Capítulo 1 — O Exílio
— Você não merece a morte pela minha espada.
A voz veio firme, fria. Um homem alto e loiro guardava a lâmina na bainha presa à cintura. Suas roupas estavam rasgadas, sujas de sangue seco e poeira, como se tivesse lutado por horas — talvez dias.
Ao redor, o cenário era pura ruína. O chão de pedra rachado, os corpos tombados, o cheiro metálico do sangue misturado à fumaça. Um campo de batalha que não perdoara ninguém.
O homem — Lucien — olhou para baixo, e diante dele estava o prisioneiro ajoelhado sobre o chão manchado de vermelho. Os joelhos abertos e imóveis, o corpo exausto, o olhar perdido em meio ao que restava de seus aliados. Alguns mortos. Outros, apenas desmaiados.
Então o prisioneiro ergueu o rosto. Havia fúria e ironia em seus olhos.
— Não cuspa sua piedade em cima de mim.
Esse era Damien — o derrotado, o irmão caído. Ele fitava Lucien com desprezo. Sabia que aquele olhar de misericórdia era falso. Conhecia o irmão melhor do que ninguém.
— O que foi? — ele perguntou, a voz rouca e amarga. — Não tem coragem de me matar?
Lucien respirou fundo e se abaixou. Fitou o rosto ensanguentado do irmão.
— Te matar? Você é sangue do meu sangue. Eu não tenho o direito de te matar, Damien.
— …
— Você é meu irmão, apesar de tudo. Matá-lo seria uma desgraça para mim — e eu nunca me perdoaria, mesmo que eu queira.
Ele segurou o cabelo do irmão, puxando-o para cima, forçando Damien a encará-lo. O olhar piedoso cedeu espaço a um de pura frustração.
— Você me conhece melhor que ninguém, eu sei. Mas e eu? Eu também te conheço. Pode parar com esse teatrinho.
— …
— Dói, não é? — Lucien disse, quase sussurrando. — Ver todos os seus companheiros mortos?
— …
— Eu sei como é isso. Você matou vários dos meus também. Acha que eu sou feliz com isso? Que eu queria essa guerra?
Lucien riu, mas o riso morreu depressa.
— Eu realmente não me importo, Damien. Sempre tive meus defeitos — mimado, tolo, cego. Você sempre teve razão. Mas acha que eu pedi por isso? Que eu queria ser o favorito? Que eu queria ser rei?
Damien o encarou em silêncio por alguns segundos — e então começou a rir. Um riso alto, rouco, enlouquecido.
— Não venha com papinho agora. Eu não quero ouvir nada que você tenha a dizer.
— …
— Acha mesmo que vai me convencer a me juntar a você, e depois vivermos felizes pra sempre? Só porque você é o grande e bondoso Lucien?
Ele cuspiu no chão.
— Fique na sua. Pegue sua espada e corte meu pescoço de uma vez.
O sorriso desapareceu.
— Você me enoja.
Lucien soltou os cabelos do irmão e o empurrou com força contra o chão.
Ergueu-se devagar, os olhos percorrendo o cenário devastado — fumaça, sangue e o cheiro amargo da perda.
— É claro… como eu pude ser tão ingênuo? — disse, rindo sem humor. — Você não vai mudar. Nenhum de nós vai.
Olhou ao redor, as ruínas e os corpos dos dois lados. — Esse lugar, essas pessoas... tudo foi em vão. Essa briguinha só vai acabar quando um de nós estiver morto, não é?
Damien tentou se levantar. Seu corpo tremia, exausto, as feridas abertas e o sangue escorrendo pela roupa.
A verdade é que ele não sobreviveria por muito tempo, mas ainda assim sorriu.
— Pois bem, meu irmão — disse, com ironia. — Você está certo. Isso não vai acabar até que um de nós esteja morto.
Ergueu o rosto e zombou. — Então, por que não para com esse dramalhão e essa conversa fiada? Corta meu pescoço de uma vez. Vamos lá, eu sei que você está ansioso pra isso. Aposto que queria me matar desde o momento em que dividimos o maldito útero da nossa mãe.
Lucien o olhou, sério.
Damien continuou, o sorriso se abrindo como uma ferida.
— Foram os piores nove meses da minha vida — disse. — Ficar acorrentado a você, preso num espaço minúsculo. Eu nem lembro direito, mas tenho certeza que o trauma bloqueou a memória.
Lucien respirou fundo, já cansado da provocação.
— Certo — respondeu. — Então vou fazer de outra forma.
Damien ergueu as sobrancelhas, desconfiado.
— Do que está falando, seu desgraçado?
— Em vez de te matar… — Lucien observou o campo ao redor, os companheiros mortos de ambos os lados. — Por que não te deixo viver? Sozinho.
Os olhos de Damien se arregalaram.
— O que você quer dizer com isso?
— Um exílio. — Lucien deu de ombros. — Você sempre foi desesperado por atenção. Sempre atrás de subordinados pra preencher esse vazio dentro de si. Talvez o isolamento te ensine alguma coisa.
De repente, o tom dele mudou — mais frio, mais cansado. — Eu vou te exilar nas terras isoladas. Lá, vai ter que aprender a se virar sem ninguém pra bajular suas feridas. Talvez aprenda a conviver em sociedade, finalmente entendendo que o mundo não gira ao seu redor.
Damien soltou uma gargalhada rouca, ecoando entre as ruínas.
