Capítulo 1
Midtown, Manhattan, 32º andar.
Eu estava parada perto das janelas que iam do chão ao teto do meu escritório, observando a cidade se desenrolar abaixo de mim. Os táxis amarelos rastejavam como formigas pelas ruas, e o rio Hudson brilhava como prata derretida. Daquela altura, tudo era bonito. Tudo era pequeno.
Trinta e três anos. Diretora de uma galeria boutique. Gola alta preta, sobretudo cor de camelo, um Rolex Datejust no pulso. A imagem perfeita da mulher perfeita.
Eu gostava dessa versão de mim mesma. Quando me olhava no espelho, sentia-me satisfeita. Mas a mulher no vidro e a mulher do lado de fora não eram a mesma. A de dentro exibia uma expressão de certeza absoluta. A de fora... o que ela estava fazendo?
“Você ainda transa com o seu marido? Digo, de verdade.”
James, meu colega curador, abriu a porta do terraço e puxou um cigarro. O tom dele era de brincadeira, mas seus olhos estavam sérios. Eu o conhecia bem. Éramos o mesmo tipo de pessoa: polidos por fora, famintos por dentro.
O vento do final do outono cortava minha blusa de seda. O isqueiro dele brilhou, iluminando seu rosto. A fumaça veio na minha direção. Prendi a respiração.
Eu não consegui responder.
Pensei em Daniel na nossa cama. Trinta e oito anos. Advogado de fusões e aquisições. Ainda gentil. Ainda bonito. Ainda insuportavelmente entediante.
Vivíamos juntos há oito anos. Oito anos pareciam uma vida inteira e, ao mesmo tempo, não eram tempo suficiente. Longo o bastante para saber de tudo, curto o bastante para que tudo começasse a se repetir.
Os primeiros três anos foram paixão. Os dois seguintes, hábito. Os últimos três... o quê? Eu não conseguia encontrar a palavra certa. Morte? Não, seria dramático demais. Era algo mais sutil. Como um sufocamento lento. Você conseguia sentir o oxigênio diminuindo, mas tinha se esquecido de como respirar.
Na cama, ele cumpria o dever. O ritmo era previsível. Movimentos previsíveis. Ritmo previsível. Final previsível. E eu ficava contando os detalhes do forro no teto. Um. Dois. Três... Depois de um tempo, ele suspirava e virava para o lado, de costas para mim.
“No que você está pensando?”
Ele sempre fazia a mesma pergunta, como se acreditasse que eu pudesse realmente estar pensando em algo.
“Em nada.”
Uma mentira. Eu sempre estava pensando em algo. Quem eu era. Se aquilo era realmente a minha vida. Por que eu estava deitada naquela cama com aquele homem. Mas eu nunca poderia dizer em voz alta. Porque, no momento em que eu dissesse, tudo desmoronaria: essa vida perfeita, esse casamento perfeito, essa pessoa perfeita.
“Claire?”
A voz de James me trouxe de volta. Não, ela me acordou. Eu estava ali. No 32º andar.
Ele sorria. Entre os dedos, segurava algo.
“Olha só isso.”
Era um cartão preto. Liso. Sem nome, sem cargo. Apenas um número de telefone impresso em dourado no centro. Parecia um convite secreto. *Era* um convite secreto.
“O que é isso?”
Minha voz soou indiferente, mas meus dedos tremeram. Coloquei a mão no bolso.
“Os Cole. Um casal muito especial. A esposa sabe como lidar com homens. Ela realmente sabe.”
James soltou a fumaça e continuou, com a voz carregada de convicção, como se tivesse vivido aquilo pessoalmente.
“Homens como o seu marido — educados, orgulhosos, autocontrolados — desmoronam diante dela. Completamente. Se você tiver coragem de assistir.”
Desmoronar. Daniel, desmoronando. Diante de mim. Imaginei a cena: aquele rosto orgulhoso se fragmentando, aqueles olhos frios se enchendo de medo, aquela voz cuidadosamente modulada falhando.
Meus dedos pegaram o cartão. A borda afiada do papel cortou a ponta do meu dedo como um aviso.
Virei o cartão, depois voltei. As letras douradas capturaram a luz.
“Quem te deu isso?”
“Não importa. O que importa é isso aqui.”
James apontou para o cartão, seu dedo roçando o número.
“Ligue, e tudo muda.”
Eu ri. O som não foi natural. Foi a risada de uma atriz no palco. Eu sempre fui uma atriz. A esposa perfeita, a diretora perfeita, a mulher perfeita. Tudo não passava de encenação.
“Você está brincando, né?”
“Não.”
Ele estava falando sério. Mais sério do que eu jamais o tinha visto.
Guardei o cartão no bolso.
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Hora do rush na Madison Avenue.
Minha Mercedes preta parou no sinal vermelho. Carros se estendiam à frente em uma fila infinita. Um táxi buzinou atrás de mim. Cinco da tarde em Nova York era sempre assim: barulho, engarrafamento, um caos lindo. Um mundo longe da perfeição.
Minhas mãos repousavam sobre o volante, os dedos tateando o couro macio.
Eu conseguia sentir o cartão no bolso. Era tão pequeno, mas carregava um peso enorme.
