Capítulo 1 O eco de Flandres
Filhos do Norte
O eco do ferro (Flandres, ano 840)
O vento do Mar do Norte refletía a costa da Flandres com um frio que entra até os ossos.
Sobre uma praia úmida, um jovem de vinte e três invernos apertava o cabo de seu machado enquanto observava o horizonte. Chamava-se Arngrim; antigo aprendiz de um comerciante que havia trocado os barcos de pesca por drácares de guerra.
Seu torso estava coberto por uma cota de escamas, trabalhada com peças de ferro unidas sobre couro endurecido.
Não era comum entre os seus: havia conquistado aquela armadura em uma troca com mercadores eslavos que tinham navegado desde o Báltico.
Em contraste com seus companheiros, que mal levavam cotas de malha ou peles reforçadas, Arngrim brilhava com certo ar estrangeiro, mistura de orgulho e ambição. Pois alguém diferente sempre se destaca.
Os chefes do acampamento falavam de um ataque iminente contra terras francas. Os mosteiros flamengos eram ricos em ouro e prata, e os rumores diziam que o rei Carlos estava ocupado demais com disputas internas para defender toda a sua costa.
Era a oportunidade perfeita.
Arngrim havia se treinado para aquele momento desde criança:
Sabia remar durante horas sem descanso.Sabia avançar com o escudo redondo em formação fechada, onde os vikings se protegiam como uma muralha móvel.Sabia que o primeiro sangue derramado em terra inimiga era um juramento: ou conquistavas… ou não voltavas.
Enquanto a fogueira ardia e os homens compartilhavam hidromel, Arngrim se afastou por um instante. Olhou seu machado e recordou as palavras de seu pai:
“Os francos lutam com lanças longas e armaduras pesadas, mas não temem tanto o aço quanto o fogo. Onde houver fumaça, ali fugirá sua coragem.”
Naquela primavera de 840, o jovem viking preparava-se não apenas para seu primeiro saque na Flandres… mas para um destino muito maior. Nas conversas dos jarls já se sussurrava um plano audacioso: navegar pelo rio Sena e atingir o próprio coração do império carolíngio.
Paris.
A costa flamenga ardia em fumaça e cinzas. Aldeia após aldeia caía sob o fio dos machados nórdicos, e os mosteiros, tão ricos em cálices e relíquias, gemiam sob as chamas. A tripulação de Arngrim aprendera rápido: quem remava de dia, saqueava à noite; quem lutava com a espada, carregava o butim para os drácares ao amanhecer.
O capitão Jirgall, homem de barba avermelhada e olhar feroz, conduziu os seus até um fortim franco, uma paliçada reforçada junto a um cruzamento de caminhos. Ali, postou-se diante do portão principal e gritou com voz que ecoava entre as madeiras:
— Vocês, francos! Paguem-nos duas mil moedas de prata e três sacos de farinha, e partiremos. Se o fizerem, não os incomodaremos.
Após um silêncio, do alto da muralha respondeu o comandante franco, em língua romance:
— “Nous tiendrons bon, et nous mettrons notre confiance en Dieu.”(Aguentaremos, e confiaremos em Deus.)
Jirgall cuspiu no chão e riu com desdém. Os vikings começaram o cerco, erguendo torres improvisadas de madeira, disparando flechas e gritando insultos que se misturavam ao som dos cornos de guerra.
Enquanto isso, Arngrim, que havia ficado no drácar guardando as provisões, afiava seu machado sobre a pedra de amolar. O brilho do fio refletia as chamas distantes. Ajustava sua cota de escamas eslava, reparando as correias de couro, quando notou algo em sua bolsa: um prato de prata que havia tomado de um mosteiro. No centro, uma inscrição em letras firmes:
“VAE VICTIS.”
Arngrim conseguia decifrar as letras, pois havia aprendido rudimentos de leitura, mas não compreendia seu significado.
Permaneceu pensativo. Aquelas palavras pareciam um presságio, um lembrete de que os vencidos sempre pagam o preço mais alto.
No barco, os homens falavam em sussurros. Rumores cresciam como fogo em relva seca: os jarls planejavam subir o Sena, até o coração das terras francas. Paris, diziam alguns. A grande cidade onde o ouro se acumulava em igrejas e mercados.
A noite caiu. Os vikings dedicavam-se a beber, treinar e descansar, certos de que os francos não ousariam sair de seu forte. Mas o sino do desastre soou sem aviso.
À meia-noite, os francos atacaram de surpresa. Seus cavalos irromperam da escuridão, relinchando, misturando-se aos gritos de guerra. Lanças e espadas caíram sobre as fogueiras apagadas dos nórdicos.
Arngrim saltou de seu leito, vestiu sua cota de escamas e tomou seu escudo redondo. O choque foi brutal: cavaleiros francos investindo com suas montarias contra guerreiros que mal conseguiam erguer suas armas.
No meio da confusão, um silvo cortou o ar. Jirgall recebeu um virote de besta no ombro, caindo de joelhos com um rugido de dor. A moral dos vikings vacilou. O terreno não favorecia seu estilo de luta, e os cavalos dominavam o campo aberto.
— Retirada! Para os barcos! —gritaram os huscarls.
Não era uma fuga desordenada, mas uma retirada tática: os escudos formando uma muralha, cobrindo os feridos, enquanto recuavam passo a passo em direção aos drácares.
O estrondo dos cascos e os gritos francos perseguiam suas costas, mas os vikings sabiam que, se sobrevivessem àquela noite, voltariam com maior fúria.
Arngrim, ofegante, compreendeu que aquela era a primeira de muitas lições: o destino dos homens do norte não era apenas saquear, mas aprender a sobreviver para a próxima batalha.