CapĂtulo 1
O salĂŁo principal da mansĂŁo Corbani cheirava a charuto cubano caro, uĂsque envelhecido e tensĂŁo disfarçada de cortesia.
Lustres de cristal pendiam como lágrimas congeladas, refletindo luzes douradas sobre smokings pretos e vestidos longos que custavam mais do que o salário anual de um policial honesto.
No centro de tudo, Dario Corbani entrava como se o ar se abrisse para ele. NĂŁo precisava anunciar presença, o silĂŞncio que caĂa sobre as conversas era o suficiente.
Alto, ombros largos sob o terno Tom Ford feito sob medida, cabelo preto penteado para trás com precisão militar, olhos castanhos que pareciam poços sem fundo.
Aos 38 anos, Dario já era lenda. O homem que transformou a famĂlia Corbani de uma operação regional em um impĂ©rio que controlava portos, cassinos clandestinos e metade do tráfico de influĂŞncia entre Nova York e Miami. Cruel com quem merecia, generoso com quem provava lealdade. E, acima de tudo, intocável.
Ao seu lado direito, Arianna DeLunaro-Corbani caminhava com a graça de quem nasceu para ser observada. Vestido verde-esmeralda que abraçava o corpo sem gritar, colar de diamantes discreto, sorriso sereno que nunca chegava aos olhos.
Ela era a filha mais velha dos DeLunaro, sicilianos antigos, donos de rotas marĂtimas que Dario precisava. O casamento deles, cinco anos antes, selou a paz entre duas famĂlias que antes trocavam balas como cartões de Natal. NinguĂ©m questionava se havia amor. Amor nĂŁo era requisito para impĂ©rios.
— Sr. Corbani — um homem baixo e suado se aproximou, estendendo a mão trêmula — É uma honra tê-lo aqui esta noite.
Dario apertou a mĂŁo dele uma Ăşnica vez, firme o suficiente para lembrar quem mandava.
— A honra é minha, Vincent. — A voz era baixa, quase preguiçosa — Espero que seus negócios estejam indo bem.
Vincent engoliu em seco.
— Graças à sua... proteção, sim.
Dario sorriu de lado. O tipo de sorriso que fazia homens adultos quererem checar se a porta dos fundos estava aberta.
Arianna tocou levemente o braço do marido, um gesto ensaiado.
— Querido, vamos cumprimentar os Rossi? Eles trouxeram o filho mais novo.
— Claro, amore mio.
Eles se moveram como um casal de propaganda, ele protetor, ela elegante. Ninguém via a distância de dois palmos entre os corpos. Ninguém precisava ver.
A porta lateral se abriu quinze minutos depois.
Amara D’Aurevra entrou como quem chega atrasada de propósito.
Vestido preto justo, decote profundo nas costas que terminava logo acima da curva da cintura, fenda na perna direita que mostrava o suficiente para ser perigoso e pouco o bastante para ser classe.
Saltos Louboutin vermelhos, batom vermelho sangue, cabelo castanho escuro solto em ondas que pareciam desafiar a gravidade. Ela nĂŁo sorria para a sala inteira. Sorria sĂł para quem merecia.
Arianna a viu primeiro. Seus olhos brilharam de verdade pela primeira vez na noite.
— Finalmente — sussurrou, indo ao encontro dela.
Amara abriu os braços e as duas se abraçaram como irmãs que não se viam há anos, embora tivessem almoçado juntas dois dias antes.
— Você demorou. — Arianna disse baixo, ainda sorrindo para os convidados que fingiam não olhar.
— Drama aumenta valor. — Amara respondeu, voz rouca de quem fumava charuto de vez em quando. — E eu sou investimento alto.
Arianna riu, um som genuĂno que ecoou como mĂşsica rara naquele ambiente.
— Você é insuportável.
— E você me ama por isso.
Elas se separaram, mas mantiveram as mãos unidas por um segundo a mais do que o necessário. Para o mundo, era só amizade feminina forte. Para quem sabia olhar, era cumplicidade.
Do outro lado do salĂŁo, Dario sentiu o ar mudar antes mesmo de vĂŞ-la. Seus olhos a encontraram como um mĂssil guiado por calor. Ele nĂŁo piscou. NĂŁo sorriu.
Apenas observou cada passo dela pelo tapete persa, o balanço sutil dos quadris, o jeito como ela erguia o queixo para encarar quem ousasse sustentar o olhar por tempo demais.
