Antes
Lex Silvas
22/06/05
O dia já está quase no fim, Damien está parado em um cruzamento, o sinal está verde para pedestres, mesmo com algumas pessoas atravessando, ele continua lá parado, exatamente assim como há 10 minutos, como se só estivesse tomando coragem para atravessar. Depois de alguns segundos, o sinal fica vermelho para pedestres e os carros que estão impacientes para passar logo aceleram. E é então que ele respira fundo e começa a se mover, ele está atravessando a rua, apenas esperando que um dos enfurecidos carros venha em sua direção. E de repente ele ouve uma buzinada alta e uma freada brusca em cima dele, mas já é tarde demais para o motorista desavisado desviar, porque ele é atingido em cheio e arremessado para longe.
(Antes:)
O jovem Damien Ford chega à grande e ensolarada cidade de Los Angeles com grande vontade de recomeçar a vida. Ele só quer fugir do seu passado. Quando embarcou naquele avião, ainda não sabia se deveria estar ali, não tinha onde ficar, não conhecia ninguém lá e o dinheiro que possuía não era o suficiente para muita coisa. Ele arrasta a sua única mala pelas ruas da cidade, procurando um hotel barato para poder passar a sua primeira noite na cidade. Noite essa que ele sabe que não vai demorar muito para cair. Virando uma esquina num beco qualquer, ele se depara com dois homens com jeitos nada amigáveis…
Damien agora está caído no chão com o nariz sangrando e com as suas costelas quebradas, ele tenta levantar seu corpo do chão, mas tudo dói, só quer saber de sair logo dali. Logo, um jovem rapaz se aproxima e lhe pergunta se ele está bem.
— Bem, não. Eu estou ótimo. Não pode ver, meu caro amigo?! Responde Damien sarcasticamente enquanto tenta se levantar.
— Ei, não precisa ficar na defensiva, cara. Eu só quero te ajudar. Diz ele o ajudando a se levantar.
Agora de pé e de olho um para o outro, ele se apresenta para o rapaz que faz o mesmo.
— Eu me chamo Ben, Ben Roberts.
Ele o ajuda a caminhar e eles vão até uma lanchonete próxima para usar o banheiro. Damien se lava na pia para se livrar do sangue, até trocaria de roupa se os grandalhões não tivessem levado tudo. Depois de tudo certo, ele sai do banheiro e vai até a mesa onde Ben se encontra. O rapaz está conversando com uma garçonete, sentado relaxado numa das cadeiras. Damien caminha até ele e se senta numa cadeira bem na frente de Ben.
— Cara, essa porra vai inchar. Diz Ben para Damien ao vê-lo se aproximar.
A garçonete os deixa a sós e vai para a cozinha.
— E aí, já está se sentindo melhor? Pergunta, Ben.
— Um pouco. Responde Damien ainda com dor da surra que levou.
— Você não é daqui? Pergunta Ben curioso.
— Não, eu sou da Inglaterra! Responde Damien apático, ainda está chateado com o que acontecera.
— Eu sabia. Diz Ben, animado. — Eu reconheci pelo seu sotaque. O que veio fazer aqui na ensolarada Los Angeles? Continua o rapaz com as perguntas.
— Eu não estou muito certo! Responde Damien, desconfiado do estranho interesse do rapaz à sua frente.
A garçonete se aproxima outra vez da mesa trazendo café e um belo prato com uma bela refeição.
— Eu não posso pagar por essa refeição. Diz Damien sem graça.
— Fica de boa, irmão. Hoje um cara me pagou muito bem só para bater uma para ele. Acredita? Diz Ben sorridente.
— Me desculpa, no que você disse mesmo que trabalha? Pergunta Damien confuso.
— Como assim, cara ? Eu sou um acompanhante particular. Diz ele, ainda sorridente. — E também já fiz uns filmes por aí, nada de estranho. Continua ele para Damien, que o olha surpreso. — E também, eu vendo umas paradas por aí, só o suficiente para pagar as contas e não morrer de fome. Termina, ele.
— Eu só queria te agradecer porque eu não sei o que seria de mim se você não tivesse aparecido. Obrigado. Agradece Damien sem jeito.
— Que isso, cara. Agora come logo antes que esfrie. Diz Ben, se mostrando lisonjeado. — E aí, você tem onde ficar? Pergunta ele, curioso.
Eles estão agora subindo as escadas de um prédio velho, que exala um terrível odor de mofo. Mais alguns degraus e estão em frente a uma porta, Ben a abre e pede para que Damien se sinta à vontade. O apartamento de Ben não é o que se chamaria de luxo, é só um espaço grande com uma cozinha pequena e no resto do espaço um sofa, uma TV e mais ao fundo uma cama, mas Damien realmente não se importa com nada daquilo, é mais do que ele esperava conseguir naquela noite.
— Se está aqui para me roubar, como já deu para ver, está perdendo o seu tempo. Diz Ben em seu tom brincalhão.
