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Festival da cenoura (PT-ESP-ENG-RUS)

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Resumo

In São Teodoro, every neighborhood has its own reputation. Geysa Bôscoli has several. On an ordinary Tuesday in 2022, Lázaro goes on a first date with Ana Júlia — an eighteen-year-old artist who thinks he looks like an anime character and may or may not believe he is a vampire. By the end of the day, São Teodoro has a new tradition. Nobody planned it. Which is usually how traditions begin.

Status
Completo
Capítulos
4
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Festival da cenoura

(Ilustração por Camila Cortez Gomes aka CamilaConElCorazon)

Em toda cidade tem um lugar assim…

Especial pelo clima que tem…

Em Nova York — é o Bronx.

No Rio — a Rocinha.

Na Cidade do México — Tepito.

Em São Paulo — Capão Redondo.

Em Los Angeles — South Central.

Em São Luís — é melhor nem ir.

Em São Teodoro — é Geysa Bôscoli.

Pouca gente conhece a obra do senhor Geysa Gonzaga de Bôscoli (eu, aliás, também não).

Já a fama do bairro que leva o nome dele se espalhou por muitas centenas de quilômetros além dos limites de São Teodoro.

E como eu sou um grande admirador da obra e do estilo literário do monsieur Honoré de Balzac, tu, caro leitor, vai ter que ler uns parágrafos de exposição e história do bairro.

Senão o volume útil dos teus genitais diminui em 5 centímetros cúbicos…

Eu avisei…

Então.

Em 1975, o febril Império Colonial Português, num espasmo de agonia, deu uma pirueta esquisita e se esparramou numa posição antinatural sobre o piso de mármore da História.

No laudo da autópsia constava que as calças da falecida estavam cheias de matéria fecal…

Os portugueses, nossos irmãos menores, se cagaram de novo (ahahah, perdedores!).

E dessa vez pro mundo inteiro ver.

Bom, como dizia João Fernandes de Andeiro, amante de Leonor Teles, esposa do rei Fernando I de Portugal:

“Se é pra foder — que seja a rainha

Se é pra roubar — que seja um milhão

Se é pra se cagar — que seja na frente do mundo inteiro”

Dizem que até hoje esse é o lema não oficial do Reino de Portugal.

Não vamos discutir isso.

Pra quê caralho?

Então, o Império Colonial Português foi pro saco e, como geralmente acontece, a elite colonial portuguesa local percebeu rapidinho que estava na hora de dar no pé das antigas colônias antes que os habitantes do novo, livre, humanista e democrático Estado arrancassem essas pernas — e outras partes do corpo — usando fuzis Kalashnikov, M16, Stingers, metralhadoras pesadas e facões que aparentemente tinham brotado do nada.

Só que, como geralmente acontece, ninguém estava esperando por eles na Pátria.

Mais do que isso: como geralmente acontece, a Pátria mandou eles pra puta que pariu.

Pátria é assim mesmo.

E, como geralmente acontece, os portugueses com dinheiro que a Pátria tinha mandado pra puta que pariu resolveram se instalar no Sul e/ou Sudeste do Brasil…

Só que, como geralmente acontece, de repente descobriram que no Sul e no Sudeste todos os lugares de boa vida já estavam ocupados fazia tempo e ninguém precisava de ex-mauricinhos coloniais portugueses pra porra nenhuma.

Então, como geralmente acontece, apareceram uns espertinhos que resolveram procurar felicidade no Nordeste do Brasil, mais especificamente na cidade de São Teodoro, no Maranhão.

Um grupo desses “refugiados” da ilha de São Tomé rapidamente se enturmou com a alta sociedade da cidade e decidiu entrar num negócio lucrativo.

Construção civil.

Foi graças a esse grupo de gente nada pobre que surgiu o bairro Geysa Bôscoli, onde eles mesmos foram morar.

Por que deram justamente esse nome ao bairro?

Tem muitas versões.

A verdade é uma só: pra se passar por maranhense.

E parece que funcionou.

Já na segunda geração, o grupo de gente nascida em São Tomé, ainda português naquela época, virou maranhense sem volta.

Geysa Bôscoli deveria ser uma espécie de Las Vegas.

Construíram hotéis, abriram casas de jogo e bordéis…

Mas no fim Geysa Bôscoli virou um bairro residencial comum de São Teodoro, embora a infraestrutura hoteleira continue viva até hoje.

Ou seja, Geysa Bôscoli é um bairro comum de São Teodoro, só que com hotéis e umas casas bem bonitas.

Mas, se fosse só isso, eu não teria motivo nenhum pra estar contando essa merda toda.

O que acontece com gente nada pobre quando constrói um bairro inteiro pra si mesma e pra própria vida confortável?

Isso mesmo.

A cabeça vai pro caralho.

E a animação deles passa pros outros por via aérea.

(E sexual)

Os moradores de Geysa Bôscoli são gente extremamente alegre e desinibida.

Por isso o clima daqui é completamente diferente.

A vida do bairro inteiro é uma festa permanente com bebida, pó, baralho e maxixe.

E Geysa Bôscoli também tem a maior concentração de motéis de todo o estado.

No bingo de São Teodoro tem até a bolinha de “transar num motel de Geysa Bôscoli”.

Tudo isso tornou Geysa Bôscoli extremamente atraente pro underground artístico de São Teodoro e arredores.

E até de São Luís.

E tem ainda algum filho da puta que, junto com três amigos, a cada dois meses resolve sacanear a placa “Bem-vindo a Geysa Bôscoli” e transformar em “Bem-vindo Gays e Bis”.

Quem é esse filho da puta eu não faço ideia!

Com isso declaro encerradas a exposição e a excursão histórica.

Então, vamos nos teletransportar pra 2022, quando o céu era mais alto, a grama era mais verde, a heroína era mais pura e a ereção matinal do público masculino da minha obra era mais firme.


Uma terça-feira comum. 09:13. Casa do Lázaro. Boa Vista.


Eu tinha me mudado pra casa do meu avô, no bairro da Boa Vista, fazia só dois dias.

E já tinha empesteado a casa inteira de fumaça.

Meus amigos ajudaram um pouco nisso.

E numa bela manhã eu estava deitado numa piscina inflável no quintal, fumando.

Manhã de millennial adulto.

Aliás, millennial é sinônimo de “arrombado”.

Informação privilegiada.

Se alguém perguntar, eu não contei nada!

Então.

Millennials são a geração mais arrombada que existe.

Música de millennial — música pra arrombado.

Filme de millennial — filme pra arrombado.

Moda de millennial — moda de arrombado.

Se tu nasceu entre 1990 e 1996 — tu é arrombado (e tu sabe disso).

Quantas pessoas famosas e/ou bem-sucedidas nascidas nesse período tu conhece?

Isso mesmo, pouquíssimas. Muito menos do que as nascidas antes e menos do que os zoomers.

E quantos arrombados nascidos nesse período tu conhece?

Isso mesmo…

Quase todos…

Então.

Eu, um arrombado que carregava com orgulho esse honroso título, assim como meus contemporâneos, estava sentado numa piscina inflável de arrombado, refrescando meu corpo de arrombado e fumando, de maneira arrombada, meus cigarros de arrombado.

Uma manhã arrombada completamente normal de um arrombado completamente normal.

Naquela época arrombada da minha vida arrombada, minhas ocupações eram igualmente arrombadas.

Mais especificamente: encontros arrombados depois de conhecer gente de forma arrombada no Tinder arrombado.

Então, eu estava lá na piscina inflável, fumando e conversando no Tinder com uma garota.

Ana, 18 anos.

Sim, com um “n” só.

Descrição do perfil:

“Artista, às vezes escritora e poeta. Procuro gente com energia positiva, talvez um relacionamento. Não gosto de gente sem visão de mundo.”

A conversa começou assim:

Ana: “Uau, tu é tão bonito

Parece um personagem de Ataque dos Titãs”

Eu nunca assisti Ataque dos Titãs.

Sou indiferente a anime.

Vou ter que improvisar…

Eu: “Qual?”

Ana: “Armin Arlert”

Pesquisei no Google.

Eu: “O pessoal da Tropa de Exploração mandou avisar que ficar conversando muito tempo no Tinder derruba a libido. A tese é discutível, claro, mas eu não arriscaria. Bora pro WhatsApp (meu número).”

Ana: “Ahahah, bora”

Todo mundo que eu conheci nos últimos 14 anos assistia ou assiste Naruto / Hunter x Hunter / Ataque dos Titãs / The Promised Neverland.

Replicantes.

Mensagem no WhatsApp.

Ana: “Oi”

Eu: “Oi”

Ana: “Tudo bem?”

