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Prefiro o Abismo

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Summary

Na fronteira entre o mundo e o Abismo, cento e sessenta e três setores da Cordilheira seguram, há três mil anos, a única coisa que poderia acabar com a humanidade. O Setor 89 é um entre eles. Lucan Daven é um dos soldados que o segura — o mais eficiente, o mais inconveniente e o único que a oficina de armas já desistiu de impressionar. Quando o teste genético obrigatório aponta Lucan como par compatível da princesa de Brastor, a Lei do Vínculo não dá escolha: casamento, descendência, prazo. Lucan dá a única resposta que tem — prefiro o Abismo — e passa três dias preso até concordar com os termos. O acordo: ele casa. Ela vai morar na montanha. Ninguém precisa saber. Um ano depois, Isabel Valerian aprendeu a dormir com sirene, conquistou um banco próprio na oficina de armas e desenvolveu um sistema de monitoramento do marido que ela nunca vai admitir que existe. Lucan Daven mantém a porta trancada, quebra uma espada por semana e não entende por que isso é um problema. É um casamento impossível que funciona. Até o major Dorian Ravenor chegar ao setor como oficial de ligação permanente — e trazer consigo tudo o que os três haviam decidido, separadamente, deixar para trás. Prefiro o Abismo é uma história sobre a lei que não pergunta, o amor que não avisa e o trisal que ninguém planejou. 📖 Fantasia · Comédia Romântica · Drama · Trisal · 16+

Genre
Romance
Author
Guiaris
Status
Ongoing
Chapters
10
Rating
n/a
Age Rating
16+

Capítulo 1 — Seis

> *Todo equipamento de combate fornecido pelo Exército da Cordilheira é patrimônio da humanidade. Zelar por sua integridade é dever de cada soldado.*

>

> — Manual de Conduta do Exército da Cordilheira, Artigo 12

O montante durou até a quarta hora da onda.

Lucan sentiu a lâmina ceder antes de ouvir — um aviso curto subindo pelo cabo, como um osso reclamando — e ainda assim desceu o golpe inteiro, porque o monstro na frente dele não ia esperar a arma decidir se aguentava. O aço atravessou a carapaça, atravessou o que havia por baixo dela e parou no chão de pedra, onde se partiu em duas com um estalo seco, quase educado.

O monstro caiu para um lado. A metade da lâmina caiu para o outro.

Lucan olhou para o pedaço que restou na sua mão. Uns quatro palmos de aço, a ponta irregular, o fio ainda bom.

Dava para trabalhar.

À esquerda, alguma coisa de seis patas escalou o corpo do primeiro monstro para chegar até ele. Lucan não recuou. Recuar era o que as coisas do Abismo esperavam — ele tinha aprendido isso antes de aprender a ler. Deu um passo para dentro do ataque, por baixo das mandíbulas, e enterrou o que restava do montante no ponto macio onde o pescoço encontrava o peito. A criatura pesou sobre o braço dele, estremeceu e parou de ser um problema.

O aço, dessa vez, não saiu inteiro.

Lucan olhou para o cabo vazio na própria mão, depois para o campo. A onda estava morrendo. Pela encosta abaixo, os canhões da terceira bateria ainda desmontavam o que restava da massa escura que tinha subido a montanha durante a madrugada, e as equipes de contenção avançavam em linha, metódicas, terminando o serviço. Nenhuma brecha. Nenhuma sirene nova.

Hoje não passaram.

Ele jogou o cabo por cima do ombro e foi procurar outra coisa para bater.

***

— Seis — disse Bren.

O chefe da oficina de armas do setor não disse mais nada por um tempo. Segurava as duas metades do montante, uma em cada mão, como um homem segurando os lados de uma discussão que já perdeu. Atrás dele, a forja respirava calor, e dois técnicos fingiam muito mal que não estavam ouvindo.

— Seis — repetiu Bren. — Em um mês. Ainda não acabou o mês, Daven.

