Mosaico Metagênico Estágio Zero por Argeu em Inkitt
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Mosaico Metagênico - Estágio Zero

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Resumo

Caio Martins, 18 anos, é enviado como estagiário para Fortaleza após se formar em Londres. Aos 5 anos, perdeu toda a família em um atentado que na verdade foi um experimento de Yelena — que fundiu órgãos da família dele ao seu próprio corpo, criando, sem que ele saiba, um mosaico biológico de poderes múltiplos (Adaptação Corporal, Explosividade convertida em calor, Blindagem, Super Força parcial e Hormônios). Caio acredita que tudo vem apenas de uma regeneração excepcional. Em Fortaleza, ele se integra à agência de Yelena, forma vínculos com Beatriz (mentora), Théo (rival amigável), Iasmin (interesse amoroso), Kai (espião/aliado futuro) e Ricardo (veterano enigmático). Ao longo do livro, resolve casos crescentes até enfrentar Víbora, um vilão fabricado por Yelena. Ao neutralizá-lo, encontra uma cicatriz cirúrgica que não deveria existir — a agência ignora, mas Caio guarda a dúvida. O livro fecha com uma cena reservada de Yelena, mostrando ao leitor mais do que Caio sabe.

Gênero
Action
Autor
Argeu
Status
Em Andamento
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 — Estágio Zero

Enquanto os primeiros trens da manhã cortavam Londres como lâminas prateadas sob a chuva fina, Caio Martins já estava acordado, sentado na beirada da cama, olhando para os próprios nós dos dedos.

Não havia nada de errado com eles. Essa era a questão. Sete meses atrás, o dedo mínimo da mão direita tinha sido esmagado numa simulação de resgate — o instrutor gritou pra ele parar, gritou que aquilo bastava por hoje, que um osso partido não precisava virar recorde pessoal. Caio lembrava da dor, branca e limpa, subindo pelo braço. Lembrava de ter dito que estava tudo bem. E estava: em três dias o dedo já dobrava normalmente, a pele sem uma cicatriz sequer, como se o acidente tivesse acontecido com outra pessoa, numa vida que não era a dele.

Ele girou a mão sob a luz cinzenta da janela, só para ter certeza. Depois vestiu a camisa do uniforme e não pensou mais nisso — ou tentou não pensar, o que em Caio já significava quase a mesma coisa.

O quarto que dividia com mais três estagiários no último ano da Academia estava vazio àquela hora; os outros já tinham descido para o desjejum, ou fugido cedo para os últimos treinos antes da avaliação. Caio gostava desses minutos sozinho. Não porque precisasse de silêncio — ele nunca soube dizer exatamente do que precisava —, mas porque o silêncio nunca cobrava explicações.

Diferente das pessoas.

De onde você é mesmo?, alguém perguntava, no primeiro ano, ainda tentando decifrá-lo.

Fortaleza, ele respondia, e via a pergunta seguinte se formar atrás dos olhos de quem perguntava — e sua família, onde está? —, e via também a pergunta murchar antes de sair, porque havia algo no jeito como Caio dizia "Fortaleza" que fechava a porta educadamente antes mesmo dela se abrir. Com o tempo, as pessoas pararam de perguntar. Era mais fácil assim, para todos. Caio tinha dezoito anos e uma habilidade rara e bem treinada: a de fazer os outros desistirem de se aproximar demais, sem nunca precisar ser rude.

Ele calçou as botas, dobrou o cobertor com uma precisão desnecessária — outro hábito que ninguém pedia, mas que o corpo parecia exigir — e desceu para o refeitório da Academia, onde o cheiro de café ruim e pão requentado já enchia o corredor.

Lá fora, Londres seguia sua rotina cinza de sempre: gente andando depressa debaixo de guarda-chuvas pretos, ônibus vermelhos borrando cor na paisagem encharcada, o rio distante como uma cicatriz prateada cortando a cidade ao meio. Dentro de poucos meses ele não veria mais nada daquilo. A ideia deveria assustá-lo, ou aliviá-lo, ou as duas coisas — e no entanto Caio sentia principalmente um vazio administrativo, como quem troca de escola e sabe que vai se acostumar com o novo lugar rápido demais para que a mudança doa de verdade.

Um colega — Marcus, do quarto ao lado, um rapaz alto que treinava telecinese de baixo alcance e falava demais quando estava nervoso — sentou-se à frente dele com a bandeja batendo na mesa.

— Hoje é o dia — disse Marcus, como se Caio pudesse ter esquecido.

