Meyn Fakt - Crônica das Realidades

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Summary

Nwyn acorda entre pesadelos, mas seus sonhos são pedaços de um passado que o assombra-uma carruagem desfeita, um rio de corpos, uma máscara manchada de sangue. Perdido em um mundo onde as sombras ganham vida. Enquanto tenta entender quem é, descobre que algumas respostas não deveriam ser encontradas. A realidade se desfaz ao seu redor, e cada passo pode levá-lo ainda mais fundo em um destino que não pode ser evitado Não confie em ninguem!

Status
Ongoing
Chapters
13
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 - Sombras do Passado

A escuridão consumia tudo.

Era um véu faminto, arrastando-se como dedos invisíveis que apagavam a existência pouco a pouco. Primeiro, os detalhes sutis: o brilho dos olhos, o reflexo da luz sobre o metal, a textura da madeira. Depois, vieram os contornos, as formas, as sombras sendo tragadas para um abismo sem fim. O mundo ao redor se esfarelava como tinta diluída em água suja, desmanchando-se em borrões desordenados que se fundiam no nada.

E no meio desse vórtice de esquecimento, um bebê. Pequeno, frágil, ciente demais. Ele via a realidade se despedaçar, seu olhar incapaz de desviar do horror crescente. O chão sobre o qual sua carruagem se movia dissolveu-se em trevas, deixando apenas a sensação incômoda de balanço, como se flutuasse sobre um vácuo faminto.

A mulher que o segurava ainda estava lá. Ou algo que antes havia sido uma mulher. Seu corpo, antes quente e real, agora era uma silhueta disforme, um vulto escuro de contornos indistintos. A cada instante, mais dela era apagado, engolido pela escuridão voraz. Seus braços, seus cabelos, seu rosto... sem expressão, sem cor, sem alma. Apenas a forma fantasmagórica de algo que um dia existira.

O bebê tentou tocá-la, tentou se agarrar ao que restava. Seus dedos pequenos deslizaram pelo vazio, sentindo apenas um frio implacável, um arrepio que sussurrava que nada mais poderia ser salvo.

O silêncio foi rasgado.

Uma flecha cortou a noite eterna, zunindo como um grito de algo perdido no tempo. Atravessou o vazio e encontrou a mulher. O impacto ressoou como vidro estilhaçado. Ela não gritou. Não recuou. Apenas congelou por um instante, enquanto um líquido vermelho e vivo escorria pelo buraco recém-aberto em seu peito.

Sangue. Tão vermelho, tão real. Um contraste brutal contra o negro que devorava tudo. O líquido quente deslizou por sua pele, pingando nos pequenos braços do bebê, marcando-o com um toque de algo que o mundo não deveria mais conter: cor.

Foi quando a porta negra se abriu.

O mundo estremeceu, como se o próprio sonho estivesse sendo rasgado de dentro para fora. Era uma fenda abismal, um rasgo na realidade onde o vácuo se acumulava, pulsante. E, de seu interior, algo emergiu.

Um monstro. Alto, retorcido, sua presença era um peso insuportável sobre a consciência. Mas era o rosto - ou o que fingia ser um rosto - que consumia toda a atenção. Escondido sob uma máscara grotesca, marcada por incontáveis mãos vermelhas, impressas em tons distintos, umas mais vivas, outras desbotadas pelo tempo. Eram tantas que a superfície da máscara já não tinha outra cor, preenchida por camadas de sangue seco e memória. Cada marca era um testemunho, um eco de um passado violento acumulado sobre sua face, uma história narrada em cicatrizes rubras.

E a escuridão continuava a consumir.

A carruagem quebrou. A realidade ao redor do bebê se fragmentou, e ele foi lançado para o abismo. O mundo, uma confusão de cores desbotadas e formas dissolvidas, girava ao seu redor. A montanha à distância se partiu ao meio, sua rocha rachando como uma ferida exposta,desmoronando sobre o próprio corpo, enquanto sua outra metade se mantinha intacta. O céu, antes preenchido por um manto negro e infinito, agora se desfez em pedaços de um cosmos instável, caindo em espirais desconexas.

