, que estavam pintados em cada peça de propaganda, agora estavam arregalados, vidrados e permanentemente úmidos, movendo-se como os de um animal encurralado.

Seus pulsos estavam por grilhões de ferro gravados com runas, grandes demais para seus braços finos, as correntes tilintavam a cada respiração ofegante. Os restos de seu vestido imperial, outrora de uma seda negra como azeviche eram pouco mais que trapos manchados, agarrados a um corpo que passara meses em jejum. Hematomas espalhavam-se por suas clavículas, que se projetavam como asas quebradas. Quando tentava falar, sua voz era um sussurro rouco que se interrompia em soluços assustados.

No alto do pódio estavam os elfos. Entre eles, destacava-se a Alta Juíza Laylael, uma antiga nobre alta-elfa com olhos prateados e uma voz como o inverno cortando a pedra. Seus cabelos eram dourados e ela não parecia ter mais que vinte e dois anos, mas ainda lembrava do tempo anterior ao império.

Seu vestido era branco, opulento e imaculado, como o de uma rainha de gelo. Ela recitava os crimes de horror cometidos pela realeza em uma cadência acadêmica, perfeita e monótona, depositando o peso de cada atrocidade sobre a garota trêmula à sua frente.

Melianne WintherWolf estremecia a cada nome, a cada vila, a cada grito lido em voz alta. Lágrimas escorriam silenciosamente; as correntes não a deixavam enxugá-las. Quando finalmente lhe foi permitido responder, sua voz estava fraca devido às noites de choro:

— Eu... eu nunca quis nada disso — conseguiu dizer, a voz se fragmentando em soluços. — Eles me coroaram quando eu tinha treze anos... Eu nunca quis... Eles... eles me mostraram o que acontecia com quem desobedecia. Por favor... eu sempre fui apenas o que me foi mandado, o que os nobres mandavam. Eu... Eu sinto muito...

Um soluço entrecortado escapou de seus lábios. O salão respondeu com vaias. Os orcs estavam irados por terem sido governados e caçados por uma carne tão fraca. Os halflings permaneciam quietos e acuados, sem entender a necessidade de tudo aquilo.

Havia os humanos cujas terras foram roubadas pelos nobres para a produção de tecidos em vez de comida, e alguns desses mesmos nobres, que um dia deram as ordens, agora fingiam não ter culpa do ocorrido.

Os juízes se inclinaram uns para os outros; a sentença já estava escrita. Morte. Lenta, pública, satisfatória. Os ombros de Melianne se curvaram. Ela parecia pequena o suficiente para ser levada pelo vento. Então, com uma voz tão fraca que quase se perdeu em meio aos uivos do público, ela sussurrou as palavras ancestrais:

— Eu... exijo um julgamento por combate. Risadas explodiram como tiros de canhão. Uma garota faminta e sem treinamento contra qualquer assassino que a Aliança Rebelde escolhesse? Era a carta de suicídio mais patética da história. A Alta Juíza Laylael virou-se para a plateia, sua voz cortando o caos. Seus olhos azuis estavam cheios de fúria contida.

— A última WintherWolf tem um campeão? Ou abriremos os portões da arena e a deixaremos sangrar até a morte?

Todos no salão prenderam a respiração. Nem os grilos pareciam se compadecer. — Pois bem. Levem-na daqui. Nos vemos na arena.

A arena ficava no meio da cidade, feita de pedra cinza cortada, trazida de longe, das cordilheiras, por escravos humanos, orcs e anões. Seu formato era circular, com andares divididos, as arquibancadas de madeira variavam de simples bancos nas partes mais baixas a luxuosas cadeiras forradas com seda nas partes altas.

Era um lugar de sangue e ódio, onde um dia a nobreza, parentes, oficiais, soldados do exército e comerciantes apostavam se os escravos, prisioneiros e gladiadores sobreviveriam uns aos outros ou às bestas capturadas das perigosas terras do sul.

As seções outrora separadas para cada casta, com os nobres no alto, em plataformas que pareciam camarotes de uma casa de ópera, onde servos e escravos halflings traziam a comida; abaixo, aqueles que faziam parte do exército; e, perto da areia e da sujeira, os comerciantes e suas famílias , agora estavam amarrotadas de camponeses, rebeldes e qualquer um que sempre quisera ver o espetáculo, mas não tinha dinheiro ou status.

Melianne estava parada na areia ao lado de uma jaula, suas correntes tilintando suavemente enquanto ela tremia. Ela já estivera em todas as apresentações da arena, mas antes assistia a esses espetáculos do alto, no trono agora ocupado por Laylael.

O sul era uma fonte de horrores malignos, repleto de bestas de aparência humanoide, animais aberrantes e elementais, por isso, a região era popularmente conhecida como as terras dos demônios, e por um bom motivo.

Agora, Melianne era o espetáculo. Sentia sob os pés a areia que antes via lá de cima, enquanto segurava com dificuldade, devido ao tremor nas mãos, uma espada enferrujada.

A multidão aplaudiu e torceu quando a besta foi libertada de suas amarras mágicas. Ela deslizou para fora da jaula, e era exatamente o que Melianne temia.

A criatura era maior que ela, apesar da ex-imperatriz ser um pouco mais alta que a maioria das mulheres de 22 anos como ela.