— É, tem razão. Eu realmente estou no lugar errado. Retribui Damien a brincadeira.
— Por que não toma um banho? Eu te empresto umas roupas. Diz Ben, apontando com o dedo onde fica o banheiro.
— Eu não sei como agradecer. Diz Damien, cabisbaixo.
— Ah, não começa de novo com essa história, Dan. Me dá um tempo. Diz Ben nervoso. — Eu vou te chamar de Dan de agora em diante porque nós somos amigos, e amigos ajudam os amigos. Termina, ele.
Damien entra no banheiro e tira as suas roupas sujas de sangue e um pouco rasgadas. Trava uma batalha para entrar debaixo do chuveiro que jorra uma terrível água gelada. Depois do banho, seca-se com uma toalha, então assusta-se assim que Ben entra sem bater e lhe entrega um par de roupas limpas e dobradas.
— Olha só para você, todo malhado. Daria um bom dançarino de strip. Diz Ben que o olha de cima a baixo, o corpo dele. — Não sei como aqueles caras conseguiram te bater com todos esses músculos.
— Ele eram dois e me pegaram de surpresa. Diz Damien tentando esconder suas partes íntimas da vista de Ben.
Damien se esforça pra não demonstrar que se sente incomodado com aqueles olhares de Ben, que logo depois sai do banheiro deixando-o sozinho. Damien se veste rapidamente, tremendo de frio, e sai do banheiro. Ben está sentado no sofá assistindo TV, tomando uma cerveja. Ele se aproxima e se senta ao seu lado.
— Eu abri uma cerveja para você. Diz bem.
— O que você está assistindo? Pergunta Damien pegando a cerveja.
— Nada demais. Responde ele. — Só um desses realities lixo que passam na TV.
De repente, ouvem uma batida na porta e em seguida outra mais uma vez, só que mais forte. Ben faz sinal para que Damien fique quieto, ele obedece.
— Abre logo a porta, Benjamim, eu sei que você está aí, eu estou vendo a luz da sua TV por debaixo da porta. Diz uma voz feminina.
Ben respira aliviado, dá a volta no sofá e vai atender à porta.
— O que você quer, vadia? Diz ele, parecendo irritado com a bela mulher loira atrás dela.
— É assim que você ala comigo agora? Diz ela interrompendo-se ao perceber que Ben estava com mais alguém na casa. — Foi mal, Ben. Eu não sabia que você estava com um cliente, eu volto outra hora. Diz ela constrangida.
— Ele não é um cliente, é um amigo. Diz Ben.
— Seja o que for, mas quando terminar, eu preciso falar com você. Diz ela, provocativa.
— Eu estou falando a verdade. Diz ele nervoso.
— Então, por que demoro tanto para abrir? Pergunta ela ironicamente. — Eu estou atrapalhando alguma coisa?
— Eu só achei que fosse o síndico. O aluguel está atrasado de novo.
— Espera um pouco. Por que ele está usando a sua camisa verde de manga comprida? Pergunta a ela olhando pra Damien. — Eu te dei ela de presente de Natal.
— E eu gostei tanto que eu emprestei pra ele. Diz Ben, rindo. — Fala logo o que você quer ou dê o fora daqui.
— Eu quero o meu liquidificador de volta. Eu e a Fi estamos fazendo um bolo. Diz ela. — Bom, estamos tentando fazer um bolo.
— Eu vou lá pegar. Diz ele, indo até a cozinha.
Agora, a sós na sala com o estranho, ela se vira para ele e o cumprimenta.
— Oi! Diz ela para Damien que não desgrudou os olhos dela desde que entrou.
— Oi. Diz ele, acanhado.
— Eu sou Nicole Williams, moro no apartamento aqui da frente. Diz ela. — Porta a porta.
— Eu sou Damien. Diz ele. — Por que vocês, americanos, têm essa mania de se apresentar dizendo o nome completo? Diz ele para descontraírem.
— Acho que é porque é mais fácil, sei lá. Diz ela rindo. — Há quanto tempo você e O Ben estão juntos? Pergunta ela curiosa.
— Eu e o Ben não estamos juntos. Diz Damien, tratando logo de corrigi-la. — Eu o conheci hoje à tarde. Responde a ele sem se mover do sofá onde está sentado, com o corpo quase todo virado para a porta.
— Eu não estou surpresa. Diz ela.
— Aqui está Nick. Agora cai fora. Diz Ben, vindo da cozinha, entregando o liquidificador para ela.
— Finalmente. Diz ela alto. — Tchau, rapazes. Juízo, hein. Diz ela assim que sai e Ben fecha a porta.
Ben volta pra se sentar no sofá, os dois terminam de beber a cerveja quase que ao mesmo tempo. Damien fica curioso sobre Nicole, então dá um jeito de perguntar para Ben, fingindo que não quer nada. O seu maior interesse é saber se ela também é garota de programa como Ben.
— A Nick, não. Responde, Ben.
