Prólogo
A vida não é tão bonita quando crescemos. Antes de toda a tragédia que eu mal consigo lembrar acontecer - por mais que minha mente insista em me lembrar que aconteceu -, eu costumava assistir ao nascer do sol com o papai, pela janela do seu quarto. Agora, mal consigo acordar antes das seis para ir ao trabalho.
Quando pequeno, eu achava que teria tudo o que quisesse alcançar. Era isso que eu ouvia todos os dias do papai. Agora, é só algo que sei que ouvi... por mais que eu não lembre da voz ou do
rosto dele, que hoje não passam de um borrão. Algo sem sentido que minha mente insiste em guardar: memórias.
Qual é o sentido de tê-las tão bonitas aqui dentro, mas só lembrar de como tudo desabou? Lembrar de quando ninguém que eu achava ser minha família quis cuidar de um lúpus como
eu, me deixando naquele orfanato? Eu não queria lembrar disso. Não queria lembrar do rosto das cuidadoras, nem dos adolescentes alfas que faziam brincadeiras cruéis com uma criança que tinha acabado de perder a única pessoa que amava e em quem confiava.
Papai, eu sei que não foi sua culpa, mas você não tinha prometido que nunca iria embora? Que nunca me deixaria?
Papai, por que, do dia para a noite, tudo virou um inferno?
Papai, eu disse naquela noite de Natal que seria o seu orgulho... que chegaria ao topo do mundo só para gritar para todo mundo que você era o pai mais legal do mundo.
Mas, papai... por que você não cumpriu a sua promessa e me deixou cair naquela toca de lobos?