— Você não teria coragem. — Ele se levantou, os olhos faiscando. — Eu sou o seu vilão, Lucien. Sou tudo o que você precisa. Se eu sumir agora, o que vai ser de você?
A voz dele gotejava veneno e ironia. — Um heróizinho pacato sem o seu vilão? O que é um herói sem o seu oposto? Você vai apodrecer sem alguém pra odiar.
Lucien o encarou em silêncio. Quando respondeu, sua voz estava calma — mas quebrada.
— Eu não quero que você viva um “felizes para sempre”, Damien.
Deu um passo à frente.
— Eu quero que aprenda a amar a si mesmo. Porque nunca amou ninguém… nem você mesmo.
Damien cerrou os punhos. O ar entre eles parecia vibrar.
— E você? — sussurrou. — O que sabe sobre amor?
Lucien desviou o olhar.
— Eu amei demais — respondeu. — A todos. Ao trono, ao povo, à ideia de ser o herói… e a mim mesmo. E olha no que deu.
Fechou os olhos por um instante. — Tudo isso é culpa minha. Eu devia ter amado você, e não só o meu próprio ego.
— …
— E você devia ter amado a si mesmo, ao invés de viver atrás do amor dos outros. Você não precisa do amor de ninguém, Damien. Só de você.
Silêncio.
O vento soprou sobre o campo devastado.
E, pela primeira vez, Damien não teve resposta.
O silêncio de Damien cortava o ar como uma lâmina. Lucien o observava, firme, até que decidiu quebrar o peso daquele instante.
— Vou te dar comida, abrigo, roupas e tudo o que precisar — disse ele, a voz cansada. — Você vai ficar isolado até que eu diga o contrário. Vai ter tudo de que precisa, mesmo que não queira. E vai viver. Não vou deixar que morra.
Ele deu um passo à frente, o olhar sério.
— Vou garantir que, mesmo de longe, alguém o vigie. Que tenha certeza de que você não vai morrer... nem tentar se matar. — Lucien respirou fundo. — Eu sei que você tem esse hábito, irmão.
O rosto de Damien ficou vermelho de ódio e vergonha. Ele gritou, a voz falhando, rasgando a garganta:
— Seu desgraçado! Acha que é superior a mim? Que eu sou uma boneca para você cuidar e maltratar quando quiser, só pra poder me chamar de ingrato depois? Você acha que pode me isolar, me controlar, decidir se eu vivo ou morro? É por sua culpa que eu odeio tanto minha vida! A culpa de tudo isso é sua!
Ele tremia. — Você é o monstro aqui, não eu!
Lucien ficou em silêncio, o olhar pesado.
Damien riu, um riso fraco e quebrado.
— Eu sempre fui um monstro, na verdade. Sou eu quem devora os sentimentos negativos dos outros... Eu me alimento da negatividade alheia. Mas você... você...
As palavras morreram em seus lábios. A dor, o sangue, o cansaço.
A visão dele se tornou turva, e, pela primeira vez, Damien não conseguiu terminar uma frase.
Caiu no chão — exausto, à beira da morte.
Lucien o observou em silêncio. Sua pele morena, suja de sangue, agora brilhava sob as lágrimas que escorriam sem permissão. Ele realmente via, pela primeira vez, o quanto o irmão estava destruído — e o quanto ele próprio havia ajudado a quebrá-lo.
Mas não mudaria de ideia.
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Quando Damien abriu os olhos novamente, não havia mais guerra.
Estava deitado dentro de uma cabana simples, no meio do nada. As feridas haviam sido tratadas, mas não havia alma viva ao redor. Nenhum de seus homens. Nenhum som. Nenhum sinal de Lucien.
O lugar era quase perfeito: havia água, comida, medicamentos, tudo de que ele precisava para sobreviver.
Mas não havia nada que pudesse feri-lo.
Nenhuma lâmina. Nenhuma corda. Nenhum remédio forte demais.
Ele saiu da cabana, o corpo ainda doendo, e olhou ao redor. O terreno era lamacento, a terra árida, as árvores parcialmente mortas.
Andou, desesperado, tentando encontrar uma saída — mas não havia.
Uma barreira mágica cercava tudo. Feita por ninguém menos que Lucien.
Damien gritou, chorou, amaldiçoou o nome do irmão até perder a voz.
Prometeu vingança, embora soubesse que nunca poderia cumpri-la.
Estava sozinho.
Sem seus homens, sem as vozes que o seguiam, sem o som de passos atrás de si.
Eles o temiam, mas ainda assim o seguiam.
Tinham medo de tocá-lo, mas obedeciam quando ele mandava — e, de alguma forma, aquilo bastava.
Era o mais próximo de afeto que ele já havia conhecido.
O respeito nascido do medo.
A lealdade forçada pelo desespero.
Agora não restava nada disso.
Sem seu irmão.
Sem seus companheiros.
Sem o ódio... e sem o amor.
A verdade o atingiu com a força de uma lâmina invisível: o ódio fora a única coisa que o manteve vivo até ali.
Era o único laço que o unia aos outros, a única prova de que ainda existia.
Sem ele, não havia ninguém para odiá-lo — e, portanto, ninguém que lembrasse que ele estava ali.
Tudo o que restava era o vazio.
Ele chutou a lama com raiva, e algo rolou para fora dela.
Uma pulseira dourada.
Damien se aproximou, hesitante.
Seria uma armadilha? Ou um presente?
Ajoelhou-se e tocou o objeto com os dedos manchados de terra.