Prólogo
A noite em que ele a deixou partir.
A chuva caía sem parar sobre a cidade, embaçando as luzes que brilhavam além das janelas imensas da cobertura de Alexander Kingsley. Era aquela chuva silenciosa que parecia engolir qualquer ruído, deixando apenas o ritmo da água contra o vidro e o silêncio pesado dentro do apartamento.
Alexander estava sozinho junto à janela, com os ombros tensos e um copo de cristal intocado sobre a mesa atrás dele. Seu reflexo o encarava através do vidro escurecido — um homem admirado pelo mundo dos negócios, temido pelos concorrentes e invejado por milhões.
Naquela noite, nada disso importava.
Seu telefone vibrou.
Ele não precisou olhar para a tela para saber quem era.
Daniel.
Alexander atendeu.
“Está tudo pronto”, disse Daniel em voz baixa.
Alexander fechou os olhos.
“E eles?”
“Deixaram claro que não vão mudar de ideia.”
Sua mão apertou o telefone com mais força.
“Tem que haver outro jeito.”
“Eu explorei todas as possibilidades.”
O silêncio perdurou entre os dois.
Finalmente, Daniel voltou a falar.
“Você não tem muito tempo.”
Alexander olhou para a porta do apartamento.
“Eu sei.”
“Se você contar a verdade a ela...”
“Eu não posso.”
“Eles estão pedindo que você sacrifique a mulher que ama.”
“Eles estão pedindo algo muito pior.”
Sua voz falhou pela primeira vez.
“Eles estão me forçando a escolher se ela continua viva.”
Daniel não teve resposta.
Nenhum dos dois disse mais nada antes que a ligação fosse encerrada.
Alexander guardou o telefone no bolso e soltou o ar lentamente.
Por semanas, ele procurou por uma saída.
Ofereceu dinheiro.
Influência.
Tudo o que possuía.
Nada mudou o ultimato.
Afastar-se de Elena...
...ou vê-la morrer.
A campainha tocou.
Seu coração se apertou.
Ela estava ali.
Alexander forçou-se a caminhar até a entrada.
No momento em que abriu a porta, um calor invadiu o apartamento.
“Achei você!”
Elena sorriu radiante, levantando um saco de papel em uma das mãos.
“Eu trouxe sua massa favorita, porque sabia que você esqueceria de jantar de novo.”
Ela entrou antes que ele pudesse responder, com o aroma familiar de baunilha a seguindo.
Ela estava linda.
Não por causa do vestido bege simples ou dos cachos soltos emoldurando seu rosto.
Ela estava linda porque estava feliz.
Ela entrou na vida dele como se pertencesse a ela.
Porque pertencia.
Ela olhou por cima do ombro.
“Não fique parado aí.”
Ele conseguiu um sorriso fraco.
“Já vou.”
Ela levou a comida para a cozinha.
“Também trouxe sobremesa.”
“Você não precisava.”
“Eu sei.”
Ela riu.
“Eu quis trazer.”
Alexander a observou tirar tudo da embalagem e colocar sobre a bancada.
Ela se movia pela cozinha dele como se fosse sua.
Abrindo armários sem pedir.
Encontrando pratos.
Reclamando que ele ainda não tinha substituído a caneca de café que ela, sem querer, lascara meses atrás.
Normal.
Tudo parecia dolorosamente normal.
Ela se virou e notou que ele a observava.
“O que foi?”
Ele balançou a cabeça.
“Nada.”
“Não é nada.”
Ela sorriu.
“Essa é a sua cara de quem está pensando demais.”
Ela se aproximou e ajeitou a gravata dele com delicadeza.
“Você tem trabalhado demais.”
“Eu estive ocupado.”
“Você sempre diz isso.”
Ela descansou as duas mãos sobre o peito dele.
“Quando é que você vai admitir que a empresa sobrevive a uma noite sem você?”
Ele olhou nos olhos dela.
Se ela soubesse.
Ela se inclinou e o beijou suavemente.
O beijo foi gentil, familiar, repleto da certeza silenciosa que vem de amar alguém completamente.
Alexander retribuiu o beijo.
Por um breve momento, ele se permitiu esquecer.
Esquecer as ameaças.
Esquecer a escolha impossível.
Esquecer que aquela seria a última vez que ele a seguraria daquela forma.
Quando se separaram, Elena sorriu.
“Por que foi isso?”
“Eu só...”
Ele engoliu em seco.
“...quis me lembrar.”
Ela franziu a testa, brincando.
“Lembrar do quê?”
“Disso.”
Ela riu.
“Alex, você está estranho hoje.”
“Eu sei.”
Ela entrelaçou seus dedos nos dele.
“Vamos lá.”
Eles levaram o jantar para a sala de jantar.
A conversa fluiu com naturalidade, exatamente como sempre acontecia.
Elena falou sobre a campanha de marketing que esperava lançar um dia.
Alexander a ouviu, sorrindo sempre que os olhos dela brilhavam de empolgação.
Ela falou sobre abrir sua própria agência criativa.
Sobre viajarem pela Europa juntos.
Sobre a família que ela esperava que tivessem algum dia.
“Eu quero dois filhos.”
Alexander sorriu.
“Só dois?”
Ela fingiu pensar.
“Três, se eles herdarem a sua paciência.”
“E se herdarem a sua?”
Ela riu.
“Nossa casa nunca terá silêncio.”
Ele riu com ela.