Eu: “Tô tomando banho de piscina, e contigo?”

Ana: “Tudo”

“Tu tem mesmo 26?”

Eu: “Tenho”

Ana: “Ahah, tu parece tão novo”

“Qual o segredo da juventude?”

“Confessa, tu é vampiro?”

Eu: “Tomo banho no sangue de virgens”

“E tu, por que parece tão nova?”

Ana: “Ahah, eu ainda sou nova”

Eu: “Isso passa”

Ana: “E onde tu arruma as virgens?”

Eu: “Pra que tu acha que eu tenho Tinder? 😇”

Ana: “AHAHAHAHA então era isso!”

“Tá, pera, se eu…” 😅

Eu: “Sim”

Ana: “Bom, então tu vai ter que procurar outra vítima pra isso”

Eu: “Não seria a primeira vez. Mas pra ti eu tinha outros planos”

Ana: “Quais?”

Eu: “Me dá teu pescoço que tu descobre… 😏”

Ana: “Ah, então tu é desses!”

“E se eu não te der meu pescoço?”

Eu: “Tu não vai conseguir me impedir…”

Ana: “😱😱😱😱😱😱😱😱”

“Fui inventar de conhecer gente no Tinder…”

Eu: “Mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer contigo. E melhor que o primeiro seja eu do que algum porco nojento.”

Ana: “Ah, de porco nojento eu ainda tenho muita história pra te contar”

Eu: “Eles vivem aparecendo pra ti?”

Ana: “Infelizmente sim, e eu nem sei por quê”

Eu: “A vida é imprevisível 🙃”

Ana: “Ahah, dá pra perceber que tu tem 26”

Eu: “Por quê?”

Ana: “Gente jovem não usa emoji assim”

Eu: “Eu já tenho mais de duzentos anos, nada de estranho”

Ana: “Matou muitas virgens nesse tempo todo, foi?”

Eu: “Sim”

“Pra que tu acha que todo mundo corre pra deixar de ser virgem antes dos 12?”

Ana: “Verdade”

“Uma amiga minha com 12 já ficava se exibindo por causa disso”

Eu: “Desgraçada essa tua amiga!”

Ana: “Por quê?”

Eu: “Podia ter sido uma menina decente, pura, e caído nas minhas mãos mais tarde…”

Ana: “Nós meninas somos assim mesmo, acabando com a vida dos velhinhos”

Ana: “Aliás, qual é teu nome?”

Eu: “Lazarus”

Ana: “Tô falando sério, ahaha”

Eu: “Lázaro”

Ana: “Sério?”

Eu: “Nós, vampiros, raramente brincamos…”

Ana: “Nome diferente”

Eu: “Duzentos anos atrás era normal”

Ana: “Ahah, eu não sei o que era normal duzentos anos atrás”

Eu: “Eu, Lestat, Armand e Louis de Pointe du Lac vivíamos enchendo a cara de vinho e nos divertindo com virgens…”

Ana: “Não sei quem são esses caras”

Ah, os zoomers…

Ana: “Eu sou Ana Júlia, caso tu se interesse pelo nome de simples mortais”

Eu: “Te deram esse nome por causa da música? 😂”

Ana: “Que música?”

Ah, os zoomers…

Resumindo, depois dessa conversa adorável, combinamos de nos encontrar.

Mais especificamente, de ir juntos à apresentação de um livro no escritório de uma editora independente local.

O escritório fica em Geysa Bôscoli.

Hoje por lá — o que, aliás, não é nada raro — vai ter de tudo: músicos de rua, encontros de artistas, estátuas vivas e por aí vai.

Hora de sair da piscina.


Uma terça-feira comum. 10:23. Em algum lugar de Geysa Bôscoli.


A lâmpada tá zumbindo.

Embora ela não esteja zumbindo.

É a geladeira.

Não, geladeira aqui não tem, mas eu tô aqui.

Então é a lâmpada.

Tenho que contar pra alguém que lâmpadas sabem zumbir, só que normalmente as pessoas não prestam atenção. As pessoas não percebem um monte de coisa. Por exemplo, paredes. Ninguém olha de verdade pra uma parede. Todo mundo sabe que ela existe e pronto. Mas se olhar por muito tempo, ela começa a se mexer um pouco.

Não se mexer.

Respirar.

Isso.

A parede respira.

Bem devagar.

Eu também consigo.

Inspirar.

Não, não precisa controlar a respiração. Se tu começa a controlar a respiração, depois tem que lembrar como é que se respira.

Eu sei respirar no automático.

Isso.

Engraçado.

Igual computador.

Computador também respira pelo ventilador.

E se desligar o ventilador ele morre.

Embora computador não seja vivo.

Mas como a gente sabe?

Eu tinha um pensamento muito importante.

Sobre o computador.

Ou sobre a parede.

Tenho que anotar.

Cadê o celular?

Na mesa.

Esse não é meu celular.

É.

Por que ele tá tão grande?

A tela parece uma janela.

Não quero pegar.

Se eu pegar o celular, vai ter mensagem. Se tiver mensagem, eu vou ter que entender quando foi escrita. E o tempo agora tá meio errado.

Que horas são?

Provavelmente tarde.

Lá fora tá escuro.

Não.

Acho que não.

As cortinas são verdes.

Eu sempre achei que fossem cinza.

Quem comprou cortinas verdes?

Eu?

Não fui eu que comprei essas cortinas.

Embora sejam bonitas.

Mas eu não tô em casa.

Muito bonitas.

Uma cor perfeita mesmo.

Amanhã eu tenho que lembrar que eu gosto dessas cortinas.

Amanhã.

Palavra estranha.

Ama-nhã.

Parece o nome de algum deus antigo.

Amanhã vem depois de dormir.

Se não dormir, amanhã chega?

Claro que chega.

Mas como o corpo sabe?

Celular.

Relógio.

Sol.

O Sol é uma coisa enorme. Enorme. Anormalmente enorme. E a gente simplesmente vive do lado dele e fica tipo: ah, sim, o Sol.

Por que isso não assusta ninguém?

Agora eu entendi.

As pessoas se acostumam com qualquer coisa monstruosa, desde que ela exista por tempo suficiente.

Isso foi realmente inteligente.

Anotar.

Celular.

Não.

O celular vai me distrair agora.

Eu lembro.

“As pessoas se acostumam com qualquer coisa monstruosa…”

Com o quê?

Não importa.

Depois eu lembro.

Se eu tentar levantar agora, será que dá?

Não precisa.

Pra que levantar?

Água.

É pra isso.

O copo tá na mesa.

Dá pra alcançar.

Não, tá longe.

A mesa tá literalmente do lado.

Meu braço é maior que a distância.

Provavelmente.

Tentar.

Foi.

O copo tá frio.

Por que tá frio?

Água.

Lógico.

Um gole.

Meu Deus, água é uma coisa incrível.

Ela não tem gosto nenhum, mas tem gosto.

Como é que isso funciona?

Eu sinto ela caindo pra dentro.

Reto pra baixo.

O estômago fica aqui?

Acho que mais embaixo.

Onde é que fica o estômago mesmo?

Não importa.

O importante é que tudo funciona.

É muito estranho ter órgãos que tu nunca vê.

Eles ficam lá fazendo alguma coisa vinte e quatro horas por dia e tu nem sabe.

Obrigado, fígado.

Por que justamente o fígado?

É o mais responsável de todos.

Tem que respeitar o fígado.

Amanhã eu vou começar a comer direito.

Cem por cento.

De manhã, ovos.

Cenoura.

Banana.

Banana tem uma aparência engraçada.

Por que banana tem justamente esse formato?

Não, isso vai pra aquele lado de novo.

Não pensar em formatos.

Tem música tocando?

Tem.

Eu fiquei uns cinco minutos sem ouvir.

Como dá pra não ouvir uma música que tá tocando?

Ela ficou mais lenta.

Ou eu mais rápido.

Não.

Eu não tô mais rápido.

Eu tô muito lento.

Posso fechar os olhos.

Só um pouquinho.

Não.

Melhor abrir.

Com os olhos fechados o espaço cai pra algum lugar.

O quarto continua no lugar.

Mesa.

Cortinas.

Lâmpada.

Tudo bem.

Por que eu tô conferindo?

Eu sei que tá tudo bem.

É só que a lâmpada tá clara demais.

Posso apagar.

Mas aí vai ficar escuro.

E a escuridão claramente tá tramando alguma coisa agora.

A escuridão não pode tramar nada.

Porque escuridão é ausência de luz.

Só que ausência também existe.

Por exemplo, se uma pessoa não tá no quarto, dá pra sentir a ausência dela.

