Capítulo Um: O nome que não é meu
POV: Caliandra
Saí do mercado pela porta lateral com a sacola presa ao punho e a sensação de que o homem de camisa azul tinha deixado de fingir que olhava o celular. Ele estava perto da banca de flores, imóvel havia tempo demais. Quando ergueu o rosto, não olhou para mim. Olhou para a rua atrás de mim, como quem conferia se alguém tinha chegado.
O fim da tarde deixava a calçada estreita, cheia de gente voltando do trabalho e entregadores disputando espaço entre os carros. O ruído ajudava. Também escondia passos. Eu mantive o ritmo de quem não percebe nada, passei pela banca e usei o vidro escuro de uma loja fechada para conferir o reflexo. O homem continuava parado. Outro, de boné cinza, tinha surgido junto ao ponto de ônibus.
Não era paranoia se os dois ajustavam o passo quando eu ajustava o meu.
A sacola pesava pouco: arroz, café, sabonete e duas maçãs. Coisas comuns, compradas no mesmo mercado toda quinta-feira. Eu devia ter variado o caminho. Devia ter pedido entrega. Devia ter parado de chamar de rotina aquilo que era só um conjunto de hábitos que alguém podia mapear.
Virei na rua da farmácia, embora meu prédio ficasse na direção contrária. Meu coração acelerou, mas meus pés não. No cruzamento, atravessei no sinal amarelo junto com um grupo de estudantes e entrei numa galeria que ligava duas avenidas. As lojas estavam fechando. Um funcionário puxava a grade de uma papelaria; o metal bateu no chão com um estrondo que me fez apertar a sacola.
Usei a passagem até o estacionamento de um edifício comercial. A saída de pedestres dava para uma rua paralela, menos movimentada. Se o homem de azul tivesse seguido pela entrada principal, eu ganharia alguns minutos. Se houvesse alguém esperando ali, eu teria de improvisar.
A porta abriu para um vento morno, carregado de escapamento. Olhei para a esquerda, depois para a direita. Nenhum rosto conhecido. Um ônibus arrancou do ponto e cobriu a rua com fumaça. Atravessei atrás dele, cortei por um corredor entre uma oficina e um restaurante e cheguei ao portão de um estacionamento de mensalistas. Eu conhecia o vigia, um senhor chamado Nivaldo, mas não podia chamá-lo sem arrastá-lo para dentro daquilo.
O portão estava aberto. Entrei e atravessei entre os carros, contando as fileiras. Na outra ponta havia um portão de serviço que dava para uma rua sem saída. Eu saía por ali quando precisava evitar a avenida. Não era uma rota segura. Era uma rota diferente.
Um carro preto ocupava a vaga diante do portão.
Parecia um sedã comum, vidros escurecidos, sem adesivos. O motor estava ligado. A placa dianteira tinha lama seca sobre os números. Parei perto de uma coluna e virei como se tivesse errado o caminho. Atrás de mim, passos rápidos bateram no concreto.
— Lívia Martins?
Não respondi. Corri para a escada de incêndio. A sacola rasgou no primeiro lance; maçãs rolaram pelos degraus. Alcancei a porta corta-fogo, empurrei com o ombro e saí na rampa dos carros. Um homem surgiu do lado do sedã. O de boné fechou a passagem por onde eu tinha entrado.
— Não precisa piorar — disse o homem junto ao carro.
A frase tinha a calma de quem já decidira que eu não podia escolher. Acertei a sacola no rosto dele. O pacote de arroz estourou, espalhando grãos no capô, e usei o segundo de surpresa para correr pela rampa. Uma mão agarrou meu casaco. Soltei um braço da manga e continuei. O tecido ficou para trás.
Cheguei à rua e avancei entre dois veículos parados. Uma buzina soou. Alguém gritou. Eu não olhei. Vi um portão de garagem semiaberto e tentei passar por baixo, mas o homem me alcançou pela cintura. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões. Mordi a mão que me tapou a boca e senti gosto de sangue, meu ou dele.
— Segura os braços — ordenou alguém.
