Prólogo | ''Depois de Mikasa"

UMA ÂNSIA FORTE ABRANGEU o corpo do Jaeger, tão rápido quanto a lâmina fria de Mikasa se afundou contra seu pescoço, e de forma repentina sentindo novamente seu corpo, o castanho se sentou bruscamente sobre o lugar que estava conforme uma maldita dor dilacerante o inundava.
Era para Eren estar de volta como o pequeno menino que era, mas ao invés disso, com os olhos arregalados e com uma falta de ar que queimava sua pele, o jovem rapaz foi capaz apenas de tentar puxar bruscamente o oxigênio para seus pulmões de maneira ríspida, ofegante, e forte.
Suas mãos se afundando em algo macio ao seu lado, embora mesmo enxergando bem, não era capaz de ver corretamente devido ao borrão que naquele momento estava sua visão. Seus olhos ardiam, e por um instante, Eren não soube se isso se devia ao fato do suor de escorria de sua testa, ou das lágrimas latentes que caíam como cachoeiras, contra o que acreditou ser um lençol sobre suas pernas.
Ele então puxou fortemente o ar para seus pulmões outra vez, sentindo, então, a falta do ar expandindo-se através deles. Eren não estava conseguindo respirar.
— ¿Esposo? — uma voz suave e masculina desconhecida soou atrás do castanho, mas então, ela repentinamente se tornou mais afoita ao seu lado. — ¿¡Eren!? — um toque firme contra seus ombros, e, então, uma mão cobre seus lábios, antes de dedos adentrarem a sua boca e forçarem a sua língua para fora. — Você consegue respirar Eren, não tem nada impedindo que você o faça. Então respire. — as ordens eram claras, e pendendo o corpo para frente a medida que mechas de seus cabelos caíam contra sua face e o ombro do desconhecido em sua frente, Eren forçou o ar a adentrar os seus pulmões com força, voltando a preenchê-los de forma desesperada e angustiada.
“¿Mas que diabos?”, carícias eram deixadas contra as costas do rapaz, uma voz rouca, mas suave soando sutilmente ao seu lado, acompanhado de dedos deslizando entre seus fios castanhos. Em um instante, o torpor de desespero e ansiedade o consumia, e no outro, dando-se conta da situação, Eren apenas se afastou, ainda levemente ofegante, se quem quer que fosse que o abraçava de maneira familiar.
Eren Jaeger não estava morto.
Ao invés disso, estava em um lugar estranho, em um quarto estranho — como brevemente conseguiu observar —, e com um estranho diante dele. O jovem engoliu em seco, sua mão instintivamente rodeando seu pescoço enquanto, piscando várias vezes a medida que seu coração disparava, e ele tratava de se afastar ainda mais de quem quer que fosse, tentando, de alguma forma, se lembrar de onde estava ou, sequer, aonde se encontrava.
O homem em sua frente, estranhamente, o observou em silêncio conforme o Jaeger procurava cobrir sua nudez, Eren, rapidamente de forma instintiva, percebendo que seu cabelo não apenas estava levemente mais grande do que se lembrava, como, também, o quarto em que se encontrava, era definitivamente de alguém adinheirado.
— ... ¿Eren? — foi então que, depois de vários momentos em silêncio, o castanho voltou-se para o outro em sua frente, engolindo em seco com a maneira em que, repentinamente, enxergou uma versão masculina e mais velha de “Ymir” em sua frente.
Os cabelos loiros, categoricamente curtos e ondulados na altura da nuca, estavam tão despenteados como de alguém que acabara de acordar. “Johannes”, Eren voltou a engolir em seco.
Aquele homem alto, de grande porte e estrutura, de cabelos loiros e olhos verdes vibrantes que o fitavam com extrema preocupação, se chamava Johannes. E o Jaeger não tinha ideia de como sabia de tal coisa já que, definitivamente, era a primeira vez que o via.
Embora para o homem em questão, não era a primeira vez em que via seu esposo agindo daquela forma.
Eren Jaeger tinha terrores noturnos.
Johannes já perdera a conta das quantidades de vezes em que acordou com o marido tremendo-se incontrolavelmente ao seu lado, as vezes gritando desesperado ou entrando em um estado de febre interminável com os pesadelos maçantes que pareciam aprofundá-lo em um abismo de desespero cada vez mais.
Mas em algumas ocasiões, aquilo ocorria de maneira silenciosa. Um pesadelo profundo que o fazia se sufocar quando sua mente se perdia profundamente nela mesma. Como naquele instante, ocorria.
Silenciosamente Johannes senta-se mais próximo de Eren na cama, instintivamente uma de suas mãos voltando a se afundar suavemente contra os fios castanhos do mais novo, ao mesmo tempo em que ele apenas tratava de fitar docemente a imensidão esverdeada e opaca dos olhos de seu Consorte.
