Capítulo 1: Nossa, Quem é Você?
Capítulo 1: Nossa, Quem é Você?
O pátio do Colégio Aoyama fervia. Malas enfileiradas, uniformes impecáveis, risadas altas demais. Brian Roby parou perto do portão e ajustou a alça da mochila. O sol da manhã batia no letreiro da quadra; ele sorriu para um grupo de garotas que acenou.
— Brian! Aqui! — Hanji acenou, os óculos escorregando no nariz.
Brian caminhou até o banco onde Hanji, Sayuri e Touka dividiam uma garrafa de chá.
— Cheguei cedo? — Brian puxou o zíper da mochila, tirou um pacote de biscoitos. — Trouxe para a viagem. Minha mãe fez.
— Sua mãe é uma santa. — Sayuri pegou dois biscoitos. — A minha só me deu dinheiro e um sermão sobre não me perder.
— Isso é cuidado, não sermão. — Brian riu. — Se você sumir, ela me mata. Melhor eu te vigiar.
Sayuri revirou os olhos, mas sorriu.
Touka, encostada no banco, observava o movimento.
— Vocês já viram a lista de quartos? Vão separar meninos e meninas, óbvio, mas tem dupla. Eu juro que se cair com o Ishida, vou dormir na praia.
— Ishida é tranquilo. — Brian descascou a embalagem. — O ronco dele é que é uma arma biológica.
Hanji riu alto, derrubando chá no uniforme.
— Olha o que você fez! — Sayuri bateu no ombro de Hanji.
Brian ofereceu o lenço.
— Toma, antes que a mancha seque.
Enquanto Hanji se limpava, Brian deixou o olhar vagar pelo pátio. Não procurou ninguém. Apenas observou.
Do outro lado, perto da escadaria, Suzane Mihama segurava o celular com as duas mãos, os polegares dançando sobre a tela. O cabelo escuro caía sobre um ombro. Sasaki Kyoto estava ao lado, segurando a mochila dela e a dele. Ele falava com outro colega, gesticulando, tentando incluir Suzane na conversa. Ela não ergueu o rosto. Sasaki fez uma piada. Os garotos ao redor riram. Suzane deslizou o dedo na tela.
Brian desviou o olhar para um ponto neutro: o portão, a calçada, o ônibus que manobrava.
— Ei, Brian. — Touka estalou os dedos na frente dele. — Acordou?
— Estava pensando se o motorista vai deixar a gente parar para comprar água.
— Você já trouxe biscoito e ainda quer água? — Sayuri mordeu outro biscoito.
— Hidratação é importante.
A conversa seguiu. Brian sorria, respondia, devolvia as provocações. Cada riso parecia encaixar.
O professor Yagami apitou.
— Todo mundo para o ônibus! Deixem as malas no bagageiro e subam em ordem. Nada de correria.
Os alunos se moveram em bloco. Brian pegou a alça da mala de Hanji sem que ele pedisse.
— Eu consigo... — Hanji tentou.
— Eu sei que consegue. Mas se você tropeçar na escada, atrasa todo mundo. E eu quero sentar na janela.
Hanji riu.
— Você é impossível.
— Dizem.
No caminho para o bagageiro, Brian passou a menos de dois metros de Suzane. Ela cheirava a morango e chiclete. Sasaki carregava as duas malas enquanto tentava convencê-la a tirar uma foto com o grupo.
— Depois, Kyoto. Agora não. — Suzane não tirou os olhos do celular.
— Tá bom, tá bom. — Sasaki sorriu, sem insistir. — Deixa eu guardar sua mala primeiro.
Brian seguiu em frente. Não olhou para trás.
Dentro do ônibus, o caos das mochilas e dos fones de ouvido. Brian sentou-se na janela, como dissera. Hanji ao lado, Sayuri e Touka no banco da frente, viradas para trás.
— Quanto tempo até as ilhas? — Touka chutou o encosto.
— Seis horas, se ninguém enjoar. — Brian abriu a mochila.
— Seis horas com vocês? Vou surtar.
— Você já surtou. — Hanji cutucou Touka com uma caneta.
Brian riu. Do banco da frente, Sayuri esticou o braço para pegar outro biscoito.
— Isso é um assalto? — Brian afastou o pacote.
— É um imposto por me obrigar a acordar cedo.
— Justo.
Ele entregou o pacote.
O ônibus sacolejou ao sair do portão. Brian ajeitou a testa contra o vidro. O reflexo mostrava o corredor: Suzane sentara três fileiras atrás, ao lado de duas garotas. Sasaki, no banco oposto, tentava puxar assunto com o grupo do fundo. Suzane teclava.
Brian fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, o reflexo tinha mudado: Suzane agora ria de algo no celular. O som chegava fraco, abafado pelo motor.
— Brian. — Hanji tocou seu braço. — Você joga cartas?
— Jogo.
— Então me ensina a vencer a Sayuri. Ela trapaceia.
— Eu não trapaceio! — Sayuri virou-se. — Tenho talento.
Brian sorriu.
— Primeiro, vamos definir o que é trapaça. Depois eu decido se ensino ou se entro no jogo.
Hanji bateu palmas. Sayuri fingiu indignação. Touka bufou.
O ônibus pegou a estrada. A cidade foi ficando para trás. Brian distribuiu as cartas sobre a mochila, os dedos ágeis, o tom de voz calmo. A cada rodada, alguém ria. A cada piada, ele devolvia outra. Parecia o centro daquele pequeno grupo, sem esforço.
Mas, entre uma jogada e outra, seus olhos se erguiam para o corredor. Não demoravam. Voltavam às cartas.
Suzane não percebeu.
Ninguém percebeu.
No fim da primeira hora, um colega do fundo gritou:
— Brian, você trouxe remédio para enjoo? O Kenji tá verde.
Brian levantou-se, pegou a mochila e caminhou até o banco do garoto. Abaixou-se, entregou o remédio, disse algo em voz baixa. Kenji riu, mesmo pálido.
— Nossa, quem é você? — uma garota ao lado murmurou, impressionada.
Brian apenas sorriu.
— Um cara prevenido.
Voltou ao banco. O ônibus avançou pela rodovia, deixando Tóquio para trás.