O bebê caiu, como uma folha levada pelo vento, sem controle, sem saber onde o peso de seu corpo o conduziria. O grito da realidade se desintegrando ecoava em seus ouvidos, mas sua boca não conseguiu emitir som algum. A sensação de queda era interminável, o vazio abaixo dele se expandindo, cada segundo preenchido por um silêncio denso que fazia seu peito apertar.

E então, o impacto.

Ele mergulhou em um rio furioso, suas águas negras arrastando-o com uma força brutal. O bebê se afundou, sendo arrastado pela correnteza, os dedos pequenos tentando se agarrar a algo, mas a água era implacável. Aos seus olhos, partes de corpos flutuavam, fragmentos de pessoas que haviam se perdido para aquela corrente, vítimas da mesma fúria que ele agora enfrentava.

O pavor se misturava ao desespero. O ar desaparecia de seus pulmões, e o frio da água invadia cada fibra de seu ser. Ele lutou, mas cada tentativa de se manter à tona era em vão. Os fragmentos humanos ao seu redor pareciam se arrastar em um pesadelo sem fim, cada pedaço de carne que flutuava ali uma lembrança daquilo que havia sido engolido pela escuridão. Ele sentia o peso do tempo e da morte em seu próprio corpo, e o medo tomava forma em sua mente, como uma prisão sem saída.

Ele se afogou. O mundo ao seu redor se fechou em torno dele, e a escuridão, finalmente, o consumiu por completo.

E então, acordou.

Nwyn acordou com o som pesado de sua respiração, o mesmo ruído abafado que sempre o acompanhava após os pesadelos. O calor abafado da casa pequena parecia envolver o ar com um peso insuportável. O cheiro de mofo misturado com suor e o fedor de algo queimado estava impregnado nas paredes de madeira envelhecida. O garoto se levantou lentamente, como se o próprio ato de sair da cama fosse um esforço monumental. Sua pele pálida estava marcada por picadas de pulgas, e o desconforto parecia se infiltrar em seus ossos, mas ele já não sentia mais raiva disso. A sensação de sujeira era apenas mais uma parte do ambiente, uma extensão da sua indiferença.

Sempre era difícil levantar-se da cama, o acolchoado de poucos fenos, pedaços de galhos e trapos era quase uma extensão de seu corpo. Ele fitou seu peito desnudo, algumas manchas vermelhas, alguma irritação, talvez as pulgas, alguns pelos tentavam irromper para fora, ele não sabia em qual idade isso deveria acontecer, mas julgava os 17 anos uma idade bem tardia.

Com passos arrastados, ele foi até a sala, onde o silêncio da casa se fazia pesado, como se o próprio lugar estivesse sendo engolido pelo tempo. Quando chegou à porta, o som de algo sendo arremessado no chão, seguido por um suspiro cansado, chegou aos seus ouvidos. Ele não tinha pressa de sair, mas sentiu o impulso de ver o que acontecia lá fora.

Leny estava no galpão dos porcos, agachado sobre uma porca caída. Ele observava o animal com atenção, mexendo nas patas dela, tentando entender o que estava errado.Leny se levantou devagar, como se o esforço de lidar com aquele animal fosse um gasto de energia desnecessária.

O garoto se aproximou em silêncio. Leny olhou para ele por um momento, levantando uma sobrancelha, mas não parecia surpreso.

– Era só o que faltava mesmo! – Murmurou Leny passando os dedos por onde um dia havia cabelos no topo de sua cabeça, ele movimentou até acima da têmpora onde encontrou os fios brancos sobreviventes.

– Ela está bem?

– Parece bem para você? - Resmungou o velho arqueando as sobrancelhas, tornando a pergunta do garoto uma idiotice incalculável. – Ela ta caida na própria bosta. – Nwyn pensou que era o que eles faziam normalmente, já que não tinham um lugar para se refrescar, uma vida tão indigna quanto a maioria tinha. – Os outro também tão estranhos. – Ele apontou para um dos porcos mais gordinhos que cambaleava até o bebedouro. – Se esses bicho não sobreviverem até o inverno, vou ter que te vender pra pagar a fazenda. – Era brincadeira dele quanto a intenção de vender, mas Nwyn de toda a forma não riu da piada.Era uma piada, certo?Pensou ele.