Eren estava pálido, e seu rosto frio quando o loiro o tocou. O menor estava desnorteado, ele sabia, ele ficaria assim por um breve momento, pelo menos, até voltar a perceber que estava em casa. E não haveria um tolo capaz de ousar colocar as mãos sobre ele.
— Está tudo bem... — o mais velho sussurrou, da mesma forma em que fazia com Ymir, seu filho, quando vezes ou outra o menino se assustava com a história do país que agora, estudava.
Depois de tudo, a conquista de Paradis e a luta constante dos eldianos para subjugar aqueles que os oprimiam, não era nada quando comparada a literatura romântica usada para amenizar a verdade sangrenta sobre os corpos em que a liberdade foi comprada.
Para o povo de eldia, para as terras de Paradis, tudo se resumia em sacrifício.
E para Johannes, junto aos irmãos que tinha, tal coisa não era diferente, e tão pouco para o homem que agora chamava de marido. Jhon havia sido obrigado a fazer muitas coisas para chegar onde ele estava, e quando ele por fim obteve algo ao qual falavam ser seu por direito, então, simplesmente, ele obrigou aquele jovem rapaz a se casar com ele.
Aquele havia sido o sacrifício de Eren, deitar-se com ele e lhe gerar um filho mesmo que não quisesse.
Johannes suspirou, apertando levemente o menor um pouco mais entre seus braços acariciando seus cabelos.
Se os céus o abençoassem, todos aqueles pesadelos não eram referentes a ele.
*
¿QUÃO RÁPIDO A REALIDADE DE alguém poderia mudar?
Em um segundo Eren observava pela última vez a face de Mikasa, e no outro, despertava sobre a grande cama de um desconhecido. Claramente, sem agora, mencionar que este mesmo desconhecido parecia ser seu marido — em uma piada infame.
¿Os céus estavam lhe castigando pelo o que fez?, quem sabe. Mas infelizmente naquele instante, o mais novo não saberia a resposta, e sequer faria questão de ir atrás dela.
Sentado sobre uma das cadeiras disponibilizado para ele, o Jaeger simplesmente se encontrava na sacada do quarto em que acordara.
O espaço consideravelmente grande servia não apenas para acomodá-lo, como também, para permitir que uma pequena mesa de centro e outros três pares de assentos coubessem naquele lugar com perfeição, revelando, em sua frente, um imenso jardim acompanhado de outro grande complexo de “casas”. Se assim o castanho pudesse chamar o local em que acordou a algumas horas atrás, o qual simplesmente, parecia extremamente gigantesco.
Silenciosamente os olhos esverdeados do castanho serpenteavam o lugar. Dali Eren era capaz de observar como uma grande cidade parecia se estender adiante de forma pacífica, as árvores, a leveza do ambiente e, definitivamente, a falta de muralhas. Não havia nada que os rodeasse em forma de proteção.
“Não havia Titãns ali?”, uma voz infantil invadiu seus pensamentos tão rápido quanto a mão de Eren foi capaz de segurar com força o braço de quem quer que avançou em direção de suas pernas. Seus olhos agora, deparando-se com um mar esverdeado através de cílios tão dourados quanto os cabelos de quem o portava.
Confuso, Eren piscou algumas vezes, o corte de cabelo era semelhante ao que Armin tinha em sua juventude, mas devido o formato do nariz e dos lábios, o castanho rapidamente descartou a possibilidade do menino confuso que o olhava, tratar-se do mesmo que deixara sozinho em prantos em uma praia desconhecida.
O Jaeger o soltou engolindo em seco, não era Armin, mas o sorriso do menino alargando-se conforme tratava de subir para seu colo, lembrava o loiro ainda mais.
Observando o mais novo, silenciosamente o castanho o ajudou a se sentar em seu colo, engolindo em seco conforme ele apenas abraçou o seu pescoço e se deitou em seu peito. Em uma das mãos ele tinha uma pequena pelúcia de um falcão, a qual usava para, vezes ou outra, bater contra o braço de Eren que apoiava-se contra sua perna para mantê-lo no lugar.
Aquele menino era praticamente a cópia de "Johannes", o homem que ele encontrou ao acordar naquela manhã.
— ¡Papá! — Eren arqueia uma sobrancelha quando o menino se vira para ele, sorrindo logo em seguida, tentando ficar em pé em seu colo e abraçar seu pescoço de novo. — Bincar papá, ¡quelo brinca!
Eren encara a parede em sua frente por um tempo, o leve vento envolvendo-o sutilmente enquanto, repentinamente sua cabeça ficava em branco a medida que uma memória que não lhe pertencia, invadia sua mente em seguida: era ele segurando aquele menino recém-nascido.
O Jaeger engole em seco.
Ele não tinha idéia do que diabos estava acontecendo.