Torci o corpo, acertei um joelho e ouvi uma praga. Por um instante, o aperto cedeu. Então outra pessoa prendeu meus pulsos atrás das costas. Um pano áspero cobriu meu rosto. O cheiro de combustível e tecido guardado entrou pelo nariz.
— Fica quieta e ninguém se machuca.
Não havia resposta que pudesse melhorar aquilo. Puxaram-me para dentro do carro. A porta bateu; o espaço ficou estreito, quente e sem referência. Eu contei as respirações, os solavancos, as curvas. Quando o capuz foi ajustado sobre meus olhos, perdi a rua, não a direção. O carro virou à esquerda duas vezes e depois seguiu em frente por tempo suficiente para deixar o trânsito para trás.
Mantive os dedos flexionados contra a fita nos pulsos. Se alguém me perguntasse meu nome, eu seria Lívia Martins. O outro nome não podia sair da minha boca. Nem ali, nem em lugar nenhum.
Na primeira curva, tentei medir o trajeto pelo movimento do carro. A suspensão afundava quando passávamos por lombadas; contei três antes de uma parada longa. Ouvi um caminhão aproximar-se pela direita, depois o som diminuiu. Devíamos ter saído de uma avenida. O motorista acelerou. O homem ao meu lado não falava, mas eu sentia o joelho dele encostado no meu cada vez que o carro balançava.
— Preciso ir ao banheiro — falei.
Ele não respondeu.
— Se vocês querem que eu continue viva, não deviam me deixar passar mal no carro.
— Você está bem — disse ele.
— Não sabe disso.
Puxei o ar pelo nariz, devagar, fingindo que o capuz me sufocava mais do que sufocava. A fita nos pulsos não cortava a circulação; tinham prendido meus braços com cuidado suficiente para evitar marcas profundas e firmeza suficiente para me impedir de usar as mãos. Não era um grupo improvisado. As ordens vinham curtas e ninguém discutia no meu alcance.
O carro passou por uma cancela. Ouvi o motor elétrico, depois uma segunda porta abrindo. O piso mudou de asfalto para algo mais liso. Um portão fechou atrás de nós com um ruído pesado. O veículo parou. Alguém abriu a porta e segurou meu cotovelo.
— Desce.
— Vou cair se você me puxar.
A mão soltou um pouco. Pus os pés no chão e mantive o queixo erguido, embora o capuz me impedisse de ver. O ar tinha cheiro de grama molhada e combustível. Não havia buzinas, nem vozes de rua, nem o eco dos prédios. O interior do estado? Uma casa grande nos arredores? Eu não tinha como saber ainda.
Subi degraus. A mão no meu braço apertou quando hesitei no último. Uma porta abriu e o cheiro mudou para madeira polida, café e ar-condicionado. A temperatura caiu na minha pele suada.
— Tira isso — disse um homem.
O capuz saiu. A claridade do hall me fez fechar os olhos. Pisquei uma vez, depois outra. Vi o piso de pedra clara, uma mesa estreita e o retrato de um homem de terno. Não reconheci o rosto, mas percebi que a moldura tinha sido limpa recentemente; a parede ao redor era mais escura.
O homem que falara estava parado a alguns metros. Não era o motorista. Vestia uma camisa escura e não precisava levantar a voz para ser obedecido.
— Você me conhece? — perguntei.
— Sei quem você é.
— Então sabe que pegar a pessoa errada vai custar caro.
— Não peguei a pessoa errada.
Olhei para a saída atrás de mim. Dois homens estavam entre mim e a porta. A casa era bonita o bastante para que alguém pudesse fingir que nada de errado acontecia ali. Esse era o pior tipo de lugar: portas pesadas, janelas altas, funcionários que baixavam os olhos. Ainda assim, contei as saídas visíveis e guardei a posição da escada.
O homem observou minha mão ferida.
— Precisa de atendimento.
— Preciso de um telefone.
— Não vai receber um telefone agora.
— Então não está preocupado com atendimento.
Ele não negou. O silêncio dele tinha menos pressa do que o meu. Eu queria descobrir aonde tinham me levado, quantas pessoas havia na casa, se alguém sabia que eu faltara do trabalho. Queria não pensar que talvez já tivessem encontrado meu endereço. Meu nome era uma sequência de documentos, recibos e hábitos. Se alguém começasse a seguir a sequência, chegaria ao que eu tinha escondido.