– E vamos fazer o que? – Questionou o garoto ficando de joelhos a frente da porca, tocando levemente em sua orelha peluda, ela resmungou em resposta, um dor no coração de Nwyn o fez arquear levemente as costas, não gostava de ver os animais assim, mesmo sabendo que seu destino era o abate. Tentava sempre dar uma vida digna a eles.

– Parece a peste, já perdi um monte de porco pra ela, vamo separar eles tudo. – Um dos leitões tentou se aproximar da porca, Leny o chutou para longe. – Depois vamos para a Central, uma vez comprei uns ovos de parasita que ajuda contra a peste, mas morre fácil no corpo dos mais velhos, esses a gente já pode considerar morto.

– Não vai sobrar nem cinco leitões.

– Tu acha que eu não sei contar? – Grunhiu Leny, estava irritado pela situação. – Cinco é mais que zero! Vou matar aqueles que já tão mal, tentar vender a carne na Central amanhã, carne fresca vai pagar os parasitas.

– Fechei um saco de batata também.

– Sim, podemos vender também, o agiota vem daqui 10 dias, então vamos ter tempo de conseguir as moedas para ele. – O velho bateu a poeira que estava em sua roupa, dirigiu até a portinhola. – Separa as ferramentas, todas elas, velhas e novas, vou ver qual da para vender.

– Vou junto?

– Os porco vão cuidar da fazenda?

– Ben ainda está concertando o galpão, ele disse que demora mais uma quinzena, ele pode dormir em casa e ficar de olho para a gente, não vai precisar ficar indo e voltando da fazenda dele. – Explicou Nwyn com entusiasmo em sua voz.

– Tá certo... – Ele murmurou, mais para si mesmo, antes de suspirar. – Mas não pense que vai ser um passeio.

O garoto assentiu, sem mostrar nenhum entusiasmo exagerado, mas a ideia de ir para Central o deixava animado, havia ido poucas vezes para lá, porém seu amigo Garlei havia contado sobre a cidade inúmeras vezes.

– Ta bom, vou separar as coisas.

– Vamos amanhã cedo! – Disse Leny quando o garoto correu para fora.

Ele apenas acenou com a cabeça, sem retrucar. Já sabendo que a viagem seria breve, mas, ao menos por um tempo, poderia escapar da monotonia daquela fazenda. Ele passou o resto do dia ocupado com as tarefas da fazenda. O trabalho era repetitivo, mas familiar. Alimentou as galinhas, verificou os baldes de água e ajudou Leny a separar as ferramentas velhas que seriam levadas para a Central. O sol se pôs, e a noite caiu sobre a terra seca. Ele comeu em silêncio e foi dormir cedo, pois sabia que a viagem do dia seguinte seria longa.

O despertar foi brusco. O corpo de Nwyn estava coberto de suor frio, e seu peito subia e descia rapidamente. O sonho o deixara inquieto, mas como sempre, os detalhes pareciam escapar de sua mente assim que ele tentava se lembrar.

Ele saiu do quarto, sentindo o ar fresco da manhã. Leny já estava de pé, conversando com Benedito, que havia parado na fazenda logo cedo. O velho fazendeiro de pele negra coçava a barba rala enquanto falava, e Leny, com os braços cruzados, ouvia com seu jeito carrancudo de sempre.

– Uns soldados passaram pela minha terra ontem à noite. – disse Ben. – Tavam indo pro norte, então num vão passar por aqui.

Leny grunhiu. – Hmpf. Melhor assim. Esse povo só traz problema.

Nwyn se aproximou, trocou um aceno de cabeça com Benedito e encheu uma xícara com água quente, depois colocou algumas folhas para dar gosto.

– Os Forten pagam por essa informação? – Questionou Leny.

– Duvido, já devem saber, as guildas de ladrões e assassinos já devem ter avisado eles. – Respondeu Ben se aproximando de Nwyn, o homem bateu a própria xícara contra a do garoto, fazendo um pequeno brinde. – No dia em que um fazendeiro souber algo ante da guilda, ai sim te garanto que os Forten te pagam seu peço em ouro. Mesmo não sendo muita coisa. – Ele riu dando leves ombradas em Nwyn, o velho resmungou e atiçou o fogo com um pedaço de madeira.

