Capítulo Um: O Cupido de Santa Helena
Eu sempre tive um talento especial: passar despercebida.
Não é exatamente uma habilidade que aparece no currículo escolar. Ninguém ganha medalha por isso. Mas, se existisse uma competição oficial de aluna que ninguém lembra que está na sala, eu provavelmente levaria ouro. E minha vida funcionava muito bem assim.
Até a manhã em que decidiram me dar asas. E a responsabilidade absurda de unir casais.
Tudo começou numa terça-feira. O tipo de terça que já nasce cansada.
O céu estava cinza. O dia tinha gosto de arrependimento. E o sinal tocou com aquela agressividade típica de quem sabe que ninguém quer estar ali.
A assembleia mensal reuniu todos os alunos no auditório. O lugar estava tão cheio que parecia que as paredes vibravam com o barulho.
Grupos cochichavam. Cadeiras rangiam. Alguém ria alto demais no fundo.
Ao meu lado, Iza estalava chiclete com a expressão desconfiada.
— Suzan vai aprontar alguma coisa.
E ela estava certa.
A coordenadora Suzan subiu ao palco com a energia inabalável de alguém que ainda acredita na juventude. E, mais impressionante ainda, na capacidade humana de cooperar.
Ela se aproximou do microfone e abriu um sorriso radiante.
— Bom dia, Santa Helena!
O auditório respondeu com um “bom dia” coletivo tão desanimado que soou mais como um rebanho cansado.
Ela não pareceu abalada.
Na verdade, sorriu mais.
— Nossa. Que energia contagiante. Estou quase acreditando que vocês gostam de vir para a escola.
Algumas pessoas riram baixo.
— Eu sei, eu sei. Terça-feira não inspira ninguém. Mas vamos tentar manter o espírito leve. Como sempre digo: a escola é a nossa segunda casa.
— Então quero pedir emancipação — alguém murmurou no fundo.
Suzan ignorou com prática profissional.
— Antes dos avisos importantes, preciso lembrar algumas coisas básicas para a boa convivência coletiva desta instituição.
Ela começou a andar devagar pelo palco enquanto falava, como uma apresentadora de programa escolar perigosamente confortável diante de uma plateia.
— Primeiro: o uso de celulares continua proibido durante as aulas, mesmo que vocês acreditem que conseguem “ser discretos”. Nós vemos.
Agora algumas risadas apareceram de verdade.
— Segundo: tivemos um aumento considerável de atrasos no primeiro horário. E eu gostaria de reforçar que “o trânsito estava ruim” não é mais considerado um argumento criativo. Especialmente quando quem pega o mesmo caminho não se atrasa.
Mais risos.
Suzan assentiu satisfeita, como se estivesse conquistando o público aos poucos.
— E, por último, um recado da equipe da limpeza: as bandejas do refeitório não evaporam magicamente depois do almoço. Elas precisam ser devolvidas. Eu sei. Informação chocante.
Até eu sorri um pouco.
Ela juntou as mãos na frente do corpo e respirou fundo daquele jeito teatral de quem claramente estava entrando na parte favorita da apresentação.
— Dito isso...
A voz diminuiu dramaticamente.
— Tenho um anúncio MUITO importante para fazer.
Uma aluna do grêmio apareceu carregando uma cesta decorada com fitas rosa pastel e pequenos corações pendurados. O auditório inteiro reagiu na mesma hora.
Suspiros.
Gemidos.
Reclamações.
— Ah, não.
— Isso nunca termina bem.
Suzan recebeu a cesta como se estivesse segurando um artefato sagrado.
Então retirou de dentro um envelope creme selado com um coração rosa brilhante.
O tipo de envelope que claramente mudava destinos escolares de maneira desnecessariamente dramática.
— Como todos sabem... — ela começou, sorrindo grande demais — estamos nos aproximando de um período muito especial do calendário do Santa Helena.
Ela fez uma pausa longa.
Muito longa.
— O mês do amor!
Alguém atrás de mim sussurrou:
— Ela quis dizer o mês da humilhação pública.
Suzan continuou.
— E, como manda a tradição do Santa Helena, teremos novamente o nosso querido Correio do Amor. — Um projeto pensado para aproximar pessoas, fortalecer vínculos e incentivar demonstrações sinceras de afeto!
Iza cutucou meu braço.
— Quem será o sacrificado da vez?
Levantei os ombros.
No palco, Suzan abria o envelope devagar demais, claramente aproveitando cada segundo do suspense como uma apresentadora anunciando o vencedor de um reality show.
— Este ano... escolhemos alguém muito especial para representar o espírito do projeto.
O auditório inteiro pareceu inclinar o corpo para frente.
Até as cadeiras rangeram em sequência.
Então os alto-falantes explodiram com um som de tambores completamente desnecessário.
Suzan levou a mão ao peito, emocionada demais com a própria apresentação.
