Jaci •1
Sou uma boneca quebrada, estilhaçada em um milhão de pedacinhos.
O vento gelado de dezembro, com seu frio cortante, me envolve sem piedade. A brisa ártica do inverno combina com o desespero congelado no meu coração de gelo.
— Sinto muito — sussurro para eles, com tristeza. Coloco as rosas de espinhos vermelhos entre os montes frescos de terra.
Olho para a lápide de granito, onde estão gravados os nomes queridos dos meus pais. A culpa me consome.
— Não é culpa sua. — Meu tio, meu único parente vivo, tenta me tranquilizar. Mas suas palavras caem em ouvidos moucos. Ele aperta meu ombro, parado logo atrás de mim. A perda do único irmão o está destruindo.
A culpa é minha.
Se eu não tivesse ligado para eles me buscarem naquela festa idiota do colégio, os dois ainda estariam aqui. Meu tio ainda teria o irmão querido, e eu ainda teria meus pais, tão carinhosos e atenciosos. Se eu não tivesse sido tão egoísta, pensando só em mim… Como vou viver com isso? As lágrimas escorrem pelo meu rosto, fungo e aperto mais o casaco ao meu redor. O vento cortante do inverno nos envolve, bagunçando meu cabelo e fazendo alguns fios grudarem nas minhas bochechas molhadas.
— Vamos, Jaci. Precisamos ir para casa antes que a tempestade chegue. — Ele tira a mão do meu ombro e se afasta rápido, dando uma última olhada para o túmulo, o último lugar de descanso do irmão. Ver a dor nos olhos dele só aumenta a culpa que me devora.
Como ele vai me perdoar?
Passo os dedos pela lápide fria, sentindo as irregularidades na superfície. A solidão me invade. Saber que nunca mais vou vê-los, sentir seus carinhos, ouvir suas vozes ou abraçá-los de novo despedaça meu coração em uma agonia sem fim.
— Sinto saudades de vocês — murmuro, as palavras se perdendo no vento úmido. Respiro fundo, enxugo as lágrimas das bochechas geladas e me afasto, caminhando em direção a um futuro desconhecido, solitário e indesejado.
— Temos algumas coisas para conversar. — Sentada no carro do tio Liam, o assento de veludo afunda sob mim enquanto viro o corpo para olhá-lo. Ele dirige com uma determinação que não reconheço, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos começam a ficar brancos.
Nunca o vi tão tenso e apreensivo.
— Sobre o quê? — A curiosidade me vence, e fico sentada ao lado dele, esperando pacientemente.
— Matriculei você na Academia onde trabalho. — Não fiquei surpresa com a revelação. Como meu tio é o conselheiro da Alkine Academy, já imaginava que ele me colocaria lá, dadas as circunstâncias.
— Mas tem uma coisa que preciso te contar sobre a Academia e sobre você antes de seguirmos com isso. — Com o interesse aguçado, me inclino na direção dele. O tom sério faz minha pele se arrepiar, e o ar quente saindo do aquecedor não consegue afastar o calafrio que percorre minha espinha.
— A Academia é uma escola para seres sobrenaturais… e você também é uma. — O choque momentâneo deve estar estampado no meu rosto.
A confusão que senti antes se transforma em uma risada histérica. Me curvo, achando que meu tio está brincando para aliviar o clima, mas a gargalhada morre rápido. Limpo a garganta depressa ao ver a expressão séria e decepcionada no rosto dele.
Ele só pode estar de brincadeira. Eu não sou sobrenatural. Acho que perceberia algo tão óbvio. Deve ser o luto falando. Que outro motivo ele teria para pensar uma coisa dessas?
— Desculpa, tio, mas você está zoando, né? — Seus olhos cravam em mim.
— Qual é! Não é como se eu pudesse me transformar em um lobisomem ou sentir vontade de sangue à noite! Você está falando besteira. — Cruzo os braços, encarando-o com desafio. Ele bufa enquanto para no sinal vermelho e vira o corpo para me encarar.
