Capítulo 1: Isolamento Cortado
O silêncio da floresta era uma mentira.
Lucas Vance sabia disso melhor do que ninguém. Sabia que por baixo de cada camada de quietude havia movimento — o roçar de uma folha que não devia roçar, o estalar de um galho sob um peso que não era de animal, o silêncio súbito dos pássaros que anunciava uma presença humana antes de qualquer câmara ou sensor conseguir detetá-la.
Eram as primeiras coisas que te ensinavam nas Forças Especiais.
Eram as últimas coisas que te deixavam esquecer.
Ele estava sentado na varanda da cabana com uma chávena de café preto na mão direita e os olhos fixos na linha de árvores a duzentos metros de distância. O sol ainda não tinha decidido aparecer completamente — pairava algures atrás das montanhas como se também ele precisasse de motivação para encarar mais um dia. A névoa matinal rastejava pelo chão entre os pinheiros, densa e silenciosa, e Lucas observava-a com a mesma atenção que outra pessoa daria a um relatório de inteligência.
A cabana era pequena. Dois quartos, uma cozinha funcional, uma lareira que aquecia o suficiente para tornar o inverno suportável. Não tinha televisão por escolha, não tinha ligação à internet por princípio e não tinha vizinhos num raio de doze quilómetros por necessidade. Havia uma espingarda Remington 870 encostada à parede interior da porta principal, uma Glock 19 no coldre preso ao lado direito do banco onde sentava e uma faca de combate KA-BAR presa ao tornozelo esquerdo.
Rotina. Não paranoia.
Pelo menos era assim que Lucas preferia classificar.
Levou a chávena aos lábios e bebeu devagar. O café estava amargo e forte — sem açúcar, sem leite, sem concessões. Como tudo o resto na sua vida nos últimos cinco anos. Havia uma versão de Lucas Vance que existia antes da emboscada na Síria, uma versão que ria de forma genuína em fotografias e que guardava cartas escritas à mão de uma rapariga de cabelo escuro numa caixa de metal debaixo da cama. Essa versão morreu numa ravina perto de Al-Raqqah numa noite de outubro, junto com os seis homens que eram família, irmãos e a única prova concreta de que Lucas conseguia pertencer a alguma coisa.
O que sobrou foi isto. A cabana. O café amargo. O silêncio que era uma mentira.
Ele ouviu o carro antes de o ver.
O motor de um diesel antigo, com um baque característico no terceiro cilindro que indicava desgaste na válvula. Lucas não se mexeu. Não pegou na arma. Apenas rodou a cabeça dois graus para a esquerda e calculou: estrada de terra, velocidade moderada, sem urgência aparente. Alguém que sabia onde estava a ir mas que não estava a fugir de nada. Uma visita.
Uma visita não anunciada a doze quilómetros do vizinho mais próximo era sempre motivo de atenção redobrada.
O Land Cruiser bege apareceu entre as árvores e parou a vinte metros da varanda. O motor morreu. A porta do condutor abriu-se devagar — um sinal deliberado, Lucas reconheceu, de alguém que sabia que estava a ser observado e queria deixar claro que não era uma ameaça. Do interior saiu um homem de cinquenta e tal anos, casaco cinzento, calças de ganga escura e uma postura que traía décadas de serviço militar mesmo debaixo de roupa civil.
Henrique Bastos.
Lucas bebeu outro gole de café.
— Devia ter mudado de morada — disse, sem elevar a voz. O som transportou-se pela manhã fria com perfeição.
Henrique subiu os dois degraus da varanda com uma ligeireza que desafiava a sua idade e sentou-se na cadeira vazia do lado oposto sem esperar convite. Tirou do bolso interior do casaco uma embalagem de pastilhas elásticas, ofereceu uma a Lucas com um gesto que sabia antecipadamente que seria recusado, e guardou a embalagem.
— Bom dia para ti também, Ghost.
— Não uso esse nome.
— Toda a gente que importa usa.
Lucas pousou a chávena na beira da varanda com um movimento controlado. Olhou para Henrique pela primeira vez desde que ele saíra do carro — olhos cinzentos que mediam, pesavam e catalogavam sem pressa.
— Quanto tempo tens? — perguntou Lucas.