Gael Arduini, o subchefe, estava encostado em uma coluna, copo de bourbon na mão. Alto como Dario, mas mais magro, cabelo castanho curto, cicatriz fina no queixo que contava histórias antigas. Ele notou o olhar do Don e se aproximou devagar, a voz baixa o suficiente para não chegar a mais ninguém.
— Temos gente nova observando. Não são da nossa rota.
Dario nĂŁo virou o rosto.
— Descrição.
— Dois. Um careca com tatuagem no pescoço, outro de terno cinza barato demais para estar aqui. Estão perto da escada dos fundos. Olhando muito para você... e para ela.
Dario tomou um gole lento do uĂsque.
— Então que aprendam rápido... ou morram cedo.
Gael assentiu, sem questionar. Era assim que funcionava.
Amara já havia cruzado metade do salão. Passou perto de Dario sem parar, sem tocar, sem nem virar o rosto por completo. Só inclinou a cabeça o suficiente para que as palavras chegassem só a ele.
— Para de me olhar como se eu fosse seu erro favorito.
A voz dela era veludo com faca. Dario nem moveu os lábios direito. Apenas deixou as palavras escaparem no mesmo tom baixo, quase um ronronar.
— Você é minha escolha mais consciente.
Ela continuou andando, mas o canto da boca subiu num sorriso que era puro veneno doce. Dario sentiu o sangue aquecer, o mesmo calor que sempre vinha quando ela estava perto. Ele odiava admitir, mas Amara era a Ăşnica coisa capaz de fazer seu controle de ferro tremer.
Arianna se juntou a eles minutos depois, trazendo uma taça de champanhe para Amara.
— Os Rossi querem conhecer minha melhor amiga. — disse, com um tom leve demais para ser inocente.
Amara ergueu uma sobrancelha.
— Eles sabem que “melhor amiga” significa que eu sei onde todos os corpos estão enterrados?
Arianna deu de ombros.
— Eles acham que significa que eu divido sapatos com você.
— Que inocentes.
As duas riram baixo, um cĂrculo fechado no meio de um salĂŁo cheio de predadores.
Mais tarde, quando a orquestra começou uma valsa lenta, Dario estendeu a mão para Arianna. Era protocolo. Eles dançaram como sempre, perfeitos, distantes, impecáveis.
Os olhos dele, porém, procuravam Amara pelo salão. Ela estava encostada no bar, conversando com um dos capitães mais velhos, rindo de algo que ele disse.
Dario sentiu uma pontada que não era só ciúme, era posse. Ela era dele. Não no papel, não na frente do mundo. Mas em cada respiração que importava.
Quando a mĂşsica terminou, Arianna se afastou com um beijo leve na bochecha do marido.
— Vou pegar ar fresco — sussurrou.
Dario assentiu. Sabia que ela ia encontrar Gael nos jardins dos fundos, onde as câmeras não alcançavam. Sabia há anos. E deixava acontecer.
Porque Arianna era sua amiga antes de ser sua esposa. Porque Gael era leal até os ossos e nunca cruzara a linha do respeito. E porque, no fundo, Dario entendia, algumas coisas não se compram com alianças.
Ele se virou para o bar. Amara já estava lá, esperando.
— Bebida? — ela perguntou, erguendo o copo como oferta.
— Você já sabe o que eu gosto.
Ela pediu outro uĂsque puro, sem gelo, e entregou a ele.
— A noite está calma demais. — comentou, a voz baixa — Me deixa nervosa.
Dario tomou um gole longo.
— Calma é ilusão. Sempre tem alguém planejando o próximo movimento.
— Inclusive eu?
Ele a olhou de lado, o olhar escurecendo.
— Você nunca planeja contra mim, Amara. Você planeja comigo.
Ela sorriu devagar, perigoso.
— E se eu quisesse planejar em cima de você?
O ar entre eles ficou elétrico. Dario se aproximou um passo, o suficiente para que o cheiro dela, jasmim e algo mais selvagem, o invadisse.
— Então eu deixaria você ganhar... por enquanto.
Amara riu baixo, o som vibrando no peito dele.
— Cuidado, Don. Promessas assim podem custar caro.
— Eu pago bem.
Eles ficaram assim, a centĂmetros de distância, trocando palavras que ninguĂ©m mais ouvia, enquanto o salĂŁo girava ao redor como se nada estivesse acontecendo.
Do canto oposto, o careca com a tatuagem no pescoço observava. Anotou mentalmente, a mulher de preto não era só amiga da esposa. Era algo muito mais perigoso.
A noite seguia em perfeita harmonia. E era exatamente isso que tornava tudo tĂŁo perigoso.