— Não, você não pode fazer essas coisas, mas… é sobrenatural. Sua habilidade estava… reprimida. Seu pai a suprimiu quando você era criança. Ele queria que você tivesse uma vida normal e feliz como humana. — Uma buzina toca atrás de nós. Meu tio acena pelo retrovisor e volta a segurar o volante, continuando a dirigir.
Meu pai sabia que eu tinha habilidades? Isso não é possível! Ele teria me contado. Certo? Não posso ser sobrenatural. Não me sinto nada especial. Por que ele não me disse? Nada disso faz o menor sentido.
— O que eu sou? — Mesmo que essa ideia do meu tio seja perturbadora, quero saber o que meu pai teria escondido de mim. Ele sempre foi tão aberto comigo que não consigo imaginá-lo guardando algo tão sério. Não faz sentido.
— Antes de te contar, quero que saiba que seus pais te amavam muito. Fizeram isso para que você não fosse limitada pelo que é. Eles queriam o melhor para você. — Eu sei que meus pais me amavam. Minha mãe era um anjo, sempre tão carinhosa. Meu pai me fazia sentir uma princesa, me mimando sem limites. Por isso é tão difícil entender por que esconderam algo assim de mim.
Eles queriam o melhor para mim?
Não teria sido melhor eu saber, em vez de me esconderem isso todos esses anos? Me deixarem no escuro sobre quem eu realmente sou?
— Eles podiam ter me contado! — Não quis descontar no meu tio, mas a notícia é demais para mim.
— Jacilynn Demonas! Eles fizeram isso para te proteger. Nunca pense, nem por um segundo, que foi para te enganar! — Meu tio me repreende. Suspiro, descruzo os braços e os apoio ao lado do corpo, envergonhada pelo meu acesso de raiva.
— Desculpa. — Fecho os olhos e recosto a cabeça no assento de veludo. Claramente decepcionada e em choque.
— Tudo bem. Entendo que você queira descontar, mas lembre-se sempre de que eles fizeram isso por você, para te ajudar, não para te magoar. — Seguimos por uma estrada deserta, e observo a paisagem passar pela janela, com saudade. Como eu queria poder falar com eles só mais uma vez. Agora, curiosa sobre minha situação, viro metade do corpo na direção do meu tio, sério.
— Como eles fizeram isso? — Agora quero saber todos os detalhes.
— Seu pai era um bruxo. Foi fácil para ele suprimir suas habilidades. — Franzo a testa, tentando entender o que ele quer dizer. Meu pai era um bruxo? Só essa informação já é inacreditável.
— Você também é um bruxo? — O tio Liam me lança um sorriso malicioso.
— Sou. — Nossa! Não consigo imaginá-lo como um bruxo. Como alguém que conheci a vida toda pode ser algo diferente do que sempre acreditei? A ideia é perturbadora.
— E a minha mãe? — pergunto, com uma curiosidade mórbida.
Ele morde o lábio enquanto ajusta o termostato do aquecedor.
— Ela era o que você é. — De repente, sinto que ele hesita. Não quer me contar mais nada. Mas por quê? Não pode ser tão ruim assim, pode?
— E o que eu sou? — Ele não pode soltar uma bomba dessas e não me dizer o que realmente sou.
— Uma súcubo. — O quê?
Isso é impossível! Sei o que é uma súcubo. Já li as histórias. Não tem como eu ser um demônio sexual! Ainda sou virgem, caramba!
Espera! Minha mãe era uma súcubo? Por algum motivo, isso me dá um nojo danado. É uma coisa que eu não quero nem imaginar!
— Como? Como eu posso ser uma súcubo? — pergunto mais para mim mesma, mas meu tio responde.
— Você é uma súcubo porque sua mãe era uma, mas tem habilidades especiais que uma súcubo normal não tem. — Isso só melhora as coisas.
— O quê? — pergunto, curiosa.
— Você é parte bruxa, parte súcubo e curandeira. No mundo sobrenatural, chamamos isso de tríbrida. — O quê?
— Como? Quer dizer, entendo a parte da súcubo e do bruxo, mas como sou curandeira?
