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Seu Monstro

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Resumo

Um conto breve, especial de Halloween, escrito para um desafio de LC. A história acompanha a perspectiva de Marcos, um homem que não consegue arranjar emprego e acabou se entregando à bebida. No caminho de volta de um bar, ele encontra uma caixa misteriosa com os seguintes dizeres: "Seu Monstro". Julgando se tratar de um brinquedo de Halloween, ele a leva para casa. O que acontece depois disso... Descubra por si mesmo.

Status
há 11 horas
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Conto 01 - Seu Monstro

Desperto na cama com o maxilar rígido, pressionando a lateral da cabeça com a palma da mão numa vã tentativa de conter as marteladas no crânio. Lutando contra a falta de vontade e o peso do corpo, sento-me na beirada. Só me levanto alguns minutos depois.

Arrasto os pés em direção ao guarda-roupas, escolho o primeiro conjunto que poderia convencer alguém de que vou procurar emprego e me visto. Caminho até a porta e paro. Em um cabide ao lado, no mesmo lugar de sempre, está pendurada a bolsa de couro da minha esposa. Abro-a, enfio a mão dentro, retiro uma nota de vinte reais e guardo-a no bolso da calça. Asseguro-me de que a bolsa se encontra na mesma posição em que estava e saio do quarto.

Tânia está na cozinha preparando algo em frente à pia. Ela sequer inclina o rosto em minha direção quando passo logo atrás. Sem problemas, estou acostumado. Faz anos que as coisas são assim. Pego um envelope pardo sobre a mesa, ando até a porta da frente e giro a maçaneta. Agora Tânia se vira.

— Vai sair? — A expressão com que ela me encara é tão gélida quanto a voz.

— Sim, Tânia — respondo, ainda de frente para a porta. — Vou procurar emprego.

Ela solta um sopro pelo nariz.

— Sei...

Atravessando o marco, ouço claramente ela resmungar “imprestável” antes de retornar aos afazeres. Meus dedos se contraem num espasmo. Suspiro fundo e sigo para a rua.

Caminho por vinte minutos até a avenida central, onde várias lojas exibem panfletos com os textos “Contrata-se” ou “Aceitamos Currículos” na fachada. Passo direto por elas. Já havia deixado meu currículo em todas, e já fui entrevistado por mais da metade. No final de cada entrevista, ouvia sempre a mesma frase: “entraremos em contato”. Nunca entram.

Continuo andando até o fim da avenida, dobro algumas esquinas e adentro um boteco velho. Paredes beges desbotadas, mesas e cadeiras de plástico dispostas de qualquer jeito. Não é bem o que eu gostaria, mas é o melhor que posso ter. Peço a primeira dose da cachaça mais barata e viro-a de uma vez. Nem sinto mais o álcool queimar a garganta direito. Fico por ali, entre uma dose e outra, até escurecer. Deixo a nota de vinte no balcão e vou embora.

O mundo à frente gira ao meu redor enquanto avanço entre prédios, pessoas e postes. Minha mente já está anestesiada o bastante para eu não pensar muito sobre o quanto Tânia tem razão: eu sou mesmo um ferrado inútil.

Em algum momento entre os passos cambaleantes, num trecho de rua estranhamente deserto para aquela hora, deparo-me com uma caixa preta no chão. Travo diante dela e franzo a testa: é um cubo com entalhes estranhos. Agacho-me para pegá-la e, ao abrir a tampa, uma música sinistra e dissonante vibra no ar. Nem sei dizer que tipo de instrumento emite aquele som.

No interior, há uma figura de um monstro de pé no centro, mas não sei dizer qual é. Logo abaixo, algumas letras entalhadas que não consigo ler a princípio, porque parecem embaralhar-se à minha frente. Deve ser por causa do álcool. Chacoalho a cabeça, pisco forte algumas vezes e olho de novo. Agora reconheço as palavras.

“Seu Monstro”.

Bizarro. A primeira coisa que penso é em jogá-la fora, mas de repente me recordo que é trinta de outubro e que amanhã é Dia das Bruxas. Depois me lembro das crianças, que elas gostam dessas coisas e que eu também gostava quando era menino. Só alguns segundos depois percebo que ergui um canto dos lábios.

Chego na entrada de casa, abro a porta e entro com o objeto na mão.

— Papai! — diz Sara, a caçula de sete anos, enquanto corre em minha direção.

— Oi, filha! — respondo e pego-a no colo.

Observo que Dênis, o de dez anos, está sentado no sofá mexendo no celular. Deve estar concentrado em seus joguinhos, então não vou atrapalhá-lo.

— O que é isso, papai? — questiona Sara, apontando para a caixa em minha mão.

— É um enfeite de Dia das Bruxas. Olha só... — Abro a caixa e a música sinistra ecoa no ambiente. — E ainda tem um monstrinho dentro.

Ela observa com curiosidade e abre um sorriso.

— Legal!

O cenário à minha frente dá um tranco lateral. Minhas pernas bambeiam, e vacilo um passo.

— Bota ela no chão agora, Marcos. — A voz de Tânia corta a sala, saindo do fundo da garganta. Há uns cinco metros, sentada em frente ao balcão da cozinha, ela me encara com um olhar fulminante. — Você está fedendo a álcool. Consigo sentir daqui.

Sustento aquele olhar por alguns segundos antes de colocar Sara no chão e lhe entregar a caixa. A menina faz bico e se afasta.

