Chapter 1
“Um padre... uma missão.”
As portas da catedral se abriram devagar, rangendo como se todo o peso dos séculos repousasse sobre elas. O som ecoou pelo salão vasto, e o silêncio do povo reunido pareceu crescer ainda mais. A luz dos vitrais tingia o chão de vermelho e dourado, como se o próprio sol tivesse escolhido assistir àquele momento.
Desde que me entendo por gente, sempre houve um sussurro dentro de mim. Um sussurro antigo, mais velho que as pedras do templo onde cresci. Quando criança, eu o confundia com o vento, ou com o eco dos passos dos monges pelos corredores. Mas com o tempo percebi que era mais do que isso. Eram vozes. Vozes que me chamavam pelo nome.
Eu me perguntava, ainda menino, que vozes eram aquelas. Seriam as mesmas que falaram a meu pai, um padre austero, homem de poucas palavras? Ou ao meu avô, antigo bispo, cuja figura severa dominava os retratos pendurados no corredor do convento? Não sei. Só sei que elas sempre disseram o mesmo: “A tua vez chegará. Tu levarás a palavra.”
Eu era criança demais para compreender. Apenas orava, como me ensinaram. Apenas esperava, como esperam os que nascem dentro de paredes sagradas. Cresci no templo, longe dos vícios do mundo, longe dos pecados da carne. Minhas brincadeiras eram entre colunas de mármore e altares silenciosos. Meus amigos eram os monges, os sinos e o som dos cânticos.
E agora, diante do altar maior, entendi enfim o peso daquelas vozes.
Meus passos ecoaram pela nave central. Cada passo parecia uma sentença. O coração batia, mas eu caminhava. Até que alcancei o altar. Ajoelhei-me. O frio da pedra atravessou meus joelhos como uma agulha, lembrando-me da humildade que agora me era exigida.
Um dos anciãos, um homem cuja voz parecia carregar séculos de tradição, ergueu-se. Seu olhar caiu sobre mim como um peso, e então ele falou:
— Tu que fostes escolhido como a voz do Senhor e serás encarregado de levar a palavra d’Ele ao povo. Nael Asterith, aqui, diante da casa de Deus e das testemunhas que te cercam, prometes guardar a fé que te foi confiada? Prometes ser luz entre as trevas, consolo para os aflitos e fortaleza para os vacilantes?
Engoli em seco. Todo o templo parecia prender a respiração comigo. As vozes dentro de mim sussurraram de novo: “A tua vez chegou.”
— Prometo — respondi. Minha voz soou mais firme do que eu esperava, ecoando pela abóbada.
O ancião estendeu as mãos sobre minha cabeça, e a solenidade de sua fala pareceu atravessar a pedra e o tempo:
— Então, recebe sobre ti a chama do Espírito. Que teus lábios jamais se fechem diante da verdade. Que tuas mãos jamais recusem servir. Que teus olhos jamais se desviem da justiça. E que teu coração, mesmo entre tormentas, permaneça fiel ao Altíssimo.