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POR TRÁS DAS CORTINAS

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Resumo

Para Viktor, o mundo é um tabuleiro de xadrez pintado de sangue e poder. Para Anastácia, a vida acontece sob a luz suave dos refletores e a magia da melodia. Quando os dois mundos se colidem naquela noite de inverno em Moscou, a obsessão de um predador implacável desperta, mostrando que por trás das cortinas, o perigo é ainda mais apaixonante. Prepare-se para mergulhar em um romance onde o veludo e a violência se misturam perfeitamente.

Status
há 31 minutos
Capítulos
14
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Chapter 1

O cheiro de ferrugem, suor frio e desespero impregnava as paredes de pedra bruta do subpiso abandonado nos arredores de Moscou. Era ali, na penumbra iluminada apenas por uma lâmpada fluorescente que zumbia como um inseto irritante, que Viktor descarregava a sua forma particular de justiça.

Para a Bratva, a traição era uma linha que jamais deveria ser cruzada. E para Viktor, puni-la por terceiros era um desperdício de prazer. Ele gostava de sentir o peso da faca, a resistência da carne, o calor dente do sangue espirrando em suas mãos enluvadas de couro escuro. Cada grito que ecoava nas paredes úmidas não era um incômodo; era a trilha sonora de uma sinfonia sádica que ele apreciava com um sorriso lento, quase sonhador, repousando nos cantos de seus lábios cortados por cicatrizes antigas.

— Por... por favor, Viktor... — gemia o homem amarrado à cadeira de ferro, com o rosto desfigurado e os olhos arregalados de puro pavor. Os dedos da mão direita já haviam sido quebrados um a um minutos antes.

Viktor inclinou o cabeça para o lado, girando a lâmina ensanguentada entre os dedos com uma destreza quase artística. Seus olhos escuros fitavam a vítima com um tédio divertido.

— Você assinou um contrato com o diabo quando decidiu roubar o carregamento do porto, gospodin [senhor] — a voz de Viktor saiu baixa, cortante como vidro quebrado, sem um pingo de clemência. — E agora o inferno veio cobrar a fatura. Sinta-se honrado por eu mesmo estar colhendo a sua alma.

Ele ergueu o braço, preparando-se para o golpe final que encerraria o espetáculo particular, quando o som estridente e melódico de um celular quebrou a atmosfera de terror.

Viktor parou. O sorriso sádico desapareceu instantaneamente, substituído por uma ruga de irritação profunda na testa. Ele odiava ser interrompido, fosse por quem fosse. Com a mão esquerda, a mesma que estava manchada com o sangue quente do traidor, ele tirou o aparelho do bolso interno do terno impecável, olhando para o visor com uma carranca.

A carranca, no entanto, vacilou.

Ele atendeu no segundo toque, levando o telefone ao ouvido. A respiração ainda pesada da adrenalina, os gritos abafados ao fundo, tudo sumiu quando a voz doce, porém autoritária, invadiu a linha.

— Viktor, meu querido. — A voz da avó soou cantada, carregada de uma intimidade que nenhum soldado da máfia ousaria ter. — Espero não estar atrapalhando os seus negócios de... hã... rapazes.

O homem implacável, o monstro que fazia a Rússia tremer com o som do seu nome, fechou os olhos por um segundo e soltou um suspiro pesado, recuando dois passos da cadeira de tortura. A lâmina em sua mão perdeu todo o sentido.

— Você sabe muito bem que está, Babušká [vovó] — respondeu Viktor, e por incrível que pareça, seu tom de voz perdeu toda a frieza gélida, ganhando um traço evidente de respeito e resignação. — É tarde da noite. Onde você deveria estar? Na sua cama, descansando.

— De jeito nenhum! — A senhora riu do outro lado da linha, irredutível. — Comprei dois ingressos para a estreia de Giselle no Teatro Bolshoi. Quero ver a nova companhia, aquela menina prodígio, a Anastácia. O carro está saindo em quarenta minutos. Quero você aqui em casa, de terno novo e devidamente apresentável, ou venho te buscar pessoalmente.