— Alguém gentil.
Murmúrios atravessaram o auditório.
— Sensível.
Uma risada curta surgiu em algum lugar.
— E capaz de unir corações.
Péssima descrição para qualquer aluno daquela escola.
Suzan ajustou os óculos, ergueu o papel e sorriu como se estivesse prestes a anunciar a próxima representante da paz mundial.
— Essa pessoa demonstra empatia...
Pausa dramática.
— Discrição...
Outra pausa.
— E responsabilidade.
Suzan ergueu o olhar para o auditório inteiro.
— Alguém que representa perfeitamente os valores humanos e afetivos do Santa Helena.
Silêncio.
Ela respirou fundo.
— Este ano... nosso Cupido oficial será...
Olhou novamente para o papel.
Mais suspense.
Sério. Mais suspense ainda.
Então ergueu a cabeça com um sorriso triunfante.
— Zoe Bonfim!
Por um instante, não aconteceu nada.
O nome ficou no ar.
Sem dono.
— Quem é essa? — alguém na plateia perguntou.
— Não faço ideia — outro respondeu.
E só então fez sentido.
Iza me empurrou com o cotovelo.
— É você.
Olhei para ela.
— Vai lá. Anda logo!
— Zoe Bonfim? — Suzan chamou mais uma vez, me procurando na multidão.
Levantei devagar. Como uma porta velha rangendo com as dobradiças enferrujadas.
Cada passo até o palco parecia ecoar no auditório. Acompanhado de cochichos e risadinhas abafadas.
— Então essa é a Zoe.
— Não sabia o nome dela.
— Coitada.
Subi os degraus.
A luz do palco bateu direto no rosto. Ajustei os óculos por reflexo, piscando uma vez, depois outra, enquanto tudo virava claridade branca por um segundo longo demais.
Quando a visão voltou, o auditório inteiro apareceu de uma vez.
Gente demais.
Olhos demais.
Até o barulho parecia diferente dali de cima, mais aberto, mais impossível de escapar.
Suzan sorriu para mim com aquele entusiasmo intacto de quem claramente acreditava que aquilo era uma grande honra, não um colapso social ao vivo.
— Parabéns, Zoe! — disse, entregando o envelope. — Tenho certeza de que o amor está em boas mãos.
Peguei o envelope.
Leve demais para o tamanho exato da humilhação pública que ele representava.
O auditório aplaudiu, metade por diversão, metade por pena, e um pouco porque Iza começou a bater palmas com entusiasmo teatral na terceira fileira, como uma mãe orgulhosa em apresentação de escola.
Suzan continuava falando ao meu lado.
Eu não ouvi quase nada.
As palavras chegavam desfocadas, dissolvidas no barulho do auditório, como se meu cérebro tivesse decidido entrar em modo de sobrevivência.
Em algum momento, ela colocou a mão no meu ombro e sorriu para a plateia outra vez, provavelmente dizendo alguma coisa inspiradora.
Assenti automaticamente.
Balancei a cabeça.
Talvez eu tenha até sorrido também. Não lembro.
As luzes do palco pareciam mais fortes agora. Quentes demais. O auditório inteiro começava a se dissolver num borrão de rostos, vozes e uniformes azul-marinho.
O calor subia pela gola do uniforme enquanto eu tentava descobrir o que exatamente deveria fazer com o próprio corpo naquele palco. Sorrir parecia estranho. Não sorrir parecia pior.
Suzan finalmente terminou o discurso com satisfação visível.
— ...e por isso temos tanta confiança em você, Zoe.
Mais aplausos.
Ótimo. Agora eu também tinha expectativas públicas para falhar.
Ela colocou a cesta nas minhas mãos.
— Boa sorte, querida.
Querida. Excelente.
Era exatamente o tipo de palavra que professores usam quando estão prestes a arruinar sua vida escolar.
Desci do palco ainda sem sentir direito o chão, ouvindo vozes nas primeiras fileiras tentando decidir quem eu era, como se estivessem montando uma versão plausível de mim ali na hora.
Quando me sentei, Iza me olhou com aquela expressão de quem acabou de assistir a algo irreversível.
— Sinto muito.
Mas o barulho ao redor já começava a se afastar.
As conversas. As cadeiras rangendo. Os risos espalhados pelo auditório. Tudo perdendo força devagar, como se o som estivesse ficando distante enquanto eu continuava parada no mesmo lugar.
Até sobrar só a cesta no meu colo.
As fitas rosas.
O envelope creme selado com um coração.
E glitter.
Um pouco preso na minha saia. Outro grudado nos meus dedos quando ajustei a cesta sem perceber.
Eu sempre tive um talento especial para passar despercebida, mas agora aquilo não parecia mais uma habilidade. Parecia um estado natural das coisas.
Só que agora tinha brilho.
Rastro.
Dava pra ver.
E, de algum jeito, todo mundo estava olhando para mim.