"Sua avó. Minha mãe era curandeira. Quando você tinha dois anos, aquele seu gatinho cinza, o Mercúrio, você lembra dele?" Assenti com a cabeça. "Ele cortou a patinha num caco de vaso quebrado. Você chorou tanto porque ele estava machucado. Começou a esfregar a patinha dele. Você o curou enquanto o segurava nos braços dela. Seus pais e eu ficamos chocados. Na época, não sabíamos que você era uma tríbrida. Achávamos que só tinha herdado dois poderes dos seus pais. Imagine a surpresa de todos nós quando aconteceu. Foi aí que seus pais decidiram suprimir suas habilidades. Eles sabiam que, se a notícia se espalhasse de que você tinha múltiplos poderes, o conselho sobrenatural iria querer caçá-la, e não podiam arriscar isso." Ele vira na entrada da garagem, e eu mal percebo que já estávamos em casa, perdida demais em meus pensamentos confusos para notar.
"Chegamos." Tio Liam sai do carro, eu me estico para soltar o cinto e saio junto com ele. O vento gelado me atinge na mesma hora.
Entro na casa atrás do meu tio, e o calor do lugar me faz parar por um segundo. Tiro o casaco e o penduro no cabideiro perto da porta.
Tio Liam está na cozinha, pegando uma garrafa de água para cada um. Ele me entrega a minha. Me jogo no banco, e a cabeça começa a girar.
Por que ser uma tríbrida faria esse conselho querer me caçar? Estou em perigo? Devo me esconder? Que diabos vou fazer? Tanta informação assim me deixa com a cabeça a mil.
"Por quê? Por que esse conselho iria querer me caçar?" Apoio a garrafa de água no balcão, e ele se vira, colocando as mãos na ilha à minha frente.
"Eles têm medo do desconhecido. Basicamente é por isso. Mas não se preocupe, só precisamos manter o segredo." Fácil falar.
"Como faço para liberar minhas habilidades?" Ele suspira, se ajoelha e apoia os cotovelos na ilha.
"Você quer dizer destravar elas?" Assinto. Seus olhos começam a desviar para os lados, sem me encarar. As bochechas ficam vermelhas. Dá para ver que ele está claramente constrangido.
"Você precisa transar!" Puta que pariu! Literalmente! Tá bom, isso é constrangedor pra caralho. Falar sobre esse assunto com o meu tio não era algo que eu planejava fazer. Nunca. Nem em um milhão de anos!
"Com seu par." Meu Deus, para de falar! Deixo a cabeça cair de vergonha. Por um segundo, nem registrei o que ele disse.
"Par? Como nos livros? Meu, como é que chama, alma gêmea?" Ele balança a cabeça com força.
"Tá brincando?" Isso é inacreditável demais.
"Não. Você tem um par lá fora. Alguém destinado só para você. Talvez até o encontre na Academia." Agora estou curiosa pra caramba.
"Como assim?" Ele se endireita, toma um gole de água. Está hesitante de novo, sem vontade de me contar. Fico quieta, esperando.
"Bom... você vai saber mais amanhã. Tem uma Oráculo na Academia que pode dizer se o seu par está por perto. Só precisa de um pouquinho do seu sangue e um tempinho." Isso não soa nada tranquilo.
Tio Liam se vira, pega comida na geladeira e coloca no balcão. Olho pela janela da cozinha e vejo o sol se pondo no horizonte. Nem tinha percebido que já estava tão tarde.
"E como funciona essa coisa de par?" Quebro o silêncio que se instalou enquanto meu tio começa a cortar os legumes.
"A senhora Flora, ela é a bibliotecária da Academia. Ela te dá uma pulseira e coloca algumas gotas do seu sangue no centro. O sangue ativa a esmeralda que tem dentro", ele joga um tomate-cereja na boca, "e as iniciais do seu par aparecem gravadas na pulseira. Quando vocês dois se encontrarem, a pulseira começa a brilhar. Aí vocês podem se mudar para as casas reservadas para casais de pares." Espera aí! Morar com ele?
"Vou ter que morar com alguém que mal conheço?" De olhos arregalados e boca aberta, meu tio tenta segurar o riso, mas não consegue nem um pouco.