— Para convencer-te? — Henrique inclinou-se ligeiramente para a frente. — Espero que o suficiente. Mas conheço-te há quinze anos, por isso provavelmente não chega.
— Então poupa o esforço.
— Lucas. — A voz de Henrique mudou. Não dramaticamente, não com urgência fabricada, mas de uma forma que Lucas reconhecia — o tom de alguém que chegou porque não havia mais ninguém para mandar. — Há uma rapariga. Analista de software. Descobriu algo que vai fazer tremer pessoas com estrelas nos ombros e contas bancárias nas Ilhas Caimão. Pessoas que já mandaram matar por muito menos do que aquilo que ela tem nas mãos.
Lucas não respondeu.
— Ela tem vinte e nove anos — continuou Henrique, como se isso fosse um argumento. — Não tem treino. Não tem protocolo. Tem um disco rígido encriptado com informação suficiente para destruir meia dúzia de carreiras militares e uma lista de mercenários profissionais atrás dela que vão encontrá-la em menos de quarenta e oito horas se ninguém a mover para um sítio seguro.
— Liga para a PJ.
— A PJ tem infiltrados. A PSP também. O exército com certeza. — Henrique abriu as mãos numa expressão de impotência calculada. — O problema desta informação, Lucas, é precisamente que não há estrutura oficial que eu confie para a proteger. Não agora. Não até sabermos a extensão da rede.
— E por isso vieste ter com um homem que vive sozinho numa floresta há cinco anos.
— Vim ter com o melhor operacional que já vi trabalhar no terreno. — Henrique disse isto sem inflexão, como um facto meteorológico. — O que aconteceu contigo depois da Síria foi um desperdício. Uma pena enorme. Mas o que és continua cá dentro — bateu no próprio peito, uma vez — e isso não desaparece só porque escolhes ignorá-lo.
O silêncio entre os dois durou o tempo suficiente para um corvo pousar no telhado da cabana, observar a cena com indiferença filosófica e voltar a voar.
Lucas olhou para a chávena vazia. Olhou para a linha de árvores. Olhou para as suas próprias mãos — mãos que tinham feito coisas que não se contavam à lareira mas que também tinham segurado companheiros feridos no chão de ravinas desertas enquanto o rádio crepitava em silêncio e os reforços não chegavam.
Nunca chegaram.
— Qual é o pacote? — disse ele finalmente.
Henrique não sorriu. Tinha demasiado respeito por Lucas para fingir que era uma vitória fácil.
— Proteção executiva de alto risco. Extração e manutenção em segurança até conseguirmos um canal limpo para expor os ficheiros. Duração estimada de uma a duas semanas. Trabalhas sozinho, condições e rota à tua discrição, suporte logístico da minha parte.
— Armamento?
— O que precisares.
— Comunicações?
— Encriptadas. Canal privado, só nós dois.
Lucas levantou-se da cadeira. Entrou para dentro da cabana sem dizer mais nada. Henrique ficou na varanda, imóvel, com a paciência de alguém que aprendeu há muito tempo que empurrar Lucas Vance não servia de nada — era preciso deixar o homem chegar às conclusões sozinho, no seu tempo, pelo seu caminho.
Dois minutos depois Lucas voltou. Trazia uma mochila tática preta já preparada — o que dizia tudo sobre o estado permanente de prontidão em que vivia — e a Remington desmontada numa bolsa comprida de transporte.
Parou diante de Henrique. Olhou-o nos olhos.
— Uma coisa — disse Lucas.
— Diz.
— Se isto for mais complicado do que me estás a contar, e eu sei que é, não me mintas sobre o que encontro no terreno. Dá-me a informação completa ou não me dás nenhuma. — Fez uma pausa de um segundo exato. — Não enterro mais ninguém por causa de informação incompleta.
Henrique assentiu uma vez. Devagar. Com o peso de alguém que percebe que aquela frase não é profissional — é pessoal, é antiga e é uma ferida que ainda não fechou.
— Prometido — disse ele.
Lucas passou por ele e desceu os degraus da varanda em direção ao Land Cruiser.
O silêncio da floresta fechou-se atrás deles como uma porta.
Continua no Capítulo 2: O Alvo de Alto Valor








