Ato Um: Isso foi só um deslize.
19/12/25
Primeiro de tudo, preciso deixar uma coisa clara: eu não sou gay. Nunca fui, nunca vou ser. Não tenho nada contra, mas não é quem eu sou. Se aconteceu de eu transar com outro homem, a culpa foi do álcool. Só isso. Eu bebi demais, perdi o controle, e acabei me deixando levar por um cara de lábios bonitos e voz doce. Foi um deslize, nada mais. E quero deixar registrado: isso não vai se repetir. Eu gosto de mulher. Sempre gostei.
Agora estou aqui, com o celular na mão, encarando a mensagem que ele me mandou de maneira tão repentina. Preciso responder. Talvez um simples “obrigado por aquela noite, mas eu sou hétero” resolva. Será que coloco até uma carinha sorridente, só pra mostrar que não estou bravo? Mas e se ele interpretar errado? Melhor escrever algo seco, tipo “Valeu, cara. Não vai rolar de novo.” Ou até brincar: “Hasta la vista, hombre.” Mas nada parece certo. Ignorar não é meu estilo, nunca foi. E ele escreveu só: “Oi, lembra de mim?” Como eu vou responder isso? Dizer que não lembro? Mentira. Eu lembro até demais. Lembro do que fizemos, lembro dos gemidos, lembro da pele dele contra a minha. Não posso escrever isso. Se eu admitir que gostei de alguma coisa, ele vai achar que eu gostei de tudo. E não foi bem assim. Não desgostei, mas gostar é outra história.
A tela pisca: ele está digitando. Meu coração dispara. O que mais ele vai dizer? Talvez seja melhor eu me adiantar, mandar logo um “Foi um prazer te conhecer, nos vemos por aí. Se cuida.” Mas antes que eu faça isso, chega outra mensagem: “Eu sou o James, de New Jersey. A gente se conheceu na festa da outra noite.” Ele deve pensar que eu não lembro dele. Mas eu lembro. Lembro até demais. Lembro das minhas mãos marcando as costas dele, lembro do corpo dele se contorcendo, lembro da respiração quente no meu ouvido. Nunca tinha ficado com outro cara, então é impossível esquecer. A lembrança é vívida, quase dolorosa.
Nova notificação: “Queria saber se você quer, sei lá, tomar um café comigo outra hora?” A resposta deveria ser simples: não. Só isso. Digito o N, procuro o O. Mas meus dedos escorregam e, sem querer, envio um emoji de berinjela de uma conversa anterior em que eu usei com uma garota. Meu Deus. Eu mandei um emoji de berinjela. O coração dispara, o rosto esquenta. Abortar, apagar, desfazer. Mas já foi. E logo ele manda um: “Interessante escolha de emoji…”
Desesperado, digito rápido: “Oi, James, aqui é o Brandon. Eu mandei um emoji de berinjela sem querer.” Ele responde com um “Lol, eu entendi a mensagem. Quer vir aqui no meu dormitório agora?” Não. A resposta é não. Precisa ser não. Um não enorme, inquestionável. Mas antes que eu consiga digitar algo, ele manda outra: “Estou sozinho, meu colega de quarto saiu e não volta mais hoje.”
Minhas mãos tremem. Tento escrever o não, mas o que sai é um maldito “5 minutos.” Cinco minutos. Como assim cinco minutos? O que eu vou fazer lá? A resposta é óbvia, e eu sei. Eu gostei do que aconteceu naquela noite, mesmo que não queira admitir. E eu não sou do tipo que desperdiça uma oportunidade de sexo. Que merda. Eu sou fraco. Eu tenho cinco minutos pra parecer apresentável, mesmo que eu ache que eu estou cometendo um erro.