– Malditos Doms e malditos Forten, vivem essa guerra sem sangue. – Grunhiu Leny sentando a mesa. – Reinos de maricas, isso sim, no meu tempo um soldado vivia todos os dias com a espada suja de sangue, sangue fresco!

– E putas corriam peladas com o rabo empinado pagando aos homens para dar! – Disse Ben, sarcasticamente. – Sua época não é tão distante da minha e te garanto que Linteal e Central sempre foi assim. Um lado sempre gritando sob suas muralhas como só existe um rei, o outro fingindo que sua governanta não é uma rainha.

– A Central não é ruim igual a Linteal. – Murmurrou Nwyn.

– E o que você sabe? – Questionou Leny.

Nwyn poderia contar tudo que já leu sobre, sobre o ponto de comercio que enriqueceu tanto ao ponto de se separar não oficialmente do reino de Linteal, do medo de ambos os lados de iniciar uma guerra. Mas era incomodo demais falar, Leny percebeu o silencio do garoto e continuou.

– Isso num é problema nosso de qualquer forma. O que importa é que o inverno tá chegando e a gente precisa garantir comida. – Ben assentiu. – Vamo logo tratar disso. Quanto mais cedo chegarmos na Central, melhor.

Ben apertou a mão de Leny com força, assentindo devagar. – Já que ocê vai pra lá... vê se consegue me arranjar umas sementes decentes. Essa terra tá ingrata, e as que eu tenho num vingam direito.

Leny resmungou algo inaudível e jogou o chapéu mais para trás na cabeça. – Vou vê o que dá pra fazê.

Nwyn permaneceu um pouco afastado, observando os dois conversarem. Ben olhou para ele de soslaio e coçou a barba curta. – E ocê, garoto? Quer que eu cuide de alguma coisa?

Ele balançou a cabeça. – Não, só cuida bem dos porcos.

Ben riu pelo nariz. – Ah, esses bichos dão mais trabalho que filho teimoso. Pode deixá.

Depois de uma despedida rápida, Benedito foi para o galpão, começaria seu trabalho de restauração da velha estrutura. Leny ficou observando por um momento, depois cuspiu no chão e virou-se para a carroça.

O veículo era velho, a madeira castigada pelo tempo, mas ainda resistia. Era puxado por um cavalo de pelagem escura, um animal magro, mas forte. Leny passou a mão na crina do bicho, murmurando algo, antes de verificar as amarras e o estado das rodas.

Enquanto isso, o garoto voltou para dentro da casa. Havia algo mais que precisava levar. Embaixo da cama, no fundo de um buraco discreto na madeira do assoalho, pegou um pequeno embrulho manchado de sangue, enrolado com cuidado. Escondeu-o sob a roupa, sentindo o peso leve contra a pele. Então, respirou fundo e saiu, sem olhar para trás.

Ao voltar, encontrou Leny subindo na carroça, ajeitando-se no banco de madeira. Nwyn escalou para o lado dele, sentindo o cheiro de suor e couro envelhecido.

Antes de partirem, ele pegou as poucas moedas que guardava há tempos. Planejava comprar algo doce na Central, um pequeno luxo. Mas, assim que as moedas brilharam em sua mão, Leny notou.

– O que ocê tá fazendo com isso aí? – A voz dele saiu firme, um peso por trás das palavras.

– Só ia comprar uma cois...

– Num tem disso, não. Dá aqui. – Leny estendeu a mão, os dedos calejados esperando.

Nwyn hesitou. – Mas é meu...

– Dá logo, rapaz. Os porco doente e tu querendo gastar com bobagem.

Havia algo no olhar do velho que não deixava espaço para discussão. Com um nó na garganta, Nwyn entregou as moedas. Leny as guardou no bolso sem dizer mais nada, sem agradecer, sem explicação. O silêncio se instalou entre eles, denso, carregado.

O fazendeiro estalou a língua, sacudiu as rédeas e o cavalo começou a andar. O rangido da carroça preencheu o vazio entre os dois. Nwyn olhava para frente, os pensamentos rodando. Ele poderia simplesmente não voltar. A Central era grande, havia trabalho por lá. Talvez pudesse se virar, encontrar um canto, uma ocupação. A ideia se formava devagar, insistente, enquanto a poeira da estrada se levantava ao redor deles.


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