Então ausência pode existir.

Então escuridão existe.

Então, teoricamente…

Direção de pensamento muito desagradável.

Melhor olhar pras cortinas.

Calmas.

Mas por que elas tão se mexendo?

Elas não tão se mexendo.

Eu tô vendo elas se mexerem.

Não.

Se eu olho direto, ficam paradas.

Se eu olho pelo canto do olho, se mexem.

Então é só não olhar pelo canto do olho.

Solução simples.

Eu sou bom em resolver problemas.

É só não criar novos.

Parece que alguém passou no corredor.

Não.

Cadê a música?

Música boa.

Eu conheço essa música.

Qual o nome?

Agora vai vir o refrão e eu vou lembrar.

Agora.

Não.

É outra música.

Quando foi que mudou?

Eu nem percebi.

Isso é impossível.

Por quê?

Não sei.

Só tô com a sensação de que devia ser três da manhã.

Lá fora tá escuro?

Não.

É a cortina.

Meu Deus.

Atrás da cortina tá claro.

Esse tempo todo eu achei que fosse noite.

Engraçado.

Por que eu não tô achando graça?

Tenho que contar isso pra alguém.

Não.

Não precisa contar nada pra ninguém agora.

Esse é um pensamento muito correto.

Provavelmente o mais correto de hoje.

Largar o celular.

Isso.

Água aqui.

O quarto no lugar.

As cortinas verdes.

E o principal é não esquecer aquele pensamento.

Sobre o monstruoso.

Sobre o Sol.

Sobre…

Tá.

Se era mesmo importante, depois volta.


Uma terça-feira comum. 11:40.


Saio de casa.

Bem em frente à minha casa, sentados fumando:

Zé, Felipe e Luís.

Felipe:

— Vai pra onde, porra?

Luís:

— Já tá indo pra algum lugar, caralho.

Zé:

— Viado.

Eu:

— Não é da porra da conta de vocês, seus demônios do caralho.

Luís:

— Olha só, ficou marrento agora.

Felipe:

— Arrombado.

Zé:

— Olha como se arrumou, boiola.

Felipe:

— Vai pra onde todo arrumado assim?!

Luís:

— Aposto que vai encontrar alguma mulher.

Zé:

— Olha, Lázaro, se tu ficar andando com mulher daqui a pouco tu mesmo começa a usar saia.

Felipe:

— Qual rímel tu usa?

Eu precisava responder de um jeito atrevido e original.

— Nenhum… tua mãe gosta de mim sem maquiagem.

Pausa.

— Aliás, eu levei tua mãe… pro cinema… e ela gostou. E ela não te contou nada!

Zé, falando com Felipe:

— Eu, por sinal, também fui ao cinema com tua mãe esses dias.

Luís:

— Eu tava pensando numa coisa, Felipe… Eu sou dez minutos mais velho que tu… E… quando eu tava saindo, meu pau tava dentro da vagina da tua mãe, então tecnicamente… eu realmente comi tua mãe!

Zé:

— Enfiou até os tomates!

(Ele e Luís batem as mãos.)

Eu:

— Então… ela deu pro Luís logo no primeiro encontro?

Zé:

— Puta que pariu, que prostituta do caralho.

Felipe:

— Ah, seus filhos da puta!

Rimos.

Zé:

— Vai lá, Lázaro. Boa sorte!

Luís:

— Eu conheço um venereologista! Se precisar, passo o número dele pra garota!

Vou pro encontro.

Naquela época a gente fazia muito esse tipo de piada, caro leitor.

A gente tinha até uma banda chamada “Alguns fatos sobre a juventude da tua mãe”.

E gravamos um miniálbum com o mesmo nome.

Faixas:

1) “Ela era puta”

2) “Dava o cu”

3) “Me dá dinheiro pro aborto!”

4) “Burra”

Procura no SoundCloud!

Tempo bom.

Antes de gravar os vocais, eu passei duas semanas morando dentro do armário onde depois gravei os vocais.

Daniel Day-Lewis, pra atuar no filme medíocre O Último dos Moicanos (uma agressão ao romance original, não ao filme!), morou na floresta.

Eu também consigo.

Rock’n’roll!

Na rua, como sempre, um calor do caralho.

E calor é sempre motivo pra vestir uma regata branca e um short jeans azul-claro.

A regata branca destaca muito bem meus deltoides e peitorais trabalhados.

E o short jeans azul-claro destaca muito bem minhas panturrilhas trabalhadas e “esconde” com elegância o quadríceps trabalhado.

Meus braços não desenvolvem muito, por mais que eu tente.

Por isso, pra desviar a atenção (se é que alguém vai reparar, embora seja impossível não reparar), botei umas pulseiras.

No pescoço, um colar de conchinhas.

O principal era não suar demais e não fumar, pra cheiro de perfume não misturar com suor e cigarro.

Porra, mas eu quero fumar.

Tá, se ela também fumar — pelo menos tem uma foto dela fumando nos destaques do Instagram — aí eu posso fumar também.

Vou andando devagar.

Na real, é muito bom andar na rua nesse horário e nesse calor.

Porque só um maluco sai andando na rua com um tempo desses.

E justamente por isso, se tu resolve andar, se sente rei das ruas vazias.

No cruzamento a um quarteirão da minha casa, na parede de um prédio meio abandonado, tinha um grafite de uma garrafa de cachaça e um copo cheio, com a inscrição:

“Um copão pra tua mamãe!”

Os vândalos perderam todo o respeito!

O caminho da minha casa até Geysa Bôscoli não é curto. Dá uns cinquenta minutos andando sem pressa, mas eu gosto de ir a pé.

E também não tem transporte direto daqui até Geysa Bôscoli.

E eu odeio ficar fazendo baldeação.

Além disso, enquanto tu anda dá pra olhar em volta e pensar em coisa boa.

Na maioria das vezes a inspiração aparece justamente quando eu tô andando pra algum lugar.

Ou trabalhando.

As pessoas, pelo que eu noto, em sua maioria desprezam caminhada.

E fazem mal.

Primeiro passam a juventude inteira se acostumando a não andar pra lugar nenhum e esperam ônibus meia hora até pra chegar na rua do lado; depois, aos sessenta, se surpreendem porque não conseguem andar cinco metros.

Mas isso tudo, claro, é por causa da idade e da poluição.

Quero fumar…

Não.

Vou aguentar.

Como escreveu Sêneca:

“Só otário cede assim fácil à vontade de fumar.”

E Sêneca era gente boa.

Dá pra confiar nele.

Passando pela rua Tabatinga, onde metade das casas é revestida com azulejinho branco e azul, encontrei um cara muito estranho, com aparência meio de morador de rua.

Ele vinha com uma seringa na mão — dentro tinha uma gosma esverdeada — e perguntava pro espaço em volta:

— CADÊ ELE?!

Tiro os fones do bolso.

Penso que, enquanto caminho, dá pra ouvir alguma coisa.

Mas o que eu quero ouvir?

Não sei…

Gino e Geno…

…ou White Zombie?

…

Gino e Geno ou White Zombie?

…

White Zombie.

Vou ouvir o álbum “La Sexircisto: the devil music vol. 1”.

Como nada de interessante aconteceu durante o caminho, vamos nos transportar direto pro horário e pro lugar do meu encontro com Ana Júlia.

Ana Júlia chegou antes.

Embora eu tenha chegado quinze minutos antes do horário marcado.

Ela tava sentada num banco olhando pro celular.

Ana Júlia é um exemplo vivo de que algumas pessoas ficam ótimas em foto e, ao vivo… ficam umas cinco vezes melhores.

Bem alta — um pouco acima do meu ombro —, magra.

Cabelo comprido, um pouco abaixo dos ombros, cheio, ondulado mas não cacheado; a parte da frente do lado direito parcialmente pintada de branco, incluindo uma parte da franja. Prendeu num rabo de cavalo alto, deixando as mechas da frente soltas.

Olhos castanhos, delineado puxando um pouco pra cima, pele um pouco morena.

Lábios pintados de vermelho brilhante.

Top branco.

Short jeans preto e curto.

Barriga definida.

Meia-calça preta.

Pernas definidas.

Dr. Martens com cadarço branco.

A gente se cumprimenta.

Se abraça.

— Tu não morde o pescoço logo de cara?

— Aí já seria meio deselegante. Eu ainda sou um cavalheiro.

Ela sorri.

— Tenho uma coisa pra ti, Lazarus…

Ela tira da bolsa um quadrinho pequeno, numa moldura.

A pintura mostra uma espécie de casarão gótico nas montanhas, à noite, iluminado pela Lua, com algumas janelas acesas.

Muito bem feito.