O homem fez um gesto para os seguranças.
— Soltem os pulsos dela.
Uma tesoura cortou a fita. Esfreguei a pele ardida e guardei a dor para depois. Quando o homem perguntou meu nome, respondi sem hesitar. Era o único pedaço de mim que podia oferecer sem abrir a porta para o resto.
— Lívia Martins.
Ele me olhou como se já tivesse ouvido aquilo e soubesse que era falso.
O primeiro homem tirou do bolso uma tira de plástico e a deixou sobre a mesa. Era um documento de identidade comum, com meu nome atual e uma fotografia recente. A imagem mostrava uma mulher que poderia entrar num banco, assinar um contrato e reclamar do preço do café. A fotografia antiga, a de Caliandra, não estava ali.
— Você carregava isso — disse ele.
— É meu documento.
— Eu sei.
— Então sabe que a pessoa que vocês pegaram tem um emprego, um endereço e gente que vai notar que eu desapareci.
Ele não respondeu. Outro homem aproximou uma cadeira para mim. Não sentei. Meu corpo ainda estava cheio de adrenalina, e a cadeira me deixaria de costas para a porta.
— Você pode me dizer onde estou — falei.
— Pode ser.
— Pode me dar um telefone.
— Não.
— Pode dizer quem manda aqui.
— Já disse.
Olhei de novo para o retrato. O rosto do homem pintado tinha uma segurança que parecia ensaiada. A moldura de madeira escura destoava do restante do hall, que era claro e sem objetos pessoais. Quem mandara pendurá-la queria que todos a vissem; quem limpava a casa cuidava para que nada mais chamasse atenção.
— Esse é seu pai? — perguntei.
— Era.
A resposta veio sem pausa. Ele não explicou a causa da morte e eu não perguntei. Ainda não sabia se o homem do quadro era parte da minha prisão ou se estava morto havia muito tempo. Mas a reação de Anselmo quando olhei para a pintura foi diferente da que tivera quando olhei para os seguranças. Ali havia uma memória presa.
— Se vocês me confundiram com alguém, posso provar quem sou.
— Já sei quem você é.
— Então sabe que minha vida não tem relação com a sua.
— Não decida isso por mim.
O tom dele não mudou, mas um dos homens atrás de mim se moveu. Eu sabia que a conversa não acabaria em negociação. A mesa, a pintura, a porta, a escada: tudo ali parecia disposto para que eu entendesse que não tinha autoridade. Minha única margem estava no que eles não sabiam.
— Você pode me chamar de Lívia — disse. — É o nome que uso.
— Por enquanto.
Ele sabia que era falso. Ainda não sabia por que eu o escolhera. A diferença entre essas duas coisas era tudo o que eu tinha para proteger.
O carro fez outra curva, desta vez mais fechada. Eu encostei o ombro à porta e senti a vibração do vidro. Quando parou, ouvi a voz de alguém do lado de fora pedir que abrissem. O motorista respondeu com uma palavra que não entendi. O portão se moveu outra vez. A cada barreira, eu perdia uma saída possível e ganhava um detalhe para guardar: portão elétrico, estrada de cascalho, poucos carros, cães latindo longe.
O teto do carro tinha uma pequena luz azul que acendeu quando uma porta foi aberta. Por ela vi, por um instante, o contorno de um rosto e um pedaço de céu já escuro. Não era a mesma pessoa que me levara do estacionamento. O grupo trabalhava em turnos, sem conversa desnecessária. Eu respirei fundo, soltando o ar lentamente para que ninguém ouvisse a pressa. Não adiantava lutar contra cada mão; eu precisava chegar ao próximo momento com força para escolher o que fazer.
A porta se fechou e o som do motor cobriu o resto. Apertei a mão ferida contra a calça até a ardência diminuir. Eu ainda tinha a chave, o nome falso e a memória do caminho. Por enquanto, isso era tudo.
Eu não sabia quem seria o próximo a fazer uma pergunta, mas sabia que não responderia pelo nome antigo.