Viktor franziu o cenho, olhando para as próprias mãos sujas de sangue. A ideia de passar horas sentado em uma poltrona de veludo vermelho, ouvindo música clássica e cercado pela elite fútil de Moscou, parecia uma forma de tortura muito pior do que a que ele infligia no subpiso.

— Avó, seja sensata. Eu tenho assuntos críticos para resolver aqui. Não posso simplesmente abandonar...

— Assuntos? — cortou ela, a voz endurecendo de imediato, adotando o tom de chantagem que funcionava com ele desde a infância. — Sabe, Viktor... Às vezes eu me pergunto se criei um homem ou um animal trancado em uma caverna. Se você não for capaz de acompanhar a sua velha avó a uma simples noite de cultura, quem vai cuidar de mim quando eu estiver de cama? Talvez eu deva pedir ao jovem Mikhail para me fazer companhia...

Viktor trincou os dentes ao ouvir o nome de Mikhail — um rival insolente da Bratva que a velhinha adorava citar só para provocá-lo.

— Não ouse mencionar esse nome — rosnou Viktor, o maxilar travado de puro ódio. — E pare com essa chantagem barata. Você sabe que funciona.

— Então te vejo em quarenta minutos, meu neto adorado. Não me faça esperar. — O clique seco da chamada encerrada ecoou no ouvido dele.

Viktor encarou o celular por um instante, balançando a cabeça em uma mistura de fúria e rendição absoluta. Ele guardou o aparelho, virou-se para o prisioneiro trêmulo que o encarava sem entender nada daquela reviravolta doméstica, e limpou a lâmina distraidamente em um pano limpo.

— Agradeça à minha avó — disse ele, com um tom de voz gélido retornando aos poucos. — Sua vida ganhou mais algumas horas. Mas não se acostume.

Deixando o traidor sob a custódia dos capangas com ordens estritas de limpeza, Viktor subiu para a superfície. O contraste entre o subpiso fétido e a sua suíte blindada em Moscou era abismal. Ele trocou o terno manchado, alinhou os cabelos escuros e deixou que o motorista o levasse até a mansão da matriarca.

Vinte minutos depois, ele ajudava a avó a caminhar até o camarote privado do imponente teatro. O ar cheirava a poeira de veludo antigo, perfume caro e a eletricidade sutil da plateia que aguardava a abertura das cortinas.

Viktor sentou-se na poltrona estofada, entediado, cruzando as pernas e fitando o palco vazio com desdém. Para ele, o balé era apenas uma exibição frágil de corpos saltitantes, uma futilidade que ele tolerava unicamente para garantir o sorriso satisfeito da senhora ao seu lado.

Até que as luzes da plateia se apagaram. A música melancólica e profunda começou a ecoar da câmara dos músicos, e as cortinas pesadas se abriram revelando a imensidão do cenário invernal de Giselle.

E então, ela entrou.

Anastácia deslizou pelo palco como se não pesasse nada, flutuando sobre as sapatilhas de ponta com uma leveza que desafiava a gravidade. Mas não foi apenas a técnica perfeita que parou o coração de Viktor no peito; foi a alma nua em cada gesto. Havia uma ferocidade silenciosa na forma como ela interpretava a traição e a dor da personagem, um fogo puro que queimava sob a aparente fragilidade do tutu branco.

O olhar de Viktor, antes cínico e distante, travou na figura dela. Seus olhos escuros se estreitaram, fixando-se no modo como o suor brilhava na pele clara do pescoço de Anastácia, como o peito dela arfava com a intensidade da dança. O tédio sumiu, varrido por uma onda densa, magnética e avassaladora de possessividade.

A mão dele apertou o braço da poltrona de veludo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O mundo ao redor — a avó, o teatro, a multidão — deixou de existir.

Naquele exato instante, o predador implacável da Bratva fez uma promessa silenciosa a si mesmo: Ela não pertence a este palco. Ela pertence a mim.

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