Eu não sabia na época, mas aquele momento dividiria minha vida em duas. Antes e depois. A Claire que eu tinha sido e a Claire que eu me tornaria. Tudo dependia do que eu escolhesse naquele sinal.
Minha mão se moveu, quase sem que eu pensasse conscientemente.
Liguei o Bluetooth.
“Reconhecimento de voz pronto.”
A voz mecânica aguardava, como se ela também estivesse esperando por alguém.
Li os números do cartão. Devagar. Um dígito de cada vez. Como se recitasse um encantamento. Como se lesse o meu próprio destino.
“Zero... um... dois... um... cinco... cinco... cinco...”
O sinal abriu. Eu não me movi. Buzinas soaram atrás de mim. Eu não as ouvi. Só ouvia a minha própria voz e a da máquina.
“Zero... um... dois... um...”
De novo. Desde o início.
Dois toques.
Então, uma voz.
Baixa, lenta, com as vogais esticadas como seda.
“Estive esperando por você, Claire.”
Prendi a respiração. Havia algo de sinistro naquela voz.
Terror e excitação me atingiram de uma vez, misturando-se em algo novo. Desejo.
“Q-quem é?”
Minha voz tremeu. Eu odiava isso. Mas também amava.
“Vivian.”
Vivian. O nome era desconhecido, mas, ainda assim, parecia que eu o conhecia desde sempre.
O silêncio se estendeu entre nós. O que eu deveria dizer?
“Eu vou destruir o seu marido por você. Bem na sua frente.”
Apertei o volante até meus nós dos dedos ficarem brancos.
“Vou te mostrar uma face que ele nunca mostrou a ninguém. Sábado à noite, sete horas. Vou te mandar o endereço por mensagem.”
Sábado. Daqui a dois dias. Imaginei a cena: Daniel desmoronando, seu orgulho se despedaçando, os olhos arregalados de medo.
Meu coração martelava.
“Espere, o que é isso—”
A linha caiu.
Eu não tinha terminado de falar. Havia perguntas que eu deveria ter feito, coisas que deveria ter confirmado. Mas era tarde demais.
O sinal abriu novamente. As buzinas atrás de mim ficaram mais altas, mais furiosas.
Pisei devagar no acelerador. O Mercedes deslizou para frente.
Meu coração ainda disparava.
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Vinte horas. Cobertura Bennington.
Daniel estava deitado no sofá com seu laptop, revisando documentos financeiros. Seu rosto estava pálido e cansado. Ele estava sempre pálido e cansado, como se sua alma já tivesse deixado seu corpo.
Servi uma taça de vinho na cozinha. O líquido vermelho profundo refletiu a luz. Dei um gole, depois outro. O sabor das uvas floresceu em minha língua. Era lindo; a única sensação verdadeiramente viva que senti o dia todo.
Cruzei a sala de estar. Meus saltos estalavam no piso de mármore. Gostei do som. Era a prova de que eu estava aqui.
“Querido.”
Daniel não levantou os olhos. O brilho da tela iluminava seu rosto. Ele parecia um fantasma.
“Libere sua agenda para sábado à noite. Vamos jantar com um casal de doadores da galeria.”
Falei naturalmente. Mentir tinha se tornado algo natural. Eu tinha me tornado especialista nisso. Eu mentia para ele, para mim mesma, para o mundo.
Daniel continuou encarando seu laptop.
“Ok.”
Uma palavra. Só isso. Sempre era só isso. Nossas conversas terminavam assim. Com uma única sílaba. Com silêncio. Com indiferença.
Sentei-me no braço do sofá, nem muito perto, nem muito longe. A distância correta para um casal casado. Na realidade, havia quilômetros entre nós. Não quilômetros físicos. Algo mais profundo.
“Quem são eles?”
Ele perguntou sobre o casal um momento depois.
“Hum?”
“O casal de doadores. Quem são eles?”
“Ah, novos clientes. Não é importante.”
Sua resposta foi automática. Ele não olhou para mim. Ele nunca mais olhou para mim de verdade. Não como olhava quando nos conhecemos, quando começamos a namorar, nos primeiros anos de casados. Agora, eu era apenas ruído de fundo. Necessária, familiar, mas irrelevante.
Eu tinha mentido. Não sabia nada sobre Vivian: quem ela era, de onde veio, como sabia meu nome. Mas a mentira veio fácil. Fácil demais. Eu tinha ficado muito boa nisso.
Daniel voltou para o laptop. Sua atenção já tinha se desviado. Ou talvez nunca tivesse estado em mim.
“Tenha uma boa noite.”
Era só isso. Sempre era só isso. Algumas palavras. Alguns segundos. Então, silêncio novamente.
Bebi meu vinho. Os cantos da minha boca subiram lentamente.
Eu não precisava de um espelho para saber que aquele sorriso não era bonito. Que era perigoso. Que era a primeira rachadura em todas as máscaras que já usei.
Mas nada disso importava.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu me senti viva.
Esse sentimento. Esse tremor. Esse perigo. Era isso que eu estava procurando.
E o sábado estava a apenas dois dias de distância.