Damien se sente mais aliviado por saber disso, já que se sentiu um pouco atraído por ela, mas jamais admitiria isso para Ben.
— Mas ela é uma atriz pornô, faz filmes pesados de “sado”. Diz Ben.
Damien fica surpreso ao ouvir isso. Ele também conta que ela divide o apartamento com uma travesti chamada Fiona Moore. A conversa está boa, mas ambos estão cansados. Ben vai até o seu “quarto”, pega um lençol e um travesseiro e entrega a Damien, que mal se deita no sofá e já adormece.
Pela manhã, Damien não pretende depender de Ben para sempre, então volta à lanchonete onde esteve ontem para ver se eles estão precisando de alguém. Consegue um emprego depois de um tempo lá, já que não se precisa de muita experiência pra lavar pratos. Depois de um longo e cansativo dia de trabalho braçal, ele volta para a sua casa provisória, até que possa bancar um lugar só seu. Ele está subindo as escadas e vê uma linda mulher negra subindo também um pouco à frente dele. Ela está carregando algumas sacolas pesadas. Damien, muito educado, resolve ajudá-la.
— Deixa comigo. Diz ele, pegando as sacolas.
— Muito obrigada, amor. Diz ela. — Esse maldito síndico que não conserta esse elevador de merda.
Ela então o olha e vê aquele belo rapaz de aparência máscula de cima a baixo.
— Oi, bonitão. Você é novo no prédio? Pergunta a ela.
— Sou! Eu cheguei ontem. Eu estou ficando no Ben.
— Oh, então é você que é o tal do Damien. A Nicole não parou de falar como te achou bonito, mas ela não fez jus à sua pessoa.
— Espera um pouco. A Nicole é a moça que foi lá ontem pegar o liquidificador. Diz ele. — Você deve ser a Fiona?
— Fiona Moore, a primeira e única. Diz ela, o cumprimentando com uma reverência.
Eles vão até o apartamento, Fiona destranca a porta e entra, convida Damien a acompanhá-la. A decoração até que tem um estilo próprio, com abajures coloridos e muitas outras coisas coloridas ao redor, o que o apartamento do Ben certamente precisava. Ela oferece um chá para Damien e pergunta o que ele está achando de viver por ali. Viver naquele prédio tão antigo tinha também suas desvantagens, como o mofo e as baratas, e também a possibilidade de o prédio vir a baixo enquanto dormia, mas ele se limita a apenas dizer que está gostando e que não tem do que reclamar. Ele leva as sacolas dela e as coloca em cima da mesa e, sem muita escolha, aceita o pedido insistente de Fiona de ir jantar mais tarde. Depois de se despedir, ele entra no apartamento de Ben, sem bater, já que não achou necessário, e também a porta já estava aberta. Tudo o que quer é um bom banho e poder trocar de roupas e que assim que recebe, irá comprar roupas novas e devolver as que Ben emprestou. Não vê Ben em parte alguma, então vai até o banheiro. Ao abrir a porta, tem uma grande surpresa ao ver Ben deitado nu na banheira cheia de água e um monte de drogas espalhadas ao redor, enquanto o braço dele está amarrado com um negócio de borracha, mostrando que ele havia injetado algo no seu braço.
— Merda, foi mal. Diz Damien com o susto que toma, mas Ben não reage.
Ele fica sem saber o que fazer, então só sai e fecha a porta. Meia hora depois, Ben sai do banheiro enrolado numa toalha sem dizer nada e se joga em sua cama. Ele aproveita que Ben saiu do banheiro e vai lá tomar banho e fingir que nada daquilo aconteceu, já que aquilo não era da sua conta. Ele mais uma vez trava uma luta para conseguir se acostumar com a água gelada. Sai e veste outra roupa que Ben gentilmente já havia separado pra ele mais cedo naquele dia. Por volta das 8h, horas da noite, ele vai até o apartamento da frente, pergunta pra si mesmo se deveria ter chamado o Ben para ir junto, mas não achou que ele iria querer ou o escutaria sequer. Bate na porta e ouve Fiona gritar pra ele entrar, já que a porta está aberta. Ele entra e vê na cozinha, Nicole se aproxima dele e lhe dá um beijo no rosto.
— Que bom te ver de novo. Diz ela. — E o Ben?
— Ele está dormindo. Responde Damien para disfarçar.
Durante o jantar, elas o interrogam com uma pergunta atrás da outra, sem dar trégua, estão claramente curiosas para saber mais sobre esse estranho visitante. Ele não as culpa, pois se fosse o contrário faria o mesmo. Não responde às perguntas com a verdade completa, resolve manter para si alguns detalhes. Depois do jantar, Fiona vai até o seu quarto e traz para eles o jogo Monopólio numa mão e um cigarro de maconha na outra. Eles jogam, fumam e riem. E assim ficam pelo resto da noite. Até que Damien, cansado, resolve voltar ao apartamento de Ben para dormir, já que no dia seguinte tem que ir trabalhar.