Aquilo doía.
Cada sonho que ela descrevia era um futuro que ele já tinha perdido.
Quando o jantar terminou, Elena se levantou e caminhou em direção à sala de estar.
“Quase me esqueci.”
Ela pegou uma pequena caixa de veludo de dentro de sua bolsa.
“Eu comprei uma coisa para você.”
Alexander a encarou.
“Você não precisava.”
“Eu sei.”
Ela sorriu.
“Eu quis.”
Dentro da caixa havia um relógio elegante.
“Não é tão caro quanto os que você costuma usar.”
“Não precisa ser.”
“Eu economizei por meses.”
O peito dele apertou.
Ela tinha planejado tudo.
Ela tinha imaginado que esta noite seria mais uma bela lembrança.
Em vez disso...
Ele estava prestes a transformá-la na pior noite da vida dela.
Ele fechou a caixa cuidadosamente.
“É lindo.”
Ela sorriu.
“Eu sabia que você ia gostar.”
Então, ela notou algo.
O sorriso dele.
Ou melhor...
A falta dele.
O sorriso dela desapareceu.
“Alex...”
Ele desviou o olhar.
“O que foi?”
Ele não conseguiu responder.
Ela deu um passo à frente.
“Você está me assustando.”
Ele se forçou a falar.
“Nós precisamos conversar.”
Essas quatro palavras roubaram qualquer vestígio de alegria de seu rosto.
Ela assentiu lentamente.
“Tudo bem.”
Eles se sentaram um de frente para o outro.
O silêncio entre eles parecia interminável.
Finalmente, Alexander falou.
“Eu não acho que deveríamos ficar juntos mais.”
Elena piscou.
Então riu suavemente.
“Isso não tem graça.”
“Estou falando sério.”
O sorriso sumiu do rosto dela.
Ela buscou os olhos dele, esperando encontrar algum divertimento.
Em vez disso, encontrou uma muralha.
Fria.
Estranha.
“Não.”
Sua voz mal passava de um sussurro.
“Não... você está chateado com alguma coisa.”
“Não estou.”
“Você não quer dizer isso.”
“Eu quero.”
Ela balançou a cabeça várias vezes.
“Você me ama.”
Ele baixou os olhos.
“Não amo mais.”
As palavras cortaram o ambiente.
Elena o encarou em descrença.
“Não.”
“Sinto muito.”
“Não!”
Ela se levantou abruptamente.
“Eu conheço você.”
“Você não conhece.”
“Para de dizer isso!”
Lágrimas encheram seus olhos.
“Se isso é sobre trabalho, nós vamos superar.”
“Não é.”
“Se alguém ameaçou sua empresa...”
“Não tem nada a ver com isso.”
“Então me conte!”
Ela tentou segurar as mãos dele.
Ele se afastou.
O movimento despedaçou algo dentro dela.
“Eu conheci outra pessoa”, mentiu ele.
O cômodo ficou em silêncio.
Por alguns segundos, Elena apenas o encarou.
Então, ela sorriu.
Não porque acreditasse nele.
Porque ela tentava desesperadamente não chorar.
“Você está mentindo.”
Alexander não disse nada.
Ela assentiu lentamente.
“Entendi.”
Ela removeu o delicado colar de prata que ele havia lhe dado em seu aniversário e o colocou cuidadosamente sobre a mesa de centro.
Em seguida, veio a chave do apartamento.
Depois, a pequena fotografia emoldurada que tiraram durante a primeira viagem de férias juntos.
“Eu não quero mais isso.”
Sua voz tremia, apesar de todo esforço para mantê-la firme.
“Você disse para sempre.”
“Eu sei.”
“Você prometeu.”
“Eu sei.”
“Eu acreditei em você.”
Cada palavra parecia uma lâmina.
Ela pegou seu casaco.
Na porta da frente, ela parou sem se virar.
“Espero...”
Ela lutou para terminar.
“Espero que ela valha a pena ter perdido tudo o que tínhamos.”
A porta se fechou silenciosamente atrás dela.
Alexander permaneceu onde estava.
Ele ouviu até o som do elevador desaparecer.
Então, a máscara finalmente caiu.
Suas pernas cederam.
Ele desabou no chão, cobrindo o rosto enquanto anos de força se dissolviam em soluços quebrados.
“Sinto muito”, ele sussurrou.
“Eu te amo.”
As palavras vieram tarde demais.
Lá fora, do outro lado da rua, um SUV preto estava estacionado sob a sombra de um grande carvalho.
Um homem baixou uma câmera de alta potência após tirar várias fotos através das janelas da cobertura.
Uma foto capturou Elena saindo em prantos.
Outra mostrou Alexander desabando no chão momentos depois.
O homem enviou as imagens para um número criptografado.
Uma resposta apareceu quase instantaneamente.
Bom. Eles estão separados.
O homem ligou o motor.
“E a mulher?” ele perguntou através de um fone de ouvido seguro.
Uma voz fria respondeu.
“Continue vigiando-a.”
“E Alexander?”
“Ele fará exatamente o que esperamos.”
A linha caiu.
Enquanto o SUV desaparecia na chuva, nem Alexander nem Elena perceberam que a dor que os separava nunca fora sobre amor.
Era o movimento inicial em um jogo muito mais perigoso — um que já tinha feito sua primeira vítima e estava apenas começando a se desenrolar.









interesting story