— Tenho certeza que teu covil é exatamente assim. Depois da nossa conversa eu fiquei inspirada e saiu isso. Guarda de lembrança…

Ela entreabriu a boca, passou a língua pelos dentes de um jeito brincalhão — ficou bonito — e piscou pra mim.

E o quadro é muito bonito.

É a primeira vez que alguém me dá alguma coisa num encontro.

Agradeço de coração, abraço forte e beijo no rosto.

Pego Ana Júlia pela mão e a gente vai pra rua principal de Geysa Bôscoli.

Ana Júlia entrelaça os dedos nos meus.

Três segundos andando em silêncio.

Assim não dá.

Me inclino pro ouvido dela.

— Ana Júlia — digo num tom fingidamente íntimo — eu entendo que tu tá nervosa pra caralho…

Ela começa a sorrir, meio tímida.

— …e eu acho que sei como te… relaxar…

(Faço carinho na mão dela com o polegar.)

Ela fica vermelha e sorri ainda mais tímida.

— …tá na hora de tu me contar sobre os porcos nojentos que vivem te perseguindo…

Ana Júlia ri.

— Bom, agora já não perseguem mais… — diz, encostando a cabeça no meu ombro.

A gente se olha.

Sorri.


Uma terça-feira comum. 12:17.


O celular vibrou de novo.

Uma vez.

Depois parou.

Eu não olho.

Se eu olhar, eles vão saber que eu olhei.

É óbvio.

Melhor nem tocar no celular agora.

Tá com a tela virada pra baixo.

Certo.

Tela pra baixo é mais seguro.

Só que a câmera fica do outro lado.

Porra.

Virei ele.

Agora a câmera tá olhando pra mesa.

Isso.

Que olhe pra mesa.

A mesa não sabe de nada.

Eu também não sei de nada.

E essa, aliás, é minha principal defesa.

Se tu não sabe de nada, não tem como tirarem nada de ti.

Exceto aquilo que tu sabe.

Mas eu não sei de nada.

Acho.

Uma porta bateu.

Eu congelei.

Não.

É só uma porta.

As pessoas fecham portas.

É pra isso que portas existem.

Depois alguém subiu pro andar.

Passo.

Passo.

Passo.

Pausa.

Passo.

Passo.

Por que a pausa?

Uma pessoa normal não tem motivo pra parar entre o terceiro e o quarto passo.

Embora tenha.

Pode ser o cadarço.

Pode ser o celular.

Pode ter parado pra escutar.

Não.

Cadarço.

Claro que é o cadarço.

Agora vai andar de novo.

Silêncio.

Filho da puta.

A luz do corredor do outro lado da porta acendeu.

Eu vejo uma faixa de luz embaixo.

Ela tava aí?

Não lembro.

Provavelmente tava.

Não.

Com certeza não tava.

Ou tava.

É muito ruim não lembrar de coisas simples.

Então eu preciso me concentrar ao máximo agora.

Pra isso existe um método testado.

Um pouco.

Só um pouco.

Não pra viajar.

Ao contrário.

Pra voltar.

Eu sempre digo isso.

Mas agora é verdade.

Porque agora a situação é diferente.

Agora eu preciso de coragem.

Minhas mãos não tão obedecendo muito bem.

Calma.

Primeiro uma coisa.

Depois a outra.

Isso.

Agora esperar.

Não.

Não dá pra esperar.

Quando tu espera, o tempo começa a esticar.

Preciso agir.

O principal é um plano.

Uma pessoa sem plano é fácil de pegar.

Uma pessoa com plano é mais difícil.

Principalmente se eles não conhecem o plano.

E eles não conhecem.

Porque eu mesmo ainda não conheço.

Ótimo.

Melhor ainda.

Não tem nada pra interceptar.

Preciso me esconder.

Mas só se esconder é idiota.

Todo mundo se esconde no armário.

O armário eles vão olhar primeiro.

Debaixo da cama — segundo.

Banheiro — terceiro.

Varanda é armadilha total.

Não.

Preciso de camuflagem.

Não me esconder.

Virar outra coisa.

O celular vibrou de novo.

Duas vezes.

Olhei pra ele.

Não toquei.

Só olhei.

Isso não conta.

Tela pra baixo.

Mas vibrou.

Então é mensagem.

Ou duas mensagens.

Ou uma mensagem comprida.

Não posso ler.

Se tiver escrito aquilo que eu tô pensando, então eu tô certo.

E se não tiver, isso não prova nada.

Muito conveniente.

Não.

Não conveniente.

Lógico.

Uma luz da rua passou devagar pelo teto.

Eu me abaixei.

Carro.

Só um carro.

Por que tão devagar?

Talvez estivesse fazendo a curva.

Talvez procurando o número da casa.

Não.

Não pensar as palavras “procurando o número da casa”.

Palavras ruins.

Às vezes palavras iniciam acontecimentos.

Não é magia.

É só que o cérebro depois começa a notar confirmações.

Eu entendo isso.

Eu tô entendendo tudo perfeitamente agora.

E é exatamente por isso que preciso agir rápido.

Com o que eu posso me camuflar?

Roupa.

Não.

Roupa faz a pessoa parecer pessoa.

Tem que tirar a forma.

Silhueta.

Silhueta é o mais importante.

Olhei pra poltrona.

Tinha uma pilha de roupas na poltrona.

Isso.

É isso.

Uma pilha de roupas não interessa a ninguém.

Ninguém nunca sequestra uma pilha de roupas.

Provavelmente.

Se eu deitar embaixo…

Não.

Óbvio demais.

Vai ficar uma pilha de roupas com pernas.

Dá pra esconder as pernas.

Onde?

Embaixo de mim.

Tentei dobrar as pernas.

Quase caí.

Muito engraçado.

Agora não.

Parede.

Se eu ficar encostado na parede e ficar da mesma cor…

Olhei pra parede.

Bege.

O que eu tenho de bege?

Toalha.

Não.

A toalha é branca.

Cortina.

A cortina é verde.

Por que continua verde?

Da outra vez também era verde.

Então pelo menos isso é real.

Bom.

Dá pra me enrolar na cortina.

Mas se eu tirar a cortina, a janela fica aberta.

Quer dizer, não aberta.

Visível.

E aí fica pior.

Não mexer na cortina.

Regra número um — não mexer na cortina.

Tenho que anotar.

Sem celular.

Na mão.

Com caneta.

Cadê a caneta?

Na mesa.

Escrevi na palma:


CORTINA NÃO


Tá bom.

Vou entender.

O que mais?

Cheiro.

De repente eu entendi que cheiro é um problema.

Cada pessoa tem o próprio cheiro.

Mesmo depois do banho.

Principalmente depois do banho.

Shampoo.

Desodorante.

Perfume.

Tudo isso é tipo um farol.

Preciso cheirar igual ao apartamento.

Qual o cheiro do apartamento?

Poeira.

Roupa lavada.

Geladeira não pode.

Por que geladeira não pode?

Não sei.

Peguei uma camiseta da poltrona e cheirei.

Normal.

Cheira a mim.

Ruim.

Outra.

Também eu.

Droga.

Todas estão contaminadas por mim.

Preciso de alguma coisa neutra.

Manta.

Isso.

Manta tem cheiro de manta.

Me enrolei nela.

Na hora ficou melhor.

Quente demais.

Mas seguro.

Quente quer dizer calor.

Calor dá pra ver.

Pera.

Quem vê?

Não importa.

Se esse pensamento veio, é melhor levar em conta.

Preciso esfriar.

Geladeira.

Não.

Nunca entrar dentro da geladeira.

É uma regra importante.

Por que eu pensei nisso?

Porque é fria.

Lógico.

Abrir a janela?

Não.

Janela é literalmente a pior opção possível.

Água.

Água esfria.

Peguei uma garrafa e encostei na testa.

Perfeito.

Genial.

Testa fria.

Agora, de cima, eu sou quase um móvel.

Não sei por quê.

Mas parece certo.

Passos de novo.

Dessa vez rápidos.

Alguém parou perto da porta.

Parei de respirar.

Não.

Tem que respirar.

Bem quietinho.

Dá pra respirar pelo nariz.

Nariz faz barulho?

Escutei meu próprio nariz.

Muito alto.

Como eu nunca tinha percebido isso?

Cada respiração dá pra ouvir no apartamento inteiro.

Provavelmente do lado de fora também.

Não.

A porta é grossa.

E se não for pela porta?

Não pensar.

Toc.

Eu estremeci.

De novo.

Toc.

Não é a porta.

Cano.

Provavelmente cano.

Terceira vez.

Toc.

Três.

Por que exatamente três?

