Instinto e Promessa

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Summary

Lara cresceu tentando sobreviver aos silêncios, às ausências e às feridas herdadas de sua própria linhagem. Sensível desde a infância, ela sente que existe algo antigo pulsando dentro dela — uma memória que não pertence apenas à sua vida, mas às mulheres que vieram antes. Enquanto forças ocultas ameaçam apagar a verdade sobre sua ancestralidade, Lara inicia uma jornada de reconciliação consigo mesma, atravessando traumas, amor, medo e pertencimento. Entre florestas, sonhos e segredos ancestrais, ela descobrirá que algumas mulheres não nasceram para permanecer adormecida.

Status
Ongoing
Chapters
5
Rating
n/a
Age Rating
18+

Prólogo


Onde a Luz não chega

Girei a maçaneta do antigo porão. A porta abriu levemente, e um risco de luz cortou o escuro lá dentro, como se o porão tivesse um fundo sem fim.

O cheiro veio primeiro. Poeira. Coisa velha. As teias de aranha grudavam no meu braço.

Desci devagar, segurando no corrimão. A madeira gemeu embaixo dos meus pés. Um murmúrio distante acompanhava o ranger da velha escada.

"Mamãe?"

Minha voz saiu pequena. O silêncio foi minha resposta.

Meu peito ficou apertado e minha garganta estreitou. Não sabia se tinha algo me olhando ou se era pior não ter nada.

Esbarrei nas caixas sem querer.

E então eu a vi.

Encolhida em um canto. A cabeça baixa entre os joelhos. O corpo balançava para frente e para trás.

Me aproximei, esticando meu braço até tocá-la. Ergueu levemente a cabeça. Os olhos estavam distantes, imersos em algum lugar que eu não alcançava.

Era minha mãe. Mas não era mais ela.

"A vovó chamou para o jantar....."eu disse, quase sussurrando

Quando seus olhos se voltaram aos meus, por um instante, eu achei que ela estava ali.

Mas não durou.

Ela se levantou rápido e me puxou pelo braço.

Meus pés se arrastavam tentando acompanhar os passos largos dela até o outro lado do porão.

"Eles vêm atrás de nós, Lara!"

As mãos dela apertavam meus braços com força, enquanto me colocava sobre uma cadeira.

"As serpentes rastejam pelo caminho de veneno e caos.... Eles não podem nos encontrar."

Vasculhava as caixas com movimentos rápidos e desordenados. Os olhos arregalados e a voz trêmula.

Então ela começou a chorar.

Desci da cadeira e a abracei na altura da cintura.

"Tudo bem, mamãe.... eu não vou deixar ninguém te pegar."

Entre soluços, a mão dela passou sobre meus cabelos, me afastando devagar.

Abaixou-se até a altura dos meus olhos. O dedo indicador encostou no meu peito.

"Não deixe ela sair, Lara..." a voz falhou.

"Se você deixar, eles virão!"

"Você está me ouvindo??"

As mãos dela apertaram meus braços com mais força do que o normal. Os olhos, vermelhos e arregalados, não piscavam.

Meu coração batia tão forte que parecia fazer barulho. Eu não entendia o que aquelas palavras queriam dizer. Algo dentro de mim, dizia que era sério. Muito sério.

Um medo estranho crescia no meu peito, como se eu já tivesse feito algo errado – mesmo sem saber o quê.

"Prometa, Lara!"

Eu só queria que ela ficasse bem.

Só queria que aquele momento acabasse.

Engoli o choro.

Assenti com a cabeça.