"E vocês também vão ter que transar na hora para ativar suas habilidades." Meu Deus! Será que esse dia pode ficar ainda pior?
"Por que logo de cara? Não posso conhecê-lo primeiro?" Ele balança a cabeça, jogando os legumes numa frigideira chiando.
"Você precisa transar com ele para ativar suas habilidades, Jaci. O Diretor acharia estranho se eu te matriculasse na Academia sem você ter nenhum poder mágico. Além disso, as aulas são basicamente para aprender a controlar esses poderes. Não ia ficar esquisito você estar numa turma de sobrenaturais e não conseguir fazer o que eu disse que você podia?" Ele está apostando todas as fichas em eu encontrar meu par e transar com ele assim que o conhecer? Sem pressão nenhuma, né!
Ainda não consigo acreditar que estou falando de sexo com o meu tio. Isso é humilhante pra caramba.
"Por que você me matriculou, tio, se sabia que eu não ia... funcionar? Não teria sido melhor me deixar em casa, longe da Academia, principalmente com esse conselho nos nossos calcanhares?" Ele continua mexendo o refogado, pensando na resposta, imagino. Não faz sentido arriscar a gente por causa dessa confusão.
"Não, porque o Diretor sabe sobre você e seus pais. Ele não sabe que eles fizeram o que fizeram, mas sabe que você é um ser sobrenatural, e só isso já é motivo suficiente para arriscar. Você precisa entender, Jaci. A situação é delicada. Temos que pisar em ovos. Matricular você foi a única opção sem levantar suspeitas." Ele coloca a comida nos pratos, e o cheiro invade a cozinha. Meu estômago ronca. Meu tio sempre foi um cozinheiro incrível. Até me surpreende que não tenha seguido carreira na área. Dou uma mordida no refogado delicioso e espero um pouco antes de continuar o interrogatório.
"Então a gente está torcendo para que meu par esteja matriculado na Academia e que eu consiga... fazer aquilo... com ele para ativar minhas habilidades reprimidas? E só rezar para que tudo dê certo? É mais ou menos isso?" Ele larga o garfo no prato e me olha, completamente exasperado.
"É, Jaci. É basicamente isso. Desculpa por te colocar nessa situação. Foi a única escolha que tive, espero que entenda." O desespero na voz dele me faz hesitar.
"Desculpa", suspiro fundo, sentindo que de alguma forma isso é culpa minha. Nunca quis colocar meu tio nessa enrascada, "Eu entendo. Vou fazer o que for preciso. Não se preocupe." Ele passa as mãos no rosto e solta um suspiro pesado.
"Vamos pensar pelo lado bom: você ainda tem dois dias antes das aulas começarem de verdade. Amanhã, só precisa ir ao escritório do Diretor pegar seu horário e depois falar com a senhora Flora. Depois disso, pode relaxar e explorar o lugar. Suas malas já foram deixadas no seu dormitório. Isso até você conhecer seu par e se mudar para uma casa de verdade." Mesmo tentando acalmar meus pensamentos, ainda sinto como se tivesse engolido uma pedra enorme que agora está no fundo do meu estômago.
Tudo depende de eu encontrar meu par e conseguir transar com ele assim que o conhecer.
É, sem pressão nenhuma!
Meu mundo virou de cabeça para baixo em poucas semanas.
Sinto como se o peso do mundo estivesse sobre meus ombros frágeis, e não sei se vou aguentar.
Estou desanimada demais para comer, então levo meu prato e coloco na lava-louças. Olho para a nuca do meu tio e sei, sem sombra de dúvida, que vou fazer isso por ele. Ele arriscou tudo por mim. Não posso decepcioná-lo, não depois de tudo que fez.
"Boa noite, tio Liam." Subo as escadas arrastando os pés, rumo ao meu quarto, para uma última noite de descanso na casa dele. Enxugo as lágrimas que começam a brotar nos olhos.
"Boa noite, Jaci."
Minha vida não passa de uma decepção atrás da outra.
Antes, uma garota tímida com pais amorosos.
Agora, só um monstro disfarçado de solidão!
Pronúncia: Jaci (já-ci)