Quem bate três vezes?

Muita gente.

Ninguém.

Não importa.

Comecei a rastejar até a cozinha.

Por que rastejando?

Por causa da silhueta.

Uma pessoa em pé é uma pessoa.

Uma pessoa rastejando…

Também é uma pessoa.

Mas menor.

Conta.

Na cozinha é melhor.

Tem mais objetos.

Dá pra me dissolver no meio dos objetos.

Preciso de um objeto do meu tamanho.

Geladeira.

Não.

Eu já falei.

Mesa.

Debaixo da mesa é óbvio.

Do lado da mesa também.

Se eu botar uma cadeira na minha frente…

Botei.

Olhei.

A cadeira cobria só as pernas.

Inútil.

Depois vi uma caixa de papelão perto do lixo.

Caixa.

Isso.

Todas as grandes ideias parecem idiotas no começo.

Essa é a força delas.

Se eu colocar a caixa na cabeça, não tem rosto.

Se não tem rosto, fica mais difícil reconhecer a pessoa.

Mas o corpo continua.

Dá pra usar a manta.

Caixa mais manta.

Quase ri.

Perfeito.

Tão perfeito que chega a ser suspeito.

Por que todo mundo não usa isso?

Porque normalmente ninguém precisa.

Aí está a resposta.

Coloquei a caixa na cabeça.

Escuro.

Bom.

Cheiro de papelão.

Melhor ainda.

Agora eu não cheiro a mim.

Embora a caixa esteja só na cabeça.

Preciso fazer buracos.

Não.

Buracos revelam intenção.

Caixa com buracos é camuflagem.

Caixa sem buracos é só uma caixa.

Genial.

Ficou difícil respirar.

Tirei.

Não.

Ideia ruim.

Não inteira.

Só uma parte.

Dá pra deixar a caixa por perto.

Como opção reserva.

Sentei no chão enrolado na manta.

Lá fora passou outro carro.

Depois mais um.

Depois veio um ruído bem alto lá no alto.

Longo.

Levantei a cabeça.

O teto continuava no lugar.

Isso é bom.

O principal é o teto continuar no lugar.

Enquanto o teto estiver no lugar, ainda tá tudo normal.

O celular no quarto vibrou de novo.

Por muito tempo.

Muito tempo.

Ligação.

Não me mexi.

Deixa tocar.

Se for uma pessoa normal, liga amanhã.

Se não for normal…

Aí é que não dá pra atender mesmo.

Olhei pra minha mão.

CORTINA NÃO.

Isso.

Regra.

Boa regra.

Preciso de outra.

Achei a caneta.

Na outra palma escrevi:

EU NÃO SOU EU

Olhei.

Agora fiquei muito mais tranquilo.

Porque se eu não sou eu, então quem é que eles vão procurar?

Xeque-mate.

As roupas têm meu cheiro.

Então vão me entregar.

Preciso me livrar delas agora.

Deitei perto do armário da cozinha, puxei a manta até o nariz e deixei a caixa do lado.

Pronto.

Camuflagem pronta.

Todas as roupas na geladeira.

Agora o principal é agir naturalmente.

Como se eu sempre ficasse deitado no chão da cozinha, embaixo de uma manta, do lado de uma caixa.

Nada de estranho.

Um dia completamente normal.

O celular parou de tocar.

Isso.

Funcionou.


Uma terça-feira comum. 12:44.


— …ele encostou em mim… assim, tipo… — ela põe a mão na minha perna — e me deu até um negócio ruim! De tão nojento que ele era de verdade. Fiquei passada.

— Então por que tu foi sair com ele?

— Porque eu achei que ele fosse normal… a gente conversava e ele parecia normal, aí quando encontrou pessoalmente parecia outra pessoa.

— Que horror. Eu achei que tu não fosse dessas…

— Ahahahah, como assim?

— Andando com porco nojento por aí…

— É que eu nunca conseguia encontrar um vampiro…

Passei devagar o indicador da mão livre pela barriga dela.

— E como terminou a busca?

— Bom… acho que com sucesso.

Rimos.

Nos abraçamos.

— Então, depois a gente ficou andando quase uma hora e passou praticamente o tempo todo em silêncio. Eu tentava puxar conversa, mas ele era meio… sei lá… eu nem sei explicar… enfim, eu não conseguia.

— É, eu também não gosto dessas pausas completamente constrangedoras.

— Tipo, tudo bem se a pessoa é tímida ou tá nervosa, isso é normal, mas ele parecia… sei lá… como se estivesse preparado pra uma coisa… não exatamente negativa… caramba, como eu explico…

— Chegou já com certeza de que ia dar merda.

— É! Mais ou menos isso. Horrível!

— Coitado.

— Pra tentar aliviar o clima eu resolvi mostrar minhas pinturas no celular, pela galeria.

— Acho que já sei o que aconteceu depois… — rio.

— Eu tava passando as fotos, tipo, não uma por uma, só passando a galeria, e tinha uma foto infeliz minha na praia. E eu tava de maiô fechado! Aí ele olhou e mandou na hora: “Peitos bons.” Eu fiquei tipo… “Hããã… obrigada?…” E ele: “Sério, muito bons.”

— Apreciador de peitos…

— Ahahahah, mas o que tinha de “bom”? Eu mal tenho peito!

— Pelo menos não atrapalha pra dormir.

— Ah, isso sim. Tenho até pena de quem sofre com esse problema.

— E tu tá protegida de estria.

— E atraio vampiro…

Rimos de novo e nos abraçamos.

Puxo ela contra meu peito.

— Tá, e depois?

— Enfim, eu fiquei pensando “Quê?”… porque aquilo era realmente… muito estranho. Imagina: na conversa tudo normal, aí tu encontra o cara e ele é um porco nojento e suado, uns quinze quilos mais gordo do que em todas as fotos, coberto de um desodorante horroroso, te tocando fora de hora com as mãos suadas, quase não fala nada e depois solta “Peitos bons”!

— E depois?

— Ele ficou olhando pra mim como se estivesse esperando alguma coisa… e eu continuei mostrando as fotos das pinturas. A gente até conseguiu conversar um pouco sobre arte. Ele disse que gostava de Van Gogh. Tu gosta de Van Gogh?

— Tu tá comparando nós dois?

— Não, não, não!.. Eu… só…

Dou risada.

— Ah, sua…! — ela finge que me bate.

(Finjo bater de volta.)

— O QUÊ?! Tu levantou a mão pra mim…

— Sim. Eu sou abusivo…

— É… tu é abusivo!

(Finjo bater.)

— Isso é pelos macarrões sem sal!

(Finjo bater de novo.)

— E pensão tu não vai ganhar!

Ana Júlia explode de rir.

— Tá bom — faço carinho na cabeça dela — em casa tu apanha mais. Continua a história dos porcos, desculpa interromper.

— Então… depois eu mostrei uma foto de uma exposição. Eu tava com uma saia branca, um pouco abaixo do joelho, e sabe o que ele falou?

— “Perninhas boas?”

— SIM! Quer dizer, não exatamente… Ele falou: “Uau, que pernas.” E aí já foi demais… nem dava pra ver direito minhas pernas na foto!

— Um verdadeiro esteta sempre encontra a beleza.

— Foi… nossa, foi muito nojento! Eu nem consegui responder, de tão n o j e n t o. Depois apareceu uma foto do meu autorretrato. Pera, vou te mostrar. — Ela pega o celular e procura na galeria. — Essa aqui.

A pintura é realmente bonita e muito realista.

— Tu desenha MUITO bem. Nem tenta discutir. — belisco de leve a lateral dela.

(Ela dá um gritinho e sorri satisfeita.)

— Obrigada. — Pisca. — Aí sabe o que ele falou? Ele olhou e mandou: “E essa boquinha aí trabalha, hein!”

Aí eu perdi tudo e comecei a rir.

— Tá vendo?! Foi exatamente isso que ele falou! E ainda com uma voz meio tremendo, tipo… — imita — “E essa boquinha aí trabalha, hein!” Meu Deus, que horror. Que horror!

— E qual foi tua reação?

— Eu travei! Nunca tinha passado por um cringe desse tamanho!

— E tu ainda ficou lá com ele?