— Faltam três dias — disse Lucan, o que na cabeça dele era um argumento a favor. Três dias sem quebrar nada era perfeitamente possível. Improvável, mas possível.

— O anterior eram cinco. — Bren largou as metades na bancada, onde elas fizeram um barulho triste. — O recorde anterior. Que também era seu. Você está competindo com você mesmo, você sabe disso?

— E ganhando.

Um dos técnicos ao fundo se engasgou com alguma coisa. Bren fechou os olhos.

Lucan esperou, os braços soltos ao longo do corpo, sem pressa. Ele conhecia aquela pausa. Era a pausa que os adultos faziam a vida inteira antes de explicar para ele, mais uma vez, alguma coisa sobre limites — os das armas, os dos protocolos, os da paciência alheia. Ele ouvia sempre. Guardava quase nunca.

— A liga desse aqui — Bren apontou o cadáver do montante — aguenta impacto direto contra blindado leve. Testada. Certificada. Eu vi os testes. Ela não quebra, Daven. Ela *não quebra*.

— Quebrou.

— Porque você não usa a arma, você usa a arma *como aríete*, como pé de cabra, como martelo, como o que estiver precisando na hora! Espada corta! Corta e sai! Você já pensou em cortar e sair?

Lucan pensou de verdade, por respeito ao Bren.

— O bicho não sai — concluiu.

Bren abriu a boca, olhou para ele — para a cara séria, sem um pingo de provocação, do homem que tinha acabado de segurar sozinho o flanco leste com meia lâmina — e desistiu pela quantidade de vezes que Lucan já tinha perdido a conta.

— Prateleira — disse Bren, cansado, para ninguém em particular.

Um dos técnicos já estava voltando dela. A prateleira ficava no fundo da oficina e não tinha etiqueta de seção, nem número de inventário à vista, nem qualquer cerimônia: só uma fileira de montantes idênticos, crus, a lâmina sem polimento e o cabo sem acabamento, encostados na rocha como ferramentas de obra. Ninguém na oficina gastava mais uma hora de capricho no que ia voltar em pedaços na semana seguinte. As primeiras armas que fizeram para ele, anos atrás, tinham gravação na base da lâmina. Lucan não reparou quando as gravações sumiram. Reparou que as novas chegavam mais rápido.

Pegou o montante que o técnico estendeu, avaliou o peso com uma das mãos, girou uma vez o punho. Igual ao anterior. Igual ao próximo.

— Ficou boa — disse, porque era verdade e porque a mãe de alguém em algum momento devia ter ensinado a ele que se elogia o trabalho dos outros.

— Ela é idêntica às outras cinco — disse Bren.

— Todas ficaram boas.

— *Sai* da minha oficina.

***

Lá fora, o setor voltava ao tamanho normal.

A onda tinha sido pequena — duas madrugadas, três frentes, nada que mudasse a semana — e a montanha já digeria o esforço: trens cargueiros desciam pelos trilhos da face externa levando o que sobrou dela, guindastes recolhiam carcaças do campo antes que o cheiro assentasse, e uma nave de suprimentos manobrava para dentro do hangar com a barriga cheia. Nas passarelas, os turnos se cruzavam. Quem descia vinha com o rosto de quem descia. Quem subia ia comendo.

Lucan atravessou aquilo tudo do jeito que se atravessa a própria casa, cumprimentando com o queixo, sendo cumprimentado. Um veterano da segunda bateria gritou de uma passarela acima alguma coisa sobre *seis* e sobre o cofre do setor não aguentar o apetite dele por aço. Lucan mostrou o montante novo, inteiro, brilhando de novidade, o que arrancou risada de mais gente do que a piada merecia.

