O Gatuno

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Summary

Em uma narrativa de primeira pessoa, a história é narrada por "Gatuno" um pequeno ladino que se habita num dos maiores reinos do mundo. Mas, passa sua vida nas sombras da sociedade, sem nenhuma ambição. E, com um desejo de um dia se livrar da angústia que é viver sem honra. Assim, ele acaba se envolvendo em diversas histórias, que na maioria nem são dele, num grupo bastante peculiar, descobrindo coisas sobre todos os reinos, apesar de parecerem a elite do mundo, acabam escondendo diversos segredos.

Status
Ongoing
Chapters
5
Rating
n/a
Age Rating
16+

Distante de Olimpo

"A mente é como um iceberg, a maior parte está submersa."

-Sigmund Freud

✦ Estava na beira da praia aproveitando a brisa enquanto ela seguia seu rumo até o fim do oceano. Me questiono o que há do outro lado desse mar imenso, mas isso é só besteira que penso para poder relaxar enquanto grãos de areia passavam entre meus dedos, minhas mãos, pernas e costas. A madrugada era realmente bonita, calma, tranquila e melancólica. Sou um aventureiro, por enquanto me chame de "Gatuno" o motivo é simples: a vida nunca foi boa pra mim, mas afinal fiz ela ser, vivendo entre becos e ruas durante a vida sob o manto da noite.

Nos confins do mundo conhecido, batalhas de espadas, guerras por tronos, injustiças e romances impossíveis ecoavam por todas eras. E nela eu apenas sobrevivia, não era um um herói, longe disso, me considero um pensador e isso fazia com que me sentisse vivo, diferente de outrora quando era garoto que roubava comida. Como já dito, era um mundo injusto onde reis e rainhas desfrutam do melhor vinho, enquanto nós estamos aqui, refletindo na beira da praia. Não sou bom com apresentação, porém considero adequado perguntar-lhe

Está pronto para navegar para o outro lado, caro leitor?

✧ ˚  ·    .

Levantei-me e fui em direção ao farol que ficava ao extremo da praia, não havia nenhuma alma viva por perto. Meus sentidos estavam aguçados, ao me aproximar do local, o silêncio da noite foi quebrado, pude ouvir o tilintar de placas de metal: armaduras, certamente dos guardas. Meu objetivo era claro, fazendo jus ao nome, eu roubaria um navio e atravessaria o horizonte. Afinal o oceano não guarda segredos, ele apenas espera que homens se afoguem em suas próprias ambições.

Por sorte, muitos temem a escuridão, mas eu a chamo de lar, pois ela está sempre comigo. Dessa forma, deslizei para dentro sem deixar vestígios. Pude ouvir um guarda resmungar...

- Ei... ouviu alguma coisa? - resmungou um dos guardas com a voz sonolenta.

- Não tem nada aqui, deve ser o sono.

Era típico, armaduras reluzentes e intimidadoras, só que se pararmos para observar, são apenas idiotas. Rapidamente estava ao lado do barco, era pequeno, frágil e a madeira quase caindo aos pedaços, não estava disposto a navegar nessas condições. Para meu azar, ao lado havia um navio gigante, provavelmente de piratas renomados ou da própria realeza. Isso aos olhos de um ladino era como se fosse um sonho acordado, a ganância sussurrou mais alto que o bom senso, irônico já que roubar não é bom.

A escolha era certa, eu não pretendia levar o navio inteiro, pois chamaria atenção demais, no mínimo eu olharia por dentro, meu dedos coçavam com a promessa de ouro. Fui em direção a ele, o toque foi o bastante para notar que a madeira era firme e sólida, o completo oposto do barco podre. Pude ouvir o som lento do ranger do casco contra o cais, como se o barco estivesse adormecido, era o momento perfeito. Despertei do meu transe ao pisar no convés.

Havia longas manchas de sangue na madeira, marcas de quem tentou esfregar o convés rápido demais antes que o sol nascesse, paredes estavam perfuradas e um cheiro de raiva e angústia pairava no ar. Neste momento, meu corpo inteiro recuou por instinto, no instante segundo em que vacilei, senti o frio do aço em minha garganta, era uma espada.

- Olha só o que temos aqui! - Uma voz rouca cortou o silêncio

Era um tom carregado e forte o suficiente para ecoar na minha cabeça durante dias, nem um pouco amigável, parecia um conjunto de sarcasmo com hostilidade. O cheiro de cerveja barata se misturava com o sangue do convés, me dando uma leve vontade de vomitar.

Eu nem mesmo precisei olhar o rosto do dono daquela espada para saber que meu bom senso, finalmente, tinha perdido a discussão.Naquele momento, eu não conseguia pensar em mais nada além de sair daquela situação, tentando manter a calma mesmo com uma lâmina no meu pescoço. Por sorte, consegui tocar no braço dele, antes de arriscar o que tinha em mente.

- Opa! Opa... Então, não precisamos derramar mais sangue aqui, capitão - disse eu com a voz confiante, mas escondendo o medo.

- Eu conheço o seu tipo, garoto. Sua vida acaba agora.

- Espera! Deixe-me apresentar: sou Luan, protetor do reino.

Era obviamente mentira, menos o meu nome. Eu estava acostumado a fazer isso com tanta frequência que inventar histórias falsas era comum para mim. Assim sendo, o homem bruto e, como permite dizer, desprovido de inteligência, largou a espada.

- O quê?! Mas já? Pensei que demorariam mais para buscar as encomendas.

- Vim por preocupação. Me mandaram de vigia para saber que tudo ocorreria bem, mas...

- Puta merd... Quer dizer, me perdoe pelo erro, soldado. Houve muitos imprevistos.Comecei a andar pelo restante do navio, olhando saídas rápidas ou algum item valioso, tudo isso enquanto mantinha meu blefe. O homem me contou tudo: sobre como todos foram atacados por outros soldados da velha guarda, talvez traição ou uma armadilha já preparada para o reino se livrar desses piratas nojentos.

- Me leve para o reino. Preciso atravessar o oceano, agora!

- Eu te levo lá, só que tenho uma pequena condição... - Eu pude ouvir o leve som da espada cortando o vento novamente. - Você não viu nada aqui, a menos que queira morrer em nome de seu reino.

Era claramente uma encruzilhada. Eu sabia que se recusasse um combate, minha mentira cairia na hora, já que soldados do reino não recusam batalhas por sua honra. Porém, eu não estava nem um pouco a fim de lutar contra esse cara. Felizmente, eu já havia elaborado um plano A, B e C. Então, saquei uma pílula, era um remédio de enxaqueca, mas ninguém precisa saber disso. Só me aproveitei que ele estava ofegante e já cansado da batalha anterior.

- Eu não faria isso se fosse você, capitão - disse eu, mostrando a pílula.

- Como assi... - Ele ficou de joelhos antes de terminar a frase.

- Quando colocou sua espada na minha garganta, o veneno já corria pelo seu corpo. Afinal, minhas mãos são bem ligeiras.

- Foi naquele momento, quando tocou meu braço...está bem, você venceu. Te levarei lá.

Portanto, meu objetivo estava completo. Talvez não da forma que planejei, mas a vida é sempre cheia de surpresas, até para mim. Claro, não é muito confortável navegar num navio com cheiro de sangue e um brutamonte, só que dá para o gasto. Entre esse oceano vasto e a tempestade que se aproxima, me pergunto o que irei encontrar no...

Reino de Netuno.