— Não, aí eu entendi que tinha acabado. Fingi que tinha recebido mensagem dos meus pais e fiz tipo: “Ai, tenho que ir pra casa.” Aí ele se ofereceu pra me acompanhar… Eu disse: “Não, relaxa, vou de táxi.” Ele se ofereceu pra chamar o táxi… Eu falei que não precisava… Mas ele chamou mesmo assim. Só que eu passei um endereço falso. Aí a gente ficou sentado esperando o táxi em silêncio e eu desisti de tentar puxar assunto. Do nada ele manda: “Eu sei que não sou um Chad, mas gostei muito de ti e queria te chamar pra ir lá pra casa comigo.” Eu fiquei pensando: “O QUÊÊÊÊÊÊÊÊÊ?!??!?!?!?!” Aí eu falei: “Meus pais tão me esperando.” Ele: “Então amanhã.” Eu: “Tô ocupada até o fim do mês.” E ele: “Tá, entendi… claro, eu não sou um Chad.” Na hora de ir embora ele falou bem teatral: “Tchau, então!” e saiu.

No dia seguinte ele me mandou: “Eu achei que tu não fosse igual a todas, mas tu é só mais uma Stacy igual às outras!” e me bloqueou.

Foi isso.

— Caramba…

— Eu não fazia ideia do que era “Chad”, do que era “Stacy”. Perguntei pros meus amigos… Me diz uma coisa: tem homem que acredita mesmo nisso?

— Acho que tu já comprovou na prática que existe.

— Eu tenho uma amiga chamada Stacy. No começo achei que ele tava comparando nós duas. Mas ela namora faz tempo e eu fiquei completamente perdida.

— Então proponho que a gente saia dessa confusão, vá tomar um chocolate quente e, no caminho, dê uma olhada nas estátuas vivas.

— Bora.

A gente se abraça forte mais uma vez, levanta do banco e vai atravessando o “desfile de estátuas”, como chamam por ali.

Não sei tu, caro leitor, mas eu acho estátua viva uma coisa muito foda.

Os caras são muito bons.

Depois a gente viu uma exposição de pinturas.

Eram pintores especializados em marinhas.

Eu tenho uma certa fraqueza por marinhas — pintura de mar, no caso.

Ana Júlia nem teve tempo de falar nada e eu já puxei ela pras pinturas.

Parece que marinhas não impressionam ela tanto quanto me impressionam.

Na verdade, parece que não impressionam nem um pouco.

Depois fomos a um café que ela gosta.

Pedimos um chocolate quente e um croissant cada um.

Ana Júlia exigiu que eu não pagasse por ela.

— E tu? Que tipo de porca nojenta já apareceu na tua vida?

— Eu não saio com gente assim.

— E égua insuportável?

— Também nunca apareceu.

— E cadela folgada?

— Também não. Eu só saio com gente normal.

— Todas normais mesmo?

— Mais ou menos, sim.

— Então por que tu não tá namorando? Ou…

— Sei lá. Acontece.

— Como assim “acontece”?

— Tu também não tá pronta pra ter filho com todo cara que não seja um porco nojento, né?

— E tu já vai pensando logo em fazer filho?

— Não, mas um dia eu gostaria. Só que eu não tenho muita sorte encontrando gente que queira alguma coisa… bom, não quero usar aquele clichê “alguma coisa séria”. Acho que eu ainda não encontrei mulheres que fossem, digamos, consistentes. Gente com quem desse pra construir alguma coisa estável.

— E que tipo aparece então?

— Ahah. Todo o resto.

— Opa, opa, opa. Exijo informações do outro lado da trincheira! Embora uma amiga minha já tenha criado um Tinder fingindo ser homem…

— E tu ainda tem perguntas?

— Booooom… quero saber teu ponto de vista.

— Tentando entrar na minha cabeça? — faço carinho no braço dela.

— Eu preferia não sair de lá. — Pisca e faz carinho no meu braço de volta.

— Pois bem, eis o resultado das minhas “pesquisas sociais”. Se a gente excluir quem não responde mensagem e também nunca manda nada — ou seja, uns noventa por cento de todos os matches — sobra: mulher procurando “só um amigo homem, porque amizade com homem é mais fácil”; mulher que depois de duas mensagens pergunta “HMH?”; mulher querendo transar com alguém pra se vingar do ex; mulher que não sabe o que quer; mulher procurando uma carteira ambulante; e uma porcentageeeeem minúscula de mulheres que realmente querem encontrar um parceiro. E mesmo com essas nem sempre dá certo. É isso. Assim vivemos.

— E quantas vezes tu aceitou o “HMH”? — ri.

— Nenhuma. E tu?

— Eu também não. Pra mulher ainda oferecem MHM.

— E quantas vezes tu aceitou?

— Ahahahah, não tenho interesse nenhum nisso.

Red flag superada.

Como ainda faltavam algumas horas pra apresentação do livro, resolvemos matar o tempo jogando sinuca.


Uma terça-feira comum. 15:00.


VÃO ME COMER.

Primeiro pensamento.

Claro.

Cristalino.

Esses filhos da puta só tão esperando pra se banquetear com carne.

Nem fodendo.

Levantei.

Rápido demais.

O quarto foi um pouco pra esquerda e depois voltou.

Normal.

O principal agora é não parecer uma pessoa que dá pra comer.

VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR, SEUS FILHOS DA PUTA!

O que isso quer dizer?

Não importa.

Preciso ficar invisível.

Pessoas invisíveis existem.

Eu já vi.

Elas andam na rua e tu não olha pra elas.

Casaco cinza.

Calça escura.

Nenhum sinal de personalidade.

Isso.

Personalidade é problema.

Camiseta vermelha.

Não.

Vermelha demais.

Branca.

Pior ainda.

Preta.

Suspeito.

Cinza.

Perfeito.

Homem cinza.

Ninguém lembra de gente cinza.

Capuz.

Não.

Capuz parece que a pessoa tá escondendo alguma coisa.

Mas o rosto fica aberto.

Ruim.

Preciso de equilíbrio.

Boné.

Não tenho boné.

Gorro.

Tá quente lá fora.

Uma pessoa de gorro chama atenção.

Por outro lado, uma pessoa sem gorro também pode chamar atenção.

Todo mundo pode chamar atenção.

Não posso pensar assim.

Preciso parecer com a maioria.

Como é que a maioria parece?

Celular.

Não.

Não olhar o celular.

VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR, SEUS FILHOS DA PUTA!

O celular sabe demais.

Olhei no espelho.

Pessoa.

Normal.

Normal demais.

Isso é suspeito.

Preciso adicionar um pequeno defeito.

Isso.

Agora pareço uma pessoa que só saiu pra comprar cerveja.

Ótimo.

Se perguntarem — fui comprar cerveja.

Embora quem vá perguntar?

Não importa.

Na rua tinha gente demais.

Isso é bom.

Multidão.

Multidão é proteção.

Entrei no meio.

Na hora senti que tava andando errado.

Todo mundo andava com algum objetivo.

Eu também preciso andar com objetivo.

Mercado.

Cerveja.

Acelerei.

Depois entendi que uma pessoa andando rápido parece suspeita.

Diminuí.

Devagar demais.

Agora eu parecia uma pessoa seguindo alguém.

Não.

Médio.

Tenho que andar médio.

Como se mede médio?

Escolhi um homem na minha frente e comecei a andar na velocidade dele.

Ele olhou pra trás.

Filho da puta.

Percebeu.

Virei.

Por acaso.

Calma.

VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR, SEUS FILHOS DA PUTA!

Agora eu sou outra rota.

Tinha gente parada no ponto de ônibus.

Perfeito.

Dá pra ficar parado.

Uma pessoa parada não levanta pergunta.

Fiquei ali.

Todo mundo olhando pro celular.

Isso.

Era isso que faltava.

Uma pessoa normal olha pro celular.

Mas eu não posso olhar o meu.

Fiquei olhando pro vidro preto.

Vi meu reflexo.

Muito ruim.

Como se eu estivesse me observando.

Guardei.

Uma mulher do lado olhou pra mim.

Não.

Não pra mim.

Atrás de mim.

Ou através de mim.

Isso.

Através.

Então tá funcionando.

Eu já tô quase invisível.

Passou um carro.

Branco.

Depois outro.

Também branco.

Não.

O primeiro era cinza.

Acho.

O principal é não contar carros.

Se começar a contar, vai ficar claro que eles estão se repetindo.

Não precisa.

Atravessei a rua junto com a multidão.

Isso é certo.

Nunca atravessar sozinho.

Uma pessoa — alvo.

Dez pessoas — estatística.

Pensamento muito bom.

Tenho que lembrar.

Fiquei entre um homem com uma sacola e uma garota com café.

Agora eu faço parte da composição.

Homem.

Garota.

Eu.

Cena urbana comum.

Nenhuma carne.

Nenhuma presa.

Só pessoas.

Até tentei parecer cansado.

Funcionou bem demais.

Acho que eu realmente tô cansado.

No cruzamento alguém riu alto.

Eu estremeci.

Não é de mim.