— O que eu fiz, Tânia?! — defendo-me, fazendo um esforço para firmar a voz torpe. — Nunca encostei um dedo neles! Nem em você, e você sabe disso!

As feições dela se endurecem ainda mais.

— Também não faz nada para ajudar! — Aponta para mim. — Eu vi que uma nota de vinte sumiu da minha bolsa. Você pegou para enfiar a cara na bebida, não foi? — Começa a gritar. — Desde que caiu nesse vício de merda, você virou um parasita nessa casa!

Corro os olhos pela sala e vejo as expressões assustadas das crianças. Cerro os punhos e tranco a mandíbula.

— Você sempre reclamou de tudo, Tânia! Mesmo quando eu trabalhava! — Elevo o tom também. — Sempre foi uma víbora que só sabe cuspir veneno!

A música dissonante vibra no cômodo, e vejo a caixa aberta sobre a mesa. Sara havia deixado o objeto lá e agora estava no sofá. Ninguém abriu.

— Ah, então eu sou o problema?! — esbraveja Tânia. — Seu idiota! Então eu faço bem! Tem que cuspir veneno mesmo em um sanguessuga!

Noto algo mudar nos olhos de Tânia. Meu estômago se contrai quando vejo melhor. As pupilas dela estão verticais.

— É isso que você é! — ela prossegue aos berros. — Um maldito parasita! Sssanguesssuga!

Ela repete a palavra mais uma vez. Depois, tudo o que emite são sibilos. A pele começa a ganhar um tom esverdeado. Rasgos surgem e se erguem, formando escamas.

CLACK.

Os ombros de Tânia se deslocam para dentro do tronco. Ela solta algo que deveria ser um grito de dor, mas só sai um ruído serpenteante.

— MAMÃE! — grita Sara.

Dênis e ela estão abraçados no sofá, ambos aterrorizados e com lágrimas escorrendo pelo rosto. Meu coração dá um golpe seco no peito. Hesito por alguns segundos, trêmulo por inteiro. Corro até eles num impulso repentino, pego-os no colo e os levo às pressas para o quintal.

— Fiquem aqui fora! Não entrem! — ordeno e retorno para a sala.

Quando chego, Tânia está deitada e se contorcendo no chão, com os braços colados no tronco e as pernas grudadas. A pressão é tão forte que os membros atravessam a carne e fundem-se de forma inexplicável.

Por fim, vejo diante de mim uma cobra do comprimento e largura do corpo de Tânia, o rosto ainda parcialmente humano. Ela permanece estática, enrolada em torno de si mesma como uma espiral.

Congelo onde estou. O ar trava em minha garganta.

Não sei o que fazer, nem o que pensar.

Até que percebo uma coisa: a sala está em silêncio. Mas a caixa não estava tocando? Dirijo minha atenção à mesa. O objeto ainda está lá, fechado.

Preciso jogar essa merda fora. Destruir. Queimar. O que seja!

Puxo o ar de uma vez, em guerra contra minha própria paralisia. Quando finalmente consigo me mover, arrasto os pés em direção à mesa. Um passo. Dois. Antes de completar o terceiro, a tampa se abre sozinha.

Ou não.

Meu coração dispara como uma sequência de tiros contra as costelas. Uma... coisa horrenda surge diante dos meus olhos. Solto um grito de espanto e lanço-me para trás numa reação instintiva. Minhas costas batem contra o piso frio. Quando me dou conta, a melodia sinistra já reverbera nas paredes, e aquilo ainda está no mesmo lugar.

Enquanto movo uma perna atrás da outra, rastejando de ré pelo chão, uma voz indefinível ecoa em minha mente: “Sanguessuga”. Outra, mais profunda. “Sanguessuga”. Agora dezenas, talvez centenas delas. Uma vertigem súbita me ataca. Cerro as pálpebras e pressiono o maxilar a ponto de ouvir um estalo. Quando abro os olhos, há incontáveis daquelas criaturas ao meu redor.

Levanto-me, estico o braço à frente para apontá-las e dou um giro com o corpo.

— SAI! — Um berro estridente. — SAI DE PERTO, PORRA!

Elas não saem. A música toca mais alta ao fundo.

CRECK.

Meus ombros se afundam para dentro do tórax.

— AAAHH! — A dor é excruciante.

Os braços movem-se contra a minha vontade, até colarem ao tronco. Quando olho para eles, estão pretos como breu e cobertos por um fluido viscoso e fétido, com um cheiro podre de lodo de pântano.

— PAPAAAI! — Os gritos de Sara e Dênis surgem ao mesmo tempo pela janela.

Tento ordenar que fujam, que corram para a casa do vizinho, qualquer coisa... mas a voz não sai. Somente um ruído asqueroso e inútil.

Meus órgãos reviram no ventre, como que se reorganizando. Os ossos do corpo inteiro ardem como se algum ácido os corroesse de dentro para fora. Tudo é lancinante. A noção de tempo escapa aos meus sentidos, até que, em algum momento, a dor cessa. Não sinto meus braços. Não sinto minhas pernas. Não sinto mais nada.

Só ouço murmúrios.

Sssanguesssuga.

Sssaaann.

Sss.

...

..

.

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Diálogo Forte

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Diálogo Forte

author

o final é simples incrível . poucas letras que dizem tudo e arrepiam

8 horas
1

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