A culpa tem meu nome
Quando criança,
eu reconhecia o vilão
antes que ele dissesse qualquer coisa.
A música avisava.
A sombra crescia.
Até a roupa colaborava.
Era um mundo muito organizado:
o mal tinha endereço,
o bem tinha plateia,
e ninguém perguntava
quem havia escrito o roteiro.
Depois, a música parou.
O homem da sombra comprava pão.
O herói perdia a paciência na fila.
E a cidade continuava funcionando
sem ninguém distribuir os papéis.
Como reconhecer o vilão agora?
Pela voz?
Há palavras doces
que deixam um gosto amargo.
Pelas mãos?
As mesmas que oferecem abrigo
podem fechar a porta.
Talvez ele more numa frase.
Uma frase pequena,
dessas que atravessam uma mesa
e chegam à outra ponta
com alguém a menos dentro.
Talvez esteja num silêncio.
Para quem se afasta, descanso.
Para quem espera, castigo.
A porta permanece a mesma.
Cada lado lhe dá um nome.
Há quem vire monstro
por dizer não.
Há quem receba aplausos
por ensinar uma multidão
a não escutar.
E há o velho truque:
contar uma história
começando exatamente
onde o outro perdeu a calma.
O público gosta.
Economiza perguntas.
Quem tomou o pão
explica a própria fome.
Quem voltou sem ele
precisa explicar aos filhos.
A necessidade tem uma história.
O prejuízo também.
O pão, infelizmente,
não reaparece
quando termina a explicação.
Nem toda culpa é inventada.
Há atos que deixam consequências
mesmo quando o responsável
escolhe palavras bonitas.
Mas como somos cuidadosos
com o nome dos nossos atos.
Minha crueldade foi um momento difícil.
A sua revela quem você é.
Meu silêncio merece compreensão.
O seu exige julgamento.
Curiosa justiça:
a defesa trabalha em casa,
a sentença vai para os vizinhos.
Talvez o vilão seja, às vezes,
uma pessoa.
Outras vezes, o nome
que damos ao trabalho
de compreender uma pessoa.
Talvez esteja no que foi feito.
Talvez no que juraram que foi feito.
Talvez no detalhe retirado
para a história terminar melhor.
E eu, que escrevo,
também escolho onde começo.
Também posso esconder uma frase
e chamar o espaço de inocência.
É confortável este lado da página.
Daqui, todos parecem personagens.
Basta descrever minha dor com cuidado,
os erros dos outros com precisão,
e deixar os meus
para uma edição que nunca sai.
Pronto.
Um herói.
Mas a pessoa do outro lado
também aprendeu a escrever.
Abro sua história.
Reconheço a rua,
o dia,
a discussão.
Procuro o monstro.
A culpa tem meu nome.
Na minha,
tinha o dela.