O ser tinha os corpos de uma mulher e de uma cobra fundidos em uma forma horrenda e, ao mesmo tempo, angelical. Seu rosto era o de uma mulher de pele pálida, com feições delicadas como as de um elfo, mas grandes caninos escapavam de seus lábios superiores, e escamas púrpuras adornavam as laterais de sua cabeça, cobrindo as orelhas pontudas. Seu cabelo era negro como ébano polido, porém selvagem e longo, cobrindo seus grandes seios como uma espécie de juba; dois chifres ondulados saíam do topo de sua cabeça. A metade abaixo da cintura era o corpo de uma serpente, coberta de escamas roxas, que se tornavam rosas na parte inferior.

A criatura farejava o ar e punha sua língua bifurcada para fora. Parecia confusa, e seus olhos estavam semicerrados.

A voz da Juíza Laylael cortou o tumulto dos presentes, declarando os termos do combate: sem regras, sem limites, apenas sobrevivência.

Tudo aquilo, porém, era apenas barulho de fundo; Melianne estava assustada demais para realmente escutar. A criatura era imensa, devia ter dois metros de altura só na parte humanoide, sem contar a cauda. Quando a visão da besta focou em Melianne, suas ações foram rápidas. Em um momento, a encarava com seus olhos, um verde e outro azul, no outro, já estava por cima da garota, derrubando-a e prendendo-a contra o chão com as mãos sobre seus ombros.

A espada voou, caindo a metros de distância. A multidão explodiu em aplausos e aclamações enquanto a criatura imobilizava a ex-imperatriz embaixo de si. Eles exigiam selvageria, sangue e destruição.

Enquanto isso Melianne estava cara a cara com a criatura, podia ver suas pupilas dilatadas, grandes e redondos como um gato diante de sua presa, seu cabelo em cascata como uma tela separando as duas do mundo.

Lentamente a criatura abaixou chegando cada vez mais perto, Melianne apertou os olhos aguados com força, já imaginando uma mordida na jugular, seu dedos inutilmente apertando e se enterrando na areia ao seu redor.

Mas em vez de um golpe fatal, a criatura farejou seu pescoço, então seu cabelo, tomando longas fungadas que pareciam quase íntimas.

Algo estava errado, muito errado. E só quem estava nas partes mais baixas da arena pode ver a ponta do rabo de cobra balançando animadamente.

O som do tecido rasgado se perde no rugido ensurdecedor da multidão, seus gritos se intensificando enquanto as garras da criatura rasgam o fino pano que cobre o corpo de Melianne. O material se desprende como pétalas caídas, revelando uma pele que outrora fora pálida e lisa, agora marcada por meses de tortura e acinzentada por falta de nutrição necessária, com ossos das costelas levemente delineados.

Melianne tentou se cobrir, suas mãos tremendo fracamente em direção aos seios expostos antes de serem novamente imobilizadas pelas garras da criatura. Ela gemeu . não de dor, mas pelo choque de ser despida diante de milhares de pessoas.

A respiração da besta estava quente contra sua pele enquanto se aproximava, sua língua deslizando para traçar a linha de seu queixo. A multidão uivava em aprovação, clamando por sangue, por morte, sem realmente entender o que se passava ali.

No entanto, tudo o que a criatura conseguia sentir era ela: cada curva, cada tremor, o aroma do medo. Sua língua bifurcada deslizou para fora, saboreando o suor salgado em sua clavícula, subindo até o pescoço e, por fim, provando suas lágrimas.

Melianne estava assustada, mas de um jeito completamente novo. Nada parecido jamais lhe acontecera, nem mesmo durante os meses de privação e tortura, aquilo sequer passara por sua cabeça. O cérebro da moça ainda lutava para processar a situação quando sofreu outro impacto: a criatura abriu a boca e pronunciou, em um tom quebrado:

— Fêmea... bonita... carregar... minha ninhada.

— Hein? — ela sussurrou, a voz fraca em meio aos gritos da multidão, mais confusa com o fato de a criatura falar Liryanno do que com o teor da mensagem. — Eu... eu não entendo. Ninhada?

A criatura deu outra lambida na lateral de seu rosto sujo antes de continuar:

— Filhotes! Muitos filhotes! Fêmea fértil. Carregar muitos.

Um arrepio percorreu o corpo de Melianne conforme as palavras afundavam em sua mente. Sua respiração acelerou, o peito subindo e descendo rapidamente; os olhos dourados fixaram-se na fera em um misto de horror e compreensão crescente.

No exato momento em que a verdade a atingiu, suas pupilas se dilataram e os lábios se entreabriram levemente, enquanto ela tentava em vão acalmar o fôlego agitado.

— Eu... — Ela engasgou com a palavra, engolindo em seco antes de tentar novamente. — Você... você quer dizer... você quer...

Suas mãos agarraram-se à areia sob o corpo, os dedos fechando-se em punhos enquanto sua mente reagia à realidade avassaladora da situação. Seu rosto corou involuntariamente; suas coxas pressionaram-se uma contra a outra, fechando-se com força em uma tentativa desesperada de proteção, embora continuasse tremendo.

Os gritos vindos das arquibancadas começaram a morrer aos poucos. Uma sensação nova, macia e quente, espalhou-se sobre suas coxas.

Melianne apoiou-se nos cotovelos para olhar para baixo: duas massas, uma rosa-choque e outra roxo-profundo, haviam saído de dentro da criatura. Eram dois tentáculos, já úmidos com uma substância cremosa de cores que combinavam com cada um deles.

A multidão começou a gritar, mas dessa vez em puro horror. Moças cobriam os próprios olhos, assim como as mães cobriam os de suas crianças; o nojo e a revolta eram claros entre os presentes.

— Não! Não! Não! Você não pode! — Melianne disse, em uma súplica desesperada. — Eu... Eu não sou nem casada!

— Casar? Sim! Noiva. Minha agora.