Ninguém ali olhava duas vezes para ele. Era o detalhe que Lucan mais gostava no setor e que ele não sabia que gostava, porque nunca tinha vivido em nenhum outro lugar para comparar: dentro da montanha, ele era mobília. O menino que o general trouxe da vila queimada, o moleque que crescia pelos corredores, o recruta que os veteranos revezavam entre si como uma dívida que ninguém lembrava de quem era. Vinte pais mal-humorados e nenhuma infância no sentido que os livros da escola da vila davam à palavra — mas a escola da vila também ensinava que espada corta e sai, então Lucan não confiava inteiramente nos livros.

Foi na entrada do refeitório que o alcançaram.

— Daven. — Um mensageiro do comando, jovem, ainda com o fôlego da escada. — O general mandou chamar. Agora.

Lucan olhou para a fila do refeitório, que andava, e para o mensageiro, que não ia embora.

— Agora — repetiu o rapaz.

***

O gabinete de Oscar Daven ficava no alto da fortaleza, escavado na rocha como todo o resto, com uma janela estreita e comprida que dava para a face externa. Da mesa dele, o general via o campo, os trilhos e, no fim de tudo, no ponto onde o horizonte escurecia como uma nódoa que nenhuma estação lavava, o começo do Abismo. Lucan achava a vista razoável. Oscar dizia que ela impedia o cargo de subir à cabeça.

— Seis — disse Oscar, sem levantar os olhos da papelada.

— O senhor também soube.

— Eu assino as requisições, menino. Eu sei antes de você. — O general largou a caneta e o encarou. O rosto de Oscar era uma parede com cicatrizes, e tinha exatamente duas expressões públicas: a de comando e aquela, um grau mais mole, que só três ou quatro pessoas na montanha inteira sabiam ler. — A oficina vai pedir sua cabeça num relatório qualquer dia desses.

— O Bren gosta de mim.

— O Bren pediu transferência duas vezes.

— Gostando.

Oscar não riu, porque general não ri em expediente, mas a parede afrouxou mais um grau. Ele empurrou a papelada para o lado, e Lucan notou — porque notar era o outro talento dele, o que não quebrava nada — que embaixo dela havia uma coisa diferente: papel bom, timbre dourado, o tipo de documento que não nascia dentro de uma montanha.

— Arruma uma farda decente — disse Oscar. — Das de cerimônia. Se ainda tiver alguma que sirva em você, do jeito que você cresce.

— Nós vamos a algum lugar?

— *Eu* vou à capital. Convite do rei. — Oscar disse *rei* do jeito que dizia o nome de qualquer velho conhecido, o que na boca de qualquer outra pessoa do setor seria quase blasfêmia. — Trinta anos que o Fernando me chama e trinta anos que eu não vou. Dessa vez o pedido veio... insistente. E você vem comigo.

— Por quê?

— Porque faz onze anos que você vive enfiado nesta rocha e não conhece nem a capital do país que defende. — Oscar voltou para a papelada, sinal de que a parte da conversa em que Lucan opinava já tinha acabado antes de começar. — E porque, se eu te deixar aqui sem supervisão, na volta me entregam o setor com sete montantes a menos e um incidente diplomático.

Lucan considerou apontar que incidente diplomático, dentro da Cordilheira, era tecnicamente impossível — diplomacia era coisa que se fazia com gente, e do outro lado só tinha monstro. Considerou, também, que fazia três dias que ele tinha ido ao laboratório do setor cuspir num tubo e assinar um formulário, porque era a lei e porque tinha completado dezoito anos, e que o resultado não tinha voltado ainda. Nenhuma das duas coisas parecia valer a energia. A primeira ia render sermão. A segunda não ia dar em nada — não dava em nada para ninguém; a enfermeira mesmo disse, *noventa e nove por cento das pessoas nunca mais ouvem falar disso, garoto* — e Lucan tinha jogado o assunto no mesmo canto onde jogava tudo que não tinha solução de aço.

— Quando? — perguntou.

— Fim do mês. — Oscar molhou a caneta. — Três dias. Tenta não quebrar nada até lá.

Lucan já estava na porta quando respondeu, e respondeu porque era sincero, não porque fosse esperança:

— Não prometo.

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