Chapter One
POV de Jett
15 anos
O gosto metálico de sangue se acumulou na minha boca, espesso e quente. Cuspi no asfalto, inclinando o ombro por um triz para desviar de um chute de botas pesadas de Simon Devon.
Simon estava no último ano. Tinha três anos de altura e ego a mais do que eu. Ele fazia carreira ofendendo qualquer um que não ocupasse tanto espaço quanto ele. Geralmente, eu conseguia ignorar o barulho, mas hoje eu respondi. Uma resposta afiada me rendeu um soco no queixo.
"Pensa antes de abrir o bico para mim, Jett", ele cospe, o rosto contorcido em um escárnio que parecia praticado no espelho. "Todos nós sabemos onde a boca da sua mãe já esteve. Isso já é de conhecimento público."
"Não fala da minha mãe", rosno. Empurro o cascalho, minhas pernas trêmulas, mas firmes. "Você não sabe porra nenhuma."
"Jett! Simon! Na minha sala. Agora."
A voz do diretor Thomson cortou o ar como um chicote. O círculo de espectadores desapareceu pelos corredores, deixando-nos expostos. Thomson nos encarou, embora seus olhos tenham se demorado em mim com uma espécie de decepção cansada.
"De novo, Jett?", ele suspira, esfregando as têmporas. "Será que existe um dia sequer em que eu não vá te encontrar no meio de um desastre?"
"Talvez quando elegermos uma presidente mulher", respondo arrastado, limpando uma mancha de sangue do queixo. "O mundo é um lugar caótico, senhor."
Ele revira os olhos e segue apressado para a ala administrativa. Simon o segue nos calcanhares, ostentando a expressão obediente de um puxa-saco veterano. Eu não fui atrás. Em vez disso, entrei no banheiro para avaliar os estragos.
Enxaguo o resto de terra da boca e pressiono o corte no lábio, observando a água rosada descer pelo ralo.
Quando cheguei à sala da direção, o ar estava carregado de impaciência.
"Eu disse agora, Jett", rosna Thomson enquanto me apoio no batente da porta.
"Eu precisei me descontaminar", retruco, gesticulando para o meu rosto. "A menos que você quisesse uma cena de crime no seu tapete persa?"
Simon solta uma risada debochada. "Como esse cara ainda estuda aqui? Ele é só lixo do Southside. Ele deveria estar em uma escola pública com o resto da ralé."
Bem-vindo à Brookshire Prep. Eu era um garoto de South Ashbourne em um mundo de North Ashbourne — um bolsista cercado por filhos de senadores, CEOs e dinastias políticas. Minha mãe dizia que eu era o "garoto inteligente que ia longe", mas, em Brookshire, eu era apenas o vira-lata em um canil de puro-sangues.
A família de Simon, os Devons, ficava no topo da cadeia alimentar. Seu pai, Fletcher, praticamente era o dono do circuito político local.
"Cuidado com o tom, Simon", diz Thomson, embora sua voz não tivesse muita firmeza. "Você deu o primeiro soco. Independentemente da provocação, ambos terão uma semana de detenção no horário do almoço."
O queixo de Simon cai. "Minha mãe não vai ficar nem um pouco feliz com isso. Você sabe como ela é com o meu histórico."
"Certo, não queremos chatear a mamãezinha", provoco, inclinando a cabeça. "Sempre lá para mimar seu 'Simmy' doce e inocente sempre que as coisas ficam sérias."
Simon levanta da cadeira num salto. "Por que você não volta logo para a sarjeta onde-"
"Chega!", brama Thomson, batendo a mão na mesa. "Os dois, fora daqui. Estão dispensados, antes que eu transforme essas detenções em suspensões."
Não esperei por um segundo convite. Saí disparado da cadeira e segui pelo corredor, meus tênis rangendo no linóleo encerado. Eu sabia que estava vindo: o som pesado e rítmico dos mocassins caros logo atrás de mim.
Assim que faço a curva, um ombro bate nas minhas costas com a força de um trem de carga.
"Babaca", grunho, o ar escapando dos meus pulmões enquanto me estatelava no chão.
Nem olhei para trás; apenas ouvi o som de sua risada se afastando e ecoando nos armários.
A porta dos fundos do Southbound Eats bate atrás de mim, o metal pesado ressoando no ar úmido da noite.
Aos quinze anos, as crianças "normais" provavelmente estavam discutindo sobre lição de casa ou de bobeira em frente ao cinema. Eu? Eu estava batendo o ponto. Este era o meu segundo turno de três. Três horas esfregando gordura e restos de comida por dez dólares a hora; cada centavo ia direto para o envelope das contas.