— É.

— Nervoso?

Caio considerou a pergunta com a seriedade de quem realmente tenta responder, e não apenas preencher o silêncio.

— Não sei se é a palavra certa.

Marcus riu, do jeito de quem não entendeu a resposta mas decidiu aceitar assim mesmo, e começou a falar sobre a própria avaliação, sobre o medo de travar na frente dos instrutores, sobre um primo que tinha reprovado duas vezes antes de conseguir uma licença decente. Caio ouvia com metade da atenção, olhando pela janela embaçada, pensando — sem querer pensar — no exame daquela tarde: o último teste prático antes da formatura, o último obstáculo entre ele e um avião para um país que ele mal lembrava de ter deixado.

Fortaleza existia, na cabeça de Caio, como um conjunto de sensações soltas e sem contexto: calor que grudava na pele, um cheiro de maresia que ele não sabia se era memória ou invenção, uma voz de mulher cantando baixinho — a voz de quem, ele não fazia ideia. Os arquivos da Academia diziam que ele tinha nascido lá, que fora resgatado ali por perto aos cinco anos, único sobrevivente de um ataque que a imprensa da época chamou de aviso. As palavras oficiais eram sempre assim: secas, funcionais, suficientes para preencher um formulário e insuficientes para significar qualquer coisa.

Ele não lembrava do ataque. Isso, ao menos, era uma mentira pequena que Caio contava a si mesmo com facilidade, porque era mais fácil do que admitir a verdade — que não lembrava dos detalhes, mas que alguma parte funda e sem nome dentro dele carregava a lembrança do jeito que um músculo carrega o hábito de um movimento repetido mil vezes: sem imagens, sem palavras, só a certeza física de que algo terrível tinha acontecido ali, num lugar que ele estava prestes a revisitar.

— Você vai ficar bem — disse Marcus, de repente sério, talvez tendo finalmente notado o silêncio comprido demais do outro lado da mesa. — Você é o melhor lutador da nossa turma. Todo mundo sabe disso.

— É a regeneração — respondeu Caio, automaticamente, a frase que ele repetia tantas vezes que já soava mais como um tique do que como uma opinião. — Eu só aguento apanhar mais do que os outros.

Marcus balançou a cabeça, discordando sem se dar ao trabalho de argumentar, e voltou para o próprio prato. Caio ficou com a frase ainda girando atrás dos dentes, do jeito que ficava sempre que a dizia. É a regeneração. Como se aquilo explicasse tudo. Como se explicasse por que, em momentos de perigo real — não os treinos, não as simulações, mas os raros instantes em que algo quase dava errado de verdade —, seu corpo parecia saber coisas que ele nunca tinha aprendido: um jeito de girar o tronco que evitava o golpe antes mesmo do golpe ser desferido, uma resistência a impactos que ia além de qualquer músculo treinado, um calor estranho que às vezes subia pela pele nos momentos mais tensos e que ele atribuía, sem muita convicção, a adrenalina.

Ele nunca contou isso a ninguém. Não porque fosse segredo — não havia segredo nenhum, até onde ele sabia —, mas porque não parecia importante o suficiente para merecer palavras. Era só o jeito que ele era. Regeneração forte, reflexos bons, sorte de ter sobrevivido a uma infância que o resto do mundo preferia não mencionar.

Terminou o café sem realmente prová-lo e levantou-se, ajeitando o uniforme com o mesmo cuidado excessivo que dedicava a tudo que podia ser controlado. Lá fora, a chuva tinha diminuído para uma garoa fina, quase gentil, o tipo de chuva que Londres parecia produzir só para lembrar seus moradores de que o verão era uma promessa distante.

Faltavam poucas horas para a avaliação final. Depois viria a formatura, depois o aviso oficial de que seu primeiro posto seria em Fortaleza — uma notícia que ele ainda não recebera, mas que carregava, sem saber por quê, como algo já decidido, como um compromisso marcado antes mesmo de existir.

Caio atravessou o pátio molhado da Academia sem pressa, o uniforme escurecendo nos ombros sob a garoa, e não fazia ideia de que, a quase dez mil quilômetros dali, numa sala com vista para o mar em Fortaleza, uma mulher lia relatórios de estagiários recém-formados com o mesmo desinteresse elegante que dedicava a tudo — até parar, por um segundo a mais do que o normal, num nome que não deveria significar nada para ela.

Yelena Bridge sorriu, de um jeito que ninguém ali estava por perto para ver, e seguiu lendo.

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