A Casa dos Espelhos Negros
Leonor chegou à Quinta dos Vasconcelos numa noite de novembro, com uma mala de cartão e os olhos vermelhos de quem chorou durante seis horas de comboio. A mãe morrera há três semanas — cancro fulminante, disseram — e a única família que restava era aquele padrasto distante e a sua mulher de sorriso afiado.
A mansão era obscenamente bela. Vinte e dois quartos. Jardins que se perdiam na névoa. Uma biblioteca com livros que ninguém lia. Clara recebeu-a com um abraço frio e um quarto no terceiro andar — o mais longe possível dos aposentos do casal. Como se a distância fosse uma forma de contenção.
Na primeira noite, Leonor ouviu passos no jardim. Às zero horas em ponto. Repetiu-se na segunda noite. Na terceira. Em todas as noites que se seguiram, sem uma única excepção. A casa respirava ao ritmo daqueles passos — e Leonor, sem o saber ainda, tinha acabado de entrar no coração de algo irreparável.
O quarto do terceiro andar tinha uma janela que dava para os jardins — uma janela alta, de guilhotina, com vidros antigos que distorciam ligeiramente o exterior como os espelhos de feira. Leonor descobriu nessa primeira noite que, se se encostasse ao parapeito da forma certa, conseguia ver quase todo o jardim ocidental.
Foram precisamente esses vidros imperfeitos que a salvaram, meses mais tarde. Porque distorciam o suficiente para que, quando Augusto olhava para cima, não conseguisse distinguir com certeza se havia alguém na janela.
Na primeira noite, Leonor não sabia nada disso. Estava apenas a olhar para os jardins com o luto recente e a exaustão de seis horas de comboio, e os passos pareceram-lhe, nesse primeiro momento, quase reconfortantes. Prova de que havia vida naquele lugar.
Demorou três semanas a perceber que era exactamente o contrário.
Clara mostrou-lhe a casa no dia seguinte com a eficiência de um guia turístico bem treinado: a sala de visitas, a biblioteca, a sala de jantar formal que só se usava quando havia convidados, a cozinha onde a Dona Fátima — "a nossa cozinheira, leva aqui vinte anos, é da família" — preparava as refeições. Havia regras não ditas em cada divisão, perceptíveis no tom de voz de Clara, na forma como abria as portas de algumas com naturalidade e de outras apenas o suficiente para mostrar o interior sem convidar à entrada.
O escritório de Augusto era uma dessas últimas.
— O Augusto prefere privacidade quando trabalha, — disse Clara, passando pela porta fechada com uma ligeireza demasiado estudada. — Nunca entres sem bater, e só entras se ele responder.
— Claro, — disse Leonor.
E não perguntou mais nada, porque havia aprendido, com a mãe, que as casas onde há divisões que não se mostram completamente têm sempre uma razão para isso — e que a razão raramente é a que dizem.






