Capítulo 1 – O Telefonema
Acordou sobressaltado, o coração a bater com força, a respiração ainda ofegante enquanto tentava libertar-se dos restos de um sonho. A mente estava enevoada, desorientada, mas a sensação inquietante não o largava. Havia algo vagamente familiar naquele quarto, na quietude da manhã, como se já tivesse estado exatamente naquela situação antes.
O relógio ao lado da cama marcava 8:47.
Era a mesma hora do dia anterior — ou seria? Não conseguia lembrar-se. As memórias escapavam-lhe por entre os dedos, como água que tenta segurar nas mãos. Tentou afastar aquela sensação pesada de déjà vu, o sentimento persistente de que já tinha vivido aquele momento. A mesma hora. A mesma manhã.
Esfregou os olhos e ficou a olhar para o teto, a tentar limpar a cabeça. Talvez fosse só um mau sonho, pensou. Talvez fossem apenas ecos de algo que não conseguia bem agarrar. Tinha-se sentido tão vivo, tão real, naquele sonho — o sorriso dela, a voz dela, o calor da presença dela. Mas agora que estava acordado, parecia que tudo não passava de imaginação.
Levantou-se devagar, as pernas trémulas, e foi cumprindo a rotina matinal. Tudo estava normal. O apartamento, a cozinha, a caneca de café que tinha deixado no balcão na noite anterior. Estava tudo igual. Nada tinha mudado. E, mesmo assim, havia uma parte dele que não conseguia afastar a sensação de que algo estava errado.
O telemóvel vibrou no balcão, arrancando-o dos pensamentos. Hesitou por um momento antes de o pegar. Quando viu o nome no ecrã, um peso estranho instalou-se-lhe no peito. O nome dela.
Foi como um momento de clareza no meio da confusão.
— “Olá, bom dia! Queres encontrar-te comigo no café mais tarde? Descobri um sítio novo. Acho que vais adorar.”
A voz dela, suave e reconfortante, cortou aquela névoa. Conseguia ouvir o sorriso nas palavras, e por um breve instante, o mundo pareceu voltar a fazer sentido. A voz dela era como um fio que o prendia à realidade, a algo sólido.
— “Sim, claro. Encontro-me contigo lá,” respondeu ele, a voz quase trémula. Não se tinha apercebido do quanto precisava de a ouvir e falar com ela até aquele momento.
Depois de desligar, ficou ali parado, ainda com o telemóvel na mão. Olhou para ele durante uns instantes, sem perceber muito bem porque se sentia tão inquieto. Não era só a chamada. Era toda a manhã. A estranha sensação de que tudo aquilo lhe era… familiar.
Mas sacudiu o pensamento. Era só um sonho, não era? Um sonho estranho, vívido, que continuava a pairar mesmo depois de acordar. Tinha de se concentrar. Tinha de a ir encontrar.
Preparou-se quase de forma mecânica. O duche, a roupa, o café — tudo parecia distante, como se estivesse a funcionar em piloto automático. Saiu do apartamento e entrou no ar fresco da manhã, mas as ruas não pareciam bem certas.
Enquanto caminhava para o café, um pensamento não parava de lhe martelar na cabeça. Será que já tinha feito aquilo antes? Passou pela mesma esquina, viu as mesmas pessoas a caminhar, as mesmas lojas familiares. Mas hoje parecia diferente. O mundo estava ali, mas parecia de alguma forma desfocado, como se se movesse por ele sem realmente fazer parte dele.
Chegou ao café e parou à porta, a olhar através do vidro. Ela já lá estava, sentada a uma mesa ao fundo, com um livro à frente. Quando o viu, o rosto iluminou-se, e acenou-lhe. Era o mesmo sorriso, o mesmo calor, a mesma forma como sempre o olhava.
Ele sorriu de volta, embora fosse um sorriso forçado, como se o corpo estivesse a fazer algo automático. Entrou, e ela cumprimentou-o com o mesmo entusiasmo de sempre.
— “Olá!” disse ela, pousando o livro. “Estou tão feliz por teres vindo. O café aqui é incrível. Vais adorar.”
Sentou-se à frente dela, o som familiar da voz dela a acalmar-lhe um pouco os nervos. Mas mesmo assim, algo continuava a incomodá-lo. A conversa parecia algo que já tinha vivido, como se fosse um ciclo, um ritual que tinha repetido vezes sem conta.
— “Sim, é giro aqui,” respondeu ele, a tentar concentrar-se nas palavras dela.
Ela sorriu, claramente entusiasmada por lhe mostrar aquele novo sítio. Ele tentou ouvir, participar, mas era como se todo o momento fosse demasiado perfeito, demasiado ensaiado. Já tinham estado ali? Já tinham tido aquela conversa? A pergunta repetia-se-lhe na mente, mas não conseguia dar-lhe sentido.
— “Estás bem?” perguntou ela de repente, o rosto a suavizar-se enquanto o analisava. “Pareces um pouco distante. Passa-se alguma coisa?”
A respiração dele falhou. Ela olhava para ele com tanta preocupação, como se tudo fosse normal, mas para ele, nada parecia normal.
— “Estou bem” conseguiu dizer, forçando um sorriso. “Só um pouco cansado, é tudo.”
— “Bem, fico feliz por estares aqui” respondeu ela. “Tinha saudades tuas.”
Por um momento, ele ficou a olhar para ela, apanhado de surpresa pelas palavras. Não sabia porquê, mas sentiu que já a tinha ouvido dizer aquilo antes. Talvez fosse no sonho. Não importava. Ela estava ali. Estava viva. E ele estava com ela.
Tentou afastar a confusão, a sensação persistente de que tudo aquilo era uma ilusão, um estranho eco da realidade. Queria acreditar que era real. Que aquela era a sua vida. Mas algo lá no fundo não o deixava.
Tudo parecia demasiado familiar.
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Fim do Capítulo 1