Morávamos em um parque de trailers na beira da cidade. O trailer pertencia ao meu tio. Um homem que tratava "família" como uma agência de cobrança de dívidas. Ele culpava minha mãe pela vida do meu pai como um viciado de quinta categoria. Aos olhos dele, ela tinha prendido um homem com potencial ao engravidar de mim.
Meu pai poderia ter saído de Ashbourne. Ele poderia ter sido alguém. Em vez disso, era um fantasma que víamos duas vezes por mês, quando ele ficava sem dinheiro para bares e motéis baratos.
Que sorte a minha, pensei, o sarcasmo como uma camada amarga na minha língua.
Minha mãe era a única coisa que nos mantinha de pé. Ela trabalhava na cozinha do Hospital Real de Ashbourne desde que tinha a minha idade, e eu passava todas as noites da minha vida protegendo-a das mãos pesadas do meu velho, se fosse preciso.
Atiro minha bolsa na cesta perto da porta e vou até a pia. A louça já estava empilhada acima da borda da cuba. Fantástico.
"Boa noite, Jett", chama Donny.
Donny parece o tipo de homem que você evitaria em um beco escuro: cabeça raspada, um mapa de tatuagens e um rosto que parecia esculpido em granito. Mas eu sabia a verdade. Sua esposa, Summer, uma garota de Northside que trocou sua vida de privilégios por um cozinheiro, o chamava de "Teddy".
"Oi, Donny", digo, mergulhando as mãos na água fervente. "Noite agitada?"
"Duvido", ele grunhe, virando um hambúrguer. "Mas não me importo com o silêncio."
"Como está a Summer?"
"Com fome", ele ri, embora seus olhos tenham suavizado. "Gravidez é uma coisa assustadora, garoto."
"É o terceiro, não é? Parece que você é pelo menos cinquenta por cento responsável pelos seus próprios problemas, Donny."
Donny solta uma risada curta e seca. "Certo, espertinho. Vai trabalhar."
A noite se arrasta em um ritmo de vapor e sabão. Briony, a gerente do salão, gritava pedidos de "Especiais do Southside" e "Lanches do Turno da Noite", mas o movimento nunca aconteceu de verdade. Às 21:00, a cozinha já estava brilhando.
Donny e eu ficamos perto das lixeiras, dividindo um cigarro no ar fresco.
"Não conte para sua mãe que estou contribuindo para a sua delinquência", diz Donny, exalando uma nuvem de fumaça cinzenta.
"Ela está no turno da noite", respondo, sentindo a nicotina atingir meu cérebro cansado. "Além disso, vou para o armazém em seguida. Preciso ficar acordado."
Donny me olha, franzindo a testa. "Você vai se acabar desse jeito, garoto. Como diabos você mantém uma bolsa de estudos com esse horário?"
"Eu sou um gênio nato", respondo arrastado. "Você não sabia?"
Donny apaga o cigarro no calcanhar da bota e me faz um aceno solene. "Te vejo amanhã, Jett. Tente não dormir em pé."
Termino meu cigarro, subo na minha bicicleta e pedalo em direção ao Armazém Southpoint. Entro na doca de carregamento bem quando uma carreta solta um suspiro de freios ao parar. O motorista desce, semicerrando os olhos para mim.
"Tem algum adulto por aqui?", ele pergunta, olhando por cima da minha cabeça.
"Vou procurar um", resmungo. Um "olá" seria pedir demais, pelo visto.
Entro nas luzes piscantes do escritório principal. Isaac, o supervisor da noite, estava esticado em um sofá de vinil, com os olhos grudados em um jogo de basquete em uma TV minúscula.
"O caminhão chegou", digo. "Ele precisa de um 'adulto'."
Isaac vira a cabeça lentamente. Suas pupilas estavam dilatadas, nadando em um mar de vermelho injetado. Ele cheira como se um gambá tivesse morrido dentro de um pacote de Oreo.
"Fala aí, Jett... quando você chegou, cara?"
"Agora mesmo", cuspi, com a paciência esgotando-se.
Observo-o lutar para ficar de pé. Caminhamos até a doca onde Isaac opera desajeitadamente o elevador para descarregar as caixas. Assim que o motorista pega sua assinatura e vai embora do pátio, Isaac se apoia pesadamente em uma pilha de paletes.
"Ei, Jett... se importa se eu tirar uns vinte minutos? Você cuida do estoque, né?"
"Pode deixar", grunho, já pegando um carrinho de mão.
"Valeu, Jett. Você é o melhor, irmão."
"Não sou seu irmão", murmuro baixinho enquanto ele volta para o seu sofá, deixando-me sozinho com uma montanha de carga e as longas e escuras horas da manhã.