Ninguém tá pensando em mim.

Isso é camuflagem.

Nível máximo.

Talvez eu precise de uma arma caso me descubram.

Quando tu é tão comum que deixa de existir.

Embora uma arma talvez só deixe eles mais animados.

Continuei andando.

Nem rápido.

Nem devagar.

Médio.

Como uma pessoa.

O principal agora é não chamar atenção.

Preciso me proteger de algum jeito.

Preciso de armadura.

Uma barreira intransponível.

E de jeito nenhum olhar pra trás.

Olhei pra trás.

Uma vez.

Ninguém.

Isso.

Então deu certo.


Uma terça-feira comum. 17:00.


O tempo com Ana Júlia passou sem eu perceber.

A gente jogou sinuca, andou por lojas, almoçou, se abraçou bastante.

Agora era hora da apresentação do livro.

O livro era uma coletânea de textos de autores locais.

A editora publicava uma dessas uma vez por ano.

Já fazia sete anos.

Uma vez eu também mandei texto pra eles.

Mais especificamente, uma novela chamada "AmberNuggetUsedSuspect", cuja trama girava em torno de uma operação da CIA em Granada pouco antes da invasão americana.

A editora-chefe disse que meu texto era obsceno.

Eu respondi que obscena era a cara dela.

Em compensação, entraram na coletânea textos de “autores promissores” sobre amor infeliz, vingança contra ex-namorado e histórias de terror no estilo:

“…E então o protagonista entendeu…

Diante dele estava o próprio DIABO!”

Tudo ficou claro.

A CIA comprou os editores.

Essa é toda a verdade.

(Por Granada vocês ainda vão pagar, filhos da puta!)

Que textos e que autores eles publicaram este ano — além dos próprios amigos —, eu não sei.

Ana Júlia disse que publicaram uma amiga dela.

Ela escreveu um conto de nada menos que sete páginas.

Claro que sobre o amor infeliz da vida dela.

O primeiro e último.

Que durou dois meses.

Depois dele, ela finalmente, pela enésima vez, se decepcionou com todos os homens.

Esse acontecimento já fazia quatro anos que reaparecia na obra dela.

Mas o resto era muito interessante e bem escrito.

Segundo Ana Júlia.

Pra mim, literatura contemporânea não tem nem profundidade nem pegada.

Mas, se as pessoas leem isso…

Então eu também vou fazer igual.

…E então eu entendi…

que sentados atrás da gente no salão estavam… Zé, Felipe e Luís!

Ouvi a conversa dos três.

Virei e cruzei o olhar com eles.

Mandei no nosso grupo:

“Que caralho vocês tão fazendo aqui?”

Zé: “A gente não sabia que tu tava aqui”

Luís: “A gente achou que tu tinha ido pra uma boate gay”

Vou acreditar nesses mentirosos.

A apresentação não durou muito.

Umas três horas e meia.

Agora eu conto tudo.

A apresentação começou com um discurso introdutório relativamente longo da editora-chefe.

Como convém ao discurso de uma editora literária, estava cheio de repetições, enrolação e vícios de linguagem.

Depois deram a palavra a alguns autores.

Claro que não a todos.

Só aos amigos, vizinhos, companheiros de bebida e gente que desperta interesse sexual na editora-chefe.

Tu vai dizer, caro leitor, que eu falei praticamente a mesma coisa sobre todo mundo que eles publicam.

E eu nunca menti pra ti!

O grau de proximidade — e, portanto, de talento! — varia de uma pessoa pra outra.

Então só os mais talentosos merecem também falar na apresentação.

A primeira autora foi… não lembro o nome dela.

Lembro que ela dizia que qualquer arte é, antes de tudo, arte, e arte não tem fronteiras.

Na arte dela cabe de tudo.

Pinta e canta.

Escreve e dança.

Tu entendeu.

O conto dela era sobre como ela saiu de um relacionamento abusivo em que não era valorizada nem aceita.

O namorado controlador não estava preparado pra aceitar a liberdade sexual e criativa dela.

Quando, num momento de fraqueza, ela cedeu à pressão de outro homem e acabou transando com ele por acidente, o namorado se recusou a compreender.

Embora jurasse que amava ela.

Ele confundiu a fraqueza dela com uma escolha, mesmo ela tendo dito mais de uma vez que aquilo não significava nada pra ela.

Como dizia a mãe dela:

“Homem sempre vai embora e nunca escuta.”

Homem não consegue entender as coisas em profundidade.

Muito menos entender uma mulher.

Depois disso ela entendeu que o único amor verdadeiro da vida dela não eram os homens, mas… a arte.

A segunda a falar foi Vivi Coimbra.

Nossa estrela local da mídia.

Agora também se revelou uma escritora talentosa…

— Lembro quando na escola fizeram ela limpar o banheiro com o próprio cabelo.

Felipe…

Zé:

— Limpar banheiro é uma habilidade útil… Eu diria até vital. Tu sabe, a vida é uma coisa caprichosa e imprevisível. Lembro de quando a gente tava no Vietnã…

Luís:

— Todo mundo lembra do Vietnã, irmão…

Zé:

— Logo depois da iniciação dos recrutas da Brigada Aerotransportada Anal, o major Johnson mandou a gente esfregar o banheiro inteiro… Os recrutas tinham cagado até onde a vista alcançava… Mas ordem é ordem. Nada para um soldado, nem dezenas de quilos de merda… “Nessa vida tudo não passa de tipos diferentes de merda, e vocês também são merda! Então sejam bem-vindos de volta pra mamãe, filhos!”… Era exatamente assim que o major falava…

Felipe:

— É, ele era homem de verdade… Pena que os vietcongues pegaram ele naquela vez, na Colina 69…

A gente tem esse costume de lembrar de quando lutou no Vietnã como parte da Nona Divisão dos Loroteiros do Caralho.

E isso é muito engraçado.

Pena que tu não entende, caro leitor.

E lá estava eu, abraçado com Ana Júlia, ouvindo o discurso de Vivi Coimbra e as lembranças do Vietnã…

E tentando não rir.

É difícil me controlar.

Vivi conta que escreveu um conto chamado “Os Enamorados e o Cavaleiro de Paus”, sobre como as cartas de tarô previram um monte de coisa e, na prática… bom, tu já entendeu.

Naturalmente, tudo isso partiu o coração dela e ao mesmo tempo deu força e autoconfiança.

Agora ela tira da própria feminilidade a força pra novas conquistas.

Ana Júlia ouvia os autores com um entusiasmo quase apaixonado e aplaudia pra valer.

— …eram profissionais de verdade, até os ratos de túnel tinham medo deles… O general Pedrulinovich e o general Castaños forçaram pessoalmente a aprovação dessa unidade no Ministério da Defesa. A missão dela era realizar os “assaltos de penetração”. Enquanto as forças principais seguravam a linha de frente, eles deviam desembarcar atrás do inimigo e aplicar um golpe rápido e penetrante. Digamos assim: pegar o inimigo por trás e arrombar o cu dele sem vaselina… Só entravam nessa tropa os mais completamente fodidos da cabeça…

Lázaro, aguenta.

— …Pedrulinovich e Castaños eram combatentes veteranos. Passaram pelas Ardenas, pela Floresta de Hürtgen, por Nijmegen, pela operação Market Garden… Foi lá que desenvolveram essa tática e penetraram os nazistas com força…

Não ri!

— Tu tá respirando tão pesado.

Ana Júlia percebeu.

— É tudo culpa tua.

— Ahahah, por quê?

Sorri de canto.

— Tu faz meu coração bater mais rápido.

Coloco uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.

— Ah, então é isso…

Ela passa a mão pela minha perna e depois segura a barra do meu short, deixando os dedos meio por dentro.

Faço o mesmo com ela.

Ela apoia a cabeça no meu ombro.

— E eu aqui pensando o que é isso aí no teu bolso…

Rimos baixinho.

Com as mãos que não estavam segurando a barra do short um do outro, começamos a fazer cócegas de leve.

Depois nem tão de leve.

Eu estava vencendo com folga aquela batalha de cócegas.

Até Ana Júlia soltar um gritinho alto.

Pausa.

Não, ninguém virou.

Tá, melhor parar.

Ficamos sentados em silêncio.

Um segundo.

Três.

Cinco.

Começamos a rir de novo.

Tá.

Chega.

Preciso me controlar.

Fica feio.

As pessoas falando e a gente aqui rindo.

Pronto, vamos sentar e ouvir como gente normal.

Enquanto a gente fazia cócegas um no outro, mais dois autores tinham falado.

A autora seguinte escreveu uma novela sobre uma garota pobre de um bairro pobre, cruelmente abandonada por um cara rico e branco. Depois, quando ela ficou famosa, independente, forte e bem-sucedida, o cara voltou rastejando de joelhos, implorando perdão.

E ela perdoou.

O leitmotiv da obra dela são mulheres fortes que não precisam de homens pra entender a si mesmas.

Pelo que eu já ouvi dos autores, quanto mais forte e independente tu é, mais tu fala de ex-namorado.

E de amor infeliz.

Eu não tenho nada contra obra sobre amor infeliz.

Mas aqui já tá parecendo overdose.

Provavelmente o conselho editorial tem problema na vida amorosa.

Ana Júlia, pelas reações, parecia gostar bastante dos autores e dos textos.

— Tu leu tudo isso?

— Li, e gostei muito!

— Tem a ver contigo?

— Em muita coisa, sim.

— Um rico também já te largou?

Sorrio de canto.

— Ahah, não… e falar de ex no primeiro encontro não é legal… mas, no geral, muita coisa conversa comigo. E eu sou uma pessoa muito tolerante. Eu sou muito… tipo… muuuito contra racismo e qualquer tipo de intolerância com minorias.

— Entendo.

— E tu?

— Eu também não aprovo nada disso…

— …até hoje eu lembro dos olhos do soldado Hastings… Um verdadeiro herói…

— É… só os melhores vão embora…

Lázaro, não ri!!!!

— Em 71 a gente tava numa missão… Jogaram a gente do outro lado da fronteira com o Laos. A ordem era mijar e bater punheta em todas as trilhas secretas dos vietcongues na selva pra cortar a logística deles. No quinto dia, Hastings foi cagar no mato e a puta da Fortuna pregou uma peça nele. Bem embaixo dele tinha uma mina saltadora enterrada… Ela acionou com a pilha de merda e saltou direto no cu dele…

— Coitado…

— No campo de treinamento de Fort Benning ensinaram a gente a ficar cinco a oito dias sem cagar. Por isso tinha uns vinte quilos de merda dentro de cada um… o suficiente pra mina disparar. Hastings segurou a mina com o esfíncter até o fim da missão… Quando levaram ele pro hospital, já tava no limite… Se segurando como dava… Os médicos fizeram tudo que podiam, mas no fim o cu dele explodiu mesmo assim…

— Um brinde à memória dele…

Luís tirou um cantil do bolso.

…

Quando as falas acabaram, Ana Júlia foi pegar autógrafo dos autores.

A editora-chefe não me reconheceu…

Saímos do prédio e continuamos conversando.

— Hoje os jovens têm um nível muito maior de tolerância.

Os jovens…

— A gente pensa de forma mais aberta sobre relações entre pessoas do mesmo sexo. Eu lembro que na escola, eu e as meninas brincávamos de garrafa no vestiário, antes ou depois da educação física…

— A gente também brincava de garrafa!

— Tipo… vocês… os meninos brincavam de garrafa?

— Sim!

— Quer dizer que vocês se beijavam?

— Bom, a nossa garrafa era um pouco diferente. Brincar só pra se beijar é nível jardim de infância ou, no máximo, ensino fundamental.

— E o que vocês faziam então?

— A nossa garrafa era assim. No complexo esportivo da universidade, no vestiário masculino, sempre tinha um rodo velho de madeira. A garrafa apontava pra alguém, e essa pessoa tinha que enfiar o rodo no cu. O próximo tinha que enfiar mais fundo do que o anterior. Aquele rodo fedia a merda vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, mas ninguém ligava. A universidade inteira já tinha enfiado aquilo no cu. O pessoal da tua escola também, aliás. Foi a gente que ensinou.

— Quêêê? Sério?!

— Claro. Eu não ia inventar uma coisa dessas! Teve um cara que enfiou quase um metro. Depois quase não conseguiram tirar.

— E se alguém não conseguisse enfiar mais fundo que o anterior?

— Aí tinha que bater uma pra ele.

— Nossa…

— E tu ainda diz que a gente era tudo homofóbico!

— É… aí realmente não…

— Lembro que uma vez veio um cara de Fortaleza visitar a gente e nós ensinamos ele também. Em outros estados chamam nossa brincadeira de "Garrafinha-Teodorinha".

— Meeeu Deus… Não, pera… Tu tá mentindo!

Eu ri.

— Quando tu for pra Fortaleza, pergunta pra alguém de lá…

— Como tu não tem vergonha?! — ela finge que me bate. — Eu lembro que uma vez umas meninas mais velhas jogavam cartas com prendas indecentes no vestiário e Vivi Coimbra perdeu, aí as meninas que ganharam tiveram que…

De repente vimos uma multidão no meio da “exposição” de estátuas vivas.

Pelo jeito tinha alguma coisa interessante ali.

Resolvemos chegar mais perto.

As pessoas pareciam claramente confusas.

A gente foi abrindo caminho com cuidado pela multidão.

A causa daquela reunião era… uma estátua viva muito incomum.

Um cara coberto de tinta branca, completamente pelado, estava de quatro com a cabeça embaixo de um banco e uma cenoura enfiada no cu…

Do lado dele tinha um celular com a película bem rachada.

As pessoas olhavam aquilo com curiosidade e perplexidade.

Vozes da multidão:

— Performance bem ambígua…

— Será que é algum protesto?

— Por que branco?

— Ele tá vivo?

— Vai ver é só um imbecil.

Apareceu um bêbado corajoso no meio da multidão.

Ele chegou perto da “estátua viva” e apertou a cenoura com o dedo.

O cara agarrou o celular de repente, mergulhou de peixinho por baixo do banco, saiu do outro lado — onde não tinha ninguém — e disparou aos tropeços, gritando:

“VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR, SEUS FILHOS DA PUTA!

VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR, SEUS FILHOS DA PUTA!

VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR, SEUS FILHOS DA PUTA!”

Silêncio.

Aquela “estátua viva” tinha um rosto meio familiar…

E a confusão ficou ainda maior.

Depois um cochicho começou a correr pela multidão.

Depois virou conversa normal.

Depois virou risada.

Ninguém entendeu porra nenhuma.

Mas todo mundo ficou muito interessado em saber o que aquilo significava.

Fazia tempo que não acontecia uma coisa dessas nas ruas de São Teodoro.

Na verdade, eu diria que nunca tinha acontecido uma coisa dessas nas ruas de São Teodoro.

Alguém gritava “VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR, SEUS FILHOS DA PUTA!” e ria ainda mais.

Mas a multidão não ia embora.

E depois, de algum jeito que ninguém entendeu, começou uma bebedeira coletiva…

Até o fim do encontro, eu e Ana Júlia ficamos discutindo aquilo e vendo o povo beber.

— Tu se importa se eu fumar? — perguntou Ana Júlia.

— Não.

— Que bom. Eu sempre ouvi os mais velhos — de novo esse negócio dela de “jovens” e “mais velhos” — falando tipo: “Só puta fuma”…

— É verdade — falei, e acendi um cigarro fazendo pose de “puta”.

Ana Júlia riu.

Aproveitei e contei pra ela sobre G.G. Allin, por causa daquela performance recente.

A gente até assistiu a um vídeo de uma apresentação dele.

Ana Júlia achou engraçado.

Eu omiti o fato de que nós, arrombados, na época realmente ouvíamos aquilo e gostávamos da música.

Já tava chegando perto das nove da noite.

Ana Júlia precisava ir pra casa.

Ela chamou um táxi.

Antes de entrar, a gente se abraçou e deu beijo no rosto um do outro.

— Então tu não vai me morder?…

Ela sorri de canto.

— Eu sou um vampiro decente. Não mordo no primeiro encontro.

— Por quê?

— Pra deixar suspense pro próximo.

Ela fez de novo aquele movimento com a língua e piscou.

— Então vou esperar o próximo encontro.

Desde então, todo ano acontece em Geysa Bôscoli o “Festival da Cenoura”, não oficial.

Tem gente que corre de quatro usando um macacão branco colado no corpo.

Tem gente que faz esgrima com cenouras.

Tem gente que se fantasia de cenoura.

E tem gente que só bebe.

Foi assim que passou o dia.


Parece que ficou alguma coisa faltando.

Eu já tava quase chegando em casa.

Peguei o celular e liguei pro Felipe.

— Alô.

— Alô, então… tem um negócio…

— Que foi?

— Bom… é que… eu queria dizer…

— …

— Tua mãe… é bonita…

— VÃO TOMAR NO CU, SEUS FILHOS DA PUTA!

(Desligou.)


Tu, claro, quer saber o que aconteceu depois com Ana Júlia…

E aqui vai minha resposta:

Não é da tua conta, caralho!



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